A globalização, a antecâmara da guerra, as
ilusões de vivermos juntos em paz a deteriorarem-se perante os unilateralismos
soberanistas, a crise financeira como ameaça constante, toda a espécie de
impasses. A explosão da pulsão de morte — não somos capazes de lidar com isso.
Não me refiro apenas ao terrorismo, mas também à ciência: há frequentemente uma
espécie de desprezo, de desdém nesse trans-humanismo de Silicon Valley.
Portanto, o pessimismo opera como resposta. Mas, ao mesmo tempo, estamos num
período aberto à memória; pode-se viver numa gruta pré-histórica e pensar nos
exoplanetas. Pode-se tocar Mozart e apreciar uma instalação contemporânea. Há
esta abertura de possibilidades que exige o investimento na capacidade de
pensar, de conhecer e de aprender com esta nova geração que, por vezes, está
demasiado acantonada na internet. É preciso atacar isso, e que eles respondam,
para desenvolver a capacidade de pensar. Ajudar a juventude com as experiências
do mundo dos adultos a desenvolver o sentido de aposta, de otimismo — de certa
forma, como a aposta de Pascal [segundo a qual há mais a ganhar com a suposição
da existência de Deus do que com o ateísmo] —, mesmo sabendo que há muitas
razões para sermos pessimistas. Uma aposta exige energia e é preciso acordar
essa energia para fazer as perguntas certas.
Julia Kristeva
Julia Kristeva