A conspiração contra a América é um dos mais deliciosos
romances de Philip Roth. Num exercício de história contrafactual, o autor
escreve sobre como seria o mundo se nas eleições presidenciais de 1940 o
aviador e herói norte-americano Charles Lindbergh tivesse concorrido
contra Franklin D. Roosevelt e ganho, tornando-se Presidente dos EUA. Conhecido
pela oposição à entrada do seu país na Segunda Guerra Mundial e até por ter
alguma simpatia pela Alemanha nazi, Lindbergh faz a paz com Adolf Hitler,
abrindo assim caminho para a hegemonia internacional alemã. A vida do
protagonista, o jovem Philip, e da sua família judia nunca mais foi a mesma. E
o mundo também não.
Com as devidas diferenças, nas eleições presidenciais do próximo dia 3 de novembro vamos ficar a saber se um certo mundo acabou de vez, ou se, como muitos aspiram, é possível regressar ao passado, ou se, ganhe quem ganhar, tudo já tinha começado a acabar muito antes. O debate televisivo entre Donald Trump e Joe Biden pode trazer-nos as primeiras respostas numa campanha que está muito renhida.
Comecemos pelo que não muda. Se é que alguma vez existiu
verdadeiramente, a ordem internacional liberal só foi possível durante o curto
período de vida da unipolaridade, entre o fim da Guerra Fria e a década de
2010, anos em que a potência unipolar – os Estados Unidos – era liberal. Quando
acabou a unipolaridade norte-americana chegou ao fim a ordem internacional
liberal. Trump foi uma consequência tardia disso e não a sua causa. Por mais
sonhos kantianos que possa ter Biden (e talvez não tenha), se vencer as
eleições tem de se conformar com esta realidade da estrutura de distribuição de
poder internacional. Ainda para mais quando as outras grandes potências – China
e Rússia – são iliberais.
Também não muda a perda de relevância da Europa para os EUA.
Ela começou em 1989, com a queda do muro de Berlim, que “caiu para os dois
lados”. O fim da dupla ameaça da URSS e do comunismo levou ao termo da longa
orientação estratégica “A Europa Primeiro”, definida por Roosevelt em 1941,
tendo mesmo chegado a escrever-se na altura que “se a NATO não existisse já, a
América não tinha interesse em criá-la”. A ascensão da Ásia, em geral, e da
China, em particular, fez o resto, deslocando o centro de gravidade das
relações internacionais do espaço euro-atlântico para o asiático, movimento
tectónico acompanhado pelos Estados Unidos.
Decorre do ponto anterior a terceira persistência. Ganhe quem
ganhar, o rebalanceamento para a Ásia vai continuar e a contenção da ascensão
da China permanecerá de longe a grande prioridade dos EUA. Donald Trump e Joe Biden concorrem
para ver quem é mais anti-chinês, quem fala mais grosso a Xi Jinping, o que, de
resto, tem cada vez mais tradução nas respetivas bases de apoio e entre a
população norte-americana em geral. A guerra sem exércitos (pelo menos para já)
entre Washington e Pequim veio para ficar nas próximas décadas.
A noção destas continuidades estruturais, muitas vezes
esquecidas, não pode levar-nos a subestimar o que está em jogo a 3 de novembro.
Em vários domínios, esse dia pode mudar mesmo as nossas vidas.
O primeiro domínio é do quadro intelectual da política externa
norte-americana. Aqui, Trump representa uma rutura com a tradição do país desde
1945 e Biden uma continuidade. O primeiro é antimultilateralista, nacionalista,
protecionista, desconfiado das organizações internacionais e defensor das
“coligações de vontade” em detrimento das “alianças permanentes”. O segundo
é multilateralista,
internacionalista, defensor do comércio livre, das organizações internacionais
e das “alianças permanentes”, sendo estas últimas, que pretende reforçar, mesmo
uma das traves mestras da sua orientação estratégica.
O segundo é moral, ou normativo. Para Donald Trump a política
internacional (como a vida em geral) consiste em relações de puro poder, sendo
este um fim em si mesmo e medido exclusivamente pela capacidade militar dos
países, pelo que as relações privilegiadas dos Estados Unidos têm de ser com as
outras principais potências e não com quem partilha os mesmos valores da
América. Joe Biden inscreve-se na linha dos defensores de uma legitimidade
especial das democracias liberais nas relações internacionais, preferindo por
isso os vínculos com os aliados democráticos, falando mesmo de uma espécie de
união das democracias.
Na Europa, para lá da retórica, as diferenças são
quantitativamente menores do que se possa pensar, mas significam uma enorme
mudança. Na atitude relativamente à União Europeia, que Trump, desvalorizando a
importância da dimensão geopolítica, vê sobretudo como uma adversária comercial,
logo é para dividir e enfraquecer, enquanto Biden considera-a uma das mais
importantes aliadas do mundo. Em parte por isto, o primeiro apoia o Brexit,
parecendo ter preferência que ele se faça sem acordo, já o segundo avisou que,
ou Londres se entende com a UE, ou não há acordo comercial EUA-Reino Unido.
Quanto à NATO, a questão coloca-se sobretudo ao nível da confiança do
compromisso de Washington com o artigo 5º, o que não é pouca coisa.
Depois vem a relação com a Rússia. A política externa dos
Estados Unidos aqui será muito diferente caso ganhe Donald Trump ou Joe Biden.
O primeiro, vê a ascensão da China como a grande ameaça aos EUA e quer
aproximar-se da Rússia para partir a “quase aliança” sino-russa. O segundo, vê
Pequim e Moscovo como duas grandes ameaças e tem defendido uma política
agressiva em relação a ambas. Do ponto de vista estrito do interesse nacional,
Trump está mais certo do que Biden. Numa balança tripolar América-China-Rússia,
os norte-americanos têm de estar mais próximos dos russos do que os chineses. É
um clássico das relações internacionais: a forma de travar a potência em
ascensão é partir as suas alianças, fazendo, em paralelo, contra-alianças.
Quanto ao Médio Oriente os candidatos nem parecem viver no
mesmo planeta. Desde logo, no que diz respeito ao Irão. Para Donald Trump este
é o grande desestabilizador regional e tem de ser travado por via de uma
estratégia de confrontação, só aceitando voltar ao acordo nuclear depois de
sinais concretos de moderação de Teerão (e em termos muito diferentes do
acordado em 2015). Joe Biden quer voltar ao JCPOA, o que, embora não seja dito
de forma clara, tem de ser entendido no quadro de uma linha de apaziguamento do
Irão. Depois há a Arábia Saudita, com o atual presidente a ser um dos mais pró-sauditas
desde a fundação do Reino e o candidato democrata um dos mais anti-sauditas.
Para o primeiro, Riade é, juntamente com Israel, a aliada predileta. Para o
segundo, ela quase parece a adversária.
Finalmente, para referir apenas alguns domínios fundamentais,
temos os grandes acordos multilaterais, seja no campo económico, seja
ambiental, seja geopolítico. Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris,
da Parceria Transpacífico (TPP), da Parceria Transatlântica de Comércio e
Investimento (TTIP) e do já referido acordo nuclear iraniano (para não falar da
revisão do NAFTA, da saída de agências da ONU, como a OMS, etc). Biden promete
voltar a todos, mesmo que alguns com diferenças em relação ao passado.
São, de facto, dois mundos muito diferentes, mesmo que não
tanto quanto os de Lindbergh e de Roosevelt. Cabe agora aos
norte-americanos escolher em qual preferem viver.
Tiago Moreira de Sá, Público, 29 de setembro de 2020

