terça-feira, 29 de setembro de 2020

Trump vs. Biden: o combate que pode mudar o mundo


 

A conspiração contra a América é um dos mais deliciosos romances de Philip Roth. Num exercício de história contrafactual, o autor escreve sobre como seria o mundo se nas eleições presidenciais de 1940 o aviador e herói norte-americano Charles Lindbergh tivesse concorrido contra Franklin D. Roosevelt e ganho, tornando-se Presidente dos EUA. Conhecido pela oposição à entrada do seu país na Segunda Guerra Mundial e até por ter alguma simpatia pela Alemanha nazi, Lindbergh faz a paz com Adolf Hitler, abrindo assim caminho para a hegemonia internacional alemã. A vida do protagonista, o jovem Philip, e da sua família judia nunca mais foi a mesma. E o mundo também não.

 Com as devidas diferenças, nas eleições presidenciais do próximo dia 3 de novembro vamos ficar a saber se um certo mundo acabou de vez, ou se, como muitos aspiram, é possível regressar ao passado, ou se, ganhe quem ganhar, tudo já tinha começado a acabar muito antes. O debate televisivo entre Donald Trump e Joe Biden pode trazer-nos as primeiras respostas numa campanha que está muito renhida.

Comecemos pelo que não muda. Se é que alguma vez existiu verdadeiramente, a ordem internacional liberal só foi possível durante o curto período de vida da unipolaridade, entre o fim da Guerra Fria e a década de 2010, anos em que a potência unipolar – os Estados Unidos – era liberal. Quando acabou a unipolaridade norte-americana chegou ao fim a ordem internacional liberal. Trump foi uma consequência tardia disso e não a sua causa. Por mais sonhos kantianos que possa ter Biden (e talvez não tenha), se vencer as eleições tem de se conformar com esta realidade da estrutura de distribuição de poder internacional. Ainda para mais quando as outras grandes potências – China e Rússia – são iliberais.

Também não muda a perda de relevância da Europa para os EUA. Ela começou em 1989, com a queda do muro de Berlim, que “caiu para os dois lados”. O fim da dupla ameaça da URSS e do comunismo levou ao termo da longa orientação estratégica “A Europa Primeiro”, definida por Roosevelt em 1941, tendo mesmo chegado a escrever-se na altura que “se a NATO não existisse já, a América não tinha interesse em criá-la”. A ascensão da Ásia, em geral, e da China, em particular, fez o resto, deslocando o centro de gravidade das relações internacionais do espaço euro-atlântico para o asiático, movimento tectónico acompanhado pelos Estados Unidos.

Decorre do ponto anterior a terceira persistência. Ganhe quem ganhar, o rebalanceamento para a Ásia vai continuar e a contenção da ascensão da China permanecerá de longe a grande prioridade dos EUA. Donald Trump e Joe Biden concorrem para ver quem é mais anti-chinês, quem fala mais grosso a Xi Jinping, o que, de resto, tem cada vez mais tradução nas respetivas bases de apoio e entre a população norte-americana em geral. A guerra sem exércitos (pelo menos para já) entre Washington e Pequim veio para ficar nas próximas décadas.

A noção destas continuidades estruturais, muitas vezes esquecidas, não pode levar-nos a subestimar o que está em jogo a 3 de novembro. Em vários domínios, esse dia pode mudar mesmo as nossas vidas. 

O primeiro domínio é do quadro intelectual da política externa norte-americana. Aqui, Trump representa uma rutura com a tradição do país desde 1945 e Biden uma continuidade. O primeiro é antimultilateralista, nacionalista, protecionista, desconfiado das organizações internacionais e defensor das “coligações de vontade” em detrimento das “alianças permanentes”. O segundo é multilateralista, internacionalista, defensor do comércio livre, das organizações internacionais e das “alianças permanentes”, sendo estas últimas, que pretende reforçar, mesmo uma das traves mestras da sua orientação estratégica.

O segundo é moral, ou normativo. Para Donald Trump a política internacional (como a vida em geral) consiste em relações de puro poder, sendo este um fim em si mesmo e medido exclusivamente pela capacidade militar dos países, pelo que as relações privilegiadas dos Estados Unidos têm de ser com as outras principais potências e não com quem partilha os mesmos valores da América. Joe Biden inscreve-se na linha dos defensores de uma legitimidade especial das democracias liberais nas relações internacionais, preferindo por isso os vínculos com os aliados democráticos, falando mesmo de uma espécie de união das democracias.

Na Europa, para lá da retórica, as diferenças são quantitativamente menores do que se possa pensar, mas significam uma enorme mudança. Na atitude relativamente à União Europeia, que Trump, desvalorizando a importância da dimensão geopolítica, vê sobretudo como uma adversária comercial, logo é para dividir e enfraquecer, enquanto Biden considera-a uma das mais importantes aliadas do mundo. Em parte por isto, o primeiro apoia o Brexit, parecendo ter preferência que ele se faça sem acordo, já o segundo avisou que, ou Londres se entende com a UE, ou não há acordo comercial EUA-Reino Unido. Quanto à NATO, a questão coloca-se sobretudo ao nível da confiança do compromisso de Washington com o artigo 5º, o que não é pouca coisa.

Depois vem a relação com a Rússia. A política externa dos Estados Unidos aqui será muito diferente caso ganhe Donald Trump ou Joe Biden. O primeiro, vê a ascensão da China como a grande ameaça aos EUA e quer aproximar-se da Rússia para partir a “quase aliança” sino-russa. O segundo, vê Pequim e Moscovo como duas grandes ameaças e tem defendido uma política agressiva em relação a ambas. Do ponto de vista estrito do interesse nacional, Trump está mais certo do que Biden. Numa balança tripolar América-China-Rússia, os norte-americanos têm de estar mais próximos dos russos do que os chineses. É um clássico das relações internacionais: a forma de travar a potência em ascensão é partir as suas alianças, fazendo, em paralelo, contra-alianças.

Quanto ao Médio Oriente os candidatos nem parecem viver no mesmo planeta. Desde logo, no que diz respeito ao Irão. Para Donald Trump este é o grande desestabilizador regional e tem de ser travado por via de uma estratégia de confrontação, só aceitando voltar ao acordo nuclear depois de sinais concretos de moderação de Teerão (e em termos muito diferentes do acordado em 2015). Joe Biden quer voltar ao JCPOA, o que, embora não seja dito de forma clara, tem de ser entendido no quadro de uma linha de apaziguamento do Irão. Depois há a Arábia Saudita, com o atual presidente a ser um dos mais pró-sauditas desde a fundação do Reino e o candidato democrata um dos mais anti-sauditas. Para o primeiro, Riade é, juntamente com Israel, a aliada predileta. Para o segundo, ela quase parece a adversária.

Finalmente, para referir apenas alguns domínios fundamentais, temos os grandes acordos multilaterais, seja no campo económico, seja ambiental, seja geopolítico. Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, da Parceria Transpacífico (TPP), da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e do já referido acordo nuclear iraniano (para não falar da revisão do NAFTA, da saída de agências da ONU, como a OMS, etc). Biden promete voltar a todos, mesmo que alguns com diferenças em relação ao passado.

São, de facto, dois mundos muito diferentes, mesmo que não tanto quanto os de Lindbergh e de Roosevelt. Cabe agora aos norte-americanos escolher em qual preferem viver.

Tiago Moreira de Sá, Público, 29 de setembro de 2020

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Obrigado aos jovens


Há quase 15 dias fiz, no Eixo do Mal, uma pergunta que sabia brutal. Avisei previamente que o seria. De tal forma que me custa verbalizar a resposta: “é justo sacrificar o futuro de uma geração para termos mais anos de vida noutra?” A pergunta parece tratar como descartáveis as vidas dos mais velhos. Quem me lê aqui sabe que estou a léguas desse tipo de raciocínio. Esse é, aliás, um dos meus maiores choques culturais com o pragmatismo demolidor do norte da Europa. Mas se a pergunta tem, como têm todas as que lidam com a vida e com a morte para lá da comoção, qualquer coisa de insensível, não a fazer não terá menos.

O que discuto é se estamos disponíveis para fazer o que sempre fizemos e permitiu a sobrevivência da espécie: os sacrifícios indispensáveis para a preservação e superação das nossas capacidades pelas gerações que nos seguem. Só um egoísmo e suicida para a espécie nos poderia levar a abandonar esta quase instintiva pulsão. Felizmente, o desenvolvimento permitiu que esse esforço não se fizesse de forma cruel. Mas ele não se extinguiu.

Sempre que se fala de tudo o que temos exigido a crianças, adolescentes e jovens a apaziguadora convicção que observo é que eles têm, ao contrário de nós, uma vida toda para recuperar o tempo perdido. É exatamente ao contrário. Nunca se recupera do que se perde na infância e na fase mais estruturante daquilo que depois seremos. Ao contrário do que acontece na vida adulta, onde o tempo é só tempo. O que eles estão a perder, e será tão trágico quanto mais novos forem e mais tempo durar, é o momento certo para aprender. É o ritmo certo para crescer. São os amores que não terão, a aprendizagem afetiva e sexual que se adia, a socialização indispensável para se formarem como seres humanos que se atenua. Tantas e tantas coisas que acontecem tão depressa que um ano deles é a uma década na minha idade. Eles perdem grande parte do que nos permitiu ser quem somos. O que quer dizer que perdem o que nós já temos.

Vamos assumir o que nos custa dizer-lhes: o risco que eles correm nesta pandemia é baixíssimo. Até aos 29 anos a taxa de letalidade, em Portugal, não anda longe dos 0%. Cerca de 2% dos infetados na casa dos 60 acabam por morrer e esse número salta para os 17% acima dos 80 anos. Havendo riscos, eles são incomensuravelmente inferiores para as crianças e adolescentes do que para os mais velhos. O que quer dizer que lhes pedimos o sacrifício máximo (eles estão a perder mais do que nós) para fazer face a um risco mínimo (eles correm menos perigo do que nós). Esse pedido faz-se, e bem, em nome da solidariedade geracional. E é aqui que cito um texto do psicólogo e catedrático Leonel Garcia-Marques, que me levou a escrever este artigo. Não vale a pena fazer-vos qualquer resumo. É um texto curto e acessível. Devem ler. Escolho esta passagem:

“Devemos, mais do que tudo, sentirmo-nos gratos pela disponibilidade manifestada pela grande maioria dos jovens para nos proteger, colocando a sua disponibilidade em destaque, em paralelo com a dos outros heróis da pandemia, os profissionais de saúde e todos os outros trabalhadores que impedem que a sociedade entre em colapso. (...) Se o desconfinamento mais lento acarreta riscos especiais para os jovens (e para a sociedade futura) no que concerne a ultrapassagem bem-sucedida das tarefas de desenvolvimento, nós, os menos jovens, estamos também numa situação de risco moral por, aparentemente, estarmos dispostos a expor os jovens (e futura sociedade de que farão parte) a esses riscos, sem a mínima hesitação.”

O dever moral que temos é, antes de tudo, o de não lhes mentir, levando-os a acreditar que fazem este sacrifício por eles e não por nós. Seria desonesto e sinal de ingratidão. E só lhes podemos pedir o indispensável para garantir a segurança dos mais velhos, mostrando-nos disponíveis para corrermos alguns riscos em nome do seu futuro.

Uma sociedade que não se sacrifica pelos velhos é falha de empatia. Uma sociedade que não se sacrifica pelos novos está condenada. Isto não tem dois lados da barricada e não há nada tão inútil e repetitivamente e passageiro como guerras de gerações. Desde que não nos esqueçamos de uma coisa: é por nós, não por eles, que lhes pedimos sacrifícios. Temos de lhes agradecer e dar o nosso melhor para os compensar pelo esforço.

Daniel Oliveira, Expresso, 22 de setembro de 2020