domingo, 17 de novembro de 2019

As perguntar certas

A globalização, a antecâmara da guerra, as ilusões de vivermos juntos em paz a deteriorarem-se perante os unilateralismos soberanistas, a crise financeira como ameaça constante, toda a espécie de impasses. A explosão da pulsão de morte — não somos capazes de lidar com isso. Não me refiro apenas ao terrorismo, mas também à ciência: há frequentemente uma espécie de desprezo, de desdém nesse trans-humanismo de Silicon Valley. Portanto, o pessimismo opera como resposta. Mas, ao mesmo tempo, estamos num período aberto à memória; pode-se viver numa gruta pré-histórica e pensar nos exoplanetas. Pode-se tocar Mozart e apreciar uma instalação contemporânea. Há esta abertura de possibilidades que exige o investimento na capacidade de pensar, de conhecer e de aprender com esta nova geração que, por vezes, está demasiado acantonada na internet. É preciso atacar isso, e que eles respondam, para desenvolver a capacidade de pensar. Ajudar a juventude com as experiências do mundo dos adultos a desenvolver o sentido de aposta, de otimismo — de certa forma, como a aposta de Pascal [segundo a qual há mais a ganhar com a suposição da existência de Deus do que com o ateísmo] —, mesmo sabendo que há muitas razões para sermos pessimistas. Uma aposta exige energia e é preciso acordar essa energia para fazer as perguntas certas. 

Julia Kristeva

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