sexta-feira, 24 de junho de 2022

De comissão em comissão, até à decomposição

Nunca o Estado teve tantos funcionários como agora. Nunca teve tantas receitas fiscais como agora. Nunca o peso dos impostos no PIB foi tão alto como agora. Nunca teve tantos médicos e tão poucos doentes no SNS, pois cada vez há mais utentes a fugirem para o privado. Nunca teve tão poucos alunos para os professores que tem. Nunca teve tantos licenciados e tantos investigadores. Nunca teve tanto dinheiro europeu à disposição — tanto que nem consegue aplicá-lo. Nunca teve o privilégio de estar tão endividado e pagar juros tão baixos graças ao programa de compra de dívida do BCE. Nunca teve tantos turistas que nem consegue recebê-los. Nunca teve tantos abacates, olivais e amendoais superintensivos, ao ponto de estar na iminência de já não conseguir regá-los. Nunca atraiu tanto investimento estrangeiro para o imobiliário, graças aos golden visa e ao regime fiscal dos estrangeiros residentes — tanto que já não há trabalhadores para a construção civil.

Quem é que se importaria de governar um país assim?

Porém, embalado por esta história de sucesso para enganar tolinhos, o Governo de António Costa habituou-se à ideia de não ter que governar. Durante seis anos foi distribuindo esmolas aos pobres e fatias do Orçamento aos parceiros de esquerda com o único objectivo de se manter no poder mantendo tudo como estava. Foi atirando dinheiro para cima das crises e sacudindo o pó dos problemas para debaixo dos tapetes, com os olhos unicamente focados no próximo horizonte eleitoral. Nada do que era grave e importante o fez estremecer ou, menos ainda, mover: o Inverno demográfico, a desertificação, a seca climática mais alarmante de ano para ano, a ruptura iminente dos serviços de saúde, a bandalheira na educação, o laxismo e despesismo na Administração Pública, a ineficiência da justiça, a brutalidade fiscal, a emigração dos melhores e mais jovens quadros do país. Entreteve-se antes a fazer flores com as “causas fracturantes” tão caras ao BE, os animaizinhos do PAN ou os “avanços” do PCP. Estranhamente, porém, o resultado desses seis anos de governação à esquerda foi haver mais pobres, mais doentes sem médico e sem assistência de saúde ­digna, mais alunos sem professores, mais portugueses sem possibilidades de habitar nas cidades e uma classe média chulada até ao osso. Mas, como ele diz, e com razão, os portugueses gostaram ou não viram alternativa melhor: deram-lhe uma maioria absoluta, o que teve pelo menos a vantagem, julgámos nós, de o livrar das âncoras de arrasto.

O problema é que o método se entranhou no homem ao ponto de se ter tornado a sua forma de vida. António Costa é uma espécie de primeiro-ministro à hora ou ao dia: trabalha numa hora para sobreviver até à hora seguinte, trabalha durante o dia para enfrentar o “Jornal das 8”, hoje em Lisboa, amanhã em Bruxelas, em toda a parte e em lado nenhum, falando de tudo e tudo deixando pendente, saltando de assunto em assunto tão depressa e tão convictamente que cria a impressão de que tudo o que ficou para trás já ficou resolvido. Mas depois, subitamente, rebentam as crises e estoiram de podres os problemas, e Costa, o génio da conjuntura, fica aos papéis. Ele e a sua gente.

O caso da saúde é exemplar. Durante dois anos encheram-nos os ouvidos com elogios ao SNS, que tão boa conta tinha dado do recado durante a pandemia. Mas para debaixo do tapete empurraram-se coisas como os números chocantes do absentismo médico durante a pandemia, o facto de practicamente terem cessado todos os outros cuidados médicos no SNS não relacionados com covid ou de ter sido necessário chamar um homem das Forças Armadas para pôr de pé um plano nacional de vacinação eficaz. E, sabendo-se que uma vez terminada a emergência covid o SNS teria de retomar tudo o que tinha ficado por fazer, despejou-se dinheiro a rodos e pessoal sobre o sistema, mas sem planeamento, sem organização, sem força política para enfrentar os lobbies do sector, as suas manhas e batotas instaladas e de todos por demais sabidas. O que se passou nos feriados de Junho, com os médicos obstretas todos de fé­rias e as grávidas sem assistência nos hospitais do SNS, foi uma vergonha inimaginável, a que a incompetência larvar da ministra respondeu segundo o método Costa: um “plano de contingência” para a conjuntura de ruptura e uma comissão para estudar como é que ela deve gerir a pasta que supostamente anda a gerir há vários anos. E a mesma receita foi aplicada à crise nos aeroportos, que também ninguém podia prever, e aplicada à conjuntura de seca no país — essa prevista de ano para ano, mas soberbamente ignorada pela ministra da pasta.

E é assim que vamos indo. Temos um Governo com maioria absoluta e um PRR que tudo há-de resolver, mais a ajuda compreensiva do BCE. E temos, do outro lado, uma pacífica oposição, que veio para “acabar com o socialismo” mas sem pressa nenhuma de começar a fazê-lo ou, ao menos, de ter uma ideia que seja antes dos idos de Julho, onde o recém-eleito líder espera que o congresso do partido lhe forneça algumas pistas sobre o que fazer. As férias estão à porta e, embora os portugueses andem zangados, a pandemia e a Ucrânia ainda funcionam como desculpas. Portanto, é deixar andar e, se as crises rebentam, planos de contingência para cima delas; se tudo parece sem solução e se percebe que os problemas são mais fundos, comissão com eles. O círculo vicioso repete-se, sempre igual: problema-comissão-esquecimento-explosão. É assim com tudo: novo aeroporto de Lisboa, preparação para os incêndios, SIRESP, situação dos imigrantes asiáticos nas estufas do litoral alentejano, caminhada para o abismo da TAP, caos no sector ferroviá­rio, venda da Efacec, injecções de dinheiros públicos no Novo Banco. Nada se resolve, nada se fecha, nada avança. Tudo está em estudo, entregue a uma comissão, a aguardar um parecer, um decreto regulamentar, uma decisão de um tribunal arbitral ou a transposição de uma directiva comunitária. A única coisa que parece perturbar a sério António Costa é a adesão à UE dos três candidatos apadrinhados pela NATO: a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia. Mas não pelo facto de eles serem conhecidos por albergarem algumas das piores máfias do crime organizado (a que piedosamente agora se chamam “oligarcas”), mas sim porque eles podem rapar no “bolo” dos dinheiros europeus, e isso mexe directamente com os nossos interesses estratégicos.

De facto, aquilo a que pomposamente poderíamos chamar o “desígnio nacional” resume-se a duas coisas: continuar a receber eternamente ajudas da Europa e continuar a receber cada vez mais turistas estrangeiros, mesmo que depois demorem horas a conseguir sair dos aeroportos. Tudo o resto não existe, dá muito trabalho a resolver e é uma canseira só de pensar nisso. É que para isso seria preciso abandonar os estudos, os pareceres, as comissões, e começar a decidir. Mas decidir é, em si mesmo, um problema: gera contestação e resistências, cria inimigos, acarreta riscos, pode fazer perder votos — veja-se o caso de Macron em França: perdeu a maioria absoluta porque se atreveu a defender uma ténue subida da idade da reforma, que é a mais baixa do mundo, enquanto Le Pen e o demagogo sem freio Mélenchon ganharam milhões de votos a prometer descê-la ainda mais, para os 60 anos. No ponto em que as coisas estão, eu votaria num partido ou num candidato que me dissesse: “Portugal tem cinco ou seis problemas urgentes para resolver. Nos próximos quatro anos eu prometo resolver apenas dois. Mas esses vou resolver.” Depois viria alguém que resolveria mais dois e outro que resolveria outros dois: em 12 anos, teríamos resolvido os principais problemas do país. É muito tempo? É, mas pensem bem: só o problema do novo aeroporto de Lisboa está há 40 anos para ser resolvido.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 


sábado, 18 de junho de 2022

Falácias, erros e o dilema moral sobre a guerra na Ucrânia

 

Aquando da guerra do Vietname, identificava-se muito bem os EUA como o agressor, e ninguém esperava que os vietnamitas fizessem um acordo de paz deixando os EUA a ocupar parte do território.

Como já há muito poucas coisas que me surpreendem, assisto com mais pena do que furor, a como é possível numa democracia e em liberdade haver boa gente capaz de aceitar tanta falácia, tantas mentiras, tantos erros, e procurar pretextos para aquilo que é um pecado mortal, a acédia, a preguiça, a indiferença na sua pior forma, face ao sofrimento inútil, desnecessário, maléfico dos outros. Usei maléfico intencionalmente, porque, se há mal no mundo, é a violência da morte, da destruição, da fuga, da miséria provocada a quem já estava no limiar da pobreza, por uma invasão brutal, criminosa, sem razões, nem pretextos, da Ucrânia pela Federação Russa de Putin.

Medi todas as palavras: brutal, porque vai muito mais longe das eventuais necessidades militares, é punitiva na sua natureza, para os mais fracos. Criminosa, porque não respeita nem sequer um dos frágeis adquiridos civilizacionais, as leis da guerra. Os dois lados fazem o mesmo, mas, quer se queira quer não, a responsabilidade primeira é do invasor. Sem razões, nem pretextos, porque por muito que se possam acumular razões, e algumas há para a preocupação russa, a resposta é tão desproporcionada, que remete não para essas razões, mas para outras de natureza imperial. Nas democracias devem combater-se essas intenções imperiais de território e riqueza, como se fossem connosco.

Eu sei que escrever o que vou escrever é em grande parte inútil, mas mesmo assim tento, porque o faço para os “outros”, onde estão amigos e companheiros meus. Muitas dessas pessoas são genuinamente altruístas, são capazes de sacrifícios pelos outros, preocupam-se com a miséria e a pobreza, não vivem a sua vida num registo egoísta e individualista, têm os defeitos comuns de toda a gente, mas também tem virtudes menos comuns nos dias de hoje, de dedicação e solidariedade. Podemos criticar muitas das formas políticas que traduzem a sua vida e militância, como podemos criticar a incapacidade de muitos católicos em ultrapassar a caridade por uma consciência social, mas nem por isso deixam de ser, aquilo que uma classificação em desuso, chamava de “pessoas boas”.

Como é possível que não vejam o que se está a passar, porque, por muita manipulação (que há) e por muita espectacularização da dor para garantir audiências, eles sabem que há um enorme sofrimento injusto e injustificável na Ucrânia nestes dias e sabem o que o causa e quem o desencadeou e provocou. Sim, é verdade que na Palestina, no Iémen, em África há idêntico sofrimento, mas fazer amálgamas dissolve a consciência do mal. Deixaram-se prender numa espécie de identidade pelo inimigo, identidade pelo adversário, incapacidade em sair de um mundo político que se indigna com a NATO e acaba por ser indiferente com a Rússia de Putin. Ele há muito poucos defensores explícitos da invasão da Ucrânia, mas há muitos justificadores. É desse esforço de justificação que vou tratar, usando os argumentos do “outro lado”, antes de usar os meus.

As minhas fontes não são discussões nas redes sociais, nem tweets, nem comentários anónimos. São os documentos do PCP, os artigos do Avante! (que mesmo assim evita falar muito da Ucrânia, o que é interessante), os artigos do Abril, Abril, em particular os de José Goulão, os comentários de alguns militares nas televisões, com destaque para a SICN e CNN, e várias outras opiniões de defensores da interpretação essencialmente anti-NATO da guerra. O resultado dessa interpretação é uma equidistância retórica entre a responsabilidade russa e a da NATO e da Ucrânia, contrapondo uma vaga referência à “violação do direito internacional” pela Rússia, com páginas e páginas sobre a esmagadora culpabilidade dos “nazis” ucranianos, da NATO, dos EUA, das indústrias de armamento, da conspiração anticomunista e anti-russa.

Como se trata de adultos, parto do princípio de que eles sabem muito bem o que estão a apoiar, o que estão a defender, o que estão a esconder e onde querem chegar. Vejamos algumas questões:

Começou a “guerra” em 2014?

Sim e não. A “guerra”, se começou em 2014, começou pelo apoio russo à separação do Donbass e pela ocupação da Crimeia, em ambos os casos operações militares com ocupação e anexação do território. Esta é a guerra de 2014. O golpe da Praça Maidan - e repare-se que não coloquei golpe entre aspas -, não é uma guerra, nem serve de pretexto para a guerra actual nem para a de 2014. Os nacionalistas ucranianos, cujo nacionalismo é nos seus extremos protonazi (como aliás o nacionalismo russo, mas não como o nacionalismo francês, por exemplo), não invadiram a Rússia. Vamos chamar guerra à guerra, e guerra é muito mais do que uma “operação militar” (como afirmam os russos), é o que está realmente a acontecer nos dias de hoje.

Manifestar-se pela Paz, mas que “paz”?

Já se realizaram e vão-se realizar várias manifestações com o pretexto da paz. Nos cartazes diz-se “guerra e corrida aos armamentos, não!” Não sei muito bem como interpretar esta palavra de ordem, porque a “guerra” iniciou-se porque houve uma invasão militar de um país pela Rússia e a “corrida aos armamentos” é uma resposta inevitável a essa invasão, não a sua causa. Não deviam nomear a Rússia e dirigir para o invasor a sua condenação em nome da paz? Deve haver um acordo de paz? Sem dúvida, mas desde que esse acordo não implique o benefício do infractor, porque, se é assim, ele favorece a guerra e não a paz. Aquando da guerra do Vietname, identificava-se muito bem os EUA como o agressor, e ninguém esperava que os vietnamitas fizessem um acordo de paz deixando os EUA a ocupar parte do território.

Eu seria o primeiro na manifestação se a paz desejada passasse pela retirada do invasor, pelo pagamento de indemnizações pelas destruições causadas, pela libertação das populações prisioneiras contra a sua vontade na Rússia, pelo julgamento dos crimes de guerra por autoridades independentes, pelo respeito pela soberania ucraniana. E então sim, incluiria nesse acordo, uma considerável autonomia das minorias russófilas na Ucrânia, o seu direito à língua e à cultura, idêntico julgamento dos crimes de guerra ucranianos e a exigência da luta contra a corrupção, a democracia e a liberdade, uma eventual renúncia à entrada na NATO, desmilitarizando as zonas fronteiriças.

Qual foi o maior atentado contra a Paz (com letra grande) nestes dias de guerra?

Foi a ameaça de iniciar uma guerra nuclear feita por Putin e Lavrov, um acto sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. O “se”, em “se estiver em risco uma ameaça existencial para a Rússia”, torna ainda mais grave a afirmação, dita de viva voz (não é manipulação). Isto, sim, justificava enormes manifestações. Como não há tanques americanos às portas de Moscovo, nem mísseis convencionais lançados do Alasca, a interpretação do que é a “ameaça existencial”, ainda por cima num conflito num país terceiro, por parte de Putin, é mais que perigosa porque dá para tudo.

Continuaremos.´

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A lenta morte do SNS

 

A saúde não tem preço, mas tem custo. O custo é limitado, embora, teoricamente, o preço de salvar uma vida possa ser igual ao infinito. O SNS, que é o esteio do nosso Estado Social, bastantes furos acima das políticas de educação, habitação, emprego e outras, está a morrer mesmo defronte de nós. Infelizmente, não há quem o assuma e tome medidas para salvar um moribundo. Continua-se com aspirinas, ou, vá lá, ben-u-ron

Antes da ideologia assaltar o conceito de Serviço Nacional de Saúde – defendendo-o como apenas público e repleto de funcionários, e não como um sistema integrado e aberto, capaz de atender todos os portugueses - tudo funcionava melhor. De qualquer modo, já se sentiam as ameaças. Bastam estas duas, pelas quais não se pode responsabilizar ninguém: envelhecimento da população e custo crescente dos exames auxiliares de diagnóstico. No geral, e com o pequeno intermezzo de Paulo Macedo (que com um governo sem dinheiro, intervencionado pela troika, e com greves por tudo e por nada, fez mais pelo SNS do que a maioria), no geral o SNS era visto como algo que se resolvia atirando-lhe dinheiro para cima. Faltou a esses ministros e gestores aquela ideia de que a Saúde não tem preço; isto é, por muito dinheiro que lhe atiremos, jamais resolveremos os seus problemas.

Quando o dinheiro começou, de facto, a escassear, porque a realidade (o custo da Saúde) se fez sentir, a fuga foi total. E para a frente. No fundo, dizia-se, gastava-se muito porque se trabalhava pouco; ou porque os privados levavam milhões do SNS (como se 40% dos portugueses não tivessem acordos privados de Saúde que poupam o Serviço Nacional de Saúde). Houve também doutrinas intermédias, umas mais verdadeiras do que outras, como acorrer sem necessidade às urgências. Combateu-se tudo com meios e dinheiro (Centros de Saúde e USF modernos e bons), mas os males não deixaram de atormentar os serviços.

De falta de atendimento, ao atendimento sem nível (e claro que há de tudo) até ao ridículo de se convocar mulheres com mais de 60 anos para consultas de planeamento familiar, tudo se rendeu à ideia peregrina de que todos são iguais, como se as palavras dos velhos mestres fossem próprias de quem está ultrapassado – não há doenças, há doentes.

A pandemia pôs a nu o que era esperado: faltam médicos, enfermeiros, auxiliares, enfim qualquer pessoa que tenha a ver com Saúde. Muitos emigraram, muitos saltaram para o privado, onde as regras, mais do que os salários, parecem claras e iguais para todos.

Fizeram-se hospitais, fecharam-se outros que eram manifestamente obsoletos e pensámos que teríamos o problema resolvido. Era verdade, não fosse o caso de as profissões médicas e paramédicas deixarem de ser atrativas – e não apenas pelo salário, mas também pela confusão em que se tornaram. O fim das carreiras médicas; papéis, mais papéis, as consultas a conta-relógio (com tempos, conforme a especialidade), que não deixam um médico ter dúvidas, nem mais do que uns escassos minutos com um paciente. Tal como acontecera com os professores e outras profissões, os médicos foram sendo desautorizados pelo poder político e por si próprios, ao se assumirem, tantas vezes, como meros funcionários – precisamente o que o sistema queria.

Entretanto vão estourando, aqui e ali, os problemas. Prometem-se, como segunda-feira fez a ministra, planos integrados e por integrar, mas além de ninguém acreditar, a realidade desmente imediatamente qualquer plano. No dia seguinte, lá estavam urgências fechadas, as filas de espera a aumentar, e o SNS a parecer daqueles edifícios que se desmoronam.

Não me perguntem o que fazer. Eu continuo a confiar nos médicos e no SNS. No que não confio é na sua gestão caótica. Talvez possam arranjar um ministro, uns administradores regionais de Saúde, uns diretores de hospitais que pretendam resolver os problemas, sabendo que a ideologia e este modelo de gestão não fazem parte dos ingredientes. Talvez se todos os recursos, públicos, privados, sociais, funcionassem em rede, e não cada qual para o seu lado, se conseguisse começar a consertar alguma coisa. Talvez se permitissem que um médico fosse soberano nas suas consultas e especialidades, e as inspeções se fizessem quando há suspeitas e não impondo regras à partida que sufocam os clínicos. Talvez se todos tivessem a ideia de que o dinheiro é escasso e houvesse recompensas e punições para o modo como se utiliza.

Não sei resolver o problema. Mas sei de muito bons médicos, técnicos e gestores de saúde que, tenho a certeza, o começariam a resolver.

Henrique Monteiro, Expresso, 15 de maio de 2022


sexta-feira, 10 de junho de 2022

Salve-se quem puder, ou a solução arca de Noé

 

A cultura do individualismo, alimentada por um mito salvífico que estabelece uma hierarquia em que somos todos marcados como desiguais, legitima Donald Trump como a sua voz

Deve-se levar a sério o bufão? O senso comum pode sugerir que não, afinal a pose do sujeito estriba-se na sua desqualificação para desempenhar funções de autoridade. No entanto, a história adivinha precisamente o contrário, que a perigosidade de tal tipo de figura também decorre dessa sua incongruência e que não são raros os exemplos de triunfo. Este ensaio procura dissecar a raiz de um desses casos de sucesso, apontando a continuidade entre a vaga yuppie dos anos 80 e alguma da contemporânea efervescência autoritária no país mais poderoso do mundo. Para tanto, anoto o percurso de quem se tornou a referência da primeira geração yuppie, nem menos do que Donald Trump, que décadas depois da sua afirmação como “rei do brilho” chegou a Presidente dos Estados Unidos da América e que dentro de dois anos pode voltar a ser o mais forte candidato para ocupar o cargo ou ser substituído por alguém que o imite competentemente. No mundo que se arrisca a estar dividido em duas esferas de influência depois da tragédia da invasão da Ucrânia, uma Casa Branca ‘retrumpizada’ não é uma ameaça desprezível, a acrescentar à imprevisibilidade dos atuais tambores de guerra.

A surpresa da vitória inicial de Trump e, malgrado o seu desempenho frívolo, da possibilidade do seu regresso, terá uma explicação, além da torrente emocional que a política populista pode eventualmente desencadear. Nas linhas seguintes, sugiro que o fundamento essencial dessa permanência surpreendente é uma cultura que o legitima como a sua voz. Essa cultura é o individualismo, alimentado por um mito salvífico que estabelece uma hierarquia em que somos todos marcados como desiguais, por ferrete de um desígnio natural. A base de tal cultura é a história de Noé e constitui uma forma de autoritarismo, cuja extraordinária persistência deve ser discutida.

O MITO FUNDADOR DO INDIVIDUALISMO

De onde vimos? As respostas simples, nas origens da nossa civilização, são lendas referenciais que sugerem um passado mágico povoado por gigantes e por deuses. Apesar desse curioso escapismo, o encantamento com estas narrativas tem desempenhado uma função construtiva, dado que as mitologias balizam uma cultura e dão-lhe nomes e figuras, contando desse modo uma história do presente. Essa é a sua força organizadora, se bem que a diversidade dos seus usos polvilhe uma ambiguidade enevoada. Entre todos, o mais impressionante uso desses mitos é a presunção de que algumas pessoas carregam em si um toque divinal, o que faria de cada uma delas o centro do universo. Essa cultura individualista, que tem resistido a ciclos de perda de credibilidade, é de facto uma arrogância, pois contradiz a nossa experiência pessoal de vida numa sociedade ampla, mas cria ainda assim um discurso poderoso, sobretudo por apresentar uma noção de ordem, mesmo que sob a forma bizarra de uma hierarquia em que um chefe conduz a família e o seu séquito enquanto tudo o resto é engolido pela morte. Tal paradoxo existencial foi descrito pelo mito da Arca de Noé, que anunciou que a salvação da comunidade depende do mérito individual que alcance o favor celestial.

Explorando esse mito, argumentarei que o fulgurante renascimento da ideia redentora de Noé é o discurso cultural dominante dos nossos dias, apresentando o progresso da sociedade como a competição pelo acesso ao topo da grande epopeia da seleção, pela força própria ou pela imposição de uma vontade transcendente. Trata-se do regresso de uma velha relíquia, agora polida pela necessidade de dar um sentido à hegemonia presente, mesmo que repetindo o passado: a cultura individualista de hoje é um remake da dos yuppies da década de 80, quando foram a cara feliz da globalização, embora lhe acrescente o tremendismo de um destino e de um guia. À medida do nosso cantinho à beira-mar plantado, foram quem deu corpo ao avanço dos jovens da Aliança Democrática de Cavaco Silva, mobilizando os que, depois da austeridade negociada com o FMI em 1977 e 1983, sonhavam com o maná das privatizações e com a riqueza ao virar da esquina. A sua vitória impôs um novo ciclo político de dez anos. O tropel que agora se ouve, de empreendedores, de consultores, de corretores, de golden boys, de diligentes funcionários das agências financeiras, dos topa-tudo no imobiliário, dos influencers nas redes sociais, de jogadores vários, toda essa movida individualista é a recapitulação entre nós do cavaquismo e, não por acaso, partilha algo do seu mandonismo, se bem que hoje tenha vários protagonistas concorrendo entre si.

TODA A MALDADE DO MUNDO

Conta-nos o Génesis que, incomodado com a irremediável perfídia dos humanos (“O Senhor viu que a maldade dos homens crescia cada vez mais no mundo e que as suas intenções e planos eram sempre maus”, Gn 6,5), Deus decidiu “fazê-los desaparecer da face da terra”, castigando a corrupção dos “caminhos errados” e a violência, mas poupou Noé, um venerável ancião com 600 anos, e a sua família (os três filhos já tinham 100 anos, das noras nada se sabe), a quem garantiu um “pacto de aliança” (Gn 6,17 e GN 9,9). A exceção não é justificada em detalhe, embora o Antigo Testamento nos diga que ele era “a única pessoa justa e honesta” e que, obediente, “cumpria sempre a vontade de Deus”.

Noé construiu uma arca com 150 metros de comprimento, 25 de largura e 15 de altura, com três pisos e espaço para sete pares de todos os animais puros (alguns sacrificados quando desembarcaram) e um par de cada espécie impura. Com ela navegou quase um ano e, terminado o dilúvio, aportou ao monte Ararat. A partir daqui, a história, que se inspira em lendas da Mesopotâmia que a antecedem em 1000 anos, é ainda mais surpreendente: Noé teria sido o primeiro agricultor a cultivar uma vinha, embebedou-se, despiu-se na sua tenda e, quando foi acudido pelos filhos, que dele tiveram vergonha, ter-se-ia zangado e condenado à escravidão um dos seus netos, Canaã. Não era um grande começo para “todos os povos do mundo” (Gn 10,12) e Noé, tendo vivido ainda outros 350 anos, não aproveitou o tempo para corrigir a sentença. Apesar disso, cá estamos, herdeiros desta fábula aventurosa, embora não constando que libertados da corrupção, da guerra ou das maldades do mundo. A salvação não nos poupou a esses vícios, mas Deus teria prometido não voltar a destruir a Humanidade, apesar da permanência congénita das nossas más disposições (“Não voltarei mais a amaldiçoar a terra, por causa dos seres humanos. É certo que eles têm más inclinações desde a infância. Mas não voltarei mais a castigar todos os seres vivos como fiz desta vez”, Gn 8,21).

Ora, como terá sido fabricado o milagre que nos albergou do dilúvio? A questão é a de sempre, reconhecer o que teria determinado o resgate: Noé ergueu-se à exceção por ser excecional, pelo seu mérito próprio, ou foi escolhido por Deus, que lhe ofereceu uma aliança, para ser o seu instrumento no comando da comunidade, como poderia ter sido outro? Em qualquer caso, foi assim que Noé pastoreou a família e a levou ao seu destino, a humanidade futura. Se foi o resultado de um êxito pessoal, o prémio pela pureza original do homem, que aliás se viria a comportar estranhamente depois desse seu triunfo, ao que nos conta o livro, ou, em contrapartida, se foi o efeito do imperativo da sobrevivência perante a ameaça apocalíptica, será de menos. Esta história é simplesmente uma lei de domínio na tribo. Noé, o salvador salvado, designou-se ou foi designado para receber o toque divino e foi quem escolheu os sobreviventes. Uma família entre todas e depois da destruição das outras.

OS ANOS YUPPIE

John Lennon foi assassinado em 1980, à porta de sua casa, e a sua morte marcou simbolicamente o fim de uma era de rebeldias utópicas. Ele tinha 40 anos e cantara o ‘Imagine’, “Podes dizer que sou um sonhador/ Mas não sou o único/ Espero que algum dia te juntes a nós/ E o mundo será como um só”, e, celebrado, foi entretanto esquecido. Naquela nova década era o individualismo, prometendo o contrário, que parecia ter a sintonia do mundo.

Pouco tempo passou e a revista “Newsweek” decretou que 1984 era “o ano do yuppie”. O “The New York Times” seguiu-lhe os passos. “Chegaram os jovens profissionais urbanos, que fazem imenso dinheiro, o esbanjam à vontade e mudam de candidatos como quem testa cozinhas”, escrevia-se na revista. Yuppie era uma corruptela de yippie, acrescentando a designação de “urbano” ao nome autoatribuído da geração anterior de rebeldes contra a guerra do Vietname e contra a modorra da vida dos seus pais. A passagem de um termo para outro não era uma fabricação da imprensa, era um movimento que anunciava o arquétipo do novo rico. Jerry Rubin deu o exemplo. Ele fora um dos ícones desse anterior movimento yippie, arauto da contracultura e organizador dos protestos em frente à Convenção Democrata em Chicago (1968) e da marcha sobre Washington (1969), o homem que tinha deposto no seu julgamento (os “sete de Chicago”) mascarado de polícia ou perante uma comissão da Câmara de Representantes vestido uma vez de vietcongue e outra de Pai Natal. Nos anos seguintes, comprou ações da Apple, tornou-se multimilionário, aderiu sem remorso ao inimigo da véspera e, convertido, entregou-se ao circuito de conferências sobre como enriquecer. Seguindo o exemplo de Rubin, os yuppies festejaram o hedonismo, o consumismo era a sua linguagem, vestiam Ralph Lauren, viviam em penthouses, bebiam água Perrier, conduziam automóveis alemães, as horas eram Rollex.

Foi um período glorioso na política internacional, os conflitos eram longe das fronteiras norte-americanas, eram no Afeganistão com a ocupação soviética em 1979, na América Latina com o fim das ditaduras, no Líbano em 1982 e, o mais cruel de todos, a longa guerra entre o Irão de Khomeini (a que a Administração dos EUA vendeu clandestinamente armas para financiar a guerrilha antissandinista na Nicarágua, como o mundo era pequeno) e o Iraque de Saddam Hussein (então um amigo de Washington). A vertigem culminou na monumental queda do Muro de Berlim em 1989. As forças ocidentais tinham vencido. Mas conquistaram mais do que posições, créditos militares e vantagens estratégicas: ganharam a batalha pela enunciação de uma nova imaginação. Escrevia o “The Wall Street Journal”, com alegria, que Ronald Reagan, que foi eleito Presidente em novembro de 1980 e dominaria esta década com a primeira evocação do ‘Make America Great Again’, era o mais sénior dos yuppies. Alguma verdade haveria na nomeação, mesmo que o ator de Hollywood, que vinha do governo da Califórnia e se instalara no edifício do partido republicano, fosse um inesperado embaixador deste movimento da nova cultura. E, no entanto, foi mesmo a promessa de enriquecimento rápido que empolgou a geração yuppie, deu a vitória a Reagan e liderou os gloriosos anos 1980. Não havia nisso qualquer retraimento, antes um orgulho exibido: o economista Milton Friedman, um dos influentes intelectuais desta saga, tinha dedicado no mesmo ano um dos seus programas televisivos na PBS ao tema do individualismo, usando as palavras todas, “a ganância é boa”. Poucos anos mais tarde, em 1987, esse era o mote de Gordon Gekko, o vilão do filme de Oliver Stone sobre as razias financeiras, “Wall Street”.

O glamour desta nova aristocracia e os seus excessos foram telenovelizados em “Dallas” (1978-1991) e em “Dynasty” (1981-1989), projetando a ascensão e queda do “Grande Gatsby” em complexos e prolongados enredos de fortunas fáceis e intrigas familiares, um modelo que ainda hoje se reproduz. O mundo assistiu deste modo à subida dos yuppies ao prime time da televisão, que então era quase tudo. No cinema, foi “Ghostbusters” (“Os Caça-Fantasmas”, 1984) que melhor simbolizou esta visão. Realizado por Ivan Reitman, um “conservador-libertário” recentemente falecido, o filme conta o choque entre um grupo de empresários (atores que marcariam a sua época, Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, entre outros) que percebem o perigo e criam um novo mercado, o serviço de caça aos fantasmas, e um regulador, funcionário da Agência da Proteção Ambiental, que por razões administrativas os tenta impedir de agir, até ser esmagado pela realidade do Armagedão monstruoso. Os efeitos especiais, que estavam então a começar a ser explorados, ilustraram o filme, a banda sonora tornou-o inesquecível, mas este igualmente se destaca por ser uma explicação pedagógica de ‘reaganomics’. Neste caso, temos a economia de Noé, o triunfo do grupo empresarial que consegue resistir aos impedimentos burocráticos do Estado incompetente. A sobrevivência e o aplauso eram os prémios do vencedor. O que o filme nos conta é, portanto, que o empreendedorismo salvou a cidade.

O símbolo desta geração seria alguém mais prosaico do que os atores caça-fantasmas, trata-se de uma personagem conhecida de quem está a ler estas linhas. Foi Donald Trump, que nunca passou despercebido. Escrevia à época a “Newsweek” que ele era “o presunçoso emblema nacional da riqueza dos anos 80”, ou que “tem um bilião de dólares e um ego do mesmo tamanho”. Era um herdeiro nova-iorquino, mimado mas atrevido, que deixava a sua marca em empreendimentos imobiliários cintilantes (o Ringue Wollman, no Central Park, ou a Trump Tower, inaugurada em 1983) e que encarnava a política yuppie, na operacionalização de redes de contactos, nos jogos com impostos e favorecimentos, como igualmente na sua prosápia. Ofereceu-se como padrão, multiplicando os livros sobre como prosseguir uma carreira de sucesso e, depois das vendas maciças de “A Arte da Negociação”, de 1987, vieram “Como Enriquecer e Subir na Vida”, os seus contributos para a cultura new age, dissertando sobre a seleção natural dos empresários e a aventura da prosperidade instantânea. Trump era o king of glitz, o rei do brilho, só que, se “vives pelo brilho, morres pelo brilho”, como diria em 1990 à “Newsweek” um banqueiro e amigo que tinha aprovado algumas das suas dívidas, quando ele, atormentado por um divórcio litigioso, por dívidas e turbulência financeira, desabou e passou a ser o protótipo do fracasso. A capa da “Newsweek”, nesse momento, foi “Trump: A Queda”. Nunca mais se levantará, garantia o mesmo banqueiro. Enganou-se. Uma dúzia de anos depois, Trump renasceria com “The Apprentice” (2004), o programa televisivo que encenava aspirantes a executivos em luta feroz pelo lugar na empresa do produtor e apresentador, com o público a regozijar-se por serem despedidos a pontapé.

Portugal vivia alinhado com este mundo nos costumes e na ordem política mas a contraciclo na cultura. Os yuppies tinham desembarcado no Frágil e nos entusiasmos da AD, o hedonismo batia à porta, o consumismo fazia maravilhas, o individualismo era o seu nome. Mas ao mesmo tempo, na literatura, o país analisava-se no espelho da guerra colonial, com “Os Cus de Judas” (1979), de António Lobo Antunes, e buscava identidades com José Saramago, seja na luta social (“Levantado do Chão”, 1980), na história (“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, 1984, e “História do Cerco de Lisboa”, 1989) ou na dúvida europeia (“Jangada de Pedra”, 1986). Em contrapartida, nos Estados Unidos, a vaga já tinha desaguado, precipitando o tempo da desilusão. Um dos ícones da literatura desse tempo foi Tom Wolfe, que se estreou com “A Fogueira das Vaidades” em 1987, uma sátira ao desastre social, em que um yuppie se pavoneia pela sociedade para esconder um crime e se vai confrontando com os poderes fáticos, as suspeitas, as peripécias da justiça e os subterfúgios dos financeiros, para tudo acabar em tragédia. Afinal, a salvação era uma miragem.

A geração yuppie parecia ter triunfado, mas transformara-se a si própria ao longo desse processo e a sua imaginação estava esgotada. Mesmo quando Fukuyama, um divulgador, publicou com grande impacto um artigo com um título-programa, “O Fim da História” (1989), depois passado a livro, já o individualismo e o liberalismo recorriam ao expediente do dogma para se apresentarem como o farol da nossa era.

IR COM A CORRENTE

Vinte e muitos anos depois do seu primeiro naufrágio, Trump, o rei do brilho, foi eleito Presidente do Estado mais poderoso do mundo. Não foi o único sinal da consagração dos yuppies. Logo no ano seguinte à sua vitória, foi a vez de Emmanuel Macron, que percorrera uma breve carreira na banca de investimento e depois fora conselheiro e ministro de um governo do Partido Socialista francês, que rasteiraria para se impor como o candidato presidencial do centro-direita (sobre as suas traições escreveu Daniel Ribeiro aqui na Revista E). Havia algo de gaullista na pose do candidato, que tinha explicado, em campanha, que a França não precisava de um “Presidente normal”, mas sim de um presidente “jupiteriano”, como o deus dos deuses romanos, para governar o Eliseu e os seus súbditos em tempos excecionais. Esta filosofia é também ‘noéfica’ em todos os tons, mesmo que o seu protagonista venha de um polo político obviamente distinto do de Trump. Em qualquer caso, além da submissão jupiteriana, essa filosofia enunciava um mapa social: como Macron explicou nesse ano da eleição, a sociedade será uma corrente puxada pelos melhores, razão para que sejam protegidos, caso contrário a inveja fá-la-ia desagregar e arrastaria toda a gente. O chefe é ungido, a sua palavra é lei e protege os do topo, que seguram os elos da cadeia.

Os fundamentos desta teoria estão nos dois principais teóricos liberais do século XX, que já tinham sido os conselheiros favoritos dos governantes da viragem dos anos 80, Friedman com Reagan e Friedrich Hayek com Margaret Thatcher. Para ambos, o indivíduo é a base da ordem social, fundada no mercado que o reconhece. O mercado, por sua vez, é o palco da feitiçaria onde se definem os preços, que nada mais fariam a não ser confirmar a justa retribuição do mérito individual, fixando assim a harmonia espontânea das vantagens mútuas. O ciclo fecha-se, assegurando que o sujeito do progresso histórico é o empresário vencedor. Como já aqui escrevi, houve nesta glória alguns desvios não menos assumidos, como quando os dois, Friedman e Hayek, se empenharam em apoiar um regime ditatorial. O segundo nem sequer terá sentido vergonha ao garantir, numa entrevista de 12 de abril de 1981 ao diário dos generais chilenos, “El Mercúrio”, que, “pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um Governo democrático ausente de liberalismo”, elogiando o jugo militar que determinou as privatizações da segurança social e outros setores públicos, pese embora a sua pilhagem pelos governantes. Tiranos que fossem, o que importa é o mercado. Não havia nessa escolha nenhuma incongruência, os promotores deste modelo podem, “pessoalmente”, dispensar a liberdade política, e o seu fundamento, o individualismo, convive bem com a opressão dos outros. Noé não cuida das outras famílias.

Nesta história, os yuppies bem podiam incensar os mestres que lhes asseguravam que “a ganância é boa” e até ignorar os pergaminhos democráticos. Aliás, Trump, a figura dominante deste movimento, viria a ostentar o seu fascínio por governantes com os quais manteve relações de cumplicidade, como Kim Jong-un ou, sobretudo, Putin, cujas milícias de hackers o terão ajudado a vencer em 2016. Trump é por tudo isto o espécime mais relevante do nosso tempo, porque foi o publicista que divulgou as ideias e vestiu as lantejoulas da era yuppie, ou o conquistador que se vangloria do poder e da veneração que suscita, mas sobretudo por ser a voz do individualismo. Tinha para isso um projeto, que era ele próprio, o condutor do seu povo, o homem que recuperaria a saudosa magnificência americana, repetindo o mote reaganiano, ‘Make America Great Again’ — o “de novo” é aqui a expressão-chave para invocar o destino que se voltaria a impor para os que “fazem a América”, os americanos “de bem”. É o que as novas direitas replicam em toda a Europa.

Considerando-se destinado ou predestinado como Noé, Trump encarna o narcisismo frenético, que é a expressão maior do individualismo, eu sou único e sou tudo. Não se pode desvalorizar este recurso, que ressurge “de novo” com uma poderosa motivação e com o discurso grandioso que envolve. Não é só um estilo. É uma energia, por ser uma construção identitária poderosa. Mas de onde vem essa energia? O que torna o individualismo tão agressivo? É o seu programa, a busca de um elixir para atenuar os traumas que o narcisismo sofreu. O individualismo quer salvar-se do triplo desastre que o atormenta.

AS TRÊS FERIDAS NARCÍSICAS E A SUA CURA

O individualismo é a imaginação yuppie em flor, é por esse processo que distribui expectativas. No entanto, sendo uma identidade, tem desde sempre um problema consigo próprio: é implausível, por contrariar a nossa experiência pessoal e social. Não funciona, promete o que não pode criar.

E não chega para reparar as sucessivas feridas narcísicas que a modernidade nos tem imposto. Quem notou essas mágoas foi Sigmund Freud, que, em 1917, no artigo “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, escrito para uma revista húngara de grande circulação, historiou “três golpes” contra o nosso narcisismo: a revolução coperniciana (que apeou o nosso planeta do trono do universo), a revolução darwinista (que aboliu a conceção essencialista da nossa espécie no processo evolutivo) e a revolução psicanalítica (que desmentiu a conceção de mente humana como uma construção da consciência). O primeiro desafio ao narcisismo foi cosmológico e provou-nos que a Terra não é o centro do universo, mas apenas uma partícula de um sistema, ao passo que o segundo atingiu o antropocentrismo, não somos destinados. A terceira ferida narcísica, segundo Freud, atacou os limites do ego no seu próprio campo, mostrando que a consciência é só uma parte da nossa vida psíquica e que muita dela não cabe nesse território limitado. Nem o nosso globo, nem a nossa espécie, nem o nosso ego são o centro do mundo. Então, estamos desamparados, mesmo se fosse sou só eu não saberia tudo sobre mim. Noé não vai a lado nenhum.

O culto do individualismo procura aliviar esta aflição. Propôs-se fazê-lo pela reconstrução dos formatos do autocentramento. Freud, ele próprio um individualista, esperava consegui-lo através do modelo terapêutico da psicoterapia, orientado para a introspeção. Esse modelo procura remendar o ego. Mas, como ele sabia, é um fundamento ténue para um individualismo redentor, dado que somos o resultado de uma prática comunitária, de que eu não me posso separar: a identidade é um processo vivido em sociedade desde que a criança se reconhece. “A identificação é a forma mais precoce e original de um laço emocional”, escreveu Freud em 1921. Esse laço emocional é estabelecido desde os convívios iniciais da criança com os familiares e, portanto, ao longo da vida, vou sabendo quem sou porque constituí a minha identidade com os outros. Assim sendo, o processo de identificação forma laços e pertenças que determinam uma identidade que é socialmente definida e não é unicamente individual. Freud notou-o, sobretudo em escritos do final da sua carreira, quando se interessou pela “psicologia de grupo”, ou de massas, as formas de identificação de um indivíduo “como parte de uma multidão de gente que está organizada num grupo num dado momento do tempo para um objetivo definido”, ou, repetido com os preconceitos da sua época, defino-me “como membro de uma raça, de uma nação, de uma casta, de uma profissão, de uma instituição”. Não somos uma ilha. Não existimos sem os outros. Além disso, os irreparáveis abalos narcísicos só vislumbram parte da vida coletiva, há um campo mais vasto em que se delimita a cartografia das classes, dos interesses, dos movimentos e conflitos. Somos muito mais do que um ego naufragado ou uma Arca a navegar entre escolhos.

Em consequência desse fracasso, os esforços para erguer um individualismo respeitável, que corrija o défice narcísico, desviaram-se ou abdicaram da introspeção individual. Foi esse o sentido da vaga yuppie, que preferia a exibição porque, nisso fiel à divindade, Narciso só existe se for visto e admirado. O consumismo, a promessa do enriquecimento, a concorrência como o absoluto social, o carinho pela desigualdade, cada qual por si, essa chama yuppie foi a ressurreição do individualismo. Trata-se, deste modo, de uma imposição social, que conduz a uma particular estrutura de poder. No nosso tempo, atingiu o seu auge: quer-se visível e é visto, é o capitalismo de vigilância, em que o narcisismo é alimentado pela transmissão de uma avalancha de sinais e sentimentos, que tudo absorve e tudo gere sob o poder algorítmico. Essa torrente baseia-se no modelo da identidade em rede social, que usa a heroicização dos perfis pessoais que se fazem representar no espaço público e no engano da comunicabilidade instantânea, sendo uma ostentação que presume chegar a toda a gente a todo o momento com a imagem mais impressionante. Todos acreditaríamos no nosso caminho pessoal para os céus, eu sou tudo, e, no entanto, uma hierarquia sólida é engendrada por este dilúvio de imagens e mensagens.

Há aqui um deslumbramento maquinal que propulsiona este narcisismo líquido: a tecnologia, que foi entendida como uma prótese exterior ao corpo, passou a ser adotada como uma nossa extensão, como se fossemos seres biónicos movidos por microchips incorporados e cuja ativação passou a ser a nossa condição natural. Assim, trata-se de um individualismo instrumental, que nos absorve nesse tempo e espaço de relação social fictícia, codificada em redes proprietárias que configuram uma sociedade virtual, a que se vai chamando “metaverso”. O apogeu do individualismo passou a ser o canibalismo da comunicação nas redes sociais, descobrindo a precipitação emocional ou a intoxicação como modo de expressão. Nessa cosmologia alienada, toda a fantasia é permitida. Portanto, não há qualquer surpresa em verificar que o ascenso das extremas-direitas está associado à contaminação nessas redes, ou que Trump e os que o seguem mobilizam este mecanismo como uma linguagem universal. Naturalmente, a sua primeira preocupação na montagem da recandidatura à Casa Branca foi forjar uma rede própria e, se bem que fracassando nesse objetivo imediato, dispõe ainda de tesouros de devoção e de mundos conspirativos que o reproduzem. Sob a sua batuta, o individualismo ressurge exaltado, reclamando obediência.

A cultura desta terceira década do século no país que ainda é o centro do mundo é marcada pela forma como este individualismo, couraçado de autoritarismo, reconstrói as regras do poder. Tem acumulado fracassos, como nas eleições de 2020, o que se repetiu recentemente no Chile, provavelmente também sucederá no Brasil, mas projeta um trunfo essencial: estreou um novo ciclo e, por isso, corre em frente. Não tem destino, não sabe para onde vai, mas vai, imbuído de uma missão, salvar pela destruição, castigar sem remédio, impor a desigualdade das vidas e convocar o poder ‘noéfico’.

Francisco Louçã, Expresso, 10 de junho de 2022

Lá vamos, condecorando e rindo


No seu infatigável esforço de ter em cada esquina um amigo, como cantava o Zeca Afonso, Marcelo resolveu começar a comemorar por antecipação os 50 anos de Abril condecorando todos os militares envolvidos no golpe que derrubou a ditadura. Uma tarefa que, como seria de supor, em lugar de unir todos os portugueses nesse mítico lugar onde todos se encontrariam numa celebração a todos comum, antes serve e servirá para semear a discórdia e reavivar controvérsias hoje apenas interessantes para os historiadores. Cinquenta anos depois, temos tendência a esquecer que o 25 de Abril de 1974 diz muito pouco ou nada à maior parte dos portugueses e, para aqueles a quem ainda diz alguma coisa ou muito, o que ficou foi a memória de três dias de bebedeira de felicidade, logo seguidos de ano e meio de profundas divisões e iminente guerra civil. Porque houve vários 25 de Abril, para vários gostos, vários projectos, várias oportunidades e oportunismos. O “25 de Abril sempre!” é assim apenas a reminiscência de um dia absurdamente feliz e irrepetível, daqueles que acontecem uma vez em cada século na vida de um povo, como a passagem do cometa Halley pelos céus do planeta Terra.

Assim, já correm abaixo-assinados contra a atribuição da Ordem da Liberdade a personagens como Spínola, Otelo, Vasco Gonçalves ou Rosa Coutinho, os casos mais evidentes de rejeição epidérmica, à esquerda ou à direita. O problema é que com o amplo critério definido por Marcelo, é difícil excluir algum não excluindo todos. Se Otelo, por exemplo, foi o estratego militar do golpe, tudo arriscando nele, Spínola foi o seu inspirador moral com o lançamento prévio do seu livro “Portugal e o Futuro” e a posterior recusa em comparecer no beija-mão do cobarde corpo de generais ao cobarde presidente do Conselho Marcello Caetano. Depois, Spínola fracassou no golpe de 11 de Março, caindo numa armadilha montada à medida da sua inteligência, e foi fundar no exílio o MDLP, que foi mais folclore do que verdadeira ameaça. Mas Otelo, derrotado em eleições presidenciais livres, virou-se para o terrorismo, criando as FP-25, responsáveis por assassínios decididos a sangue-frio: preso com todas as provas incriminatórias em mãos, foi julgado e condenado e depois perdoado, sem nunca ter tido a dignidade de assumir o que fizera e de pedir perdão às vítimas. Mais difícil ainda é encontrar o contributo decisivo de Vasco Gonçalves ou Rosa Coutinho para o 25 de Abril. É verdade que o primeiro tinha estado antes implicado no fracassado ‘golpe da Sé’, mas retirou-se a tempo e misteriosamente para reaparecer após o 25 de Abril, tomando-se por um Lenine reencarnado e apostado em lançar o país na guerra civil. O segundo distinguiu-se apenas pela sua tarefa, cumprida com zelo, de ir entregar rapidamente Angola ao MPLA e à URSS. Otelo e Spínola são casos controversos; Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho e outros mais não o são. Condecorá-los com a Ordem da Liberdade é uma ofensa que Marcelo faz a muitos portugueses, eu incluído.

Mas as dúvidas legítimas vão ainda mais além do que a análise dos casos individuais. Porquê condecorar apenas os oficiais de carreira? Porque não também os milicianos, que foram quem abriu os olhos para a política aos oficiais do MFA, evitando que o 25 de Abril fosse apenas um golpe motivado por reivindicações corporativas e profissionais? E porque não também os soldados envolvidos no golpe — os que vieram de Santarém com Salgueiro Maia, por exemplo? E os civis envolvidos? E os militares presos em função do golpe falhado de 16 de Março anterior? Dir-se-á que assim, em lugar de centenas, a lista chegaria aos milhares de condecorados. É verdade que sim, mas a culpa é do critério larguíssimo que o Presidente resolveu adoptar. Se na sua lista de vivos e mortos a quem quer dar a Ordem da Liberdade cabem pessoas que logo a seguir ao 25 de Abril se dedicaram a tentar destruir a liberdade que os portugueses tinham acabado de conquistar, então não pode deixar de condecorar os que contribuíram apenas para esse dia libertador mas que não faziam parte do MFA.

Com esta sua decisão de meter no mesmo saco heróis da liberdade com inimigos dela, Marcelo começa mal as comemorações do 25 de Abril

Eu sei que é assim que se banaliza uma coisa que deveria ser rara e importante por natureza, como a Ordem da Liberdade. Mas quando o critério é feito por atacado o mal já está consumado. É um sinal dos tempos, em que se produzem heróis por decreto e por condecoração, próprios de um país onde se estima muito pouco a liberdade. Na verdade, o mal já vem de muito antes: começou com Mário Soares, continuou com Cavaco, seguiu com Jorge Sampaio e, quando se imaginaria que já não houvesse ninguém mais para condecorar, não abrandou com Marcelo. Começaram por se condecorar todos os ‘antifascistas’ existentes e antes que morressem, depois os exilados, os irmãos da maçonaria, as forças vivas da província, os financiadores dos partidos e das campanhas presidenciais, todos os desportistas que ganhassem lá fora qualquer coisa de um terceiro lugar para cima, ministros cessantes, dinossauros autárquicos, magistrados jubilados, militares passados à reserva, diplomatas reformados, artistas vários e também de variedades, todos os cientistas disponíveis, os emigrantes ilustres, os banqueiros e os empresários antes que caídos em desgraça, e mais todos aqueles e aquelas que entraram pela quota das inevitáveis ‘cunhas’ a que nem os Presidentes escapam. Enfim, em 50 anos de liberdade, Portugal construiu um notável escol de alguns milhares de comendadores representando o que de melhor temos como povo — se bem que, é triste dizê-lo, grande parte deles, tenha acabado a contas com a justiça, fazendo de nós talvez o país com mais bandidos condecorados per capita ou por quilómetro quadrado. Como aqui escrevi anteriormente, o mal está em os Presidentes entenderem que a faculdade de escolher quem deve ser condecorado é um direito discricionário que lhes assiste por inteiro. Não é: quando condecora alguém, o Presidente fá-lo em nome de todos os outros portugueses e a sua escolha não pode, pois, depender apenas do seu critério e dos seus impulsos, mas reflectir aquilo que o comum das pessoas julgaria justo e justificável. Consciente disso e dos abusos já então existentes, Mário Soares instituiu no segundo mandato Comissões Independentes para avaliarem as propostas de condecoração, mas, tendo sido ele próprio o primeiro a subvertê-las e a desautorizá-las, elas acabaram por desaparecer.

Porém, dessa hemorragia ‘comendadoral’ sempre tinha escapado com algum decoro a Ordem da Liberdade, reservada com mais critério a quem, de uma forma consensual, o país reconhecia uma contribuição efectiva para a conquista ou promoção da liberdade em que vivemos. Agora, com esta sua decisão de meter no mesmo saco heróis da liberdade com inimigos dela, Marcelo acabou com isso. Começam mal as comemorações do 25 de Abril.

2A linha da Beira Baixa vai para obras de beneficiação (findas as quais não se ganhará nem um minuto a menos nas viagens) e, em consequência disso, fecha durante nove meses — mais os inevitáveis atrasos. Diversas linhas regionais, entre as quais a pré-histórica Linha do Algarve, estão com quatro anos e meio de atraso nas obras de electrificação — findas as quais, também não se ganhará um minuto que seja nas viagens. O Ferrovia 20 vai acabar em Ferrovia 30, com dez anos de atraso. O concurso internacional para aquisição de 119 comboios novos vai-se atrasar indefinidamente porque todos os concorrentes preteridos vão para tribunal, pois não sabemos fazer regras de concurso nem cadernos de encargos que evitem a litigância permanente e a nebulosidade das regras que fazem as delícias dos escritórios de advogados. Eis a grande aposta na ferrovia.

3A TAP diz que o seu prejuízo recorde €1600 milhões em 2021 se deveu à liquidação do funesto negócio de manutenção no Brasil. Mas não diz quanto é que isso custou nos prejuízos e, ao que parece, o dossiê ainda não está encerrado, podendo vir a aparecer mais “encargos contingentes”. Ao mesmo tempo contrata 250 tripulantes que já havia despedido porque a sua presidente diz que não se previa há um ano que a retoma pudesse ser tão forte — mas prever é exactamente o que se pede a um gestor. Também não prevêem que o Porto, o Funchal e Faro possam ser negócio e por isso concentram tudo em Lisboa, deixando o negócio para as low cost. Como diz Rui Moreira, e com razão, a “nossa” TAP está a caminho de ser uma companhia regional de Lisboa para efeitos de exploração e uma companhia nacional para efeitos de pagamento dos prejuízos. E depois dizem que isto só vai lá com a regionalização...

4No Expresso leio que no primeiro trimestre deste ano houve mais trabalhadores de baixa do que em todo o ano de 2021, custando aos contribuintes €400 milhões. Num café do Algarve, uma senhora, com um ar saudável e bem-disposto, conta que vive ali e dá aulas de inglês numa escola secundária de uma aldeia próxima. Ou melhor, dava: está há um ano de “baixa psicológica”. Não sei se ela terá consciência de que os danos, actuais e futuros, que pode causar a crianças privadas um ano de uma disciplina hoje tão essencial como o inglês, são provavelmente irrecuperáveis. Mas sei que o caso dela é multiplicável por milhares e seria facílimo de resolver com um mínimo de coragem política: bastaria que uma componente importante do salário de um professor estivesse ligada à assiduidade. E então podiam-se subir os salários dos que não faltam.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia