sábado, 31 de outubro de 2020

COMO COELHOS ASSUSTADOS

No dia 27 de outubro de 2020, a Europa tinha 8.786.209 casos reportados de infeção, e os Estados Unidos tinham 8.704.524 casos reportados. Donald Trump não é o Presidente da Europa, o continente esclarecido e desenvolvido onde vigoram sistemas nacionais de saúde e Estado social. A Europa, de repente, excedeu os números da América, e na Europa, a Espanha, a França, o Reino Unido e a Itália foram os campeões da infeção. A Alemanha acompanhou a subida. Estamos a falar dos países mais avançados e prósperos da Europa, os que têm uma economia mais sólida e um sistema social mais aperfeiçoado e bem-sucedido. Nenhum líder político europeu ousou desafiar as regras gerais emanadas dos peritos sobre como controlar a epidemia, nenhum fez o que Trump e alguns chefes locais rebeldes fizeram nos Estado Unidos, desafiando a ciência.

A Europa entrou numa fase descontrolada da epidemia, com crescimentos diários brutais de infeções, internamentos e mortes. Podemos dizer que talvez haja mais testes na Europa, e mais identificação de infetados, mas isso não explica os aumentos bruscos, sentidos em todos os países, incluindo os mais pequenos ou periféricos como Portugal e a Grécia, ou os mais centrais e mais ricos como a Bélgica ou a Holanda. Ou os que tinham reputação estelar, como a República Checa. Talvez haja um efeito de contaminação, mas o que se vê, empiricamente, é que os europeus estão a contrariar as instruções, as admoestações e punições, com um desespero e uma rebeldia que indicam que a entropia começou. E não são apenas os jovens, embora seja compreensível que quando se tem 20 ou 30 anos, ou se está na adolescência, e se sabe e se ouve que a doença não ataca e muito menos mata os corpos jovens e os sistemas imunitários, e quando se passaram sete meses, quase oito em nada mudou a não ser a cacofonia, quando se é condenado a não viver a vida, seja compreensível, repita-se, que os jovens desobedeçam.

A repressão deve ser o derradeiro recurso e não funciona durante muito tempo em democracia. Os governos e autoridades deveriam pensar o que correu mal e porque correu tão mal. Parecem coelhos assustados e todos os dias há uma notícia a dizer que os ministros, os peritos e os cientistas vão reunir e decidir novas medidas de alarme, emergência e recolher obrigatório. Caminhamos para a destruição da economia europeia, e nenhum pacote de resgate será suficiente.

A desorientação é visível não apenas nos políticos. É visível nos cientistas e nos jornalistas. Os políticos ouvem os cientistas, mas os cientistas discordam entre si com ferocidade e as velhas rivalidades deste meio tão santificado chegam à superfície como espuma suja. Não são diferentes dos artistas e das suas rivalidades, embora o prestígio e o dinheiro tenham sido desviados dos artistas, gente considerada improdutiva e sem mérito na nova economia, para os cientistas. Quando precisávamos de um módico de clareza e de método científico validado pela prova dos pares e do tempo, vemos estudos atrás de estudos, todos contraditórios, uns dizendo uma coisa e outros a oposta. Os media vão dando eco destes estudos, sem cuidarem de os escolher, não têm a perícia nem os meios, e muitos desses estudos não são mais do que emanações da Big Pharma ou dos fundos públicos e privados que financiam pesquisa covid, mediados pelos lóbis e agências de comunicação. O Reino Unido, que não abandona a mania da supremacia científica da Europa, apesar dos penosos resultados em vidas humanas, e do cadastro de indecisões, é o país donde saem todos os dias novos estudos de reputadas instituições.

Desisti de ler as proclamações científicas do Imperial College ou de Oxford, qualquer lugar em Oxford. O Imperial College previu, em março, 40 milhões de mortos pela pandemia sem as restrições. Na Europa. Em junho, disse que as restrições tinham poupado 3,1 milhões de vidas. Na Europa. O mesmo se diga para as vacinas, que durante meses foram a panaceia universal e que estariam prontas no outono, depois no final do ano, dando esperanças falsas e alimentando os cofres dos investidores e especuladores dos laboratórios que apuram as vacinas. Agora sabemos que a vacina virá mais tarde, muito mais tarde do que foi prometido. A vacina de Oxford anunciou que estaria pronta em setembro.

Em Portugal, foi proclamado que nos deveríamos vacinar contra a gripe este inverno, mas não há vacinas suficientes para os doentes de risco e com mais de 65 anos, muito menos para os restantes, mesmo os que a querem tomar fora do plano nacional de vacinação. Imagine-se a desordem quando se tratar da vacina covid. A ira que a inexistente previsão logística irá provocar.

O efeito mais deletério da falta de coordenação e pensamento é o campeonato diário das infeções, o desporto mais praticado em Portugal. A perda de autoridade é generalizada, e as pessoas apenas se dividem em pouco assustadas, assustadas, e muito assustadas. Num dia, a penosa DGS anuncia as contas do desastre e ralha com os portugueses, no dia seguinte autoriza quase 30 mil pessoas na Fórmula 1, e ao terceiro dia faz o mea culpa e arrepende-se de ter autorizado o “evento”.

A penosa OMS tem sido, também, parte do problema, limitando-se a arrefecer a esperança, não contem com a vacina, e a dizer que a vida está muito difícil, exceto na China, que escapou qualquer escrutínio como bem sabemos, mas não podemos dizer alto. A estratégia inicial da OMS para as máscaras? Não eram eficazes e podiam ser perigosas. Porque não havia máscaras suficientes, soube-se. Quando a China começou a fabricar máscaras, mudou a política e as máscaras passaram a obrigatórias.

Vamos fechar de novo a economia, confinar mais seres humanos, policiá-los, multá-los, coagi-los, empobrecê-los, porque não os conseguimos persuadir com honestidade e coerência. Assim está a Europa. Nem uma campanha foi feita a explicar os perigos da infeção dita curada. Em 40% dos casos de infetados com gravidade, as pessoas ficarão com doenças autoimunes e sérios problemas de saúde até à morte e sobrecarregarão os sistemas de saúde. O vírus tem uma longa vida para alguns doentes, e não são todos velhos. Seria tão difícil pedir que se respeite a vida destas pessoas porque todos podemos ser uma delas?

Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa, Expresso, 31 de outubro de 2020






 

domingo, 25 de outubro de 2020

Covid-19: a sindemia que nos afronta e desafia *


 

O termo “sindemia” (sinergia + pandemia) foi cunhado nos anos 1990 pelo antropólogo médico americano Merrill Singer. Trabalhando em grupos com sida, Singer verificou que a síndroma devastava uma comunidade porto-riquenha de Hartford e utilizou o acrónimo SAVA (Substance Abuse, Violence and AIDS) para suportar o conceito de que a sida grassava num contexto social de droga e violência que potenciava a disseminação da infeção, a sua gravidade e agravava o seu prognóstico.

Em 2017, o mesmo Singer e co-autores desenvolvem o modelo sindémico de saúde onde enfocam o complexo biossocial, que consiste na interação, co-apresentação ou na sequência de doenças e nos fatores sociais e ambientais que as promovem e potenciam os seus efeitos negativos.

Esta abordagem da conceção de saúde e prática clínica reconfigura a história convencional da compreensão das doenças como entidades individuais, separadas de outras e independentes do contexto social. Em vez disso, todos esses fatores tendem a interagir sinergicamente de várias e consequentes formas, tendo um impacto substancial na saúde de indivíduos e populações inteiras, e através deles na sociedade, e só podem ser abordados de forma integrada a favor de toda a comunidade.

Num artigo publicado no final deste mês de setembro no The Lancet, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo, Richard Horton, editor-chefe da revista, vem exatamente focar a atenção de toda a comunidade para esta questão.

Ele argumenta que a covid-19 não é uma peste como qualquer outra já vista no passado e que, por isso, merece uma abordagem diferente. A designação de sindemia seria, por isso, mais adequada: o vírus não atua sozinho, mas compactuando com outras doenças. E a desigualdade social tem um papel-chave na sua disseminação.

A natureza sindémica da ameaça que enfrentamos significa ser necessária uma abordagem mais global e integrada se quisermos proteger a saúde das nossas comunidades.

O artigo repercutiu em alguns dos principais meios de comunicação internacionais e ganhou eco no mundo científico. A Sociedade de Medicina de Catástrofes e Saúde Pública Americana, por exemplo, defendeu, em artigo intitulado “Covid-19 à Covid-20”, que a resposta institucional à atual crise seja baseada num “pensamento sindémico, e não pandémico”.

A palavra “sindemia” vai, deste modo, entrar agora no léxico do debate sobre a covid-19, ao lado de termos como “lockdown”, “imunidade de grupo” e “achatamento da curva”, antes praticamente desconhecidos do grande público.

À medida que o mundo se aproxima do milhão e meio de mortes por covid-19, é importante enfrentar o facto de que a atual abordagem é demasiadamente restrita para gerir e ainda menos para ultrapassar a crise do novo coronavírus.

Até agora, todas as intervenções se concentraram em cortar linhas de transmissão viral. A “ciência” que tem guiado os governos é baseada principalmente em modelos de combate a epidemias que enquadram a atual emergência sanitária num conceito de peste que tem séculos de existência.

“Mas a história da covid-19 não é assim tão simples”, argumenta o editor-chefe da Lancet. “Duas qualidades de doenças estão a interagir em populações específicas – a síndrome respiratória aguda severa (Sars-Cov-2) e uma série de doenças não transmissíveis (DNTs).” Estas condições estão agrupadas em grupos sociais de acordo com padrões de desigualdade profundamente enraizados nas nossas sociedades. A agregação dessas doenças num contexto de disparidade social e económica exacerba os efeitos adversos de cada doença isoladamente.

Uma epidemia sindémica, ou uma sindemia, contém em si a ideia que o vírus não age isoladamente, tal como um vilão solitário que simplesmente espalha pneumonias e falência generalizada de órgãos nos alvos que atinge. Ele tem cúmplices sérios, como a idade e o seu contexto social, a obesidade, diabetes, doenças cardíacas e condições sociais, que agravam a doença e prognóstico do atingido.

A questão maior é que muitos dos “cúmplices” da covid-19 já são epidemias por si só em algumas sociedades. A obesidade, por exemplo, é um fator de risco para o desenvolvimento de diabetes e doenças cardíacas. A diabetes e a hipertensão são epidemias nas sociedades ocidentalizadas. Um artigo recente da revista Obesity Reviews, por exemplo, concluiu que as pessoas obesas têm uma probabilidade 50% maior de morrer de coronavírus.

No caso da covid-19, como argumenta o editor da Lancet, atacar doenças não transmissíveis é um pré-requisito para um combate bem-sucedido à atual crise. “O número total de pessoas que vivem com doenças crónicas está a crescer. Tratar a covid-19 significa tratar também a hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias crónicas, e cancro.”

Afirma ainda ser especialmente importante prestar maior atenção às doenças não transmissíveis em países mais pobres, algumas fatais tais como a epilepsia, doença renal, anemia falciforme. Para os mil milhões de pessoas mais pobres do mundo, as DNTs representam mais de um terço do seu fardo como doença. O artigo de Singer afirma que a disponibilidade de intervenções acessíveis e económicas nestas doenças, durante a próxima década, poderia evitar quase cinco milhões de mortes entre as pessoas mais pobres do mundo. E isso sem considerar os riscos reduzidos de morrer por covid-19.

A mais importante consequência de ver a covid-19 como sindemia é sublinhar a sua componente social. A vulnerabilidade dos idosos; das comunidades étnicas minoritárias tal como da gente dos bairros degradados; dos trabalhadores essenciais que são comummente mal pagos, das condições de vida e transportes das periferias para as grandes cidades; apontam para uma verdade até agora escamoteada: não importa quão eficaz irá ser um tratamento ou qual a proteção de uma vacina, porque a busca de uma solução puramente biomédica para a covid-19 será um falhanço e não teremos aprendido nada.

A menos que os governos elaborem políticas e programas para reverter profundas disparidades, as nossas sociedades nunca serão verdadeiramente seguras contra a covid-19 e as pandemias que se lhe seguirão. Como Singer escreveu em 2017, “Uma abordagem sindémica oferece uma abordagem muito diferente à medicina clínica e à saúde pública por mostrar como uma abordagem integrada para a compreensão, prevenção e tratamento de doenças pode ter muito mais sucesso do que simplesmente controlar a doença epidémica ou tratar eficazmente um doente.”

Horton acrescentou mais uma vantagem. “As nossas sociedades precisam de esperança. A crise económica que avança na nossa direção não será resolvida por um medicamento ou uma vacina. Nada menos que a mobilização coletiva e consciência nacionais por uma causa são necessários.”

Ver a covid-19 como uma sindemia vai envolver-nos numa visão mais ampla e nacional, abrangendo a educação, emprego, habitação, condição dos idosos, segurança, transportes, alimentação e meio ambiente.

Ver a covid-19 apenas como uma pandemia exclui tal perspetiva mais ampla e necessária que nos vai ensinar, em boa hora, para onde atirar as toneladas de dinheiro sem deixar tudo igual.

*Américo Manuel da Costa Figueiredo, Público, 25 de outubro de 2020




quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Quando acabar o recreio, avisem


Temos no Parlamento um OE, numa ‘pen’ que o ministro das Finanças entregou ao Presidente da AR. A cerimónia mantém a tradição de quando eram molhos de papéis, o que acho bem. Agora até é abrilhantada pelas televisões, que nos dão a emoção de um ministro a avançar pelos Passos Perdidos de São Bento até um gabinete onde, de máscara, como mandam as regras, o presidente da Assembleia da República recebe a dita pen (onde caberiam 500 OE em papel).

Uma repórter queixa-se de que agora, com as máscaras, não se ouve o que dizem as duas figuras. Hão de dizer coisas importantes, do tipo ‘boa noite, como está?’ e outras frases de circunstância. O motivo pelo qual o OE é sempre entregue de noite, não sendo por uma causa semelhante à da passagem do Ano ter de ser à meia-noite, é também incompreensível, mas é assim há muito tempo e – honra seja feita ao Dr. Leão – desta vez até foi bastante (cerca de duas horas) mais cedo.

O Orçamento está, pois, no hemiciclo à espera de aprovação. É um documento feito num tempo em que não se sabe o que se vai passar até ao fim do mês, quanto mais em 2021… mas tem de ser. É um documento que há de estar cheio de erros de previsão, de tal modo que o próprio primeiro-ministro, António Costa –cujo nome do meio foi ‘o que não precisa de Orçamentos retificativos, como os outros’ -, já admitiu que talvez tenha de recorrer a essa possibilidade que a lei e a tradição lhe abrem, que é a de alterar o que entrega agora para outra coisa diferente no decurso da execução da lei orçamental.

O OE, como aqui escrevi na semana passada, é o que pode ser; depois inclui-se uma série de coisas que não poderiam ser, mas que a chamada esquerda exige que sejam.

Como todos sabem, neste jogo de taberna (que, por um engano de que me penitencio, ia chamando florentino), o facto de se exigir não interessa nada. Porque a realidade acaba por se impor e promessas, compromissos e essas coisas ficam sempre adiados para segundas núpcias, sabendo-se que isto de casamentos também anda mal; não só porque a instituição já estava em crise, mas porque a pandemia também não os permite com convidados e testemunhas que se vejam. Ora, a menos que o PS e o seu líder e dirigentes dessem cabo disto tudo de uma vez, tudo o que se discute são trocos e meras expressões ideológicas. Veja-se a TAP... Emprego para menos 1600 e a nossa esquerda calada.

A pandemia é, aliás, um tema de que o BE gosta muito. Grita “ai, ai, ai”, diz frases grandiloquentes sobre hospitais do tipo “Não podemos ter privados a fazer o que lhes apetece” e depois age como se vivêssemos num mundo normal e, para mais, cheio de dinheiro.

As negociações da esquerda apresentam-se como uma espécie de brincadeira vergonhosa. Vergonhosa, porque se passa num tempo, que é este, de angústia, incerteza e urgência social; brincadeira, porque sabe-se no que resulta (o OE vai passar) e, sobretudo, que os efeitos pretendidos com estas encenações é uma espécie de concurso de quem perde e ganha. Nesse aspeto, há que dizê-lo, o PCP e o PAN demonstram muito mais responsabilidade do que o Bloco e os seus acólitos. Pergunto-me por que motivo tem um partido com 10% de votos tanta influência mediática e política. Eu sei que não é de agora, mas tem vindo a piorar.

A própria Comunicação Social poderia – e deveria – levar em conta o aspeto tetricamente lúdico deste jogo, e não lhe dispensar as toneladas de páginas (quase tantas quantas tinha um OE dos velhos tempos) que lhe dedica.

Não há, de facto, paciência. Ver o tempo, a energia e o dinheiro gasto com estes jogos infantis.

PS – A propósito do constante repúdio do racismo, da violência e do fascismo, registo que a decapitação, à faca, do professor de História e Geografia Samuel Paty, a 200 metros da sua própria escola, nos arredores de Paris, não mobiliza assim tantas consciências. Numa aula sobre tolerância e liberdade, Samuel tinha mostrado algumas caricaturas de Maomé para explicar a intolerância. Foi dela vítima. A vida em liberdade importa? White lives matter?

Henrique Monteiro, Expresso, 21 de outubro de 2020


sábado, 17 de outubro de 2020

UM CÃO A DANÇAR NA CHUVA


Ontem fiquei feliz a ver um cão dançar na chuva. Sei que o meu ontem não é o vosso ontem, mas ontem é um conceito elástico e sendo um e outro ontem diferentes, não passam do mesmo. O tempo covid está dissolvido na água dos dias iguais. Ontem, portanto. Era um vídeo do WhatsApp e o cão dançava ao som de ‘Singing in the Rain’, de Gene Kelly. Uma canção do tempo em que importávamos felicidade da América. O cão saltava e parecia brincar com as gotas de chuva grossa num bailado de felicidade e liberdade. Felicidade é o que nos falta, tornou-se um bem proibido. Não podemos consumir um instante de alegria sem que venha a suspeita. Não podemos abraçar os pais e os filhos, não podemos abraçar os amigos, beijar os amantes, ou ter amantes, não podemos, nas palavras melífluas e orwellianas dos vigilantes, confraternizar. Nem com a família. Nem beber álcool fora de horas. Nem dançar na chuva ao som de uma canção. A polícia pode pensar que nos embriagámos. Deixem-se disso. Talvez pela mesma razão que um cão a dançar na chuva nos emociona, as prédicas de mestre-escola têm efeito por causa do grau de infantilização a que estamos remetidos.

Quando digo nos emociona, no plural, em vez de me emociona, sei o que digo. Reenviei o cão a dançar na chuva a meia dúzia de amigos e todos expressaram, por palavras breves ou emojis, a sua alegria. Aquilo tinha-lhes feito bem. O emoji com dois corações no lugar dos olhos foi o mais utilizado. Estou a falar de adultos com vidas profissionais completas, uma educação superior, experiência de vida e o cinismo protetor que a acompanha. Quando passámos a utilizadores em vez de cidadãos, sendo utilizador o update de consumidor, passámos a usar as partes menos complexas do cérebro. Em vez de articular uma frase, grande trabalho, podemos usar uma careta amarela e engraçada e assim demonstrar as nossas emoções. Crianças, portanto. Crianças com signos simples e evidentes, mais fáceis de combinar do que um brinquedo da Lego.

Tudo foi simplificado para nos neutralizar, equalizando as emoções individuais num emoji coletivo, para normalizar no mínimo tempo e espaço disponíveis. Na sociedade em que vivemos, economizar tempo é mais importante do que economizar dinheiro, e quando nos sobra tempo podemos gastá-lo a colecionar mais cães a dançar na chuva, gatos furibundos e outros bonecos e vídeos das redes sociais, que têm uma hierarquia de popularidade. Em todo o caso, prefiro o cão feliz a dançar na chuva do que um sul-coreano a dançar gangnam, que foi outrora e durante um bater de pestanas o mais popular vídeo da internet. Visto por milhões, o selo da qualidade.

Infantilizámos. Passámos de ser uma sociedade europeia que privilegiava o pensamento e a racionalidade, a filosofia e a literatura, ou a literatura como filosofia moral, a uma sociedade de crianças grandes que brincam umas com as outras ou mutuamente se agridem com furor por coisas sem importância. A agressão tem como contrapartida a lisonja, propiciada por fotografias idiotas em pose e dando a ilusão da beleza e da viagem, ou do luxo e da intimidade, do erotismo empacotado. É um filme inofensivo de banalidades que nada acrescenta nem diminui, serve de sintoma da infantilização.

As sociedades ditatoriais são sociedades infantilizadas, onde as ordens são para cumprir e a opinião é censurada ou, como tudo o resto, relativizada ou neutralizada. A selfie não é perigosa. Nas sociedades asiáticas ditatoriais ou semidemocráticas, quase todas, as massas não têm o poder de contraditar os poderes, o partido, o rei, a nomenclatura, o politburo, a corte, os generais, a tradição, o costume, com todos os acessórios da ditadura tosca ou da ditadura centrada e inteligente. Nessas sociedades, como qualquer viagem num transporte público pode atestar, as pessoas veem bonecos no telemóvel o tempo todo. Manga, posts, fotografias, vídeos, desenhos ou grafismos de qualquer ordem. As massas consomem imagens, não consomem discursos, porque não os podem contraditar. Livros e filmes são censurados quando quebram um tabu nacional ou local. Talvez venha desta obediência o êxito destas sociedades no combate à pandemia. Do mesmo modo que se diz a uma criança cala-te e obedece porque sim, diz-se a um povo, faz o que te mando porque sim. Se aliarmos a este diktat a tecnologia e a riqueza e disponibilidade dos recursos, temos a receita para eliminar a covid sem danos. É isto ou o isolamento total, que estará condenado no dia em que se abrir a primeira janela para deixar entrar o ar fresco. Caso da Nova Zelândia.

No meio de mensagens vagas ou contraditórias, avançamos como crianças com medo do escuro. Nem ousamos perguntar se este modo de abordar a pandemia será o certo, o racional, o útil e o eficaz. Os governos comportam-se como crianças caprichosas e assustadas, decretando quarentenas, novas regras e confinamentos de um dia para o outro, destruindo indústrias e milhões de empregos, assustando as pessoas e usando a esmo profissionais e peritos, alguns de última hora e mais peritos do que seria desejável, quase todos com ameaças e profecias de charlatães. Salva-se meia dúzia. No escuro, jaz o vírus e aquilo que não nos é dito. Como são tratadas as pessoas no hospital? Qual o perfil dos internados e dos mortos? Quais os medicamentos que estão a ser usados? Quantos recuperados estão doentes e com sequelas? Como mata e quanto debilita o vírus, ao certo? A estatística não cobre as nossas dúvidas, mas a estatística diz-nos que uma pequeníssima percentagem de pessoas morre. O que interessa é saber como e quanto se recupera. É das sequelas que as pessoas têm medo. E sobre isso sabemos pouco. E quantos mortos continuam a fazer as doenças do costume, aquelas de que ninguém fala e que não estão a ser tratadas? Mais. Muito mais.

As dúvidas são legítimas porque já nos foi dito tudo e o seu contrário. Desde as máscaras não serem úteis e serem perigosas à obrigatoriedade de máscaras na rua e ao vento.

Infantilizados, coagidos, aprisionados em regras que não entendemos, aterrorizados por mensagens e contagens, abdicámos de pensar pela nossa cabeça. Estamos proibidos não apenas de fazer o que queremos, estamos proibidos de pensar o que queremos porque nada sabemos. Eles é que sabem. E cenas como as de Trump, a criança mal-comportada que contamina com o vírus da estupidez tudo o que toca, não ajudam à clareza.

Quando sairmos deste pesadelo, e este quando é opcional, estaremos mais tristes, mais irritados, mais agressivos, mais violentos, muito mais doentes do que quando entrámos. E infinitamente mais pobres. E talvez um dia possamos perceber como é que um cão a dançar na chuva se tornou na nossa alegria.

Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa, Revista do Expresso, 17 de outubro de 2020

  



terça-feira, 29 de setembro de 2020

Trump vs. Biden: o combate que pode mudar o mundo


 

A conspiração contra a América é um dos mais deliciosos romances de Philip Roth. Num exercício de história contrafactual, o autor escreve sobre como seria o mundo se nas eleições presidenciais de 1940 o aviador e herói norte-americano Charles Lindbergh tivesse concorrido contra Franklin D. Roosevelt e ganho, tornando-se Presidente dos EUA. Conhecido pela oposição à entrada do seu país na Segunda Guerra Mundial e até por ter alguma simpatia pela Alemanha nazi, Lindbergh faz a paz com Adolf Hitler, abrindo assim caminho para a hegemonia internacional alemã. A vida do protagonista, o jovem Philip, e da sua família judia nunca mais foi a mesma. E o mundo também não.

 Com as devidas diferenças, nas eleições presidenciais do próximo dia 3 de novembro vamos ficar a saber se um certo mundo acabou de vez, ou se, como muitos aspiram, é possível regressar ao passado, ou se, ganhe quem ganhar, tudo já tinha começado a acabar muito antes. O debate televisivo entre Donald Trump e Joe Biden pode trazer-nos as primeiras respostas numa campanha que está muito renhida.

Comecemos pelo que não muda. Se é que alguma vez existiu verdadeiramente, a ordem internacional liberal só foi possível durante o curto período de vida da unipolaridade, entre o fim da Guerra Fria e a década de 2010, anos em que a potência unipolar – os Estados Unidos – era liberal. Quando acabou a unipolaridade norte-americana chegou ao fim a ordem internacional liberal. Trump foi uma consequência tardia disso e não a sua causa. Por mais sonhos kantianos que possa ter Biden (e talvez não tenha), se vencer as eleições tem de se conformar com esta realidade da estrutura de distribuição de poder internacional. Ainda para mais quando as outras grandes potências – China e Rússia – são iliberais.

Também não muda a perda de relevância da Europa para os EUA. Ela começou em 1989, com a queda do muro de Berlim, que “caiu para os dois lados”. O fim da dupla ameaça da URSS e do comunismo levou ao termo da longa orientação estratégica “A Europa Primeiro”, definida por Roosevelt em 1941, tendo mesmo chegado a escrever-se na altura que “se a NATO não existisse já, a América não tinha interesse em criá-la”. A ascensão da Ásia, em geral, e da China, em particular, fez o resto, deslocando o centro de gravidade das relações internacionais do espaço euro-atlântico para o asiático, movimento tectónico acompanhado pelos Estados Unidos.

Decorre do ponto anterior a terceira persistência. Ganhe quem ganhar, o rebalanceamento para a Ásia vai continuar e a contenção da ascensão da China permanecerá de longe a grande prioridade dos EUA. Donald Trump e Joe Biden concorrem para ver quem é mais anti-chinês, quem fala mais grosso a Xi Jinping, o que, de resto, tem cada vez mais tradução nas respetivas bases de apoio e entre a população norte-americana em geral. A guerra sem exércitos (pelo menos para já) entre Washington e Pequim veio para ficar nas próximas décadas.

A noção destas continuidades estruturais, muitas vezes esquecidas, não pode levar-nos a subestimar o que está em jogo a 3 de novembro. Em vários domínios, esse dia pode mudar mesmo as nossas vidas. 

O primeiro domínio é do quadro intelectual da política externa norte-americana. Aqui, Trump representa uma rutura com a tradição do país desde 1945 e Biden uma continuidade. O primeiro é antimultilateralista, nacionalista, protecionista, desconfiado das organizações internacionais e defensor das “coligações de vontade” em detrimento das “alianças permanentes”. O segundo é multilateralista, internacionalista, defensor do comércio livre, das organizações internacionais e das “alianças permanentes”, sendo estas últimas, que pretende reforçar, mesmo uma das traves mestras da sua orientação estratégica.

O segundo é moral, ou normativo. Para Donald Trump a política internacional (como a vida em geral) consiste em relações de puro poder, sendo este um fim em si mesmo e medido exclusivamente pela capacidade militar dos países, pelo que as relações privilegiadas dos Estados Unidos têm de ser com as outras principais potências e não com quem partilha os mesmos valores da América. Joe Biden inscreve-se na linha dos defensores de uma legitimidade especial das democracias liberais nas relações internacionais, preferindo por isso os vínculos com os aliados democráticos, falando mesmo de uma espécie de união das democracias.

Na Europa, para lá da retórica, as diferenças são quantitativamente menores do que se possa pensar, mas significam uma enorme mudança. Na atitude relativamente à União Europeia, que Trump, desvalorizando a importância da dimensão geopolítica, vê sobretudo como uma adversária comercial, logo é para dividir e enfraquecer, enquanto Biden considera-a uma das mais importantes aliadas do mundo. Em parte por isto, o primeiro apoia o Brexit, parecendo ter preferência que ele se faça sem acordo, já o segundo avisou que, ou Londres se entende com a UE, ou não há acordo comercial EUA-Reino Unido. Quanto à NATO, a questão coloca-se sobretudo ao nível da confiança do compromisso de Washington com o artigo 5º, o que não é pouca coisa.

Depois vem a relação com a Rússia. A política externa dos Estados Unidos aqui será muito diferente caso ganhe Donald Trump ou Joe Biden. O primeiro, vê a ascensão da China como a grande ameaça aos EUA e quer aproximar-se da Rússia para partir a “quase aliança” sino-russa. O segundo, vê Pequim e Moscovo como duas grandes ameaças e tem defendido uma política agressiva em relação a ambas. Do ponto de vista estrito do interesse nacional, Trump está mais certo do que Biden. Numa balança tripolar América-China-Rússia, os norte-americanos têm de estar mais próximos dos russos do que os chineses. É um clássico das relações internacionais: a forma de travar a potência em ascensão é partir as suas alianças, fazendo, em paralelo, contra-alianças.

Quanto ao Médio Oriente os candidatos nem parecem viver no mesmo planeta. Desde logo, no que diz respeito ao Irão. Para Donald Trump este é o grande desestabilizador regional e tem de ser travado por via de uma estratégia de confrontação, só aceitando voltar ao acordo nuclear depois de sinais concretos de moderação de Teerão (e em termos muito diferentes do acordado em 2015). Joe Biden quer voltar ao JCPOA, o que, embora não seja dito de forma clara, tem de ser entendido no quadro de uma linha de apaziguamento do Irão. Depois há a Arábia Saudita, com o atual presidente a ser um dos mais pró-sauditas desde a fundação do Reino e o candidato democrata um dos mais anti-sauditas. Para o primeiro, Riade é, juntamente com Israel, a aliada predileta. Para o segundo, ela quase parece a adversária.

Finalmente, para referir apenas alguns domínios fundamentais, temos os grandes acordos multilaterais, seja no campo económico, seja ambiental, seja geopolítico. Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, da Parceria Transpacífico (TPP), da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e do já referido acordo nuclear iraniano (para não falar da revisão do NAFTA, da saída de agências da ONU, como a OMS, etc). Biden promete voltar a todos, mesmo que alguns com diferenças em relação ao passado.

São, de facto, dois mundos muito diferentes, mesmo que não tanto quanto os de Lindbergh e de Roosevelt. Cabe agora aos norte-americanos escolher em qual preferem viver.

Tiago Moreira de Sá, Público, 29 de setembro de 2020

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Obrigado aos jovens


Há quase 15 dias fiz, no Eixo do Mal, uma pergunta que sabia brutal. Avisei previamente que o seria. De tal forma que me custa verbalizar a resposta: “é justo sacrificar o futuro de uma geração para termos mais anos de vida noutra?” A pergunta parece tratar como descartáveis as vidas dos mais velhos. Quem me lê aqui sabe que estou a léguas desse tipo de raciocínio. Esse é, aliás, um dos meus maiores choques culturais com o pragmatismo demolidor do norte da Europa. Mas se a pergunta tem, como têm todas as que lidam com a vida e com a morte para lá da comoção, qualquer coisa de insensível, não a fazer não terá menos.

O que discuto é se estamos disponíveis para fazer o que sempre fizemos e permitiu a sobrevivência da espécie: os sacrifícios indispensáveis para a preservação e superação das nossas capacidades pelas gerações que nos seguem. Só um egoísmo e suicida para a espécie nos poderia levar a abandonar esta quase instintiva pulsão. Felizmente, o desenvolvimento permitiu que esse esforço não se fizesse de forma cruel. Mas ele não se extinguiu.

Sempre que se fala de tudo o que temos exigido a crianças, adolescentes e jovens a apaziguadora convicção que observo é que eles têm, ao contrário de nós, uma vida toda para recuperar o tempo perdido. É exatamente ao contrário. Nunca se recupera do que se perde na infância e na fase mais estruturante daquilo que depois seremos. Ao contrário do que acontece na vida adulta, onde o tempo é só tempo. O que eles estão a perder, e será tão trágico quanto mais novos forem e mais tempo durar, é o momento certo para aprender. É o ritmo certo para crescer. São os amores que não terão, a aprendizagem afetiva e sexual que se adia, a socialização indispensável para se formarem como seres humanos que se atenua. Tantas e tantas coisas que acontecem tão depressa que um ano deles é a uma década na minha idade. Eles perdem grande parte do que nos permitiu ser quem somos. O que quer dizer que perdem o que nós já temos.

Vamos assumir o que nos custa dizer-lhes: o risco que eles correm nesta pandemia é baixíssimo. Até aos 29 anos a taxa de letalidade, em Portugal, não anda longe dos 0%. Cerca de 2% dos infetados na casa dos 60 acabam por morrer e esse número salta para os 17% acima dos 80 anos. Havendo riscos, eles são incomensuravelmente inferiores para as crianças e adolescentes do que para os mais velhos. O que quer dizer que lhes pedimos o sacrifício máximo (eles estão a perder mais do que nós) para fazer face a um risco mínimo (eles correm menos perigo do que nós). Esse pedido faz-se, e bem, em nome da solidariedade geracional. E é aqui que cito um texto do psicólogo e catedrático Leonel Garcia-Marques, que me levou a escrever este artigo. Não vale a pena fazer-vos qualquer resumo. É um texto curto e acessível. Devem ler. Escolho esta passagem:

“Devemos, mais do que tudo, sentirmo-nos gratos pela disponibilidade manifestada pela grande maioria dos jovens para nos proteger, colocando a sua disponibilidade em destaque, em paralelo com a dos outros heróis da pandemia, os profissionais de saúde e todos os outros trabalhadores que impedem que a sociedade entre em colapso. (...) Se o desconfinamento mais lento acarreta riscos especiais para os jovens (e para a sociedade futura) no que concerne a ultrapassagem bem-sucedida das tarefas de desenvolvimento, nós, os menos jovens, estamos também numa situação de risco moral por, aparentemente, estarmos dispostos a expor os jovens (e futura sociedade de que farão parte) a esses riscos, sem a mínima hesitação.”

O dever moral que temos é, antes de tudo, o de não lhes mentir, levando-os a acreditar que fazem este sacrifício por eles e não por nós. Seria desonesto e sinal de ingratidão. E só lhes podemos pedir o indispensável para garantir a segurança dos mais velhos, mostrando-nos disponíveis para corrermos alguns riscos em nome do seu futuro.

Uma sociedade que não se sacrifica pelos velhos é falha de empatia. Uma sociedade que não se sacrifica pelos novos está condenada. Isto não tem dois lados da barricada e não há nada tão inútil e repetitivamente e passageiro como guerras de gerações. Desde que não nos esqueçamos de uma coisa: é por nós, não por eles, que lhes pedimos sacrifícios. Temos de lhes agradecer e dar o nosso melhor para os compensar pelo esforço.

Daniel Oliveira, Expresso, 22 de setembro de 2020

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tauromaquia: arte ou barbárie?




Começo por fazer uma confissão politicamente incorreta: sou aficionado. Não cresci num ambiente tauromáquico, nem tive ninguém próximo que me estimulasse o gosto pela matéria. Em miúdo, ficava fascinado por ver os programas e as corridas de touros na televisão, e estava sempre a pedir aos meus pais para ir às praças, para ver ao vivo e a cores o que só conhecia a preto e branco. Mais tarde, a partir da adolescência, comecei a juntar dinheiro para ir às principais feiras, conheci outros aficionados, estudei os fundamentos da tauromaquia, vivi de perto a sua realidade.

A minha adesão inicial à tauromaquia não se fez, pois, pelo argumento da tradição, muito menos pelo da razão, mas sim pela via da emoção. A mesma emoção, admito que incompreensível para muitos, que tocou e toca gente comum como eu e, também, espíritos superiores como Goya, Hemingway ou Picasso. Mais do que erudita ou popular, a tauromaquia é transversal, teve adeptos entre camponeses e marqueses, e hoje é seguida por gente de esquerda e de direita, ricos e pobres. E esta é uma das suas grandes riquezas: a de conseguir, nem que seja por momentos, a unanimidade de uma vasta diversidade.

A tauromaquia não é, claro, uma atividade asséptica. Implica emoção, risco e sofrimento. Mas está longe de ser a barbárie que os antitaurinos procuram fazer crer. Há quase 40 anos que acompanho o fenómeno tauromáquico. Estou convicto que ninguém vai para uma praça a esfregar as mãos, e a pensar em assistir a uma tarde de tortura. Os aficionados focam-se no comportamento do touro, e na forma com o toureiro, a pé ou a cavalo, procura encontrar soluções para contornar os desafios colocados por um animal poderoso, de forma a fazer parecer fácil algo que é tremendamente difícil. Para mim, é neste ponto que reside parte da emoção: a capacidade humana de suspender os seus medos e superá-los com estética e valentia.

Esta narrativa não pretende, porém, ignorar os argumentos dos que contestam a preservação dos espetáculos tauromáquicos. Aceito que muitos, sobretudo os que nunca tiveram contacto com a realidade tauromáquica, considerem o que acima escrevi um absurdo. A diferença entre um aficionado e um antitaurino, é que o primeiro encontra arte na tauromaquia, enquanto o segundo só vê barbárie. São dois pontos de vista igualmente respeitáveis, mas seria importante que fossem vincados com verdadeiro conhecimento de causa.

Objetivamente, o touro é posto à prova na arena. Mas este estado não pode ser interpretado de uma perspetiva antropocêntrica. Aliás, numa visão estritamente utilitária e asséptica, não faz hoje sentido qualquer relação entre o ser humano e os animais fora de um enquadramento de estrita liberdade: os cavalos já não são necessários enquanto meio de trabalho e transporte, e a companhia de animais domésticos não passa de capricho dos humanos. Também, sob um ponto de vista unicamente racional, não é lógico optar por carne mirandesa quando outras têm características nutricionais semelhantes. Nesta abordagem, tanto a equitação, quanto a escolha da carne, são prazeres humanos que implicam a exploração imoral de animais. Felizmente, a vida ainda não se pauta por critérios estritamente utilitários ou racionais, e a equitação continua a existir, assim como a possibilidade de optarmos por uns secretos de porco ibérico, ou por uma posta mirandesa. Como em tudo, é preciso bom senso e equilíbrio. Rejeitar toda a espécie de maus tratos ou violência gratuita sobre animais, mas saber separar o trigo do joio, e não confundir realidades.

Esta semana, Inês Sousa Real, líder parlamentar do PAN participou num debate com Miguel Sousa Tavares a propósito dos projetos de lei que hoje vão a debate no parlamento, e que pretendem por fim ao financiamento público das atividades tauromáquicas. Sobre estes, duas notas. A primeira, é sobre a quantidade dos projetos, baseados genericamente nas mesmas considerações e propondo a mesma medida. Dá ideia de que PEV, BE, PAN e a deputada não inscrita Cristina Rodrigues, não estiveram disponíveis para, simplesmente, considerar uma única iniciativa, e quiseram antes marcar pontos políticos com a matéria. A segunda, é a nula presença autárquica destes partidos. Descontando o PEV, que não se percebe o que é, mas que aproveita estes temas para fazer prova de vida, tanto BE quanto PAN são partidos urbanos, que nada conhecem para além das áreas metropolitanas das grandes cidades. Só assim se pode propor uma lei que impossibilita as autarquias de apoiarem festas e manifestações que fazem parte do património cultural e da sociabilidade de muitas localidades.

Não é, pois, de estranhar que, no referido debate, a líder parlamentar do PAN tenha referido uma sondagem que indica que a maioria dos lisboetas são contra a tauromaquia. Isto diz muito. Inês Sousa Real suporta o seu argumento com a opinião dos lisboetas. E que tal preocupar-se com a opinião de alentejanos, ribatejanos ou terceirenses? As decisões sobre estas matérias não devem basear-se na opinião de um mundo urbano politicamente correto que não conhece, ou não quer conhecer, o Portugal que se estende para além das suas muralhas.

Durante o debate, Inês Sousa Real defendeu que, caso as atividades tauromáquicas acabassem, os touros bravos poderiam continuar a existir, e ser visitados em “safaris” (!). Seria de facto boa ideia que todos os que se opõem à tauromaquia fizessem um “safari” pelo mundo rural. Ajudava-os a perceberem melhor as suas particularidades e a sua cultura, e o muito que distingue a tauromaquia da simples barbárie, o que é impossível de explicar em poucos parágrafos. Porque este tema não pode ser discutido nem percebido à luz de abstrações racionalistas e politicamente corretas, só depois de se conhecer a realidade tauromáquica que está para além da praça de touros é que se poderá decidir, com conhecimento de causa, se esta é de facto um fenómeno cultural, ou então um simples ato de tortura.

LOURENÇO PEREIRA COUTINHO

sábado, 15 de agosto de 2020

PSD não exclui alianças com o Chega no pós-autárquicas

 

A direção de Rui Rio mandou às distritais as regras para as próximas autárquicas: com o CDS, as conversas terão campo aberto, mas ideias de coligações com outros partidos terão de ser vistos na São Caetano. No e-mail que seguiu para o aparelho, não há referências ao Chega, mas o secretário-geral garante que há uma exceção: “Não haverá coligações pré-eleitorais com o Chega”, diz ao Expresso José Silvano. Porém, a regra só vale para antes das autárquicas de 2021. O depois é assunto que se verá adiante: “Falta um ano. Se houver uma política de coligações pós-autárquicas, ela também dependerá do que acontecer até lá.”

José Silvano até acha que a questão não se colocará (“não vejo nenhum sítio onde possam ser decisivos”), mas no aparelho do próprio PSD há quem discorde. E até quem veja vantagens em procurar alianças prévias com o partido de André Ventura: “Depende do concelho, à partida não vejo inconveniente, não excluo”, assume o líder da distrital de Lisboa, Ângelo Pereira. Contexto: a área da Grande Lisboa foi onde André Ventura teve mais votos nas legislativas de 2019, e Loures foi onde há quatro anos se lançou, ainda pela mão do PSD. Agora, Ventura tem outro palco e outro partido. Crescerá? “Acho que em Sintra, Loures e Amadora poderá fazer alguma mossa”, acrescenta o homem que vai escolher os candidatos (e coligações) locais do PSD na região.

Falta um ano para as autárquicas, mas há mais quem, no PSD, pressinta o partido de Ventura a crescer. No distrito de Beja, Beja e Moura são dois desses concelhos, admite o líder distrital Gonçalo Henrique. Em Évora, a líder Sónia Ramos receia o mesmo: “O Chega pode tirar algumas centenas de votos ao centro-direita. Pode não parecer muito, mas no Alentejo às vezes é suficiente para ganhar ou não uma Junta.” Um pouco por toda a região, as descrições feitas ao Expresso são idênticas: militantes a fugir (“alguns pouco recomendáveis”, diz uma das fontes), e até dificuldade em ter nomes suficientes para preencher algumas as listas de candidatos.

Na última reunião com as distritais antes de férias, diz o secretário-geral de Rio, responsável pela operação autárquicas, “curiosamente foram os dirigentes do Alentejo que mostraram maior preocupação” com a subida do Chega. “Mas no resto do país o partido não encontrou grandes estruturas”, acredita Silvano. Certo é que, no PSD, já ninguém desvaloriza Ventura. E todos, até na direção, assumem esperar para ver o que vai acontecer já em janeiro, todos com a mesma expectativa: “Nas presidenciais pode atingir o seu máximo”, admite Silvano, acreditando que nas autárquicas, sem outras caras conhecidas, o Chega perca força.

NÃO EXCLUIR NÃO É APROXIMAR

Em Beja, porém, Gonçalo Henrique não se mostra tão certo: também acha que o Chega pode ganhar força nas presidenciais (“há muita gente à direita descontente com Marcelo”), mas, acrescenta, “as autárquicas podem mudar muita coisa”. Até pela crise económica, “2021 pode ser um ano com alterações muito drásticas”, acrescenta. Em Lisboa, Ângelo Pereira põe-se a meio caminho: “Ouço muitas pessoas a dizer isso: ‘vou votar no Chega’. Mas não acredito, só o logótipo não chega. Antes das legislativas, muitos diziam que não iam votar nele e depois votaram”.

Certo, portanto, é que o PSD está de olho em Ventura, medindo o crescimento e profundamente dividido sobre se deve ou não abrir a porta a um diálogo. “Rui Rio não excluiu totalmente, mas não foi por estar em aproximação”, garante Silvano, mesmo depois de dirigentes como Miguel Albuquerque, na Madeira, terem defendido essa união total à direita — e de já ter permitido reuniões entre as estruturas dos dois partidos, segundo a “Sábado” desta semana. Neste caminho, o aparelho divide-se: “Tenho lido atentamente o programa do Chega. Quer abolir o SNS, não percebe que assim as pessoas ficam à margem. Não podemos criar um motim social”, diz ao Expresso Sónia Ramos.

Para já, na São Caetano, a ordem é para esperar, ver os resultados das presidenciais e medir Ventura. Em setembro, depois das férias, Silvano fará nova reunião com as distritais, para começar a avaliar nomes de candidatos às autárquicas. Pelo meio, será assinado um acordo com o CDS (que o PSD vê muito frágil). E até março serão feitas as escolhas dos candidatos. Se chega, em outubro de 2021 se verá.

David Dinis, Expresso, 15 de agosto de 2020


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Juan Carlos e o retrato da monarquia

Os chineses têm uma teoria a que chamam de ciclos dinásticos. Simplificadamente, reza assim: o imperador que estabelece a dinastia é capaz e virtuoso e melhora a vida dos súbditos. Geralmente é um imperador guerreiro (esmaga militarmente a dinastia cessante), sucedido por um filho erudito, mais preocupado com as artes e a burocracia governativa, igualmente virtuoso e, nos termos confucianos, um homem nobre (de carácter). Porém, com o passar das gerações, os imperadores vão amolecendo, ganhando gosto pela boa vida do palácio e das concubinas, secundarizando o governo do império. Até que se tornam tão viciados que as catástrofes começam a acontecer. As obras de irrigação degradam-se por falta de manutenção, resultando em cheias ou secas, ambas destruindo colheitas e gerando fome. Terramotos também marcam presença, sinalizando que a dinastia perdeu o Mandato do Céu. Os súbditos podem sentir-se legitimados em substituí-la por outra dinastia.

Mas há dinastias mais pragmáticas. Chegam ao estado de decadência moral mais rapidamente. No caso espanhol, num só reinado. O rei Juan Carlos passou de garante da transição espanhola do franquismo para a democracia, e uma das figuras que fez abortar o golpe fascista de 23 de fevereiro, para um agente investigado por corrupção. Estabelecendo a fortuna familiar (até aí inexistente), suspeita-se, através de tráficos de influências pelos quais foi magnificamente pago. De personalidade incontestada e venerada em Espanha – muitos diziam-se não monárquicos mas juancarlistas –, ganhou reputação de vulgar vendilhão e corrupto. Esta semana exilou-se para não perigar a monarquia espanhola deixando-se avistar por Espanha.

Em boa verdade, nada do que Juan Carlos fez foi novidade nos círculos reais. Podemos dizer que seguiu uma tradição bem estabelecida das famílias reais de se enriquecerem, e aos seus, fazendo uso do poder político que detinham. O azar de Juan Carlos foi viver numa era em que o método de amealhar dos seus antecessores é malvisto.

Em todo o caso, a família real espanhola é um ótimo exemplo de como a suposta probidade moral da monarquia – que a justifica, em oposição à necessidade de compromissos políticos e, tantas vezes, éticos de quem precisa de ganhar eleições – é ilusória. A filha mais nova de Juan Carlos escapou a acusações e julgamentos (provavelmente por benevolência e respeito pela sua posição), no entanto o marido cumpre pena de prisão.

Não espanta. Olha-se para a História e uma das realidades mais salientes é a quantidade de patifórios, cobardes, incapazes (não raro em estádios de idiotia clínica) que as monarquias produziram. As questões do vil metal, de resto, são sempre determinantes para estas almas supostamente desligadas da materialidade e somente preocupadas com conceitos etéreos como o dever e a dignidade do país. Vejamos um episódio que envolveu Portugal. Eduardo VIII, em fuga dos nazis que ocuparam Paris e temporariamente em Cascais, enquanto pesava deixar-se raptar pelos alemães (com quem simpatizava e que lhe guardaram com enlevo a casa parisiense) para servir de marionete aos inimigos dos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial ou chantagear a sua família para o receberem de volta em Inglaterra, decidiu manter-se afastado do seu país pela razão mais prosaica: um enviado de Churchill a Lisboa informou-o da quantidade de impostos que teria de pagar se regressasse.

O Rei Alberto II da Bélgica possuía tal retidão moral que se recusou aceitar a paternidade e a sustentar uma sua filha de uma ligação não conjugal. Foi obrigado ao reconhecimento por um teste de ADN, qual playboy sem escrúpulos. O príncipe André do Reino Unido participou no esquema de exploração sexual de adolescentes de Jeffrey Epstein. No lado oposto, é difícil apontar um caso de génio ou talento excecional nas casas reais. Nos exemplos mais virtuosos, que também existem, são personagens sensaboronas sensíveis ao sentido de dever.

Esta falta de têmpera é resultado da endogamia das casas reais que torna o sangue fraco, mas também da sensação de casta intocável, de distância incontestada dos mortais comuns que é promovida nas famílias reais. Na carta que Juan Carlos escreveu ao filho, atual rei, informando-o de que iria residir fora de Espanha, refere investigações sobre a sua vida privada. Fazendo lembrar as desculpas dos corruptos mais escancarados, que igualmente se escudam nos dinheiros da sua vida privada para se esquivarem de dar explicações da forma como abusam da sua posição.

Juan Carlos e a família real espanhola – incluindo Filipe VI, conhecido por ser bem-parecido mas particularmente pouco brilhante – tornaram-se num exemplo da falibilidade da monarquia. Num país onde rei ou rainha poderiam trazer um efetivo benefício – sendo o tal símbolo unificador e de perenidade e estabilidade que se lhe aponta como razão de existência, o substituto de espírito nacional num país com várias línguas e regiões que em tempos passados se viam como inimigas e separadas –, Juan Carlos e a sua família falharam e expuseram a sua inutilidade.

O poder simbólico da monarquia já não é suficiente para manter em união aparentemente amistosa zonas que se querem separar. (A Catalunha acena-nos.) Questões como a integração económica das diferentes regiões ou a pertença à União Europeia e ao euro provavelmente pesam mais que partilharem o mesmo chefe de Estado hereditário. Vê-se o mesmo efeito na Escócia, com o “Brexit” incendiando os ímpetos independentistas, malgrado a rainha Isabel II.

Há tentativas das monarquias se modernizarem e humanizarem. Os casamentos românticos dos herdeiros dos tronos europeus com plebeias (e, no caso sueco, plebeu) atraentes, substituindo casamentos de conveniência por vidas familiares mais recompensadoras. Uma (pouco) maior parcimónia no uso do dinheiro dos impostos. Porém, permanece o paradoxo: se são uma família normal, não merecem privilégio hereditário; se são diferentes, então têm de ser incansavelmente perfeitos – e ninguém é.

Por muito que alguns membros das famílias reais se constituam interessantes espécimes da natureza humana, são falíveis, entediantes, egoístas, com defeitos de carácter – tal como os demais. Ora para termos chefes de Estado corruptos e imorais não é necessária a manutenção de riquezas e honrarias hereditárias. Com eleições e numa república, o consulado destas personagens é sempre temporário. É uma vantagem.

Maria João Marques, Público, 5 de agosto de 2020


domingo, 2 de agosto de 2020

“Protejam a cabeça, tudo para o chão.” A mulher que nos salvou do acidente no Alfa Pendular


André Rito é jornalista e escreve regularmente no Expresso. Aqui relata a forma como viveu por dentro o acidente ferroviário desta sexta-feira, no Alfa Pendular, na zona de Soure. "O meu lugar era o 27 da carruagem número quatro". A história do acidente desta sexta-feira contada na primeira pessoa.

Há pessoas admiráveis, capazes de manter a calma nas situações mais caóticas. Ontem, seguia na carruagem quatro do Alfa Pendular quando me apercebi desta mulher, talvez com menos de 30 anos, sentada dois lugares à minha frente. Minutos antes tínhamos passado num túnel e eu, que estava meio a dormitar, abri os olhos e reparei que seguíamos a 20km/h. Outro comboio cruzou-se no sentido inverso e o nosso recomeçou a ganhar velocidade.

Confesso que tive um pressentimento – na minha ignorância ferroviária perguntei-me como é que um comboio de alta velocidade tem de parar para outro passar. Recostei-me no banco sem tempo para reagir: sentiu-se uma travagem seguida de um enorme estrondo que abanou a carruagem. Todos os passageiros devem ter percebido que estávamos a ter um acidente, tal a poeira e os detritos que voavam do lado exterior das janelas. “Protejam a cabeça, tudo para o chão”, gritou então a mulher, sobrepondo-se ao pânico geral e ao choro das crianças assustadas.

Foi exatamente o que eu e o rapaz que seguia ao meu lado fizemos. Durante aqueles segundos, o ruído da composição desgovernada, as bagagens a cair e os gritos das pessoas fizeram-me temer o pior. E por mais lugar comum que isto possa parecer, aqueles segundos até o comboio se imobilizar foram eternos. “Está tudo bem, está tudo, já parou, salvámo-nos”, disse-me o rapaz que seguia ao meu lado. Na extremidade norte da nossa carruagem – que era a terceira, embora tivesse o número quatro – não havia comboio. Tinha desaparecido e o sol entrava.

O som do alarme, um bip bip constante, funcionou na minha cabeça como uma ordem de saída. Corri para essa ponta norte da carruagem, na esperança de encontrar uma saída, e encontrei um senhor perto dos 70 que tentava abrir a porta, sem sucesso. Disse-lhe para me acompanhar, que havia gente a tentar a outra saída. A mulher que nos mandara proteger a aconselhava “calma, calma”. Nesses breves instantes, atónitas, incrédulas, sem saber o que fazer, as pessoas tentavam pegar nos seus pertences.

Gritei que tínhamos de abandonar o comboio, arranquei o martelo para partir o vidro e procurei a janela por onde poderíamos sair, até que alguém descobriu uma escapatória na extremidade sul. Não sei quanto tempo passou, sei que foi preciso saltar dois metros para conseguir chegar à berma, numa zona de mato. Saí disparado para o lado norte, onde estavam a tentar tirar uma senhora que ficara encarcerada. Na confusão, vi peças de metal espalhadas, senti o cheiro a queimado e a gasóleo, e vi a parte de baixo do comboio, o ferro retorcido, líquidos a verterem para a linha.

Alguém gritou para seguirmos na direcção oposta. Corri até conseguir encontrar uma vedação que dava acesso à estrada. Uma senhora e o filho, moradores das primeiras casas, já desciam a rua com garrafas de água. “O senhor quer uma?”, perguntou-me o adolescente. Bebi de um gole, percebi que tinha sobrevivido, e voltei para trás. Uma mulher com a cara ensanguentada tentava equilibrar-se carregada com uma geleira nos dois braços, ao longo da berma. Disse-me que tinha apenas escoriações e pediu-me para ter cuidado: a geleira estava cheia de água, com peixes vivos.

Fomos até à primeira ambulância – o socorro foi praticamente imediato – onde reconheci outro passageiro que tinha visto dentro do comboio. Perguntei-lhe se estava bem e ele retirou o pano com que cobria a boca: o lábio descaiu devido a um profundo corte que lhe rasgara metade da cara. Ainda consegui consertar a pega da geleira e fechar a tampa. Era tudo o que aquela mulher queria, salvar os seus peixes. Voltei para trás para ajudar quem estava na enorme fila, gente carregada de malas, um idoso em cadeira de rodas a ser transportado por vários passageiros, pessoas feridas, roupas com sangue.

Ninguém se prepara para um acidente de comboio, de avião ou para um naufrágio de um barco. A verdade é que a assistência – bombeiros, ambulâncias, populares da região – chegou rapidamente. Não foi preciso sequer meia hora para que a Câmara Municipal de Soure chegasse ao local, com paletes de garrafas de água, e, pouco depois, os autocarros que transportaram os feridos ligeiros para o pavilhão multiusos, transformado em hospital de campanha. Aí encontrei o rapaz que seguia ao meu lado – que estava bem – a família de estrangeiros com uma criança, uma adolescente que estava na minha fila.

Não voltei a encontrar a mulher que nos dera o melhor conselho que alguém poderia dar naqueles momentos de pânico. Gostava de lhe ter agradecido a coragem e calma que conseguiu transmitir à nossa carruagem, que estava praticamente cheia. Sei que ficou bem porque há pessoas que sobrevivem nem que seja para salvar os outros. Hoje, 24 horas depois, ainda oiço aquelas palavras. Nem sei se algum dia as esquecerei.

Médicos, bombeiros, protecção civil foram abordando cada um dos passageiros. Senti o olhar perdido de quase todos, sem saber muito bem o que fazer, às mãos de médicos, psicólogos e técnicos inexcedíveis. Não fiquei ferido, tive apenas algumas mazelas nas costas devido ao impacto, e fiquei por ali à espera que o meu pai chegasse de Braga, o meu destino final. Era a primeira vez que ia a casa desde a pandemia. Algumas horas depois, à porta do pavilhão, de máscara na cara, lá encontrei o meu pai que não via desde janeiro. Tirou a máscara e correu para mim: “vou ter de te dar um abraço”. Nunca o vejo chorar. Ontem vi.

 



terça-feira, 30 de junho de 2020

Elogio do encontro sobre a montanha da raiva



A utilização excessiva de certas palavras, a sua repetição à exaustão, gastam-nas, e esta erosão coloca-as num mercado de apropriação em que elas funcionam pela parte, não pelo todo. É o caso da palavra “vergonha”. A extrema-direita tem usado e abusado da palavra “vergonha”. O seu uso e abuso reduz o estatuto pleno da mesma. Hoje, é com precaução que se pode dizer “isto é uma vergonha” ou “já chega”. Apesar de serem expressões de uso quotidiano, foram sequestradas por um discurso de ódio como bandeiras. Este sequestro transformou-se quase numa forma de propriedade. As palavras foram possuídas, encarceradas, gerou-se quase um muro em torno, colocou-se uma matilha a vigiá-las, elas próprias tornaram-se monstruosas e temos quase medo de as usar, podem morder.

Ou, por exemplo, nas mãos de radicais de esquerda orientados para o problema da segregação racial, dizer “branco”, dizer “preto”. São palavras reduzidas a pedras rugosas, atiradas como balas de armas calibradas para ferir, para matar, como as balas e as armas que feriram e mataram por uso excessivo da força, por critérios rácicos, por estupidez.

A diminuição da polissemia de vários substantivos e adjetivos, a teimosa determinação de lhes dar um só sentido – aquele que convém à ira e a todas as consequências associadas – é um problema crescente, uma ameaça efetiva às democracias.

Vivemos em tensão. A pandemia gerou distúrbios comportamentais face ao confinamento, ao temor da doença e da possibilidade de morte que se lhe associa. Estes distúrbios, por vezes provocando ou aumentando a doença mental, potenciam atos desviantes. Também a agressividade no espaço público tem uma expressão ampliada, na circunstância que vivemos.

Os protestos no espaço público – sejam ruas ou praças, sejam ecrãs de computadores e portáteis –usam as “palavras de ordem”, como elementos mobilizadores: palavras e frases indutoras de pensamento, de emoção. Agentes provocatórios que são palavras-ato, pontes entre enunciar e agir. A violência sobre as palavras e a violência das palavras tornam-se elementos chave da ação política, das operações de curto, médio e longo prazo sobre os modelos de sociedade, por aquilo que dizem, que não dizem, que suscitam, que provocam.

As dinâmicas de protesto atuais, se propulsadas por um estado de enervamento face à condição de ameaça permanente que vivemos, não se explicam só por ela. O descontentamento com certos modos de vida, a propagação dos extremismos de direita e de esquerda no Ocidente, o aumento da repressão na China e a erosão da democracia nos Estados Unidos, a escalada global do fundamentalismo religioso, a crise dos refugiados, as guerras do Próximo Oriente ou de África, as crises alimentares, a crise ambiental e a sustentabilidade da economia de consumo, a excessiva concentração de riqueza e os monopólios, são situações complexas – anteriores à pandemia – e que com esta se tornaram avatares cobertos por estranho véu.

Em todo o mundo, aumentam os movimentos de protesto. Ao longo da história do século XX, foram movimentos de protesto como os que Mahatma Gandhi liderou na Índia, Martin Luther King nos Estados Unidos ou Nelson Mandela na África do Sul que promoveram mudanças decisivas nos respetivos países. Em diferentes escalas, há movimentos de protesto que contribuem para melhorar a condição de vida dos cidadãos, para melhorar representações da História e a situação de minorias ou partes mais desprotegidas da sociedade.

Hoje, há diversos movimentos genuínos de protesto que sofrem muitos tipos de infiltrações, tendo a manipulação das mensagens um papel determinante: os movimentos de protesto do século XXI têm padrões de comunicação e propagação discursiva diferentes dos do século XX, podendo, facilmente, ser desviados por agentes que procuram obter resultados muito diferentes dos que estes pretendem.

Tanto na rua como no espaço digital, movimentos pacíficos de reivindicação são induzidos, através da linguagem, à agressividade e à violência gratuita.

A utilização manipuladora das palavras é elemento importante da estratégia de poder, usada por governos e por oposições e agora exponenciada por populismos de Estado e populismos de movimentos de vários setores do espetro político.

Como acontece no lugar em que o predador mata a presa e o abutre ou a hiena espreitam a sua oportunidade, também na selva urbana há animais que se alimentam da carne dos cidadãos. E o requinte da maldade humana supera largamente o exercício da Natureza.

Nos países ocidentais, concomitante às tendências de ampliação dos extremos é a existência da Polícia dos Novos Costumes e da Linguagem. A PNCL vigia-nos. Tanto posso levar com uma multa como com uma punição mais elevada pela utilização de dada palavra ou expressão.

A PNCL, como qualquer polícia política, só vê o que quer ver, só pune quem se lhe coloca no caminho, só combate quem não corresponde ao figurino do “novo cidadão”. Só o “novo cidadão” – puro, não conspurcado por comportamentos inferiores – pode ser membro de pleno direito da “nova sociedade”. Sim, os discursos das novas identidades, enquanto exigência de supremacia – sejam de direita ou de esquerda – são indícios de uma vontade de exclusão social que tende para a censura, intolerância, agressão. Exclusão que gera ressentimento. Que, ao gerar ressentimento, promove mobilizações antagónicas. Que, ao estimular o antagonismo, cria fratura e mobiliza a ira.

A tendência do reducionismo discursivo e da apropriação radical dos modos da linguagem oral e escrita merece um vivo repúdio. Este modo de totalitarismo não pode vencer. Que forma mais insidiosa de silêncio existe do que aquele que é auto-infligido, por medo ou temor reverencial?

Vivemos numa sociedade em crescente fratura. Uma sociedade que, cada vez menos, reconhece o direito ao pluralismo, que se fecha em redutos de intolerância.

Está em curso o enfraquecimento do sistema democrático, deste sistema onde é possível ter opinião livre, escolher governos, ter separação de poderes, livre concorrência.

O sentido dos discursos, das comunicações, das conversas, reduz-se drasticamente.

Novos e novas líderes, revestidos com a aura de autoridades morais, nóveis sacerdotes e sacerdotisas, determinam que quem não pensa como eles (ou como elas) obviamente são perigosos passadistas, conservadores, reacionários, que precisam de ser combatidos, marginalizados, excluídos. Estas atitudes enfraquecem as democracias.

Não tem de ser assim.

A tendência do reducionismo discursivo e da apropriação radical dos modos da linguagem oral e escrita merece um vivo repúdio. Este modo de totalitarismo não pode vencer. Que forma mais insidiosa de silêncio existe do que aquele que é auto-infligido, por medo ou temor reverencial?

A oralidade e a escrita têm a riqueza da pluralidade. São veículos privilegiados de encontro para corações abertos a aprender, a conhecer, a reconhecer. Corações disponíveis para amar, para se abrirem, para crescerem com a exposição à diferença. Os territórios das palavras são florestas, não são desertos. São riquezas de biodiversidade, temos de os defender das ações de apropriação exclusiva e da diminuição do seu sentido em ordem ao pensamento único.

Hoje, uma das guerras mais importantes a ser travada está no campo do discurso. Trata-se de defender o espaço de comunicação verbal, território plural face às investidas iradas que visam a devastação como ponto de partida para ordens autoritárias.

As democracias são territórios de encontro dentro da diversidade, em que nenhuma maioria ou minoria pode reivindicar o exclusivo do discurso legítimo.

Jorge Barreto Xavier, Público, 30 de Junho de 2020