sexta-feira, 24 de abril de 2020

Frases abriladas (3)

30º dia
«Quando parece esquecida a tragédia a que conduziram os nacionalismos e os monstros que lhe deram origem é bom recordar os afloramentos fascistas que, um pouco por todo o Mundo renascem. No caso português, urge lembrar que Salazar decretou três dias de luto nacional com bandeiras a meia haste, o único governante a fazê–lo na Europa.» Carlos Esperança

«Uma pessoa pensa que sabe tudo, que tem resposta para tudo, mas não sabe nada. Aparece a vida e baralha tudo, a resposta agora é pergunta, a pergunta é resposta. É por isso que ninguém consegue explicar como é que aqui chegámos, menos ainda para onde vamos. De nada vale dizer que “queremos a nossa vida de volta”. Todos nós já nos daríamos por satisfeito se soubéssemos que vida temos pela frente.» Jorge Araújo

 «Comparou-se mesmo esta (agora) pandemia à Peste Negra e à “gripe espanhola”, ou à cólera. Para outros, tratava-se de um castigo, não de Deus, mas da deusa Natureza, a mãe Gaia, já farta de ser agredida e que resolveu, como o Deus de Noé, farto dos pecados do Homem, castigar os seus filhos com um “dilúvio”, agora invisível.» Pedro Gomes Barbosa
  
«Também, a História demonstra-nos que, na maioria das vezes, os seus atores não têm consciência da transcendência do momento que estão a viver. Em 1453, ninguém relacionou a queda de Constantinopla como o fim da idade média (aliás, o conceito só fez sentido à posteriori, quando a consciência de um novo tempo permitiu qualificar a idade anterior de “média”). Igualmente, a multidão que tomou a Bastilha em julho de 1789 não tinha noção que estava a dar início à revolução política e social que lançou os alicerces da idade contemporânea.» Lourenço Pereira Coutinho

«José Tolentino de Mendonça expressou-o muito melhor do que eu há dias aqui no Expresso: “não se envelhece para morrer. Envelhecemos para nos saciarmos de vida”. A valorização dos mais velhos é algo que lhes é devido a eles, mas, igualmente importante, é algo que devemos a todos. Somos todos nós que nos perdemos quando consideramos, implícita ou explicitamente, que alguns de nós são sacrificáveis.» Alexandre Abreu


«Contudo, depois da crise, os países poderão abandonar o Keynesianismo e os mais periféricos ao sistema financeiro global vão enfrentar o “déficit da epidemia”, com o regresso de políticas de austeridade fiscal e de venda do património público. Nesse momento, irão multiplicar-se as revoltas sociais e a mudança de governos que ainda prezavam a prática de eleições periódicas e regulares, na década de 2020. Trajetória que poderá reforçar os movimentos nacionalistas que se notabilizam em vários países, desde o início do século XXI. A história não se repete. Mas o papel da alimentação nesses contextos continua assustadoramente atual.» Francisco Bendrau Sarmento

29º dia
«Se alguém nos dissesse há meio ano que fosse, ou nem tanto, que agora estaríamos todos (literalmente todos! sim, todos no mundo inteiro!) fechados em casa, numa espécie de penitência … só nos poderíamos rir. Sim, rir e a gargalhadas profundas, dado o irreal absurdo da cena.» António João Maia

«Na verdade, estes professores vão mais longe: é mesmo a atividade humana, como se sabe responsável por todas as alterações climáticas que, ao não respeitar a natureza, stressa as relações entre seres humanos e animais e propicia a transmissão de vírus animais para homens (…) os homens são responsáveis por tudo. Para certas correntes do pensamento, o melhor seria não termos descoberto a agricultura, não termos domesticado animais (a gripe vem das aves), não termos revolucionado a indústria, não termos, enfim, saído das cavernas. Morrer-se-ia antes dos 30 anos e não se tinha tempo para fazer teses destas – eis o aborrecimento!» Henrique Monteiro


«A litania do “menos Estado”, a começar pela sua presença no sector da Saúde, tem os seus custos, como agora se vê sem apelo nem agravo, para desencanto dos liberais mais empedernidos. Nem todas as clínicas e serviços privados se mantiveram em funções e alguns deles decidiram fechar a tempo e horas, sem problemas de consciência de com isso contribuírem para sobrecarregar os limites do Serviço Nacional de Saúde.» Amílcar Correia

28º dia
«Tem que ser o governo e os próprios agentes e decidirem o que pode ou não abrir, quando e como. Mas não existe alternativa a não abrir. (…) Temos que aceitar que haverá perdas de vidas e passos à frente e atrás, porque é assim que a humanidade combate epidemias.» Ricardo Costa

«A austeridade/pandemia não é mote para chicana, é uma condição que nos vai, ou não, mas provavelmente vai, mudar o nosso quotidiano, os costumes e as esperanças. Olhem, viajar de avião em voos baratos, cotovelo com cotovelo de dois companheiros desconhecidos, de cada lado, não vos assusta? E querem continuar com polémicas sobre se o PM já disse "austeridade" ou não?» Ferreira Fernandes

«Também mudei de opinião sobre Trump. Ainda é mais estúpido e vaidoso do que eu pensava. Mas eu já pensava que ele era extremamente estúpido e extremamente vaidoso. Só não sabia que era humanamente possível combinar os dois defeitos em tais quantidades.» Miguel Esteves Cardoso

«Entretanto, a Europa foi adiada até 6 de maio, quando a Comissão Europeia apresentar uma proposta para combater a crise. Depois, ficaremos à espera da reação do Conselho Europeu. A procrastinação segue dentro de momentos.» Paulo Vila Maior

27º dia
«Já nem vou pela temática da austeridade ou da óbvia necessidade de ter contas certas. Ela faz parte da nossa vida, seja qual for o nome com a quiserem mascarar, como Barack Obama uma vez disse “Podem colocar batom num porco, continua a ser um porco”. (…) 25 anos depois do estudo de [Michael] Porter, percebemos que é tempo de revisitar o mesmo, estudar, sem palas, a realidade existente e projectar os próximos 10 anos, isto é, se queremos ter crescimento sustentado, do tipo que nos permita mudar de vida. (…) Projectar os próximos dez anos é fundamental, para começarmos já a preparar um futuro melhor. Isso sim seria patriótico. E já vamos tarde, o futuro não espera, particularmente por quem está preso ao modelo do passado.» Diogo Agostinho

«… o presidente da Câmara colocou um ‘gosto’ numa publicação no Facebook que apelava à transformação da Assembleia da República numa câmara de gás, precisamente por causa da celebração do 25 de abril numa altura em que as pessoas estão obrigadas a ficar em casa. O coordenador da equipa de assistentes operacionais da Câmara da Trofa escreveu o seguinte "Se houver quem ponha aquele espaço a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás". O presidente da câmara ‘gostou’ do que leu. E, pelos vistos, para o PSD, partido ao qual o autarca pertence, não há drama.» Pedro Lima

«Que a doença que hoje nos tem suspensos e agarrados aos jornais, pela dureza de atingir o mundo inteiro de uma assentada e de levar em poucos dias vidas que estavam para durar, nos ajude a ver a outra, que lhe serve de pano de fundo e da qual inevitavelmente resulta – já que a nossa relação com a vida selvagem e a destruição massiva de habitats é, como se sabe, a explicação dada pela comunidade científica para a migração de um vírus que, até aqui, só habitava em animais.» Rita Castel´ Branco

«Com um toque politicamente irónico, Sérgio Moro até atirou uma pedrada à narrativa que ele próprio construiu, elogiando o governo de Dilma Rousseff por ter respeitado a autonomia da Polícia Federal. Estes momentos são especialmente interessantes, porque permitem que os seus atores, na reconstrução dos seus argumentos, denunciem as suas próprias mentiras. (…) Entretanto, a divisão na base de apoio do Presidente abre brechas e a direita brasileira prepara-se para a sua guerra fratricida. Ganhem ou percam os que agora abandonam o Presidente, eles não são nem arrependidos nem desiludidos. São o que sempre foram: oportunistas.» Daniel Oliveira

26º dia

«O pior é quando me enviam esse estudo pelo messenger, com um preâmbulo que parece postular a dívida eterna de gratidão em que eu me constituo, pelo facto de o autor da mensagem me proporcionar informação tão relevante, capaz, na maioria dos casos, de me salvar a vida. Na verdade, eu fico apenas seguro que o mensageiro é estúpido. É por isso que nunca lhe peço para deixar de enviar as mensagens. Não adianta. Ele é estúpido.» António Conceição


«Quando os doentes são os outros, o grupo que não faz parte de nós, estão criadas as condições para um reforço da estigmatização social, o que é tudo menos profiláctico, e que pode ser apenas mais uma antecâmara do racismo e da xenofobia.» Amílcar Correia


«Há uma certa graça, dizia eu. Corrijo: há cada vez mais razões de irritação e de desconfiança em relação a um partido [CDS] que, na origem, recuperou muitas das hostes salazaristas e que agora resvala cada vez mais para um radicalismo extremista de que, receio, estejamos a ver apenas as primeiras manifestações…» J-m Nobre-Correia


«Mais uma vez, vivemos dentro daqueles círculos de fogo onde não se consegue pensar de modo diferente do dos fanáticos, meditar com inteligência fora das labaredas assassinas, nem tentar compreender longe das hordas dos pensadores oficiosos. E, tal como antigamente, só há dois campos, o da democracia ou o do fascismo. O da revolução ou o da reacção.» António Barreto


25º dia
«O curso preparou-nos para ver doentes mas não para uma pandemia. Não há uma cadeira de pandemia. A preparação foi feita uma semana antes do primeiro caso ser diagnosticado em Portugal (…) Temos de nos ajudar uns aos outros, ver se a bata está bem fechada, se há cabelos à vista, fazemos o check uns aos outros e só depois entramos. São quatro horas de turno e não é confortável. Os óculos magoam, as máscaras magoam, não podemos ir à casa de banho, mas o tempo passa a correr.» Mariana Dias da Costa

«Não estava preparada, ninguém estava. Esperava um ano calmo, com menos responsabilidades, mas temos de nos adaptar (…) Ofereci-me como voluntária. Trabalho sempre em equipa com um colega. Vejo os sinais vitais do doente, faço auscultação cardíaca e pulmonar. Se tem queixas, fazemos um teste, uma picada na artéria para fazer uma leitura do oxigénio e do dióxido de carbono. Saímos da área suja, vamos para a sala de reuniões e discutimos os doentes. Não decido nada, mas os outros médicos ouvem-me. Dou a minha opinião.» Sara Carvalho

«Não entramos nos quartos das crianças infetadas. São os colegas mais experientes que fazem essa parte e é normal que assim seja (…) É sempre mais difícil ver o impacto de uma doença como esta nas crianças (…) Nós fazemos o contacto com a família, e o mais complicado é fazer a gestão dos dias. Porque fica sempre um cuidador com a criança doente e quando há irmãos a rotina familiar altera-se profundamente e há sofrimento porque os irmãos, quando são novos, não percebem.» Sofia Bragança

«O meu trabalho é consultar e testar profissionais de saúde que tenham sido infetados. Já houve dois médicos internados mas já tiveram alta. São doentes difíceis porque arranjam sempre explicações para os sintomas e resistem aos testes. Dizem que é uma gripe normal. Os outros — auxiliares e funcionários — são mais preocupados.» Alice Vasconcelos

«Não sabemos o que vai acontecer aos estágios, o que é que vai acontecer, nada (…) No final do primeiro dia estava morta, desgastada, não tanto pela quantidade de trabalho, mas pela questão psicológica, a tensão permanente, saber que não posso tocar em nada, que não posso ser contaminada.» Carolina Santos

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Não se repita os erros do resgate grego


A UE não tem o luxo do tempo ou compromissos ancorados em antigas crenças

O escritor era ministro das Finanças da Grécia. Este artigo foi co-escrito por George Papandreou, ex-primeiro ministro grego


A história tem uma maneira engraçada de se repetir. Dez anos atrás, numa cúpula em 25 de março, os líderes da zona do euro se comprometeram a financiar a Grécia depois que ela perdeu o acesso aos mercados financeiros internacionais.

Nós estávamos lá. Todos nós tomamos coletivamente essa decisão para "salvaguardar a estabilidade financeira na área do euro como um todo". 

No entanto, essa decisão teve desvantagens. Primeiro, chegou tarde, após seis meses de hesitação. E o suporte deveria ser a ultima ratio, o último recurso, se tudo mais falhar.  Segundo, veio retórico com retórica sobre risco moral. A austeridade que se seguiu tornou-se parte remédio e parte punição.

A Grécia precisava enfrentar seus problemas profundos: clientelismo, falta de transparência e governança ineficiente. No entanto, mudanças sistémicas não foram priorizadas. Terceiro, como o apoio foi limitado à Grécia "errante", provou ser uma resposta inadequada e defeituosa a um problema sistémico mais amplo. O remédio - austeridade - falhou na abordagem da principal causa do problema na maioria dos países, um sistema financeiro com defeito. 

No final, a resposta provou ser muito pequena e muito tarde. A zona do euro teve que revisitar repetidamente suas políticas, estender programas de apoio a mais países para conter um contágio crescente de medo e especulação do mercado e, eventualmente, propor novos arranjos institucionais. 

Foram necessários dois anos e uma mudança radical de postura do Banco Central Europeu antes que a área do euro virasse a esquina. Como resultado, todos sofremos custos económicos, sociais e políticos desnecessários. Mais importante, desperdiçamos a oportunidade de usar essa crise para pressionar por mudanças mais profundas na Europa. 

Dez anos, quase todos os dias, depois que a Grécia solicitou formalmente um resgate em abril de 2010, os líderes da UE estão sendo chamados a tomar uma decisão igualmente importante em circunstâncias ainda mais importantes. 

Dados recentes do FMI deixam claro que as consequências económicas da crise do Covid-19 são de uma ordem de magnitude diferente da crise financeira e da crise soberana da zona do euro que se seguiu. A contração é mais parecida com a Depressão dos anos 30; mas esta é a primeira crise verdadeiramente global e também traz consigo a extrema incerteza da evolução da própria pandemia. 

Em circunstâncias tão terríveis, simplesmente não há espaço para a política de hesitação, incrementalism or finger-pointing

Uma década antes, levou dois anos para que as consequências da crise do subprime nos EUA se manifestassem no elo mais fraco da zona do euro, a Grécia. Hoje, foram necessários apenas dois meses para que toda a economia da UE parasse. A velocidade é essencial. Não há tempo para uma atitude de “esperar para ver”, tomando novas decisões somente quando as anteriores tiverem se mostrado inadequadas.

Não estamos começando do zero. Desta vez, a estratégia “sem limites” do BCE já adquiriu um tempo precioso. Na última vez, dois anos se passaram antes que o presidente Mario Draghi fizesse sua declaração "o que for preciso". Os governos nacionais responderam vigorosamente para proteger pessoas e economias - cada uma ao nível de seus recursos disponíveis. E a nível da UE, as decisões anunciadas até agora, por mais imperfeitas que sejam, mostram uma compreensão da urgência. Mas tudo isso não é suficiente. Embora cada país tenha que cumprir suas próprias responsabilidades, devemos entender que ninguém pode fazer isso sozinho. 

A recuperação económica exigirá financiamento maciço. O mercado interno precisará de ser novamente reunido. O tecido social precisará de ser protegido. E as pessoas precisarão de estar convencidas de que fazem parte de um projeto europeu que funciona para todos e protege os mais fracos. Agora é a hora de uma resposta fiscal conjunta, coordenada e massivamente apropriada, usando as ferramentas novas e existentes. 

Um que seja financiado por todos os países, incluindo novos recursos a nível da UE, mas que vise ajudar os mais vulneráveis, sem aumentar os encargos da dívida. 

Quando, um qualquer de nós, se move rápido e pensa grande, inevitavelmente comete erros. E sem dúvida, serão cometidos erros. Mas, pelo menos, não vamos repetir os do passado. Não temos o luxo do tempo, nem criamos compromissos ancorados em velhas crenças e preconceitos. O projeto europeu sofrerá enormemente essa consequência. 

Estamos todos juntos nisso e somos muito mais fortes quando enfrentamos os desafios juntos. A crise de hoje é uma oportunidade única para construir uma união mais forte, construída sobre fundações estáveis ​​e solidariedade entre todos os cidadãos europeus. 

Este artigo foi alterado para deixar claro que a UE ofereceu apoio à Grécia em março de 2010 e a Grécia solicitou formalmente um resgate em abril daquele ano.

Financial Times, 22 de abril de 2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Doentes sem acesso a assistência religiosa é cruel. Mas...

São tantas coisas a acontecer e a deixar de acontecer, tanta normalidade interrompida que interrompe os gestos mais íntimos, que me passam ao lado algumas. Foi um leitor, já há bastantes dias e como tem acontecido com uma frequência horária desde que isto tudo começou, que me alertou. Sabia das regras de limitação de presenças nos funerais, tremendas mas compreensíveis quando se que evitar a todo o custo os ajuntamentos. Sabia da interrupção de todas as cerimónias religiosas, com que a Igreja Católica concordou e na qual colaborou. Não sabia, até esta notícia, que em muitos hospitais se tinha interrompido o acesso dos capelães hospitalares aos doentes infetados. Vou já para a conclusão, que se complica quando vamos mais a fundo: à partida, esta mediada de prevenção é desproporcionada e cruel.

Sabem os leitores que sou ateu. Que defendo uma rigorosa separação entre o Estado e a Igreja. Que considero que a única coisa relacionada com religião que deveria ser aprendida nas escolas é a história das religiões. Que os fiéis têm todo o direito ao proselitismo, ao apoio espiritual e à formação religiosa dos seus filhos desde que o façam às expensas suas ou da sua igreja. Que não compreendo que haja, em pleno século XXI, capelães militares pagos pelo Estado. Que recuso a Concordata, ofensiva do pluralismo religioso. Sou um defensor bastante rigoroso da laicidade do Estado porque acho que só ela pode defender o direito à fé ou à ausência de fé de todos. Coerentemente, sou um feroz defensor da liberdade religiosa dentro dos limites do respeito pela dignidade humana e dos valores constitucionalmente consagrados.

Ser ateu não implica ser insensível à fé dos outros. É, para mim, evidente que o amparo religioso em momentos de doença ou de agonia pode ser, para quem dele precise, tão importante como a própria saúde. Até pessoas que não são crentes o procuram, como um alívio ao sofrimento ou à solidão. Um Estado que não compreenda a sua relevância é um Estado que se dirige a pessoas abstratas, sem as suas próprias necessidades. Qualquer debate sobre o estatuto dos capelães hospitalares, pagos pelo Estado, poderá vir a ser feito depois. De uma forma ou de outra, os crentes em convalescença ou fim de vida continuarão a precisar deste apoio. Ele não é apenas importante para a paz interior do doente. É importante para a sua saúde.

Não há necessidade de acrescentar dor ao que já dói. Teoricamente, os capelães hospitalares e assistentes religiosos têm tantas condições para estar numa unidade de saúde como um médico, um enfermeiro ou qualquer outro técnico. Só que, conversando com um capelão hospitalar para escrever este artigo, acabei por perceber que a questão é mais complicada do que parece, como explica a nota da Coordenação Nacional das Capelanias Hospitalares. Não é o Estado que impede o acesso aos infetados. É o vírus. Infelizmente, o número de capelães hospitalares, um ou menos por hospital, não permite que usem as mesmas regras de prevenção do pessoal de saúde (organização em espelho). E se estiverem num hospital onde haja doentes de covid-19 e outros com outras patologias, não podem acudir aos dois grupos. E se viverem em comunidade, como muitos vivem, menos ainda. Ou seja, os problemas que vemos no pessoal de saúde aqui multiplicam-se por muito até, em muitos cases, serem de resolução impossível.

Elaborados em momento de grande pressão, os planos de contingência da DGS não contemplaram a assistência religiosa e muitas administrações hospitalares não foram sensíveis a esta necessidade. Está na altura de corrigir onde isso possa ser feito. Se não for em nome da liberdade religiosa, que seja em nome da saúde mental, espiritual e por isso física daqueles que queremos proteger. Mas mesmo que o façam, em grande parte dos casos será mesmo o vírus a impedir o acesso aos doentes. Sobra o apoio que estão a dar aos profissionais de saúde (e aos outros doentes, claro). Bem precisam.

Daniel Oliveira, Expresso, 17 de abril de 2020

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Frases abriladas (2)

24º dia
«Saudamos a unanimidade no Conselho Europeu relativamente à criação de um Fundo de Recuperação, mas constatamos que as diferenças do que deve ser o fundo ainda são grandes. Aguardamos agora a proposta da Comissão Europeia. Tempos extraordinários requerem mesmo medidas extraordinárias.» Margarida Marques e Eider Gardiazabal Rubial

«Os vírus que atacam o sistema respiratório têm uma maior incidência no inverno, por isso podemos colocar a hipótese de estarmos um pouco mais protegidos no verão. No entanto, até agora temos estado todos fechados em casa e não nos temos expostos ao vírus. Temos retardado a progressão da doença, mas também não estamos a adquirir imunidade. Quando sairmos de casa irá ressurgir a aceleração das infeções.» Miguel Castanho

«Sem cedências ao facilitismo nem ao dramatismo, o Marcelo dos afetos tem-se revelado o presidente necessário nestes tempos de isolamento forçado.» Lourenço Pereira Coutinho


«A nossa situação presente tem dado azo a numerosos exercícios especulativos de futurologia que partem quase sempre da convicção de que se vai dar uma transição histórica brutal. Nesta perspectiva, não estamos apenas à beira de uma crise, pois a crise tem sido um factor de continuidade, uma condição permanente desde a Revolução francesa. “Crise” já só significa ser moderno.» António Guerreiro

23º dia
«É que o cheiro bafiento que antes só circulava pelas redes sociais, agora também circula pelos corredores da Assembleia da República.» Anselmo Crespo

«No Bolsonaristão, os "bolsoniques", um cocktail explosivo de ignorância e de ódio, de défice de empatia e de superavit de preconceito, carregam nas mãos ou as costas, ironicamente, as bandeiras verdes e amarelas do país vizinho, que jamais entenderam e entenderão.» João Almeida Moreira

«" … A mensagem do primeiro-ministro realmente veio do coração. Foi a mensagem mais honesta que eu já vi".» Luís Pitarma


«Muitos invocam até instruções de médicos, na grande maioria deles desconhecidos mas que alguém lhes enviou. Exercem um direito que lhes assiste: o de organizar a sua proteção da forma como entendem. E que definem, e bem, como um sacrifício. O que não podem é impor o mesmo modelo de sacrifício a quem tem de trabalhar todos os dias, ou aos seus concidadãos que se limitam a cumprir as limitações legalmente impostas, e apenas essas. E menos ainda a quem nos representa democraticamente, e afirma a pluralidade das nossas opiniões e interesses – hoje tão imprescindível, neste clima irrespirável!» Manuel Loff

22º dia
«Ou a do coxo, que viu o leão a forçar as grades para se evadir, com a multidão em fuga, antes da solidariedade com que, de longe, já sem perigo, gritava: o coxo…, o coxo…, e ele a mancar, a arrastar-se penosamente e a gritar, o coxo…, o coxo…, o diabo!, o leão é que escolhe… (…)  face ao entusiasmo com que anunciam a nova marca diária, numa espécie de competição para chegar à meta, e ao gáudio com que referem as percentagens mais elevadas de letalidade entre os mais velhos, eu sorrio, do alto dos meus 77 anos … os mais velhos, um raio, o coronavírus é que escolhe». Carlos Esperança

«Enquanto a grande preocupação do setor público é se tem ou não tem aumentos salariais, o privado luta pela sobrevivência. Mais uma vez, e como já aconteceu no passado, passa a ideia de haver duas contas e duas medidas consoante se trabalha para o Estado ou para o (maldito) patronato! Esta não é altura para cisões, divisões, costas voltadas. É altura de união.» Rosália Amorim

«O Outro, que existe num contexto sociocultural específico onde, mesmo finda a tempestade, arco-íris e as palavras “Vamos ficar todos bem” fazem pouco sentido. Não vamos ficar todos bem. Vamos ficar todos diferentes. E o Outro, que vive em risco real, sente medo real, que resiliente e estoicamente (se) suplanta, carecerá mais ainda que o vírus nos vire. Para fora. No final, tem de haver o Outro. Sabe-se.» Vânia Sousa Lima

«Escrevia Manuel Alegre há uns dias que “não só o pão, mas também livros” são bens essenciais. É uma ideia bonita, mas, na impossibilidade de se almoçar poesia e jantar romances, arrisco prever que as famílias portuguesas darão prioridade ao pão.» Tito Rendas


21º dia
«Perante este anúncio – e embora a decisão não me tenha afectado pessoalmente (ou também por isso) – decidi descontinuar a minha colaboração com o jornal [DN]. (…) Os meus textos de opinião podem ser publicados e lidos por vários meios e não dependo dos honorários que tenho recebido para os produzir. No caso dos jornalistas, pelo contrário, a redacção do jornal é o seu posto de trabalho principal e para muitos a sua única fonte de rendimento. A ser necessário dispensar os serviços de alguém, mesmo que só em parte, os profissionais de informação deveriam ser os últimos a considerar nas medidas de excepção.» Ricardo Paes Mamede

«Mas com o passar dos dias, o discurso começou a ficar cada vez mais centrado na retoma económica e comecei a ficar inquieta, arrepiada mesmo… porque, por um lado, parece que os economistas percebem muito claramente que sem saúde não há economia, mas por outro não só não mostram sinais de estarem à procura de modelos diferentes, como na verdade continuam a guiar-se pelos mesmos indicadores e racionais de sempre.» Maria Inês Trigo

«No próximo dia 23 passam, curiosamente, dez anos sobre o pedido de resgate grego, que desencadeou um efeito dominó na zona euro. Uma década depois, a Europa está sem dúvida mais preparada para lidar com as crises. Mas a sua resposta, desta vez, será diferente?» Elisabete Miranda

«Excelente! Isso é mesmo que eu dizer que só não albergo sem-abrigo por causa da pandemia. Já não o fazia, mas a pandemia reforça a minha convicção. O menino está a tornar-se homem. A tropa já lhe deve ter feito descer as gónadas.» Jovem Conservador de Direita

20º dia
«Esta é a primeira vez na história que o preço do petróleo chega a terreno negativo. A queda histórica está a ser impulsionada pela crise económica e pelo esgotamento da capacidade de armazenamento nos EUA.» João Vieira Pereira

«A vida profissional não pára... Para os que trabalham em saúde mental, ainda é muito imprevisível, o que está para vir.» José Gameiro

«O futebol é um gosto e um gosto bom. Deixá-lo ser derrotado por fanatismos, torna-o feio e estúpido. Até a ironia das suas contradições nos é roubada, porque o fanatismo não tem dúvidas. Recordem-se, ingratos, que coisa mais linda já houve que a cavalgada de um trapalhão. Vai falhar... vai falhar... chuta, oh, falh... Golo! Tinha a camisola de nós todos, lembrem-se.» Ferreira Fernandes

«Se o líder do CDS se ausentar, sobra a conclusão: para ele, evocar o 25 de Abril não é um seu dever enquanto líder de um partido democrático. É apenas uma extravagância que um bando de privilegiados utiliza para, como afirma a petição, escaparem ao confinamento e se adornarem com cravos e banquetearem com discursos.» Manuel Carvalho

19º dia
«Sobraram, a viver os mitos, os salazaristas. Na sua loucura delirante, atribuem o 25 de Abril à traição de uns raros covardes. Imaginam que, sem eles, Portugal seria grande e estaria sentado à mesa dos poderosos a partilhar o mundo com os EUA e a Rússia. O Tratado de Tordesilhas do século XX. Não explicam por que conseguiram meia dúzia de traidores levar a melhor sobre os heróis do mar, o nobre povo e a nação valente e imortal. Limitam-se a odiar com todas as fibras do coração, o "25 de Abril".» António Conceição

«Há para todos os gostos. (…) quem tenha descoberto que esta crise vai aumentar o nacionalismo, acabar com o multilateralismo e o protecionismo regressará (deviam andar muito distraídos); que a globalização morreu; que o Estado vai crescer muito em todas as áreas e tornar-se o big brother; que finalmente vamos dar ouvidos aos ecologistas e parar de poluir ao ritmo que poluímos (não percebo a relação com o vírus, mas se ajudar eu também faço coro), que as relações económicas entre Estados vão mudar de forma radical; que vai voltar a agricultura de subsistência e que a industrialização vai regressar em força aos países que há muito deixaram de o ser; que o veganismo vai vencer, etc. etc. etc.» Pedro Marques Lopes

«O Presidente francês teve a lucidez, esta semana, de o dizer, responsabilizando a Alemanha e os Países Baixos por eventuais danos irreversíveis nas democracias se a falta de solidariedade entre Estados-membros se tornar uma regra. Ou a União Europeia é capaz de provar, na actual conjuntura, que existe como projecto político e não apenas como projecto económico ou então poderemos ter uma “autoridade total” em cada esquina. O alastramento da pandemia estreitou o mundo.» Amílcar Correia

«Educar uma criança implica ensinar-lhe a diferença entre o Bem e o Mal. O Dr. Camilo Lourenço mostra cartões para ensinar os opostos: Dr. Ulrich - Bom, Esquerdalho Jerónimo - Mau; Economia - Bom, Sociologia - Mau; Ficar em casa sem poder contribuir para a economia - Mau, Ficar em casa sem celebrar o 25 de Abril - Bom; Deputado a trabalhar em Excel - Bom, Deputado a celebrar o 25 de Abril - M*rda.» Jovem Conservador de Direita

18º dia
«Esta noite sonhei com o meu pai. Aliás, vi-me de novo em casa dos meus pais. O meu pai chega, visivelmente mais novo de quando partiu, fato treino azul, e disse: "cheguei a casa para passar a quarentena convosco, e hoje como é sábado vamos buscar frangos" e eu sorri e lembro-me de dizer: "pai adoro frango assado!" ... a nossa cabeça, no país dos sonhos, é um eterno mistério. Bom dia!» Rita Sofia Amélia

«Para um otimista, a esperança nunca morre. E ao longo destes quatro anos de Conselhos Europeus já ouvi muita coisa. E desta vez tenho ouvido coisas melhores do que ouvi no passado. (…) E o que vejo descrito na imprensa, de um grupo que junta Finlândia, Áustria, Holanda, Alemanha... bom, a Alemanha claramente não tem uma posição coincidente com nenhum desses países. E tem dado vários contributos importantes para construir uma posição conjunta.» António Costa

«Muita coisa vai mudar depois disto passar, dizem alguns. Vamos ter de olhar para a vida de maneira diferente, juram. Uma das coisas que talvez mude é a ideia de que vale a pena viver tanto tempo.» Miguel Sousa Tavares

«A seita, domiciliada num mundo de abstrações, repudia a primazia do político, do real e do humano, irrupções sempre de lamentar, e a eles só desce para estender a mão, de preferência pela porta dos fundos.» Sergio Sousa Pinto

17º dia

«Caraterística cultural bastante arreigada, a maioria dos portugueses tem tendência a considerar que o que vai mal não é culpa deles, mas dos outros. E os “responsáveis” públicos de base apontam mesmo o dedo logo para cima. Portugal iria bem melhor, no entanto, se em circunstâncias trágicas, ao baile dos hipócritas e à feira das vaidades sucedesse uma réstia de dignidade e de sobriedade aos atores de circunstância…» J.-M. Nobre-Correia

«Como costuma dizer-se, o futuro está ao virar da esquina. E o nosso futuro próximo trás muitas interrogações. Por agora, estas devem conduzir sobretudo a reflexões. As respostas taxativas têm de ficar para mais tarde, pois a futurologia não costuma ser boa conselheira.» Lourenço Pereira Coutinho

«Uma democracia [indiana] numa sociedade ainda dividida, para além de outras coisas (género, idade, riqueza) em castas, será mesmo uma democracia?» Luís Capucha

«Ser ateu não implica ser insensível à fé dos outros. É, para mim, evidente que o amparo religioso em momentos de doença ou de agonia pode ser, para quem dele precise, tão importante como a própria saúde.» Daniel Oliveira

16º dia
«Onde houver soberania popular, ou seja, democracia, há uma réstia de esperança de que algo mude para melhor. Mas profetizar um admirável mundo novo de justiça e humanidade é uma utopia como tantas outras que se esboçaram em tempos de crise como a que hoje vivemos.» Manuel Carvalho

«Lamento muito que o mundo tenha perdido este contador de histórias, mas agradeço que esse mesmo mundo lhe tenha dado a oportunidade de contar as suas histórias, ao contrário dos outros que foram silenciados pelo regime assassino de Pinochet.» João Bacelar Martins

«A juntar aos autarcas trogloditas que não merecem a grandeza ética e sentido de Estado do líder do seu partido, Rui Rio, temos os bastonários das profissões da Saúde e os média para quem o sangue é o alimento.» Carlos Esperança

domingo, 12 de abril de 2020

NUNCA BAIXAREMOS A GUARDA. ACHATAREMOS O PICO E FAREMOS OBRAS DE GRANDE ALCANCE


Têm-nos dito e repetido, de Sua Excelência o Presidente da República ao não menos nosso excelêncio o senhor primeiro-ministro, passando pelas excelentíssimas e doutíssimas ministra da Saúde e diretora-geral da Saúde, que — e cito para que não restem mal-entendidos — “não podemos baixar a Guarda!”. Quero dizer que nada me deixaria mais de acordo do que este propósito politicogeográfico, partilhado por tanta e diversa gente de todos os quadrantes da sociedade e da política, incluindo as forças vivas, civis, militares e religiosas.

A minha total oposição a que se baixe a Guarda fundamenta-se em duas razões e numa terceira que me emprestou o dr. Luís Marques Mendes (que também é a favor de não baixar a Guarda):

1) A Guarda, como cidade mais alta do país, não pode ser rebaixada. Não faria sentido que a cidade mais alta fosse uma sem frio, sem neve, sem montanha;

2) Ao rebaixar a Guarda, corremos o risco de soterrar, já não digo a Covilhã, mas por exemplo Valhelhas, onde um afilhado meu tem uma casa de trás da orelha, onde se passam serões muito agradáveis, além de a localidade contar com dois restaurantes muito atrativos e simpáticos. Seria, pois, uma dupla perda baixar a Guarda e esmagar Valhelhas, ou mesmo que fosse Manteigas, Gouveia ou Seia, coisa que não desejamos;

3) A terceira razão é a que o dr. Luís Marques Mendes me fornece para ter sempre três razões para as coisas. É certo que ando a treinar para ter cinco razões, como o professor Marcelo, mas ainda não consigo. Será talvez mais fácil ter, como o dr. António Costa, “dversas razões”, sem as enumerar, mas parece menos científico... Adiante!

Os mesmos e outros próceres do regime salientam, com ênfase, a necessidade de achatar ou aplanar o Pico. Sou também favorável a essa demanda, por “dversas razões”. Em primeiro lugar, a medida beneficia claramente os habitantes da cidade da Horta, na ilha do Faial, que veem as suas casas e ruas ensombradas pela majestade do Pico; em segundo lugar, o Pico fica longe, muito mais longe do que a Torre, na serra da Estrela, que passaria a ser, com o achatamento do Pico, o lugar mais alto de Portugal; em terceiro lugar, no Pico não se podem praticar desportos de inverno, coisa que na Torre é possível, o que viria melhorar bastante o afluxo turístico à região. (Olha, afinal, são três razões, como faz o dr. Marques Mendes, e não “dversas”, à António Costa.)

Seja como for — e, no geral, as coisas acabam sempre por ser como são —, a estratégia política dos nossos líderes é, neste caso, muito coerente. Se não baixarmos a Guarda e se aplanarmos o Pico, acabamos por ter estes resultados fantásticos que aqui descrevo. Penso que é mesmo razão para nos congratularmos todos pelo esforço coletivo.

Ocorre-me que há muitas outras coisas que se podem fazer pelo nosso país. Por exemplo, não assorear o Porto; não perder as Chaves; não derreter Manteigas; não mudar o tempo verbal de Leiria (para Leirá ou Leirou); não enxertar a Figueira da Foz (nem qualquer outra Figueira, penso, como a de Castelo Rodrigo); não alcatroar as Lajes (sejam as do Pico, sejam as das Flores); não aguçar Ponta Delgada; não orientar o Nordeste; não secularizar o Porto Santo; não republicanizar Vila Real; não desolfatar Faro; não passar a chamar Giestes a Silves, nem Morenes a Loures, nem Isaltinândia a Oeiras (embora talvez merecesse), ou Caslevantas a Cascais.

Ou seja, há muito a fazer para clarificar o nosso país, combater a desigualdade, as alterações climáticas e a gentrificação. Não sei se será este o melhor momento, mas entendo que devemos colocar este ponto na agenda quanto antes, de modo a que jamais nos esqueçamos dele.

Com o esforço de todos está-se a achatar o Pico, e todos nos congratulamos. Salvo uns tantos, de que a polícia se encarrega, mais pedagogicamente ou mais à bastonada, de impedir que se baixe a Guarda. Estamos com a Guarda na altitude ideal. Valhelhas não está salva, mas é hoje um local muito mais seguro do que antes desta campanha. E, além disso, passa lá o rio Zêzere ainda antes de chegar à Barragem do Cabril, que nunca deve ser considerada do Redil, tal como a outra grande barragem do mesmo rio, a do Castelo de Bode, não pode ser do Palácio do Carneiro. Não podemos, de modo nenhum, manter indecisões num tempo de guerra em que não se limpam armas, porque não se pode. Elas são a nossa guarda e nunca devemos baixá-la.

Comendador Marques Correia, Revista E, Expresso, 11 de abril de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Frases Abriladas


7º dia
«A única coisa de que se precisa para aceder às várias linhas de apoio do governo, seja para inquilinos, senhorios, recibos verdes ou empresários, é de um escritório de advogados.» Miguel Szymanski

«Não adianta inventar desculpas - os sucessivos desaires históricos, e tantos faltam nesta narrativa, são por demais evidentes. A China, seguindo uma visão estratégica bem oriental, está imparável (e os States tanto ajudaram ...). Inegável.» Vítor M. Trigo

«É muito difícil ser banqueiro. As pessoas nem imaginam. Têm de ir a muitas reuniões, aguentar apresentações de powerpoint sem adormecer e fazer um ar sério de quem sabe aquilo que estão a fazer. Hoje é moda bater no Dr. Ricardo Salgado, mas acham que é fácil fazer o que ele fez e manter aquela postura acima de qualquer suspeita? Os enfermeiros podem salvar muitas vidas, mas nunca conseguiriam enganar sábios como o Dr. Cavaco ou o Dr. José Gomes Ferreira.». Jovem Conservador de Direita

«Se depender de quem manda no mundo, a probabilidade de a actual emergência de saúde pública dar origem a sociedades mais justas e equilibradas é menor do que o risco de aprofundamento das dinâmicas que vêm de trás: mais pressão sobre salários e direitos, mais restrições à participação democrática, mais poder dos que já o têm.» Ricardo Paes Mamede
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6º dia
«mais do que este vírus, assusta-me sobremaneira este policiamento, o "linchamento" virtual e a perseguição. esses grupos de ajuda e de divulgação de informação, que agora por aí proliferam, e que em muitos casos são úteis e ajudam muita gente, estão também a transformar-se em mega plataformas pidescas de "diz que disse", "diz que viu", de denúncias dos vizinhos que saem, ou dos vizinhos que têm covid, porque eles sabem com toda a certeza! e nenhuma destas publicações é controlada. aliás, muitas levam resposta dos administradores: "liguem para as autoridades". medo, muito medo, da sociedade que vai restar daqui. cuidem-se meus queridos e queridas. tenho saudades de ser eu ao pé de todos vós.» Rita Sofia Amélia

«A verdade é que viajar banalizou-se e com essa facilidade banalizou-se o nosso olhar, ao ponto de não vermos bem o que habitualmente nos rodeia, porque não olhamos com olhos de ver.» Miguel Esteves Cardoso

«Heinrich Heine, que admiro acima de muitos, fiel ao seu registo, sossegou quem o rodeava: "Deus vai perdoar-me, esse é o seu negócio".» Miguel Szymanski

«Ver as coisas de perto fá-las parecer enormes, trágicas muitas vezes, absolutas quase sempre. Mas se nos colocarmos à margem, num 25º andar com vista para o movimento nos passeios, tudo passa a ser leve, um bailado longínquo e sem sofrimento, um esbracejar cómico e sem grande importância. Importante não perder de vista as duas dimensões.» Luis Osório 

«Claro que as políticas públicas se devem guiar pelo que for o maior consenso científico, mas os investigadores não estariam a cumprir o seu papel se não andassem a imaginar novas teorias. 99 em cada 100 dessas teorias estão erradas, mas muitas vezes há uma heterodoxia que está “certa” (e que se tornará a ortodoxia de amanhã).». Luís Aguiar-Conraria

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5º dia
«As pessoas realmente precisam de comprar papel higiénico significativamente mais durante a pandemia - não porque estão a fazer mais viagens à casa de banho, mas porque estão a fazer mais delas em casa.» Luís Aguiar-Conraria

«… em tempos de confinamento, quando as pessoas estão fechadas em casa e não sabem como passar o tempo, decidem enviar:
(…)
Por favor: não seria bom que não interrompessem por tudo e por nada os vossos "amigos" virtuais com "peças" que nada tem de pessoal e os deixassem em paz às ocupações deles ?!…
Não nos façam ter saudades do tempo em que era preciso comprar um envelope e um selo (e pagar estes dois artigos), escrever um endereço no envelope e ir depois pôr o envelope na caixa de correio mais próxima!…» J-m Nobre-Correia


«Deslumbrou-me ver Lisboa vazia, entregue à nova Primavera, como uma mesa posta para quem ainda não veio.» Miguel Esteves Cardoso
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4º dia
«Quando é que vamos pensar no futebol? Não sabemos, ninguém sabe. É incrível, estamos a passar por um caos histórico.» Paulo Futre

«A incompetência é a grande inimiga, tão insidiosa como um vírus, mais visível e fácil de eliminar. A inércia é a gémea da incompetência … Precisamos de competência. A incompetência mata.» Clara Ferreira Alves

«Depois de há uns meses, a pretexto do debate sobre a eutanásia, tantos terem questionado se a nossa sociedade não estava a desistir dos velhos e dos doentes, é bonito ver a sociedade mobilizar-se para os proteger.» Luís Aguiar-Conraria
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3º dia
«Admiro as pessoas que trabalham sem espalhafato nem reconhecimento, sem fazer alarde ou choradinhos, sem insistir em lembrar a falta que fariam se não existissem. A nós só nos resta lembrarmo-nos delas quando se tornarem outra vez invisíveis.» Miguel Esteves Cardoso.

«O cronista não é um sentenciador, um guru que vê a solução. Ele é, em primeiro lugar, um contador de histórias do quotidiano. Sem quotidiano, o cronista vive da memória e da imaginação.» Jorge Carvalho

«Felizmente, para nos fazerem esquecer um pouco da pandemia, podemos sempre contar com as crónicas do Dr. João Miguel Tavares e do Dr. José António Saraiva acerca da pandemia. Se, no caso do Dr. João Miguel Tavares existe um pedido de temporizador para o vírus, no caso do Dr. Arq. há o normal: a sua auto-promoção de profeta da desgraça quando já tudo aconteceu.» Jovem Conservador de Direita

«Nestes tempos de medo e incerteza, conforta-me que a Constituição não seja suspensa, como fez Viktor Orbán, na Hungria, que as medidas sejam tomadas com autorização da AR e que, em vez de Passos Coelho e Cavaco, tenhamos António Costa e Marcelo, para saber que a democracia não corre perigo, ainda que o malévolo título do artigo do Público, de São José Almeida, pág.2, anuncie: «CORONAVÍRUS – Costa proíbe a Páscoa e fecha aeroportos.».» Carlos Esperança
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2º dia
«Nesta atmosfera contaminada são duas escolas que se confrontam: a escola do nojo, que teme o contágio, e a escola do desprezo, que faz pouco do esforço de descontaminação feito pela primeira escola.» Miguel Esteves Cardoso

«Só os ricos podem gostar de quem é pobre. E apenas os pobres poderiam desejar ser ricos.» Luís Osório

«A partir do momento em que o governo definir um prazo no decreto-lei o coronavírus passa a saber que está em incumprimento. A pandemia pode continuar, mas continua em contra-ordenação e pode ser multado.» Jovem Conservador de Direita 

«A pandemia, que ora lavra, não mata apenas, destrói empresas, empregos e a economia dos países. Imagino o recuo pelo fim de qualquer das guerras anteriores, agora de forma mais dolorosa para quem tinha atingido níveis de bem-estar sem precedentes.» Carlos Esperança
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1º dia
«Nunca percebi qual era a vergonha de ser bom aluno. Vergonha é não reconhecer e não agradecer os bons professores que se teve.» Miguel Esteves Cardoso

«Houve um filósofo que dizia que os motivos eram posteriores aos atos, que os homens tinham medo porque fugiam e não o contrário, e eu tinha razão na defesa de quem conseguiu uma legislatura destruindo a chantagem da direita com o alegado 'arco da governação' e integrando os partidos proscritos. Agora a razão sai reforçada.» Carlos Esperança