domingo, 29 de março de 2020


CORAÇÕES AO ALTO!
Tive hoje uma longa conversa com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor que me encheu de esperança nestes tempos particularmente sombrios. Sobretudo por ver que, no meio do caos, há quem consiga ter visão e esteja a tirar partido daquilo que Portugal tem de melhor nos campos da Ciência e Tecnologia. Manuel Heitor está a envolver activamente a comunidade científica e tecnológica portuguesa – que tem enormes capacidades, como ontem descrevi – para a mobilização geral nesta guerra.
Vou tentar descrever algumas das frentes nesta batalha muito menos visível, mas talvez não menos importante, do que a frente estritamente médica. São notícias desta frente de batalha que trago hoje.
Manuel Heitor, em estreita colaboração com outros membros do Governo e líderes de instituições científicas, está a proceder à identificação e valorização de um conjunto de iniciativas e projectos de base científica e tecnológica com implementação imediata e eficaz para entrarem em acção nesta guerra. Serão as nossas “armas secretas” para esta guerra. Eis os exemplos mais impressionantes.
1. O teste de diagnóstico por PCR implementado pelo Instituto de Medicina Molecular (IMM) (que ontem descrevi no post “Testes: a solução está em Portugal”) está certificado e validado pelo Instituto Ricardo Jorge e está pronto para entrar em acção. Usa reagentes produzidos em Portugal pela empresa de biotecnologia NZYTech. O teste do IMM permitirá ainda estimar a carga viral, que poderá ser relevante na avaliação do prognóstico clínico.
2. Um dos materiais em falta para a implementação dos testes tem sido a falta de zaragatoas. A Iberomoldes, da Marinha Grande, sob a liderança de Joaquim Meneses, reconverteu a sua linha de montagem no espaço de um dia de forma a produzir zaragatoas. Na próxima segunda-feira deverá dispôr de 40.000 para entrega imediata.
3. O teste do IMM vai ser produzido em grande quantidade e o objectivo é que seja aplicado em unidades próprias por todo o País. A aplicação dos testes aos lares de idosos é muito importante e particularmente critica e urgente. Está a ser implementada em coordenação directa com a Ministra do Trabalho e Segurança Social (MTSS), Ana Mendes Godinho, e com a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) em articulação com a Segurança Social. Exige uma operação muito sensível de logística, para recolher amostras e aplicar as medidas necessárias de isolamento dos idosos contagiados. Estão a ser recolhidos apoios de mecenas e voluntários pelo MTSS.
4. A tradição portuguesa nas Biociências está mais ligada à área da Imunologia, não da Virologia. No entanto, outras unidades de investigação de excelência (IGC, ITQB, CEDOC) estão a reorientar a sua investigação com efeitos imediatos para poder ajudar nesta luta.
5. A Biosurfit, empresa portuguesa de Biotecnologia sediada na Azambuja, em particular dispositivos médicos e testes PCR, reorientou a sua actividade para o desenvolvimento de novo processo de triagem “SMART”, que está já em implementação Hospital de campanha instalado na Cruz Vermelha Portuguesa e arrancará na segunda-feira. Este sistema permite antecipar a detecção dos processos de maior risco ainda antes de o paciente ter marcados problemas respiratórios, facilitando a prevenção da propagação do COVID: um dos grandes problemas deste vírus são os pacientes “invisíveis”, que estão espalhados pela população sem noção de que estão infectados e contagiosos.
6. O CEIIA, centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produtos sediado em Matosinhos e virado para a indústria aeronáutica, onde trabalha mais de uma centena de engenheiros aeroespaciais, foi reconvertido para realizar o desenvolvimento de ventiladores invasivos, em estreita colaboração com a Escola de Medicina da Universidade do Minho e a indústria. A capacidade de produção é de 100 ventiladores até ao final de Abril, 400 até ao final de Maio e, caso seja necessário, 10.000 até ao final do ano. (Da próxima vez que me vierem dizer “mas para que é que Portugal precisa de engenheiros aeroespaciais?”, já sei o que responder). Para o transporte dos materiais necessários está a ser mobilizada a linha logística da SONAE.
7. Embora a indústria têxtil e de vestuário seja forte em Portugal, ela está virada para a moda. Em particular, em regime normal Portugal não produz material para utilização médica (luvas, batas, máscaras, fatos isolantes) tendo de o importar. O CITEVE (Centro de Centro Tecnológico Indústrias Têxtil Vestuário de Portugal) reorientou a sua actividade para o desenvolvimento e produção destes Equipamentos de Protecção Individual, estando em estrita colaboração com a indústria, estando toda a operação a ser conduzida em estreita articulação com o Ministro da Economia
8. Finalmente, é muito bom saber que a FCT está a apoiar a DGS na preparação de uma plataforma de dados de acesso aberto. A DGS não tem neste momento os dados organizados e codificados de uma forma que permita o seu tratamento com as ferramentas da Ciência de Dados, permitindo extrair toda a informação relevante. E sem informação sobre o inimigo dificilmente poderemos ganhar a guerra.
É este o caminho. Temos competências em Portugal, temos inteligência em Portugal, temos Ciência e Tecnologia em Portugal, temos indústria em Portugal. Temos tudo! Falta apenas colocar as rodas em movimento.
Foi muito repetido que este é um estado de guerra; mas ainda não construímos uma economia de guerra. Mobilizemos tudo o que o País tem de melhor, recrutemos cientistas, inventemos tecnologias, reorientemos indústrias. Este é uma guerra que o Estado sozinho não pode ganhar. Temos de mobilizar a sociedade civil e saber aproveitar tudo o que ela tem para dar.
No meio do caos, há algumas razões para esperança. O tempo urge.
Corações ao alto!
Jorge Buescu, 28/3/2020

sábado, 28 de março de 2020

O narcisismo de Trump deu uma nova reviravolta. E, agora, ele tem sangue americano nas mãos.



O presidente dos EUA foi exposto pela crise do coronavírus. O único pequeno conforto para o resto do mundo é que ele não é o líder deles.

‘Piedade aos povos da América’. Eles agora enfrentam um dos maiores desafios de sua história, liderados por um homem que não está apenas entre os piores ocupantes da Casa Branca, mas cujo carácter o torna a última pessoa na face da Terra que você indicaria para ser, no comando neste momento. Na quinta-feira, os EUA alcançaram o topo da tabela mundial de infecções por coronavírus , superando o rival mais próximo dessa honra, a China. Nenhuma lei da natureza ditou esse resultado. Muito disso é diretamente atribuível a um facto terrível: que Donald Trump é o presidente dos Estados Unidos.

Tornou-se um lugar-comum observar a falta de empatia humana básica de Trump, sua tendência a não se deixar abater pela perda dos outros. Mas essa lacuna na sua mentalidade importa agora muito além da incapacidade de oferecer consolo aos enlutados: está distorcendo a sua abordagem de uma doença letal.

"Não podemos deixar a cura pior do que o próprio problema", twittou em letras maiúsculas no início da semana, logo após Steve Hilton, ex-conselheiro de David Cameron, ter utilizado o mesmo argumento no seu programa da Fox News.

Trump e os seus ‘apoiantes’ afirmam que, embora a morte em massa não seja o ideal, é melhor do que permitir que a economia americana pare. Alguns, como o Governador do Texas, Dan Patrick, são explícitos, exortando os idosos a arriscar suas vidas para que seus netos possam desfrutar dos frutos do capitalismo americano ininterrupto. "Se essa é a troca, eu entrei", disse Patrick . Ele estava seguindo a sugestão de Trump que, embora não seja tão ‘transparente’, tem sido bastante claro. Se o coronavírus é um ‘artista’ que pede aos Estados Unidos: "O seu dinheiro ou a sua vida", a resposta de Trump foi: "Tire a vida dos idosos e dos fracos: quero o dinheiro".

Obviamente, essa escolha não está disponível. Mesmo se Trump conseguisse o que queria, afastando o distanciamento social e abrindo os EUA para os negócios na Páscoa, a doença não restringiria politicamente seu apetite aos ‘grupos’ que Trump considerava dispensáveis. Em vez disso, o vírus corria desenfreado, infectando metade da população estimada. Não que Trump saiba ou reconheça que, graças a um segundo traço de caráter que, como o vazio onde deveria estar seu senso de compaixão, é tão fatal e fatalmente, determinando a resposta dos EUA a essa pandemia: o seu desrespeito pela ciência.

"Este é apenas o meu palpite", disse ele, ao rejeitar uma projeção da provável taxa de mortalidade por Covid-19 da Organização Mundial da Saúde como "um número falso". Na quinta-feira, ele disse "tenho a sensação" de que Nova York precisaria de muito menos ventiladores do que as dezenas de milhares que o estado solicitou. “Você sabe que, por vezes, se entra nos principais hospitais e eles têm dois ventiladores. E agora, de repente, eles estão dizendo: podemos pedir 30.000 ventiladores?”. Um imbecil à frente do governo dos EUA sempre seria um problema. Mas um imbecil tão narcisista, que eleva o seu próprio conhecimento atrofiado acima do julgamento da medicina e da ciência, é uma calamidade.

O efeito é minar qualquer esforço de saúde pública que os profissionais possam montar, enquanto tentam contornar o homem a quem servem. No seu aspecto mais visual, é o ‘briefing’ diário da imprensa em que Trump falha em observar as medidas de distanciamento social exigidas por seu governo ao público americano, estando ele mesmo no centro de um grupo de oradores reunidos no pódio. Observe-se a insistência inicial de que o coronavírus não era motivo de preocupação, que não passava de gripe, que logo desapareceria, como um "milagre". Tudo isso conseguiu ‘baixar a guarda’ dos americanos.

Desde então, têm sido as críticas diárias às diretrizes das donas de casa, a dica de que elas serão relaxadas brevemente, as absurdas promessas de que uma vacina está "muito próxima". O impacto é evidente, em dados que confirmam que os americanos se dividem em linhas partidárias, mesmo nos assuntos mais básicos da mortalidade. Um em cada quatro republicanos ainda diz que "não está nem um pouco preocupado" com o vírus - enquanto apenas 5% dos democratas estão igualmente incomodados. Apenas 14% dos democratas confiam em Trump para obter informações sobre o vírus, em comparação com 90% dos republicanos. Simplificando, há um corpo de americanos que não leva essa ameaça tão a sério quanto deveria, e a culpa é do presidente.

A desonestidade de Trump também importa aqui. Ele foi justamente ridicularizado em 2016 como um “vendedor de banha da cobra”, e o ‘clichê’ é tão bem retratado que é fácil esquecer ao que originalmente se refere: aos vendedores ambulantes do século XIX, que venderam curas falsas para os crédulos. Lembre-se de que Trump se apressou a dizer às pessoas que um medicamento pré-existente curaria o Covid-19, levando à escassez de um medicamento necessário para outras doenças e a várias mortes, enquanto pessoas desesperadas corriam para comprar comprimidos que, para eles, eram letais.

O presidente dos EUA sempre foi caprichoso e vingativo, mas agora, essa falha de carácter, é uma questão de vida ou morte. Os governadores estaduais estão clamando por ajuda federal, não por si mesmos, mas pelas pessoas que representam: os enfermeiros e médicos que precisam de equipamentos de proteção e ‘kits’ de teste, os pacientes que precisam de ventiladores. Mas, em vez de ocorrer em seu auxílio, Trump diz aos governadores que é das suas responsabilidades, mesmo que eles tenham apenas uma pequena fracção do poder de compra do governo dos EUA - acrescentando que, se eles querem ajuda, é melhor se arriscarem. "É uma estrada de dois sentidos", disse Trump nesta semana. Mesmo quando vidas estão em risco, o seu ego, como a sua pele fina como papel, vem em primeiro lugar.

Os americanos estão pagando o preço pela sua falta de previsão, pelo fecho de uma «task force» de pandemia por uma razão melhor do que a estabelecida por Barack Obama - ele odeia qualquer coisa com o nome de seu antecessor - e, por não ter atendido aos avisos de uma pandemia, um exercício de preparação, o ’Cragson Contagion’, que identificou lacunas gritantes, em outubro do ano passado. Ainda assim, ele repete a frase de que ninguém poderia saber o que estava por vir. E eles estão pagando o preço pela sua fraqueza, pois ele exige firmeza numa guerra contra um "inimigo invisível", apenas para deixar pistas pesadas de que ele está pronto para desistir depois de uma semana, aparentemente decidindo que 15 dias é muito tempo para ficar em casa.

Os Estados Unidos têm sorte de ter um sistema federal que significa que nem todo poder recai sobre o presidente, que pelo menos alguns estão nas mãos de prefeitos e governadores responsáveis, como Andrew Cuomo, de Nova York. O país também tem sorte que a Câmara dos Deputados seja controlada pelos democratas, que elaboraram uma conta económica de US $ 2,2 bilhões a partir do que, de outra forma, seria ‘um buraco no qual os amigos de Trump poderiam afundar as suas trombas’.

Mas essas são pequenas consolações para a América e, de facto para o mundo, que precisavam da liderança que apenas um presidente dos EUA tem o poder de oferecer. Em vez disso, os povos de todo o mundo agora olham para os EUA e se confortam com o pequeno consolo de que, pelo menos, enfrentam apenas uma doença letal, e não a malignidade que é Donald Trump.

Jonathan Freedland (traduzido), The Guardian, 27 de março de 2020

terça-feira, 24 de março de 2020

A certeza do Covid-19: mudança!



«Por todo o lado as pessoas aguardam um messias e o ambiente está carregado com o peso dos grandes e pequenos profetas […] partilharemos todos a mesma sorte: trazemos dentro de nós mais amor e, acima de tudo, maiores anseios do que qualquer sociedade dos nossos dias pode satisfazer. Amadurecemos todos, à espera de qualquer coisa, e ninguém vem colher o fruto.»

Karl Mannheim (1922)

Infelizmente ninguém sabe que aspecto terá o nosso mundo daqui a 6 meses, um ano, dois … Nunca fomos bons a prever o futuro, mas hoje, é tarefa impossível. E assim que o Covid-19 possa reprogramar o nosso modo de vida, os cérebros e as mentes, deixaremos de ter certezas seja sobre o que for – incluindo uma coisa que até há pouco tempo já era questionada: a Ordem Liberal Internacional.

Hoje, ainda mais, não teremos a menor ideia do que será, entre outras, China, EUA, Rússia, Europa, UE. Mas, há hora que escrevo estas linhas, os EUA estão em pânico. Na Big Apple soam todos os alarmes. Os Governadores estão a interligarem-se, pois, a Casa Branca está out. Trump só está preocupado com a economia e, claro por isso, com a sua reeleição. A China está a controlar e a reparar os danos provocados e, pasme-se, a «dar-se ao luxo» de ajudar a Europa (a factura do almoço virá depois).

Já antes da pandemia, a China fazia perigar a «velha» Ordem Liberal Internacional. Ainda há pouco existiam várias linhas de pensamento na memorização da informação. Se num passado, isso fazia sentido porque a informação era escassa, e o seu lento pingar passava ainda pelos crivos das censuras, por contraste, no século XXI, fomos inundados por quantidades gigantescas de informação e os «censores» são incapazes de a filtrar - cai em catapulta.

Hoje são as redes sociais a «comandarem» uma grande parte da informação. Os mídia tradicionais tentam acompanhar, sem grande sucesso, esta nova ordem comunicacional. Por isso, mais do que nunca, dos escombros, precisaremos – se nos deixarem - de pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade (em inglês, dará os «quatros C»).

Com o Covid-19, o mundo percebeu que a China estava preparada para uma qualquer «guerra biológica» - não se fazem hospitais em três dias, se não tenha sido feito um treino para tal. O regime autoritário e a capacidade de resiliência da sua população fizeram o resto. A população dos EUA não tem essa capacidade de resiliência e está sem liderança. Trump dividiu a América em duas e isso vai-lhe sair caro. Talvez imponha, devido às circunstâncias, uma ditadura militar. O controlo já não será com as suas «fronteiras». Será bem lá dentro e, se assim for, uma escalada para uma outra guerra civil será apenas um pequeno passo.

Qualquer cenário ficará longe da verdade. As certezas e as suas especificidades ficarão no baú. Só saberemos que a mudança, per si, será a única certeza. Para quem sobreviver ao caos, ir-se-á de precisar de uma flexibilidade mental e grandes reservas de equilíbrio emocional. Se a Revolução Industrial nos deixou, como herança, a teoria educativa da linha de montagem, já antes desta pandemia, já estava tudo bem diferente, com a robotização em destaque. E a China como a potência com mais capacidade para o desenvolvimento da IA e biotecnologia – tem 167 instituições académicas e de investigação, contra 103 dos EUA.

Se existir um «day-after» (a pandemia não mata, vai matando), a tecnologia poderá em muito ajudar-nos, seja qual vier a ser a ideologia reinante e dominante. Mas se dessa tecnologia precisaremos, não poderemos ficar dela reféns. Se não soubermos o que queremos, poderemos dar por nós a servir os seus interesses e, o mais grave de tudo, de quem a controla.

Se os algoritmos já nos observam neste preciso momento, pior será quando nos conhecerem mais do que nos conhecemos e, assim, conseguirão controlar-nos e manipular-nos. E voltando à questão tão ou mais preocupante, quem deterá, num futuro próximo, esse poder, essa tão preciosa informação? (continua … daqui a uns tempos)

Manoel de Povos, 24 de março de 2020, 03h e 04m


domingo, 22 de março de 2020

Yuval Noah Harari sobre coronavírus: “Parece não haver adultos na sala”



Acredita que o mundo pode superar a pandemia, porque “os humanos são agora muito mais poderosos do que os vírus”. A solução não é fechar fronteiras, mas mais cooperação. “Políticos irresponsáveis”, como Trump, “têm minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço”, diz ao P2 o autor do best-seller literário Sapiens.
 21 de março de 2020, 22:09
Por estes dias, Yuval Noah Harari tem uma agenda muito menos preenchida. Há poucas semanas, percorria o mundo em conferências e palestras. É um dos pensadores mais requisitados da actualidade, com mais de 23 milhões de livros vendidos (Sapiens — História Breve da Humanidade tornou-se um enorme best-seller; seguiram-se-lhe Homo Deus — História Breve do Amanhã e 21 Lições para o Século XXI). Personalidades como o Presidente da França, Emmanuel Macron, ou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, querem ouvir este israelita, que olha para o passado e o presente da espécie humana à procura de pistas para prever o que vem aí.

Em janeiro, no encontro anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, Suíça, o pensador e historiador discorreu sobre “como sobreviver ao século XXI”. Nessa altura, o novo coronavírus era ainda um problema da China — ainda não tinham sido confirmados casos em Itália, que é agora o país mais afectado pela pandemia.

Mas, num instante, tudo mudou. “A crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema em vez de abandoná-lo”, afirma Harari, numa entrevista ao P2 por email. O que tem visto, porém, são reacções dos países pouco concertadas entre si. “Devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação”, a única solução para esta crise, que exige a “criação de um sistema de saúde verdadeiramente global”. 
Porque, “para o vírus, não há qualquer diferença entre chineses, italianos, iranianos e portugueses. Somos todos Homo sapiens”.

O que mais o assusta nesta crise?
Uma coisa que realmente me assusta é que, em nome do combate ao coronavírus, vários homens fortes abolirão todos os controlos e equilíbrios democráticos e estabelecerão a “coronaditadura”. Isto acaba de acontecer em Israel: Israel é agora uma coronaditadura.

Os governos em muitas democracias estão a emitir decretos de emergência. Isto é bom. Mas em Israel, um golpe antidemocrático acaba de acontecer. Quando Angela Merkel emite decretos de emergência, fá-lo como líder democraticamente eleita da Alemanha. Mas Netanyahu não é um líder democraticamente eleito. Perdeu as recentes eleições e os seus rivais agora têm maioria no Parlamento e estão a formar um novo governo. Assim, sob o pretexto de lutar contra o coronavírus, Netanyahu fechou o Parlamento israelita, ordenou que as pessoas ficassem em suas casas e está a emitir os decretos de emergência que quer. A isto chama-se “uma ditadura”. Coisas destas podem também acontecer noutros países.

E o que é que lhe dá esperança?
Os humanos são agora muito mais poderosos do que os vírus. Temos o conhecimento científico necessário para superar esta epidemia. Quando epidemias como a peste negra se espalharam no passado, uma das piores coisas foi a ignorância. Havia imensas mortes e ninguém sabia porquê. O que as estava a matar? Como se espalhava? O que podia ser feito para o contrariar? As pessoas sentiam que qualquer pessoa podia morrer a qualquer momento. Acreditavam que talvez fosse Deus que os estivesse a punir ou que alguém usou magia negra contra eles.

Pelo contrário, hoje temos uma ideia muito precisa do que está a acontecer. Os cientistas levaram apenas duas semanas a identificar o novo coronavírus, sequenciar o seu genoma e desenvolver um teste confiável para detectar pessoas infectadas. Se confiarmos na ciência, e se os países cooperarem efectivamente, não há dúvida de que venceremos isto. 

Este é talvez um dos poucos momentos recentes em que muitos de nós nos sentimos definitivamente parte de uma espécie, os sapiens do seu livro. Na reacção global e nas cadeias de solidariedade e vizinhança. O sentimento de ameaça dá-nos essa noção de espécie? Uma epidemia ou pandemia é uma coisa terrível, mas pode mostrar-nos a nossa natureza humana?
É mesmo isso. A epidemia deve lembrar-nos de que todos nós partilhamos a mesma natureza humana e os mesmos interesses básicos. Para o vírus, não há qualquer diferença entre chineses, italianos, iranianos e portugueses. Somos todos Homo sapiens.

As pessoas falam muito sobre a necessidade de proteger as fronteiras nacionais contra a epidemia. Mas a fronteira realmente importante que precisamos de guardar é a fronteira entre o mundo humano e a esfera do vírus. Esta fronteira está dentro do corpo de cada ser humano. Se um vírus perigoso consegue penetrar nesta fronteira em qualquer parte da Terra, coloca toda a espécie humana em perigo. Se um vírus salta de um morcego para o corpo de um ser humano na China, isso também é uma ameaça directa à minha vida. Por isso, é do meu interesse que as pessoas em todos os países disponham de bons cuidados de saúde.

O seu livro Sapiens explica como o poder da cooperação é o que realmente nos distingue dos outros animais. O mundo está a explorar plenamente essa força ou a luta contra o coronavírus é prejudicada pelas agendas nacionais?
A grande vantagem dos seres humanos sobre os vírus é a capacidade de cooperarem eficazmente. Um coronavírus na Coreia [do Sul] e um coronavírus em Portugal não podem trocar dicas sobre como infectar os humanos. Mas a Coreia pode dar a Portugal muitas lições valiosas sobre o coronavírus e como lidar com ele. Mais do que isso: a Coreia pode até enviar especialistas e equipamento para ajudar directamente Portugal. Os vírus não podem fazer nada disso.

"A fronteira realmente importante que precisamos de guardar é a fronteira entre o mundo humano e a esfera do vírus"

Infelizmente, devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço por isso.

Parece não haver adultos na sala. Já devia ter havido há semanas uma reunião de emergência dos líderes globais para apresentar um plano de acção comum para combater tanto a epidemia como a crise económica. Mas só esta semana os líderes do G7 conseguiram organizar uma videoconferência, que não resultou num plano desse tipo.

Durante a epidemia de ébola de 2014 e a crise financeira de 2008, os EUA funcionaram como líder global. Reuniram-se atrás dos EUA países suficientes para evitar uma catástrofe global. Mas, nos últimos anos, os EUA renunciaram ao seu papel de líder global. A actual Administração americana cortou o apoio a entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde e deixou muito claro ao mundo que os EUA não têm mais amigos de verdade — têm apenas interesses. Quando a crise do coronavírus eclodiu, os EUA ficaram à margem e, até agora, abstiveram-se de assumir um papel de liderança. Mesmo que acabem por tentar assumir a liderança, a confiança na actual Administração dos EUA foi de tal forma corroída que poucos países estariam dispostos a segui-la. Seguiria um líder cujo lema é “Eu primeiro”?

Há alternativas a essa liderança americana?
Esperemos que outros países possam preencher o vazio deixado pelos EUA. Veríamos mais e melhor cooperação em pelo menos cinco campos.

Primeiro: compartilhar informações confiáveis. Os países que já experimentaram a epidemia devem dar lições aos novatos. Dados de todo o mundo devem ser partilhados aberta e rapidamente com os objectivos de conter a epidemia e desenvolver medicamentos e vacinas.

Segundo: coordenar a produção global e a distribuição justa de equipamentos médicos essenciais, tais como kits de teste e ventiladores pulmonares. A coordenação global pode superar estrangulamentos na produção e pode garantir que o equipamento vá para os países que mais precisam dele — e não para os países mais ricos.

Terceiro: os países menos afectados devem enviar médicos, enfermeiros e especialistas para os países mais afectados, tanto para os ajudar como para adquirir experiência valiosa. O centro da epidemia continua a mudar. Antes era a China, agora é a Europa, talvez no próximo mês sejam os EUA e mais tarde o Brasil. Se o Brasil enviar ajuda para a Itália hoje, talvez dentro de dois meses, quando a Itália recuperar e o Brasil estiver em crise, a Itália retribua o favor.

Quarto: criar uma rede de segurança económica global para salvar os países e sectores mais atingidos.
E quinto: formular um acordo global que permita que os viajantes prioritários continuem a atravessar as fronteiras.

"A grande vantagem dos seres humanos sobre os vírus é a capacidade de cooperarem eficazmente"

Existe um perigo real de os políticos usarem esta crise para fechar fronteiras e aumentar a polarização e a xenofobia, uma tendência que já vinha de trás? Ou, pelo contrário, irá a pandemia fomentar os laços e a solidariedade entre os países?
Depende de nós. Espero sinceramente que a pandemia fomente a solidariedade, não só entre os países, mas também dentro dos países. Infelizmente, nos últimos anos, assistimos à ascensão de líderes populistas, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que incitam ao ódio não só contra os estrangeiros, mas até mesmo contra concidadãos. Estes líderes têm feito tudo ao seu alcance para dividir a sociedade em campos hostis, retratando a oposição não como rivais legítimos, mas sim como traidores perigosos. Desta forma, ganharam a lealdade de uma metade da sociedade, ao mesmo tempo que alienaram completamente a outra.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os americanos odeiam-se agora muito mais uns aos outros do que odeiam os russos ou os chineses. Parte da América acredita que Trump é um génio infalível. A outra parte não acredita numa palavra do que Trump diz. Isso torna extremamente difícil gerir a crise actual. Em tempos normais, Trump pode governar os Estados Unidos com o apoio de apenas metade dos cidadãos. Mas, para superar a epidemia e a crise económica, ele deveria conquistar a cooperação de todos. Como é que ele vai fazer isso? Se ele der alguma orientação através da televisão, metade dos americanos pode segui-la, mas a outra metade terá muita dificuldade em confiar nele. Diriam para si mesmos: “Este tipo mente-me há três anos. Porque haveria de acreditar nele agora?”

Espero que líderes como Trump abandonem as suas tácticas de dividir para reinar e façam tudo ao seu alcance para reconquistar a confiança de todos os cidadãos.

Esta crise põe a nu a fragilidade do mundo moderno globalizado? De repente, muita coisa mudou. A pandemia vai afectar a nossa noção de um mundo interligado?
De facto, a crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema, em vez de o abandonar. O custo económico de desmantelar permanentemente o sistema global de comércio e transportes seria imenso e não nos protegerá verdadeiramente de epidemias futuras.

Epidemias como a peste negra espalharam-se mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização. Portanto, mesmo que reduzíssemos as ligações globais para níveis medievais, fizéssemos aterrar todos os aviões e voltássemos a viajar em mulas, ainda sofreríamos de epidemias. A única época em que os humanos estavam tão isolados que não tiveram epidemias foi na Idade da Pedra, antes da Revolução Agrícola e da ascensão das primeiras cidades. Acha que podemos voltar à Idade da Pedra?

A verdadeira protecção contra epidemias será obtida através de mais investigação científica, de uma troca de informações mais aberta e da criação de um sistema de saúde verdadeiramente global.
"Se o Brasil enviar ajuda para a Itália hoje, talvez em dois meses, quando a Itália recuperar e o Brasil estiver em crise, a Itália retribuirá o favor"

A urgência associada a esta pandemia não tem paralelo, por exemplo, na resposta às alterações climáticas. Perante a covid-19, não há espaço para a negação, os cidadãos sentem o perigo à sua volta, a ameaça. Como podemos tirar algumas lições disto que possamos aplicar na luta contra as mudanças climáticas?
Espero que possamos aplicar as lições da epidemia do coronavírus na luta contra o colapso ecológico. Em particular, a crise do coronavírus deveria ensinar-nos o alto custo de ignorar os piores cenários. Os países que pouparam dinheiro nos últimos anos cortando nos serviços de saúde vão agora gastar muito mais devido à epidemia. Da mesma forma, se tentarmos poupar dinheiro não fazendo nada em relação às alterações climáticas, isso também causará enormes prejuízos a longo prazo.

O que devemos fazer nessa frente?
Algumas pessoas imaginam que, para pôr fim às alterações climáticas, teremos de parar completamente todo o crescimento económico e voltar a viver em cavernas e a comer raízes. Isso é um disparate. Consegue adivinhar quanto vai custar evitar alterações climáticas catastróficas? O número mágico é 2%. E é tudo. Se investirmos 2% do PIB global no desenvolvimento de melhores tecnologias e infra-estruturas, isso é suficiente para evitar alterações climáticas catastróficas. É claro que 2% do PIB global ainda é muito dinheiro. Mas certamente está dentro da nossa capacidade de o fazer. Se amanhã rebentar uma nova guerra mundial, os governos vão gastar muito mais do que apenas 2% do PIB a combater e a tentar ganhar esse conflito. Portanto, gastar 2% para salvar o mundo da catástrofe das alterações climáticas parece muito razoável. 

A propósito da actual pandemia, tem lançado alertas sobre o que pode acontecer à nossa privacidade em nome da saúde pública. Está à espera que isso aconteça no Ocidente?
Há um perigo que aconteça, sim. A epidemia do coronavírus pode ser um momento marcante na história da vigilância. Pode legitimar e normalizar a implantação de ferramentas de vigilância em massa em países democráticos que até agora as rejeitaram. Os governos podem argumentar que esta é apenas uma medida temporária tomada durante um estado de emergência. Mas as medidas temporárias têm o péssimo hábito de viver para além das emergências, especialmente porque há sempre uma nova emergência à espreita no horizonte. Mesmo quando os casos de coronavírus estiverem reduzidos a zero, alguns governos podem argumentar que precisam de manter os novos sistemas de vigilância por temerem uma segunda vaga de coronavírus, ou porque há uma nova estirpe de ébola a evoluir na África Central, ou porque querem proteger as pessoas da gripe sazonal. Porquê parar com o coronavírus?

Uma grande batalha tem sido travada nos últimos anos em torno da nossa privacidade. A crise do coronavírus pode ser o ponto de viragem da batalha. Isto porque, quando as pessoas têm de escolher entre privacidade e saúde, geralmente escolhem a saúde. Mas pedir às pessoas para escolherem entre privacidade e saúde é, na verdade, a própria raiz do problema. Isto é uma falsa dicotomia. Nós podemos e devemos ter direito tanto à privacidade como à saúde. Podemos escolher proteger a nossa saúde e interromper a epidemia do coronavírus, não instituindo regimes totalitários de vigilância, mas educando e capacitando os cidadãos. Quando as pessoas têm uma boa educação científica, e quando confiam nas autoridades públicas para lhes dizer a verdade, as pessoas podem agir de forma correcta por sua própria iniciativa. Uma população automotivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população policiada e ignorante.


A Grande Gripe (4 e último)

Em Lisboa, as primeiras hospitalizações tiveram lugar a 24 de setembro de 1918, com uma particular incidência de jovens adultos - e, curiosamente, em números quase idênticos entre homens e mulheres, mas com muito mais elevada mortalidade masculina -, contrastando com um reduzido internamento de idosos e de crianças, o que constituiu uma singularidade desta Grande Gripe.

A esmagadora maioria dos internados era oriunda da própria capital, mas foi nos meios rurais que a mortalidade atingiu níveis mais elevados, o que é tanto mais curioso quanto foi nesses meios que se registaram menores taxas de incidência da doença.

De início, foram usados em Lisboa os dois pavilhões de doenças infecto-contagiosas do Hospital do Rego, mas, numa "cidade suja e infecta, sem higiene e quase sem água, rica de toda a casta de espécies mórbidas", nas palavras do então director-geral dos Hospitais Civis, cedo se sentiu a necessidade de novas instalações. Foi rapidamente reactivado, em condições precárias, o velho Hospital de Arroios, usando-se ainda in extremis parte do antigo Convento das Trinas e o Liceu Camões. Um médico em serviço neste liceu sintetizou numa frase toda a sua impotência: "Os doentes morriam e nós não sabíamos como evitar a morte."

Falava-se de cólera, de dengue, de febre papataci, de peste pneumónica, ninguém se entendia. Mas todos presenciavam os efeitos devastadores da doença. O médico Simões de Macedo, que observou mais de 300 casos de tifo exantemático, recordou o imobilismo dos afectados pelo torpor ou estupor tífico: "Quem visitava as enfermarias de tifosos ficava impressionado pelas máscaras imóveis dos pobres farrapos humanos que a época de desgraças para ali atirou. E digo máscaras imóveis porque, embora crispações de músculos as agitassem, abalos de tendões as sacudissem, eram vazias de olhar, sem expressão, ocas de sentimentos. Aqueles olhos parados, obstinadamente fitos num ponto, ou movediços como o pêndulo dum relógio, davam a impressão de não terem retina que fixasse uma imagem; aquelas rugas da fronte, aqueles vincos dos lábios, não eram gerados por um pensamento ou formados por um sentimento."

Os outros sintomas não eram mais animadores: enfraquecimento e astenia, dores do pescoço que impediam ou dificultavam a deglutição, graves perturbações na fala (a ponto de Simões de Macedo afirmar que os doentes pareciam "ter um corpo estranho na boca"), escrita trémula, diminuição da acuidade auditiva, trémulos nos músculos da face, da região torácica e dos membros, contracção dos músculos da nuca, relaxação do esfíncter, perdas parciais ou totais de equilíbrio, erupções cutâneas muito visíveis e disseminadas, um hálito sui generis.

Como sempre sucede nos momentos de grande pânico colectivo, tentou-se ultrapassar o medo através do humor.

Curiosamente, um dos sintomas observados por Simões de Macedo foi um súbito aumento de apetite, com tendência para se converter em aparente bulimia. A par disso, outro sintoma peculiar: o medo. "O doente apresenta-se-nos aterrado não só pela rapidez do ataque - como se tivesse levado uma grande pancada, que não sabe de onde caiu, disseram-me alguns -, mas ainda pelo internamento num hospital de que o povo tem uma ideia horrível - um inferno povoado por diabos de casaco branco." 

Acrescentou ainda Simões de Macedo: "Quem visitava as enfermarias de tifosos ficava impressionado pelas máscaras imóveis de pobres farrapos humanos que a época de desgraças para ali atirou."

Também o médico Adérito Madeira assinalaria que, nos contaminados por tifo exantemático, "a expressão do rosto é triste, estúpida e parada", notando-se ainda como outros efeitos a anorexia, a sede intensíssima, a respiração acelerada, as vertigens, o cheiro característico da pele (a "palha podre", segundo aquele médico), as insónias, os delírios, a incontinência. Um inferno.

A onda de mortalidade foi tal que os funcionários da morgue e dos cemitérios, assoberbados de trabalho, chegaram a ser acusados de falta de dignidade no cumprimento das funções. Na cidade de Lisboa circulavam carroças apinhadas de cadáveres cobertos apenas com uma serapilheira, enquanto nos cemitérios tiveram de abrir valas comuns para acolher os corpos, e os Armazéns Grandella fizeram uma campanha de redução de 10% no produto que as famílias mais necessitavam: vestuário de luto.

O Estado manifestamente não conseguiu satisfazer as necessidades das populações, sendo grande parte do combate à doença deixado a cargo das organizações tradicionais de assistência, com destaque para as associações mutualistas, para os bombeiros, para as sociedades recreativas e para as então criadas comissões locais de socorro, ou mesmo instituições como o Diário de Notícias, a companhia de seguros A Oriental, o Banco Português e Brasileiro, o Sport Lisboa e Benfica ou o Partido Republicano. Além da acção caritativa de particulares, como a condessa de Burnay, destacou-se, neste contexto, a Obra de Assistência 5 de Dezembro, apadrinhada por Sidónio Pais, e, em especial, a Cruz Vermelha.

Como sempre sucede nos momentos de grande pânico colectivo, tentou-se ultrapassar o medo através do humor. Dos sobreviventes da gripe dizia-se que haviam estado "na cama com a espanhola", enquanto em Madrid chamava-se à doença "soldado de Nápoles", nome de uma popular canção de opereta da altura que se dizia ser tão contagiosa como a enfermidade.

E, como também é frequente, houve uma redescoberta do sobrenatural ou de causas extraterrenas, não sendo por acaso que a expressão influenza foi cunhada no início do século XVI em Itália para exprimir justamente a ideia de que a gripe sofria a influência das estrelas.

Por uma crença algo obscura, os maoris da Nova Zelândia só aceitavam medicamentos castanhos, da cor da sua pele, enquanto, à semelhança dos médicos ocidentais, os lamas do Tibete velavam os doentes dia e noite, rufando tambores e tocando címbalos.

Os russos continuavam a beijar os seus ícones, julgando que durante uma missa era impossível contrair a doença, e, em Nova Orleães, pessoas de todas as classes sociais passaram a abastecer-se de artefactos ligados à prática do vudu e a entoar uma prece capaz de esconjurar a praga (Sour, sour, vinegar-V / Keep the sickness off 'n me).


O Public Health Service recebeu cartas de cidadãos propondo que fosse aconselhado o uso de uma fita vermelha ao pescoço, com o argumento irrespondível de que "a gripe é o diabo e o diabo não ataca o vermelho".

Os Cientistas Cristãos questionaram as "terapêuticas materialistas" - que, de facto, mostravam-se incapazes de vencer o flagelo - e viraram-se para uma abordagem espiritualista da doença.

Um soldado norte-americano, ao ver a morte grassar entre os seus camaradas de armas, reconfortou a sua mãe numa carta em que dizia estar a salvo da epidemia pois acreditava no "poder da mente sobre a matéria", acrescentando: "Se todos tivessem a mesma fé no Pai-Mãe Deus tudo seria... diferente."

Para as Testemunhas de Jeová, cumpria-se a profecia das "pestilências e sofrimentos" que Cristo anunciara no Monte das Oliveiras.

Em contrapartida, um astrólogo americano considerou que o culpado de tudo era o planeta Júpiter, já que o seu efeito sobre o electromagnetismo da Terra fizera crescer e desenvolver-se um microorganismo letal. Os astrólogos africanos, de seu lado, avançaram uma explicação diversa, que se baseava na existência de uma estranha conjunção de Saturno e Neptuno.

Proliferaram crenças antigas: os ingleses que habitavam Gibraltar entraram em pânico ao verem os macacos adoecer, já que uma velha lenda dizia que, quando os símios desaparecessem do rochedo, também os súbditos de Sua Majestade o abandonariam para sempre.

Em certas aldeias da Noruega, retomou-se a tradição viquingue de deixar alimentos junto às campas dos mortos e, em Cracóvia, na Polónia, um transeunte assistiu a uma cerimónia bizarra em pleno cemitério judaico: com vista a perpetuar a espécie e resgatar a humanidade da pandemia, dois jovens órfãos, ainda adolescentes, rodeados por centenas de judeus, uniram-se num "casamento sacrificial".

Na China, foi-se mais longe: para esconjurar a praga, um antigo soldado imperial cometeu um acto de loucura, lançando o seu filho às chamas do caldeirão de incenso do templo de Cheng Huang.

Não raras vezes, este refúgio no sobrenatural esteve associado à crença em produtos milagrosos: além de chegarem a anunciar uma vacina para a gripe, os jornais publicitaram cigarrilhas medicinais "ultra-elegantes" contra a bronquite; em Paris, as senhoras usaram ao pescoço, como amuletos, saquinhos cheios de cânfora, de cores bizarras; em Inglaterra, muitos médicos acreditavam que o tabaco tinha virtualidades germicidas e, por isso, não só o consumo de cigarros foi permitido pela primeira vez nas fábricas de armamento como, na Austrália, muitos clínicos realizavam as autópsias dos mortos pela pneumónica envolvidos numa densa atmosfera impregnada de tabaco de cachimbo. Por conselho médico, um industrial holandês tornou obrigatório o consumo de tabaco para os seus trabalhadores.

Quanto a bebidas alcoólicas, as opiniões divergiam, mas logo muitos se aproveitaram da redução do preço do brandy medicinal para passarem a consumi-lo em abundância, ao passo que certos clínicos recomendavam o quinino e a estricnina, que muitos dos seus colegas consideravam perfeitamente inúteis.

Houve também, como é hábito, tentativas de aproveitamento económico e muitos enriqueceram à conta da pneumónica, desde autores de bestsellers com conselhos para evitar o contágio (o livro A Gripe Espanhola e como Curá-la, de Henrik Berg, vendeu só na Suécia 20 mil cópias logo nos primeiros tempos de lançamento) até médicos que cobravam consultas a preços exorbitantes, passando por empresas que publicitavam cursos de estenografia para os que estavam confinados às suas casas e dos que se serviram das máscaras de gaze para assaltarem bancos e estabelecimentos comerciais ou, como ocorreu com um grupo de raparigas em Calgary, para se fazerem passar por profissionais de saúde e, assim, exigirem honorários aos mais incautos. Foram também numerosos os casos de farmacêuticos detidos por venda de medicamentos adulterados.

A Grande Gripe desapareceu de um modo quase tão misterioso e repentino como tinha começado.
Em São Francisco, Estados Unidos, acreditava-se piamente no poder profilático das máscaras de gaze, tendo a Cruz Vermelha vendido mais de cem mil, fabricadas pela Levi Strauss and Co. No Dia do Armistício, as ruas da cidade californiana encheram-se de uma multidão de cerca de 30 mil pessoas que, com máscaras no rosto, celebravam a vitória militar em desfiles e bailes. Nos jornais, o mayor e o município, o departamento de saúde, a Cruz Vermelha e a Câmara de Comércio publicavam avisos dizendo "Use uma máscara e salve a sua vida!" ou "Uma máscara de gaze é 90% eficaz no combate à gripe". Quem não usasse a máscara salvadora, advertiam os jornais, seria ostracizado, talvez mesmo punido.

E, de facto, a polícia fez centenas de detenções de cidadãos que andavam pelas ruas de cara descoberta, correndo o risco de pagarem uma multa de cinco dólares ou mesmo de serem encarcerados. Mas, quando chegou a segunda vaga epidémica, já quase ninguém levava a sua máscara de protecção ou acreditava no seu poder preventivo.

A Grande Gripe desapareceu de um modo quase tão misterioso e repentino como tinha começado. Aos poucos, o número de vítimas começou a diminuir, sem que ainda hoje se saiba ao certo o que terá ocorrido: uns falam numa melhoria das condições de prevenção, outros garantem que o vírus foi perdendo progressivamente a sua eficácia letal. O balanço do total de mortos também é muito variável. Os cálculos mais negros apontam para cerca de cem milhões de vítimas.

António Araújo, Historiador, 21 de março de 2020