quinta-feira, 31 de março de 2022

Guerra (pode ser a da Ucrânia): Modo de Usar



Lições de geopolítica apurada em livros russos, velhinhas apanhadas na guerra e bebés que percebem o mundo mais do que gostariam, tão cedo.

Mensagem de Lisboa, Ferreira Fernandes, 14.03.2022

No dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, Miguel Esteves Cardoso (MEC) escreveu uma crónica no jornal Público. Logo no título, dizia o essencial sobre o começo da guerra: É Muito Simples.

E era. No texto, também curto, MEC dizia que a Rússia é grande, demasiado poderosa e fora ela que invadira a Ucrânia, que é mais pequena e não invadiu a Rússia. Eis o ponto de partida que não oferece possibilidades de réplica.

Daí, o cronista, e bem, ter concluído: “Complique-se o que se quiser complicar, a questão da Ucrânia é muito simples e exige de nós uma resposta igualmente simples: estar totalmente do lado da Ucrânia…”

É certo que MEC prolongou aquela frase com “… e totalmente contra a Rússia.” Mas eu quero ser ainda mais simples do que o É Muito Simples do MEC. Os governantes da Rússia, nesta história, não merecem ser nem a parte má de uma equação. Merecem, tão-só, que se saiba o que eles cometeram: o começo da guerra. Sabendo nós que eles sabiam o que faziam.

Guerra começada, começou o que era de prever. Guerra é sobre matar pessoas.

Literalmente, ou pior do que isso. É enlutar famílias, esburacar os prédios da cidade, perder vizinhos, ver amigos partir, impedir o trabalho, queimar as colheitas, fechar as escolas, destruturar as comunidades, potenciar ao infinito os azares, fazer em pó memórias e hábitos. Guerra é medo e caos. Fábrica de almas mortas.

É ser bebé, em 1941, com a sua cidade de Kiev ocupada pelos alemães – bombardeada, arrasada e esfomeada. Dir-se-á que um bebé não se deu conta. Errado, deu. Em 2022, é ser a mesma pessoa, ainda em Kiev, mas velha 81 anos, e o mesmo destino, acamada e a ouvir bombas russas. E dar-se conta, e talvez sentir culpa, porque a filha não fugiu, como os vizinhos, porque cuida dela. Guerra é colocar uma vida nesse começo e fim.

Balelas, a vida eterna! O epitáfio daquela mulher é este: “1941-2022, Kiev. Duas guerras”.

Num documentário, do passado dia 10, tinha a invasão duas semanas, o repórter da BBC estava nas imediações da cidade ucraniana de Carcóvia. Acompanhava soldados ucranianos até à linha da frente dos invasores, a poucas centenas de metros. Era noite, mostraram-nos prédios destruídos e ouviam-se explosões, que a televisão já nos ensinou serem surdas e alarmarem os automóveis estacionados.


Negro cerrado cortado por lanternas. Os raros civis que ousavam a noite das ruas já aprenderam a obediência cega: quando alumiados, não esperavam a ordem, logo ajoelhavam e abriam os braços para os soldados revistarem.

A patrulha e a equipa da BBC meteram-se à estrada. Os faróis mostravam o asfalto e as bermas de neve. Então, à direita, na mesma direção que levava o carro, caminhava um vulto. Uma mulher, de costas e com um saco de plástico em cada mão.

O carro parou e no plano seguinte viu-se a cara da mulher. Por prudência com o destino dela, ou porque sim, a câmara focou-lhe só a boca. “Alina, 76 anos”, informou-nos o jornalista da BBC. Alina estava enregelada, o nariz pingava e estava confusa. Saíam-lhe sons entrecortados, esgotados. Alma morta.

Quem começou esta guerra sabia que, algures no guião da vida real, iria aparecer uma velha, caminhando curvada e só, na berma de uma estrada de inverno e de noite escura, nos arredores de uma qualquer cidade invadida. No sofá, eu estava totalmente com Alina. Eu sabia, sem dúvida, quem começou esta guerra – mas que importava eu ter razão? Eu estava derrotado.

Amanhã, na Ucrânia, será noutra estrada, haverá outra velha solitária e confusa interpelada por uma patrulha russa com jornalistas e talvez também tenham pudor com ela. E quem levou a essa outra alma morta foi o mesmo Putin que começou esta guerra, sabendo ao que ela levava.

Começada a guerra, que vai indo para um mês, haverá outras almas mortas (de civis ucranianos ou russos, porque na Ucrânia há dos dois) a encontrar soldados (ucranianos ou russos, porque hoje na Ucrânia há dos dois), desta vez sem jornalistas ao lado.

E acontecerá, então, o previsível e indizível… Porque, com o passar do tempo as guerras aperfeiçoam a sua condição de ser sempre más, mais más.

No Doutor Jivago, do russo Boris Pasternak, no livro e no filme, há um episódio em que um punhado de camponeses foge da aldeia incendiada. Arrastam-se na neve da estepe e cruzam-se com o pelotão de guerrilheiros onde está o médico Jivago. O comandante Razin pergunta quem foi o autor dos massacres.

Uma alma morta responde: “Soldados.”

Acontecia, então, a guerra civil saída da Revolução Russa, de 1917, entre os vermelhos comunistas e os brancos do antigo regime do czar. Razin insiste: “Soldados vermelhos ou brancos?”

A mesma voz volta a responder como um encolher de ombros: “Soldados.”

Mais de cem anos depois, o regime de Putin invade um país, e leva duas outras cores quaisquer, talvez já não vermelho e branco, outras. O certo é que ele começou uma guerra e sabia ao que esta ia levar.

Eu estive numa guerra, a da Jugoslávia, que ainda hoje não sei quem a começou. Mas sei ao que levou essa guerra.

Em 1999, estive na ponte sobre o rio Ibar, na cidade de Mitrovica, Kosovo. Uma velha sérvia tinha nascido e toda a vida vivera na margem errada, onde, com a guerra civil, os kosovares muçulmanos enxotavam os antigos vizinhos, sérvios.

Um blindado francês, das tropas da ONU, depositou a velha sérvia no meio da ponte. Ela trazia dois grandes sacos de plástico, os bens de uma vida.

Os soldados franceses, comovidos, olhos no chão, seguravam os sacos, deixando a velha ocupar-se do que mais parecia preocupá-la – as pernas dela, que tremiam descontroladamente. Chegados à outra margem, a mulher foi entregue aos soldados italianos, também da ONU. Irados, os sérvios que a recebiam, insultavam-nos, aos jornalistas.

Havia ali um café chamado Dolce Vita, a vida tem dessas ironias. Mas a velha sérvia trémula não conseguiu chegar lá, precisou de se sentar no rebordo de um canteiro. Abraçou-se aos joelhos – e eles acalmaram.

Foi então que o maxilar da velha desatou a tremer e ouviu-se o barulho dos dentes, feitos castanholas, a bater, uns nos outros.

Quando vejo na TV a minha camarada Cândida Pinto a reportar uma guerra, como agora voltei a ver, em Kiev, dou-me sempre conta do tom, mais do que amargo, triste, da sua voz.

Não é pose, é experiência. Naquele dia, ela também estava na ponte sobre o Ibar.

Não sei quem começou a guerra da Jugoslávia, sei quem começou a guerra da Ucrânia. Mas em ambos os casos sei do mais importante: com quem totalmente estava e estou. A medida de todas as coisas é o tremor da velha da ponte sobre o Ibar e a confusão da velha na estrada gelada nos arredores de Carcóvia.

Faltam-me estudos em geopolítica e consequentes geoestratégias. Finjo aprender como cercar Kiev para quem sobe de Mykolayiv e faz tenaz por Brovary. Finjo interesse pelas geografias de saber colado por cuspo que são, para os olheiros, a primeira tentação das guerras. Mas ao que dou, mesmo, atenção é à Alina, perdida na noite, aos 76 anos, estrada fora.

Talvez dois romances, lidos na adolescência, me tenham ajudado a chegar a essas opções simples. Por coincidência não forçada, um é do ucraniano Nikolai Gogol (1809-1852) e o outro do russo Dostoiévski (1821-1881).

O livro Almas Mortas, de Gogol, ensinou-me o que são os desapossados. No antigo império russo, a grandeza das propriedades não era medida pela extensão delas mas pelo número de “almas”. Servos que nasciam e morriam ao serviço do proprietário, sem nunca terem direito a possuir um pedaço de terra.

No séc. XVIII, o czar Pedro, o Grande, criara um imposto sobre as “almas”, tributado aos proprietários, consoante o número de servos que tinham. Entre dois recenseamentos, o imposto pago pelos donos incluía todos os servos, até os já mortos.

Almas Mortas é uma farsa em que Gogol conta a história de Tchitchikov, vigarista que vai para a província comprar servos mortos. O interesse dos proprietários, a quem ele propunha o negócio, era livrarem-se do imposto e ganharem, ainda, alguns rublos à custa dos sepultados que já não trabalhavam.

O interesse do especulador Tchitchikov era ganhar um rol de mais servos, o que lhe permitia juntar “almas mortas” ao seu património. Património falso que iria servir de penhor para fazer novos empréstimos para comprar mais almas mortas…

Interessante como um escritor russo do séc. XIX, narrando um sistema medieval, parece ter inspirado uma crise moderna, a do subprime. Há pouco mais de uma dúzia de anos, nesse episódio do capitalismo selvagem, os bancos incentivam os seus clientes a comprar vivendas a preços desastrados.

Os bancos estariam sempre garantidos, dizia o subprime, pois se os empréstimos não fossem pagos, eles, os bancos, ficavam com a moradia de quem pedira o empréstimo. Segurança alicerçada na falácia de que o imobiliário estaria sempre em alta… Azarinho, não aconteceu assim, e foi crise mundial.

Como Gogol não foi um estratego da geopolítica do investimento bancário, manteve o foco do romance na farsa do seu vigarista e na indolência da burocracia russa. E, também e sobretudo, ele mostrou-nos o abuso ao que o mexilhão era submetido: até as almas mortas dos servos geravam lucros.

Tchitchikov tornou-se personagem histórica russa – há um século ainda Chagall lhe dedicava vários desenhos (ver em baixo). E a figura de especuladores financeiros russos, agora chamados oligarcas, voltaria ao de cima na era pós-soviética.

Também o estatismo russo – czarista, ou soviético, ou capitalista – iria tornar-se constante histórica, que dura há séculos.

E, agora, o terceiro e maior tema de interesse em Almas Mortas, o mexilhão, irrompeu pelos noticiários adentro. Em nome da noção imperial da Rússia, o desrespeito pela arraia-miúda enche as primeiras páginas e abrem os telejornais em todo o mundo. Entre feridos, mortos e multidões em fuga, os números já falam de milhões. Mas recusemos a mera estatística, cada alma morta, uma a uma, é tragédia.

Já depois desta guerra começar, a 7 de março, o russo Roy Medvedev deu uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera. Historiador, 95 anos, ele teve uma vida longa e variada: foi crítico de Estaline, dissidente soviético, apoiante da perestroika de Gorbachev e, agora, admirador de Putin.

Que será da Ucrânia?, perguntou o jornal. Medvedev respondeu: “Como esfera de influência, voltará ao tempo de Gogol, o nosso grande escritor que nasceu em território hoje ucraniano, mas todos consideram russo.” E concluiu: “A história nunca é em vão.”

Depois, o antigo dissidente, julgando que tranquilizava, disse: “Putin não planeia retomar toda Ucrânia, só a russófona.”

Talvez para quem não percebeu esta minha deambulação pelas Almas Mortas, Medvedev insistiu no império antigo: “Não há nada de errado em querer recriar uma Rússia que pelo menos como território se refere às fronteiras do czar Pedro, o Grande.”

Então, o Corriere della Sera fez a pequena pergunta, sobre a grande questão de que temos estado a falar: “E o que fazemos das vítimas?”

Resposta de um herói longevo, um resistente com provas dadas, afinal, um cego: “[Vítimas] Já existem muitas, infelizmente. A guerra é o mais cruel dos eventos históricos. Nós os russos estamos habituados a isso.”

Mas por que raio têm os vizinhos de gramar os maus hábitos dos russos?!, apetecia dizer, não fosse eu saber, por russos modernos, que há russos que não aceitam maus hábitos.

(Já para não falar do próprio Medvedev, que na década de 1960, fazia samizdat, publicações clandestinas e arriscadas, porque ele não gostava do hábito de só o Pravda, jornal do poder soviético, deter oficialmente a única verdade).

A8 de março, no dia seguinte à entrevista de Medvedev ao Corriere, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, ex-Presidente chilena, denunciava a detenção de 12 mil russos. Tinham-se manifestado, sobretudo em Moscovo e São Petersburgo, contra o mau hábito de Putin invadir um vizinho e fazer-lhe guerra.

E não foram manifestações de bate e foge, mas daquelas de mostrar a indignação e resistir. Como aquela velha senhora, Elena Osipova, 77 anos, que aparece todas as manifestações da sua cidade contra a guerra.


Dizem-na sobrevivente do cerco alemão a Leninegrado (nome atual: São Petersburgo), mas é folclore desnecessário: aquele cerco nazi durou de 1941 a 1944, ainda Elena não tinha nascido.

A condição de Elena Osipova é maior que isso. É, hoje, o contraponto solidário a outros e outras que, na Ucrânia, são vítimas. Como não evocar a cidade ucraniana de Mariupol, agora devastada pelos russos, quando Elena se torna a mais nobre cidadã da sua São Petersburgo, que sofreu terríveis bombardeamentos na II Guerra Mundial?

Que maior derrota para Putin, a demonstração repetida de coragem desta velha frágil, metade do corpo de qualquer polícia, que se agarra firmemente aos seus dois cartazes que denunciam a guerra, enquanto dois ninjas de capacete e viseira, expõem o incómodo por não poderem ser publicamente brutos.

Que epítome, súmula, resumo, para combater a religião nacionalista, com que o historiador Roy Medvedev sujou o seu passado (“a história nunca é em vão”) …

Entretanto, a velha Alina, a ucraniana, deambula confusa, talvez já não possa reconhecer o que deve à velha Elena, a russa.

Mas a história não assenta necessariamente em tanques. E quando tal acontece, começar guerras prepotentes, a história é mesmo em vão, ao contrário do que sugere Medvedev. A história que nos ensina é moral, ou não ensina.

Dou-me conta que este meu texto tem insistido em velhas. Não sei porquê, pois os testemunhos dos abusados pela guerra percorrem várias gerações. Mostram-no as multidões e os casos a caso. João Porfírio repórter fotográfico do Observador, num tweet sobre as suas fotos na Ucrânia tem o pudor de informar que ele não conta, até pede que as fotos não contem.

Escreveu João Porfírio, o que conta: “Olhem para os olhos.” Eis um homem que sabe. A guerra é sobre matar. O protagonista é único: as vítimas.

Há guerras mais suaves, são as em que eles partem e elas ficam – significa que nem tudo à volta desmorona. Esta guerra na Ucrânia não é dessas – tudo à volta desmorona.

Já sei porque insisto em velhas. Queria fugir de um testemunho sem explicação – que passou na CNN Portugal. Um pai fardado despede-se da família. Ele sabe, porque quis ou porque o obrigaram, que ele tem de ficar, a sobrevivência dos seus leva-o a isso. A sua mulher, ao lado, sabe que ela vai partir com os dois filhos, a sobrevivência deles leva-a a fugir.

Isso tudo tem boas razões (enfim, não falo na decisão de Putin, falo na decisão das vítimas dele). Mas neste testemunho, um dos filhos, bebé ao colo do pai, vai ter uma reação inesperada.

O bebé chora, aflito. Também percebo isso, pela tensão da mãe e a tristeza do pai, ele adivinhou que algo de mau lhe acontecia. O que se passou a seguir é que não entendo. O bebé para de chorar, faz um último soluço, põe cara de raiva, fecha o punho e esmurra e esmurra o capacete de soldado do pai. Ele entendeu, eu é que não entendo como ele chegou lá.

E retomo o segundo livro que li e me deu, cedo, uma lição simples. De Irmãos Karamazov, do russo Fédor Dostoiévski, um livro grosso, Freud disse ser o maior dos romances.

Só um parênteses. O romance é sobre o livre-arbítrio e a moralidade, de um escritor com fé que quer contribuir, no meio do séc. XIX, para a Rússia moderna. É o último livro de Dostoiévski, que algumas vezes se baseou em factos reais.

Num dos episódios, os pais encheram a filha de excrementos para a punir. Não saiu da imaginação do autor russo, mas de um julgamento que então, quando ele escrevia o romance, estava a decorrer em Carcóvia. A cidade ucraniana que já foi referida nesta minha crónica. Isto para relembrar que esta guerra é entre povos com muita história partilhada.

O que eu trago para aqui está numa dúzia de páginas do livro grosso. Num bordel, Dmitri, um dos irmãos Karamazov, agride o capitão Snieguiróv, um desgraçado capitão. Arrasta-o para a rua, com a mão puxando-o pelas barbas. Um grupo de pequenos estudantes sai da escola e, entre eles, vem Iliúcha, de 9 anos, o filho de Snieguiróv.

A criança corre: “Paizinho! Paizinho…” Agarra-se ao pai e pega na mão do agressor, beijando-a, para impedir a agressão. Dirá o capitão Snieguiróv, recordando-se: “Beijou-a, a mesma mão que…”

Na escola, gozam com Iliúcha, pela barba arrancada ao pai e pela aflição do garoto. Ele deixa de ir à escola. O pai propõe-lhe irem lançar papagaios, mas ele amarra-se no silêncio. Até um grito: “Paizinho, como ele te humilhou!” E desata a chorar.

Olhem para o que me deu! Citar o catecismo: “Nunca, frente a um filho, arrastes pelas barbas um pai.” Foi uma iniciação a ser homem, que há muito me deu um escritor russo. E, agora, me foi confirmado por um bebé ucraniano.

Se isto não permite apresentar-me como geopolítico apurado, não sei o que mais vos faça. 

sábado, 26 de março de 2022

FUI ABSURDAMENTE CANCELADO POR ENGANO PORQUE PENSAM QUE EU SOU RUSSO



Esta manhã acordei no quarto da pensão modesta onde vivo e dirigi-me ao escritório do meu editor para ultimar os preparativos da publicação do meu novo romance, quando o editor disse que fora cancelada porque eu sou de Leste e, por isso, russo. Quando dou por mim, estou num tribunal de menores, onde o advogado João Nabais acusa-me de ser russo e chama a testemunha Nuno Rogeiro que explicou que a Boémia, apesar de pertencente à Áustria-Hungria, fazia parte da esfera de influência czarista, pelo que eu era russo, tendo depois dito que o meu nome lembrava-lhe o Frank Zappa e, por isso, falou durante horas sobre as suas bandas de rock sinfónico étnico preferidas. Eu, sem perceber o que me acontecia, disse ao juiz Rui Fonseca e Castro que sou checo e não russo como o Dostoiévski, o Tolstói ou o José Luís Peixoto que passa a vida na Coreia do Norte, mas ele mandou-me calar, acusou-me de ser uma cobaia da vacina russa contra a Covid-19 e condenou-me às galés, devendo remar para o resto da vida no porão do iate do Roman Abramovich que esse sim, não é russo, mas beirão. Então acordei e percebi que tinha sido tudo um pesadelo e que estava transformado numa barata, mas pelo menos não fora cancelado, até notar que estava no ralo da cozinha do Vladimir Putin porque eu era agora uma barata russa e acabei na sola do sapato do José Milhazes. Então acordei desse segundo pesadelo sem sentido e dei por mim transformado, por alguma razão imperscrutável e ininteligível, numa traça russa a comer os diários do Álvaro Cunhal na biblioteca-museu do Pacheco Pereira na Marmeleira. V.E.

EQUIPA O INIMIGO PÚBLICO

quarta-feira, 23 de março de 2022

A barbárie em Mariupol

Se o horror de Mariupol se repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra grande cidade da Ucrânia, o Ocidente não poderá continuar impassível

Manoulos Androulakis, cônsul da Grécia em Mariupol, foi o último diplomata a abandonar a cidade, desejando que “aquilo” que viu “nunca mais ninguém venha a ver”. O Presidente da Ucrânia, Vlodomir Zelenskii foi mais longe ao afirmar que “o terror que se vive na cidade será recordado por muitos séculos”. Uma profecia que o cônsul grego corrobora, ao comparar os bombardeamentos que danificaram 90% dos edifícios de Mariupol à lista de cidades mártires da guerra da era industrial onde entram Coventry, Dresden, Guernica ou Hiroxima.

A História confirmará ou não estas comparações, mas o que se sabe de Mariupol é suficiente para se dizer que a barbárie das piores guerras europeias está de volta com a agressão da Rússia. Se o horror de Mariupol se repetir em Kharkiv, em Kiev ou em qualquer outra grande cidade da Ucrânia, o Ocidente não poderá continuar impassível. A Europa não pode regressar aos seus tempos de continente selvagem.

Fotografias como as da capa da edição do PÚBLICO de ontem, relatos de jornalistas sobre bombardeamentos de teatros ou de hospitais legitimam as acusações de Josep Borrell, alto-representante da União Europeia para a Política Externa: a Rússia, diz Borrell, está a cometer “um crime de guerra em massa” contra a população. Notícias de evacuações forçadas de civis ou a recusa de abertura de corredores humanitários atribuídas às forças de ocupação russas agravam o drama humano da cidade portuária. O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação sobre estes alegados crimes.

Na guerra convém sempre ser prudente na avaliação das informações, mas o que os jornalistas corajosos como os da AFP, que ficaram na cidade até ao limite, nos dizem merecem muito mais credibilidade do que a propaganda russa. O embaixador russo Gennady Gatilov garantia, numa entrevista a um canal francês, que as tropas do Kremlin estão a fazer tudo de “forma muito delicada”. Uma mentira inaceitável.

Mariupol tornou-se símbolo de um limite de tolerância com a barbárie, a fronteira na qual se estabelecem as linhas vermelhas do respeito pela vida e dignidade humanas. É também o lugar onde se desmascara o relativismo moral de tantos que se esforçam por encontrar zonas de sombra para iluminar a Rússia e a sua invasão.

Como o major general Raul Cunha, que, numa entrevista ao jornal Setenta e Quatro, pergunta: “Qual o interesse dos russos em matar os civis que estão em Mariupol, que até são a maioria russos?”. Pouco importa que a sua pergunta reles tenha por base uma mentira – 59% dos habitantes de Mariupol são ucranianos. Importa o reconhecimento conivente de que em Mariupol a morte se pratica de uma forma “muito delicada”.

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

A guerra de Putin à ordem liberal


A terrível invasão russa da Ucrânia, no dia 24 de fevereiro, tem sido vista como um ponto de viragem crítico na história mundial. Muitos disseram que marca definitivamente o fim da era pós-guerra fria, um retrocesso da “Europa inteira e livre” que pensámos ter surgido após 1991, ou mesmo, o fim do fim da História.

Ivan Krastev, um astuto observador dos acontecimentos a leste do Elba, afirmou recentemente no “The New York Times” que “estamos todos a viver no mundo de Vladimir Putin agora”, um mundo onde a força bruta atropela o Estado de direito e os direitos democráticos.

Não há dúvida de que o ataque russo tem implicações que ultrapassam as fronteiras da Ucrânia. Putin deixou claro que pretende reconstruir o máximo possível da antiga União Soviética, incorporando a Ucrânia na Rússia e criando uma esfera de influência que se estende por todos os estados da Europa Oriental que aderiram à NATO a partir da década de 90.

Embora seja ainda demasiado cedo para saber como esta guerra irá evoluir, é já claro que Putin não será capaz de atingir os seus objetivos máximos. Esperava uma vitória rápida e fácil e que os ucranianos o tratassem como um libertador. Em vez disso, remexeu num ninho de vespas zangadas, com ucranianos de todas as fações a mostrarem um grau de tenacidade e de unidade nacional sem precedentes. Mesmo que Putin tome Kiev e deponha o Presidente Volodymyr Zelensky, não conseguirá, a longo prazo, subjugar uma nação furiosa de mais de 40 milhões com força militar. E enfrentará um mundo democrático e uma aliança da NATO unificada e mobilizada como nunca antes visto, que impôs sanções dispendiosas à economia da Rússia.

Ao mesmo tempo, a atual crise demonstrou que não podemos tomar por garantida a atual ordem mundial liberal. É algo para o qual temos de lutar constantemente e que desaparecerá no momento em que baixarmos a nossa guarda.

Os problemas enfrentados pelas sociedades liberais de hoje não começaram e não terminam com Putin, e enfrentaremos desafios muito sérios, mesmo que ele seja travado na Ucrânia. O liberalismo tem estado sob ataque há algum tempo, tanto por parte da direita como da esquerda. A Freedom House, no seu inquérito sobre a “Liberdade no mundo” para 2022, nota que a liberdade global caiu no total durante 16 anos consecutivos. Caiu não apenas devido à ascensão de poderes autoritários como a Rússia e a China, mas também devido à mudança para o populismo, o antiliberalismo e o nacionalismo no seio de democracias liberais de longa data, como os Estados Unidos e a Índia.

O QUE É O LIBERALISMO?

O liberalismo é uma doutrina, enunciada pela primeira vez no século XVII, que procura controlar a violência diminuindo as expectativas da política. Reconhece que as pessoas não concordarão com as coisas mais importantes — como a religião que deve ser seguida —, mas que precisam de tolerar que os seus concidadãos tenham opiniões diferentes das suas.

Faz isto respeitando a igualdade de direitos e dignidade dos indivíduos, através de um Estado de direito e de um Governo constitucional que verifica e equilibra os poderes dos Estados modernos. Entre esses direitos estão o direito à propriedade privada e o direito a efetuar transações livremente, razão pela qual o liberalismo clássico esteve fortemente associado a elevados níveis de crescimento económico e prosperidade no mundo moderno. Além disso, o liberalismo clássico estava tipicamente associado à ciência natural moderna e à visão de que a ciência poderia ajudar-nos a entender e a manipular o mundo externo em nosso próprio benefício.

Muitos desses fundamentos estão agora sob ataque. Os conservadores populistas ressentem intensamente a cultura aberta e diversificada que prospera nas sociedades liberais e anseiam por uma época em que todos professavam a mesma religião e partilhavam a mesma etnia. A Índia liberal de Gandhi e Nehru está a transformar-se num estado hindu intolerante sob o Governo de Narendra Modi, primeiro-ministro indiano; entretanto, nos Estados Unidos, o nacionalismo branco é abertamente celebrado em grupos dentro do Partido Republicano. Os populistas irritam-se com as restrições impostas pela lei e pelas constituições: Donald Trump recusou-se a aceitar o veredicto das eleições de 2020 e uma multidão violenta tentou alterá-lo diretamente, atacando o Capitólio. Os republicanos, em vez de condenarem esta tentativa de agarrar o poder, alinharam em grande parte com a grande mentira de Trump.

Os valores liberais da tolerância e da liberdade de expressão também foram desafiados pela esquerda. Muitos progressistas sentem que a política liberal, com o seu debate e a construção de consensos, é demasiado lenta e falhou gravemente em resolver as desigualdades económicas e raciais que surgiram como resultado da globalização. Muitos progressistas mostraram-se dispostos a limitar a liberdade de expressão e o devido processo em nome da justiça social.

Tanto a direita como a esquerda antiliberais juntam-se na sua desconfiança relativamente à ciência e à experiência. À esquerda, uma linha de pensamento estende-se desde o estruturalismo do século XX, através do pós-modernismo, até a teoria crítica contemporânea que questiona a autoridade da ciência. O filósofo francês Michel Foucault argumentou que as elites obscuras usavam a linguagem da ciência para esconder o domínio de grupos marginalizados, como os homossexuais, os doentes mentais ou os prisioneiros.

Esta mesma desconfiança relativamente à objetividade da ciência passou agora para a extrema-direita, onde a identidade conservadora gira cada vez mais em torno do ceticismo em relação às vacinas, às autoridades de saúde pública e à experiência de um modo mais geral.

Entretanto, a tecnologia estava a ajudar a reduzir a autoridade da ciência. A internet foi inicialmente celebrada pela sua capacidade de contornar guardiões hierárquicos, como governos, editores e meios de comunicação tradicionais. Mas este novo mundo acabou por ter uma grande desvantagem, uma vez que intervenientes malévolos da Rússia aos conspiradores do QAnon utilizaram esta nova liberdade para espalhar a desinformação e o discurso de ódio. Estas tendências foram incentivadas, por sua vez, pelo interesse próprio das plataformas grandes da internet que prosperaram não em informação de confiança mas na sua viralidade.

COMO O LIBERALISMO EVOLUIU PARA ALGO ANTILIBERAL

Como é que chegámos a este ponto? No meio século que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, houve um consenso amplo e crescente em torno do liberalismo e de uma ordem mundial liberal.

O crescimento económico descolou e a pobreza diminuiu à medida que os países beneficiavam de uma economia global aberta. Isto incluiu a China, cuja reemergência moderna foi possibilitada pela sua vontade de jogar pelas regras liberais tanto interna e externamente.

Mas o liberalismo clássico foi reinterpretado ao longo dos anos e evoluiu para tendências que, no fim, se revelaram autoincapacitantes. À direita, o liberalismo económico dos primeiros anos do pós-guerra transformou-se, durante os anos 80 e 90, no que por vezes é designado “neoliberalismo”. Os liberais entendem a importância dos mercados livres — mas sob a influência de economistas como Milton Friedman e a chamada ‘escola de Chicago’, os mercados eram adorados e o Estado era cada vez mais demonizado como inimigo do crescimento económico e das liberdades individuais.

As democracias avançadas, sob o feitiço das ideias neoliberais, começaram a afastar o Estado e a regulamentação em matéria de segurança social e aconselharam os países em desenvolvimento a fazer o mesmo no âmbito do “Consenso de Washington”. Os cortes na despesa social e em sectores estatais removeram os tampões que protegiam os indivíduos dos caprichos do mercado, levando a grandes aumentos nas desigualdades nas últimas duas gerações.

Embora algumas destas reduções da despesa tenham sido justificadas, foram levadas a extremos e levaram, por exemplo, à desregulamentação dos mercados financeiros dos EUA nas décadas de 80 e 90 que os desestabilizaram e provocaram crises financeiras, como o colapso do subprime em 2008. O culto da eficiência levou à terceirização de empregos e à destruição de comunidades da classe trabalhadora em países ricos, que serviu de base para a ascensão do populismo na década de 2010.

A direita valorizou a liberdade económica e empurrou-a para extremos insustentáveis. A esquerda, pelo contrário, concentrou-se na escolha individual e na autonomia, mesmo à custa das normas sociais e da comunidade humana. Esta visão minou a autoridade de muitas culturas tradicionais e instituições religiosas. Ao mesmo tempo, os teóricos críticos começaram a argumentar que o próprio liberalismo era uma ideologia que mascarava o interesse próprio dos seus defensores, se estes fossem homens, europeus, brancos ou heterossexuais.

Tanto à direita como à esquerda, as ideias liberais fundamentais foram empurradas para extremos que, em seguida, corroeram o valor percebido do próprio liberalismo. A liberdade económica evoluiu para uma ideologia antiestatal e a autonomia pessoal evoluiu para uma “desperta” [woke, no original] visão progressiva do mundo que celebrava a diversidade numa cultura partilhada. Estas mudanças produziram então a sua própria reação negativa, onde a esquerda culpou o próprio capitalismo pela crescente desigualdade, e a direita viu o liberalismo como um ataque a todos os valores tradicionais.

O CONTEXTO GLOBAL

O liberalismo é mais valorizado quando as pessoas vivenciam a vida num mundo não liberal. A própria doutrina surgiu na Europa após os 150 anos de guerra religiosa constante que se seguiram à Reforma Protestante. Renasceu na sequência das destrutivas guerras nacionalistas da Europa no início do século XX. Uma ordem liberal foi institucionalizada sob a forma da União Europeia e a ordem global mais ampla de comércio aberto e investimento criada pelo poder dos Estados Unidos. Recebeu um grande impulso entre 1989 e 1991 quando o comunismo entrou em colapso e as populações que viviam sob o seu domínio foram livres de moldar o seu próprio futuro.

Contudo, mais de uma geração passou agora desde a queda do Muro de Berlim e as virtudes de viver num mundo liberal foram dadas como certas por muitos. A memória das guerras destrutivas e da ditadura totalitária desvaneceu-se, especialmente para os jovens na Europa e na América do Norte.

Neste novo mundo, a UE, que conseguiu espetacularmente impedir a guerra europeia, era agora vista por muitos à direita como tirânica, enquanto os conservadores argumentaram que as normas do Governo para todos usarem máscaras e serem vacinados contra a covid-19 eram comparáveis à forma como Hitler tratou os judeus. Isto é algo que só poderia acontecer numa sociedade segura e complacente que não tivesse tido experiência de ditadura real.

Além disso, o liberalismo pode ser pouco inspirador para muitas pessoas. Uma doutrina que deliberadamente diminui as expectativas da política e que impõe a tolerância de diversas opiniões muitas vezes não satisfaz aqueles que querem uma comunidade forte baseada em visões religiosas partilhadas, etnia comum ou fortes tradições culturais.

Neste vazio entraram regimes autoritários não liberais. Os da Rússia, China, Síria, Venezuela, Irão e Nicarágua têm pouco em comum, além do facto de não gostarem da democracia liberal e quererem manter o seu próprio poder autoritário. Criaram uma rede de apoio mútuo que permitiu, por exemplo, a sobrevivência do regime desprezível de Nicolás Maduro em Caracas, apesar de ter levado mais de um quinto da população da Venezuela ao exílio.

No centro desta rede está a Rússia de Putin, que forneceu armas, conselheiros, militares e serviços de informação a praticamente qualquer regime, independentemente do quão terrível fosse para o seu próprio povo, que se opõe aos Estados Unidos ou à UE. Esta rede estende-se ao coração das próprias democracias liberais. Os populistas de direita manifestam admiração por Putin, começando pelo antigo Presidente americano, Trump, que disse que Putin era um “génio” e “muito astuto” após a sua invasão da Ucrânia.

Os populistas, incluindo Marine Le Pen e Eric Zemmour, em França, Matteo Salvini, em Itália, Jair Bolsonaro, no Brasil, os líderes da AfD, na Alemanha, e Viktor Orbán, na Hungria, mostraram solidariedade por Putin, um líder “forte” que age decisivamente para defender os valores tradicionais sem considerar coisas mesquinhas como leis e constituições.

O mundo liberal trouxe enormes aumentos na igualdade de género e tolerância para os gays e lésbicas nas últimas duas gerações, o que provocou alguns no direito de adorar a força masculina e a agressão como virtudes em si mesmas.

 

O ESPÍRITO DE 1989 NÃO ESTÁ MORTO

É por isso que a atual guerra na Ucrânia é importante para todos nós. A agressão e bombardeamento não provocado por parte da Rússia às cidades pacíficas Kiev e Kharkiv [Carcóvia] na Ucrânia lembrou às pessoas da forma mais vívida possível quais são as consequências de uma ditadura não liberal.

A Rússia de Putin é claramente vista não como um Estado com queixas legítimas sobre a expansão da NATO, mas como um país ressentido e revanchista empenhado em reverter toda a ordem europeia pós-1991. Ou melhor, é um país com um único líder obcecado com o que acredita ser uma injustiça histórica que vai tentar corrigir, não importando o custo que terá para o seu próprio povo.

O heroísmo dos ucranianos que se mobilizam em torno do seu país e que lutam desesperadamente contra um inimigo muito maior inspirou pessoas em todo o mundo. O Presidente Zelensky passou a ser visto como um líder modelo, corajoso sob fogo não metafórico, mas real, e uma fonte de unidade para uma nação anteriormente fraturada. A posição solitária da Ucrânia, por sua vez, provocou um notável ressurgimento do apoio internacional. Cidades em todo o mundo engalanaram-se com bandeiras ucranianas azuis e douradas e prometeram apoio material.

Contrariamente aos planos de Putin, a NATO emergiu mais forte do que nunca, com a Finlândia e a Suécia a pensarem agora em aderir. A mudança mais notável ocorreu na Alemanha, que anteriormente era o maior amigo da Rússia na Europa. Ao anunciar uma duplicação do Orçamento alemão para a defesa e a vontade de fornecer armas à Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz inverteu décadas de política externa alemã e atirou o seu país incondicionalmente para a luta contra o imperialismo de Putin.

Embora seja difícil ver como Putin conseguirá alcançar os seus maiores objetivos de uma Rússia superior, ainda temos um longo e desanimador caminho a percorrer. Putin ainda não mobilizou toda a força militar que tem à sua disposição. Os defensores da Ucrânia estão exaustos e a ficar sem alimentos e munições. Será uma corrida entre a Rússia reabastecer as suas próprias forças e a NATO tentar reforçar a resistência ucraniana. À medida que a Rússia duplica a aposta, as cidades ucranianas sofrem bombardeamentos indiscriminados e tragicamente estão a assemelhar-se a lugares, como Grozny, na Chechénia, que sofreram bombardeamentos russos semelhantes na década de 90. Existe também o perigo de escalada dos combates para confrontos diretos entre a NATO e a Rússia, ao mesmo tempo que se apela a uma zona de “exclusão aérea”. Mas serão os ucranianos que irão suportar o custo da agressão de Putin e quem lutará em nome de todos nós.

As dificuldades do liberalismo não irão acabar mesmo que Putin perca. A China estará à espreita, bem como o Irão, a Venezuela, Cuba e os populistas dos países ocidentais. Mas o mundo terá aprendido qual é o valor de uma ordem mundial liberal e que não sobreviverá a menos que as pessoas lutem por ela e mostrem que se apoiam mutuamente. Os ucranianos, mais do que qualquer outro povo, mostraram o que é a verdadeira bravura e que o espírito de 1989 permanece vivo no seu canto do mundo. Para o resto de nós, tem estado adormecido e está a despertar.

Francis Fukuyama, Revista E, Expresso, 18 de março de 2022

Artigo originalmente publicado no “Financial Times” 




sábado, 12 de março de 2022

Vlad, o Invasor


“Guerra”, na mais famosa máxima de Carl von Clausewitz, teórico militar prussiano, “não é senão uma continuação da política por outros meios”. Uma geração de democratas — da vertente americana, mas também os democratas cristãos e sociais europeus — procurou ignorar essa verdade. Horrorizados com a violência da guerra, procuraram em vão alternativas para a sua eliminação.

Quando Vladimir Putin ordenou a anexação da Crimeia em 2014, Barack Obama respondeu com sanções económicas. Quando Putin interveio na guerra civil da Síria, tentaram discursos indignados. Quando ficou claro que Putin pretendia uma nova e maior incursão militar na Ucrânia, Joe Biden e a sua equipa de segurança nacional optaram, mais uma vez, por aplicar sanções. Disseram que, se invadisse a Ucrânia, a Rússia enfrentaria sanções económicas e financeiras “paralisantes” ou “devastadoras”. Quando estas ameaças não dissuadiram Putin, tentaram uma nova tática, publicando informações sobre o momento provável e a natureza do ataque russo. Os apoiantes da Administração Biden acharam esta tática brilhante e original. Era, na realidade, uma espécie de pensamento mágico, como se a declaração pública de quando seria a invasão fizesse com que fosse menos provável que ela acontecesse.

Aqueles que temem a guerra abordam a diplomacia de forma errada, como se fosse uma alternativa à guerra. Isto dá origem à ilusão de que, enquanto as conversações continuarem, a guerra está a ser evitada. Mas a menos que, em última instância, estejam preparados para recorrer à força, as negociações são apenas um adiamento da agressão da outra parte. Só conseguirão evitar a guerra se derem pacificamente ao agressor o que este está preparado para tirar pela força.

Putin decidiu entrar em guerra com a Ucrânia há algum tempo, provavelmente em julho do ano passado, quando publicou um longo ensaio — “Sobre a Unidade Histórica dos Russos e dos Ucranianos” —, em que defende tendenciosamente que a independência ucraniana é uma anomalia histórica insustentável. Isto tornou perfeitamente claro que estava a considerar uma ocupação da Ucrânia. Mesmo antes do aparecimento do ensaio de Putin, a Rússia tinha destacado cerca de 100 mil soldados para perto das fronteiras norte, oriental e meridional da Ucrânia. A resposta dos Estados Unidos e da União Europeia foi deixar claro que a Ucrânia estava de facto muito longe da adesão à NATO ou à UE, confirmando a Putin que ninguém lutaria do lado dela caso ele avançasse com a sua planeada guerra de subjugação.

Ao longo dos últimos meses, Putin tem usado a diplomacia de forma clássica, procurando alcançar os seus objetivos com o menor custo possível, ao mesmo tempo que se prepara cuidadosamente para uma invasão. Os líderes ocidentais não conseguiram mais do que permanecer unidos ao dizerem que irão impor sanções caso ele decida invadir o país. Mas uma invasão russa da Ucrânia para lá de Donbas irá criar uma situação totalmente nova. Políticos de ambos os lados do Atlântico podem manifestar uma indignação comum, mas não irá demorar muito para que a sua união seja corroída por uma alteração da realidade e pelos seus interesses fundamentalmente divergentes. Os Estados Unidos não precisam do gás natural da Rússia. A Europa precisa, pelo menos a curto prazo.

Se a guerra é a continuação da política — “de políticas” é, na verdade, uma melhor tradução —, então o que é que Putin está a tentar alcançar exatamente? Esta pergunta suscitou muitas respostas erradas ao longo dos anos. Uma afirmação comum é que está determinado a reerguer a União Soviética. É verdade que em 2005 o Presidente russo disse que o colapso do império soviético foi “a maior catástrofe geopolítica do século”. Mas, na verdade, o que Putin está a tentar é ressuscitar o império russo czarista. Pedro, o Grande, é o seu herói, muito mais do que Estaline.

Putin deixou isso bem claro numa entrevista a Lionel Barber, então editor do “Financial Times”, em 2019. “Uma imponente estátua de bronze do visionário czar paira sobre a sua mesa solene no seu gabinete”, observou Barber. Pedro, o Grande, é o “líder preferido” de Putin. “Ele viverá enquanto a sua causa estiver viva”, declarou, na altura, o Presidente russo.

Qual era a causa de Pedro? Em essência, fazer da Rússia uma grande potência europeia, capaz de igualar a Áustria, a Grã-Bretanha, a Prússia e a França, tanto no poder militar como nos princí­pios económicos e burocráticos em que se baseiam. Nenhum historiador contesta que ele o conseguiu. Na Batalha de Poltava (8 de julho de 1709), o czar Pedro obteve a vitória mais importante do seu reinado, derrotando o exército de Carlos XII da Suécia, país que tinha sido uma das grandes potências durante o século XVII. Poltava situa-se a cerca de 200 quilómetros a leste de Kiev, não muito longe de Luhansk e de Donetsk.

Esta é a história que inspira o atual czar Vladimir, muito mais do que os capítulos som­brios do reinado de terror de Estaline, que estará para sempre associado nas mentes ucranianas ao Holodomor, a grande fome genocida infligida ao povo da Ucrânia em nome da coletivização da agricultura. Trata-se de uma história que nos recorda como a vitória no território do que é agora a Ucrânia foi crucial para a ascensão da Rússia como uma grande potência europeia. E recorda-nos também que este território foi tão contestado no início do século XVIII como o é hoje.

Será que Putin é apenas um fantasista quando se imagina herdeiro de Pedro I? Não necessariamente. É certo que a economia da Rússia pode ser mais pequena do que a da Coreia do Sul e apenas um quinto da americana. Mas os cálculos usando um método igual para estimar os gastos com a defesa — mesmo admitindo que os soldados e o armamento russos são significativamente mais baratos do que os seus equivalentes ocidentais — mostram que a Rússia é, segundo um estudo de 2019, “o quarto maior gastador militar do mundo, atrás dos Estados Unidos, da China e da Índia... O Estado-Maior russo consegue retirar muito mais dos seus gastos em defesa do que muitas outras Forças Armadas de custo mais elevado” — incluindo as da Grã-Bretanha e França.

A Rússia sob Putin tornou-se mais uma vez uma grande potência. É precisamente por isso que o Presidente russo foi capaz de lutar e de vencer guerras na Geórgia, Ucrânia e Síria. E é por isso que está hoje em posição de fazer uma invasão em larga escala da Ucrânia.

Há bastante tempo que é evidente que Putin aspira a muito mais do que a tornar independentes as “Repúblicas do Povo” de Donetsk e Luhansk, entidades que ele próprio invocou para a existência em 2014. Os “separatistas” nessas cidades foram sempre próximos do Kremlin. Por isso, qualquer pessoa que pensasse que este era o limite das ambições de Putin estava muito enganada. Reconhecer a sua independência foi o prelúdio de uma incursão militar muito maior — da qual o primeiro passo foi dado quase de imediato, com o destacamento de forças regulares russas para Donbas, supostamente para defender os habitantes locais contra ataques ucranianos.

O Kremlin já anunciou que reconhece a independência não apenas das partes controladas pelos separatistas mas também da totalidade das áreas administrativas de Donetsk e Luhansk — um território bastante maior. Também evacuou a sua embaixada em Kiev e emitiu um ultimato à Ucrânia que equivale a uma exigência de rendição: o país deve ser neutro e desmilitarizado, aceitar a anexação da Crimeia e renunciar à sua aspiração constitucional de aderir à NATO... Não há dúvida de que haverá mais preces diplomáticas desesperadas por parte de líderes ocidentais, mas a reunião televisio­nada do Conselho de Segurança Nacional de Putin, a 21 de fevereiro, confirmou que ele está preparado para a guerra. Até gozou com os EUA com as suas alusões irónicas à invasão do Iraque em 2003. A pretensão de que a Ucrânia está a adquirir armas de destruição maciça é um clássico de Putin.

Conheço a Ucrânia o suficiente para ter a certeza de que a rendição não está nos seus planos. Um amigo ucraniano disse-me que o povo do seu país irá lutar contra o exército de Putin da mesma forma que os mujahidins afegãos lutaram contra o Exército Vermelho na década de 1980. A recente sondagem do Grupo de Estratégia Europeia de Ialta comprova a extensão do apoio popular dos ucranianos à adesão à NATO e à UE e a relutância da maioria dos cidadãos comuns em submeter-se ao poder russo.

Por outro lado, não posso imaginar que Putin pretenda repetir os erros de Brejnev no Afeganistão ou de Bush no Iraque (e no Afeganistão). A estratégia mais provável do Presidente russo é fazer uma blitzkrieg, concebida para infligir o máximo de danos às Forças Armadas da Ucrânia e a outros ativos militares, seguida por uma alteração de regime, para substituir Volodymyr Zelensky por alguém mais ao estilo de Viktor Yanukovytch, o sátrapa corrupto deposto há exatamente oito anos na sequência da revolução Euromaidan.

Conhecendo a Ucrânia, imagino que um número significativo de oligarcas que ainda controlam a economia do país vai preferir beijar o anel moscovita a perder a sua vasta riqueza, mesmo que grande parte dela esteja seguramente escondida em Londres e Zurique.

No dia 21 de fevereiro, Putin não poupou esforços para corrigir um membro do seu Conselho de Segurança Nacional que usou a palavra “anexação”. Ele pode contemplar a divisão da Ucrânia, mas não prevejo nenhuma Anschluss total. O seu objetivo parece ser matar de uma vez por todas as aspirações da Ucrânia de ser como a Polónia: não apenas um membro da NATO e da UE mas também uma democracia próspera orientada para o Ocidente. Poderá conseguir isso transformando a Ucrânia numa “Bielorrússia do Sul” — um país onde, à semelhança da Rússia, as coisas mudaram após 1991, apenas para se manterem fundamentalmente iguais.

No romance de Mikhail Bulgákov “A Guarda Branca” (1925) — mais tarde censurado e dramatizado (era a peça favorita de Estaline) —, a última tentativa da Ucrânia para conseguir a independência, na sequência da Revolução Bolchevique, acaba sombriamente à medida que as forças bolcheviques se aproximam de uma Kiev gelada. “Por que razão [Petliura, o Presidente nacionalista da República Ucraniana] existia?”, pergunta Bulgákov. “Ninguém pode dizer.”

Alguém irá resgatar o sangue que ele derramou? Não. Ninguém.

A neve acabaria por derreter, a erva ucraniana verde cresceria de novo e teceria o seu tapete sobre a terra. O lindo nascer do sol aconteceria novamente. O ar iria brilhar com o calor por cima dos campos e não haveria mais vestígios de sangue. O sangue é barato naqueles campos vermelhos e ninguém o iria resgatar. Ninguém.

Pode dizer-se que isso foi a história da Ucrânia: voltar ao tempo de Pedro, o Grande. E é certamente a forma como o czar Vladimir pretende que a última tentativa da Ucrânia para conseguir a independência termine. Se for bem-sucedido, a responsabilidade recai fortemente sobre os líderes ocidentais, que se esqueceram de Clausewitz e quiseram fugir à guerra.

Niall Ferguson, Expresso, 11 de março de 2022, tradução de Joana Henriques

Artigo originalmente publicado na “The Spectator”

 




sexta-feira, 11 de março de 2022

A coragem está na paz, não nos falsos heroísmos

O herói não é, não pode ser nunca, quem invade o vizinho mais fraco à míngua de outros argumentos e leva a morte, a destruição e o terror a terra alheia. Não pode ser, pois, Vladimir Putin, que diz que russos e ucranianos são um mesmo povo e que, todavia, bombardeia e põe em fuga esse “mesmo povo”. As razões que tinha ou que julgava ter por força da história ou do direito perdeu-as por força dos canhões e dos tanques. E o resto fazem-no as imagens que todos os dias chegam às casas do mundo inteiro: porque se qualquer guerra tem como consequência cidades bombardeadas, crianças e velhos mortos ou em fuga, esta tem a diferença de ser filmada de perto e a cores, dia a dia e à medida que vai acontecendo.

Mas o herói também não é o celebrado Volodymyr Zelensky, com a sua T-shirt militar e os seus discursos “patrióticos”, usando com mestria os seus dotes de actor e com indisfarçada vaidade (e sucesso, dos Comuns ao Facebook) a sua veleidade de ser tomado pelo Churchill do século XXI. Até agora, enquanto as mulheres e crianças fogem e os homens, civis e militares, tentam deter as tropas russas, ele, entrincheirado no seu bunker, a fazer tweets e vídeos e a apelar à terceira guerra mundial, tem sido um herói à medida destes tempos sem heróis verdadeiros e com heróis instantâneos. Mas, a menos que muito me engane, não me espantaria que, se a guerra for para continuar e os russos entrarem em Kiev, o herói Zelensky será capaz de desiludir muitos corações. Não é Churchill quem quer.

Zelensky parece agora finalmente disposto a negociar com Putin e a negociação, se não foi entretanto cancelada, irá já a nível de ministros dos Estrangeiros. Devemos a Israel, à Turquia e, em parte, à China esse esforço de intermediação capaz de sentar as partes à mesa. Nada o devemos aos Estados Unidos, à União Europeia ou à ONU, como eu sempre o escrevi: nem antes nem agora. Isto merece ficar registado: temos uma guerra na Europa com um potencial de alastramento como nunca antes em 70 anos, com efeitos económicos devastadores sobre o continente, com talvez uns cinco milhões de refugiados que tudo perderam, e, apesar disso, a Europa, enquanto tal, não mexeu uma palha para evitar o conflito ou para tentar pará-lo, uma vez iniciado. As melhores cabeças pensantes da Europa escrevem rios de tinta sobre o recomeço da História e da Guerra Fria, sobre a nova realidade geopolítica, sobre a necessidade de uma verdadeira política de rearmamento europeu, sobre a urgência em asfixiar a Rússia (e os russos) com sanções económicas e banir da face visível do planeta todos os russos — e não apenas os oligarcas ou os íntimos de Putin, mas também músicos, artistas, desportistas, cientistas. Mas sobre uma estratégia de paz e segurança mútua que envolva todos e inclua a Rússia nada, nem uma consideração, nem uma palavra.

Porém, não deixa de ser curioso que Zelensky aceite agora negociar, e com base nas propostas russas, o que poderia ter negociado antes da invasão. Penskov, o porta-voz do Kremlin, enumerou na segunda-feira o que querem os russos: a NATO fora da Ucrânia e a alteração da Constituição ucraniana, que prevê expressamente essa adesão; a “desmilitarização” da Ucrânia, o que significa que ela não estacionará no seu território armas nucleares; a “desnazificação” da Ucrânia, o que equivale a expulsar das suas Forças Armadas os batalhões nazis que Zelensky lá integrou; um estatuto de independência ou similar para as regiões de maioria russa do Donbas, e o reconhecimento de jure da Crimeia como parte da Rússia, como historicamente quase sempre o foi. Sobre todos estes pontos, e a menos que entretanto tenha voltado atrás, Zelensky já aceitou ceder em parte deles e negociar noutros. A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não o fez antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta destruição, tantas famílias em fuga? Porque diz agora que a adesão à NATO é um projecto inexequível e antes foi a Munique exigi-la imediatamente? Será porque antes ouviu todos os países da NATO repetirem que a Ucrânia tinha o direito de decidir livremente o seu destino, mesmo que isso pudesse conduzir a uma guerra com a Rússia, que se sentia ameaçada com o alastramento da NATO à Ucrânia? E será porque se sentiu confortado e iludido por essas proclamações que ele passou estes dias de guerra a apelar ao envolvimento da NATO, a reclamar o fecho do espaço aéreo da Ucrânia aos aviões russos e a queixar-se de que estava sozinho a “defender a liberdade do Ocidente”?

“A liberdade tem um preço”, disse Joe Biden, e tem toda a razão. Mas o preço da liberdade não pode ser o fim de tudo, que fatalmente incluiria também o fim da liberdade: não há liberdade quando tudo estiver morto. Por isso o Ocidente teve o bom senso mínimo de não ceder aos apelos de intervenção de Zelensky, que teriam, com toda a probabilidade, conduzido, por descontrole, por escalada ou por acidente, a uma guerra nuclear. Na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, Fidel Castro também apelou a Moscovo para que desencadeasse um ataque nuclear contra os Estados Unidos, mas, felizmente, também o bom senso prevaleceu entre os russos. A lição é que há sempre loucos disfarçados de heróis de ambos os lados, que acham que o seu lugar na história é mais importante do que o destino dos outros — mesmo que depois não sobrem muitos para contar a história. É por isso, entre outras coisas, que isto de ver as situações a preto e branco — nós somos o Bem e eles o Mal — é o caminho mais certo para o desastre. É curioso observar que no meio desta unanimidade quase religiosa como esta crise tem sido analisada do lado de cá (do lado dos Bons), por analistas, historiadores, jornalistas, comentadores, quem mais destoa da opinião formatada são os militares, tradicionalmente vistos como os mais pró-guerra. O exemplo mais visível, porque mais exposto, foi o do Chefe do Estado-Maior da Armada alemã, quando ousou dizer que Putin tinha razões que deviam e mereciam ser ouvidas, e, portanto, foi imediatamente demitido.

Em Lisboa já vi bandeiras da Ucrânia hasteadas nas janelas dos prédios, como outrora, a pedido de Scolari e a propósito do futebol, se hastearam bandeiras portuguesas. O presidente do Benfica fez a capa da “Bola” embalando caixas de conservas para a Ucrânia, numa acção de solidariedade das muitas que, e ainda bem, estão em curso. Em Bruxelas, na sede da UE, as bandeiras dos 27 foram substituídas por 27 bandeiras da Ucrânia e imagino que as contas das redes sociais das celebridades estejam infestadas das ditas, vestidas de azul e amarelo. É tudo muito bonito, muito fácil e absolutamente ineficaz para o que interessa. Alguém, que tinha obrigação de estar informado, perguntava-me há dias se a subida vertiginosa do preço dos combustíveis tinha mesmo que ver com a guerra na Ucrânia ou se era uma manobra do Governo. Deixem que passe a fase dos gestos bonitos e fáceis e vão ver o que aí vem. Deixem que a guerra continue, que a paz falhe, e vão perceber quem é que vai sair arrasado desta guerra, para além dos ucranianos, e quem é que vai sair a ganhar biliões. Mais uma vez, porém, não precisamos de uma explicação a preto e branco, mas apenas de aproveitar uma oportunidade de reflexão, a benefício de tempos vindouros.

E depois da guerra e da poeira assente haveremos também, espero, de ter ocasião de reflectir sobre a mais parcial, incompetente e prejudicial cobertura noticio­sa e analítica de um conflito a que alguma vez assisti do lado a que chamam as “democracias liberais”. Desde o sagrado “The Guardian” até à nossa imprensa. Pela primeira vez, e pacificamente aceite, o Conselho Europeu estabeleceu a censura sobre órgãos de informação do “outro lado” (as TV russas), com o argumento de que divulgavam informação enganosa que nos podia desinformar. Ocultou-se ou minimizou-se informação que podia prejudicar a imagem do “heróico” povo combatente e do Exército e autoridades ucranianas, tais como episódios de racismo ou de abusos sobre prisioneiros de guerra russos. E foi patente um clima de intimidação sobre quem ousou questionar a verdade única ou pensar diferente, que eu próprio tive a honra de experimentar. (Na Rádio Observador, por exemplo, o José Manuel Fernandes chamou-me “idiota útil ao serviço da propaganda de Putin”, o que em nada me afecta, porque, ao contrário dele, eu não sou nem nunca fui de direita ou de extrema-direita, nem maoista, leninista ou estalinista, e nem fui, como ele, idiota útil ao serviço da propaganda da NATO e do pateta do Bush filho, aquando da invasão do Iraque para supostamente encontrar armas de destruição maciça, de cuja existência não havia quaisquer provas. Isto de pensar pela própria cabeça incomoda sempre os idiotas que se imaginam úteis.)

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 11 de março de 2020

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Como Mário Soares e Pulido Valente previram o que está a acontecer. “Putin não recuará”

A NATO, “cercando” a Rússia, na Polónia e na República Checa, “é um perigo”, escreveu Soares em 2008. “Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso”, avisou Pulido Valente em 2015

A guerra na Europa não terá apanhado todos de surpresa, a crer nas previsões que um ex-Presidente da República (Mário Soares) e um historiador e comentador (Vasco Pulido Valente) escreveram, há 14 e há sete anos, sobre tendências expansionistas, a Rússia, a NATO, a relação de uma com a outra e os riscos no horizonte.

Pulido Valente antecipou em 2015 que “os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão (estavam) em curso. Para o Ocidente ver – ou não ver”. Sete anos antes, em 2008, tinha sido Mário Soares a lançar num artigo na Visão um grito de alerta: “A NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de mísseis, começa a ser uma ameaça para a Rússia que a pode tornar agressiva. Um perigo!”.

O ex-Presidente criticava a Aliança Atlântica, que acusava de se ter tornado “um verdadeiro braço armado dos EUA” e de estar a “fazer estragos noutras regiões do mundo, Cáucaso, zonas do Cáspio e do Mar Negro e países limítrofes da Rússia Ocidental”. E apontava o dedo ao vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, que “em fim de mandato, fez uma recente visita, altamente desestabilizadora, para dar, em nome da NATO, apoio à Geórgia”. Conclusão, pela pena de Soares: “A NATO, criada como organização defensiva, no início da guerra fria, está a tornar-se, por pressão dos neo-conservadores americanos, uma ameaça à paz. Cuidado União Europeia!”.

Também num artigo publicado na Visão, mas em 2015, foi a vez de Vasco Pulido Valente mandar a pedrada ao charco: “Não há sombra de dúvida de que Putin não recuará. Tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso. Para o Ocidente ver – ou não ver” (era este o título do texto).

“Com as nossas preocupações domésticas” – alertou Vasco – “não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia. Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes e uma enorme quantidade de seitas. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes”. Um caldo, que o historiador concluía levar “qualquer pessoa de bom senso” a compreender que “segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada”.

Crítico da forma como a Europa se foi desarmando, Pulido Valente alertava para os riscos de “a Inglaterra gastar em defesa menos de 2% do PIB, num momento em que Putin embarcou numa política claramente agressiva e revanchista”.

“A Crimeia foi o primeiro objetivo; e o segundo foi parte da bacia de Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império”, escreveu. Convicto de “não haver ponta de dúvida que Putin não recuará”. Não se enganou.

Expresso, Ângela Silva, 9 de março de 2022


segunda-feira, 7 de março de 2022

Não digamos Kiév




A invasão russa da Ucrânia assenta numa negação, por parte de Putin, da identidade ucraniana como cultura separada da russa.

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Putin é um homem muito inteligente e tudo leva a crer que acredita naquilo que escreveu neste ensaio. É mais perigoso por causa disso. É mais fácil dizer que está maluco do que estar a ler o que vai na cabeça dele. Mas isso também é mais perigoso: não ler é sempre mais perigoso do que ler.

Imagine-se que um Putin espanhol se desse ao trabalho de escrever um ensaio histórico a dizer que Portugal é um prolongamento e uma emanação da Espanha e que, como tal, não faz sentido ser independente da Espanha.

Quando li Putin a dizer que o próprio nome da Ucrânia significa, em russo antigo, “periferia”, tive de ir à janela para descongelar o sangue.

Acredito nos pequenos gestos, até porque estão ao nosso alcance. Por exemplo, nós escrevemos e pronunciamos Kiev (a rimar com esqui-neve) seguindo a pronúncia russa. Os ucranianos dizem Kive (a rimar com tive).

Não poderíamos alterar o nome e a grafia da capital da Ucrânia para que seguisse a maneira como os ucranianos a pronunciam? Trata-se de um gesto de descolonização, feito por quem manda na língua portuguesa em Portugal, que somos nós.

Continuar a dizer Kiév, como faz o ex-colonizador que invadiu para poder voltar a colonizar a Ucrânia, é um desperdício.