quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

As Algemas de Rui Pinto

Vemo-lo na televisão. Não esconde a cabeça, não parece estar envergonhado, ou arrependido, de algo que tenha feito. Pelo contrário. Mas vemo-lo algemado, como escreveu Pacheco Pereira, como não vemos os maiores criminosos do país, e menos as mediáticas figuras acusadas ou condenadas. As algemas de Rui Pinto são, de certa forma, um retrato da cobardia do nosso país. Na política, na Justiça, na sociedade.

Rui Pinto cometeu vários crimes. É indiscutível que violar a correspondência e a privacidade escondida no computador de cada indivíduo ou empresa é, claramente, um crime. Mas todo o direito se baseia em algo que não podemos esquecer: o conflito de valores. Do mesmo modo que quem mata em legítima defesa não é necessariamente assassino, quem viola a privacidade e com esse ato revela um ato corrosivo da sociedade não pode ser tratado, apenas, como um criminoso de quem não se quer saber as revelações que obteve. Dir-me-ão que ele o fez também em benefício próprio. Não duvido. Mas cabe, igualmente, à Justiça separar o trigo do joio. No caso de Rui Pinto temos muito mais trigo revelado do que o joio que ele representa.
Rui Pinto denunciou no futebol leaks informação a que teve acesso de forma ilegítima e da qual aparentemente se quis aproveitar para sacar dinheiro: uma rede de compadrio, de combinações de compras de árbitros e de fuga ao fisco bastante impressionante. Ronaldo, Messi e outros grandes jogadores espanhóis, mas também franceses e de outras nacionalidades, foram obrigados a pagar milhões de euros às autoridades dos países em que atuavam como futebolistas devido a essas ‘moscambilhas’ que lhes permitia evitar certos impostos. Isto não torna os jogadores menos geniais, nem Rui Pinto menos criminoso. No entanto, em Portugal a Justiça preocupou-se com a invasão dos computadores, mas não com a evasão fiscal e com a desonestidade desportiva (o caso e-toupeira só convence ingénuos). Assim como assim, a preponderância dos grandes clubes na Justiça, como se suspeita no caso do juiz Rui Rangel, é grande e ninguém quer maçadas. França e Espanha colaboraram com Rui Pinto, Portugal pediu a sua extradição da Hungria e engavetou-o. Não fora algumas vozes (Ana Gomes, Francisco Teixeira da Mota, etc.) e o caso estava perdido. Por mim sempre apoiei Ana Gomes nessa luta contra a enormidade que, por cá, se fez ao hacker.
Que ele pague os erros que cometeu, aceito. Que não se investiguem seriamente os crimes que ele denuncia, é arrepiante.
E vieram os ‘Luanda Leaks’. Sabe-se que os mais de 700 mil documentos, para os quais foi criado um sistema de Inteligência Artificial para os ordenar e classificar, foram fornecidos por Rui Pinto. Aí sim, atuam os poderes públicos e os privados, porque o Estado angolano, de quem fomos e somos subservientes, quer que se investigue. Basta ver que o ‘irritante’ que foi passar o caso de Manuel Vicente para Angola, a fim de o ex-vice-Presidente de Angola ser lá julgado, ainda não teve contrapartida quando o PGR angolano disse querer julgar em Luanda os arguidos portugueses acusados de cumplicidade com Isabel dos Santos. Salvo erro, que me corrigirá quem sabe, Portugal não pode extraditar para Angola cidadãos portugueses; tanto mais que as garantias do sistema de Justiça em Angola não permitem que acreditemos num julgamento justo, por muito que os factos divulgados façam crer na sua culpabilidade.
Rui Pinto, como tantos outros whistleblowers, é culpado de violação da privacidade e de mais uns tantos crimes. Naturalmente, pode argumentar-se que sendo este o crime original, a produção de prova a partir dele é injustificada, porque avalizaria qualquer violação da privacidade em nome da possibilidade de encontrar um crime maior. Por bom que seja o argumento, esbarra noutro: o que está visto, não se pode deixar de o ter sido. O que sabemos, não podemos deixar de saber. E se sabemos, é avisado atuarmos.
Noutras paragens, com outras atitudes, Rui Pinto é louvado por denunciar estes crimes. É precisamente aqui que a atitude das autoridades portuguesas parece o sheriff de Nothingham a perseguir Robin dos Bosques... ou a justiça portuguesa a condenar o advogado Ricardo Sá Fernandes por ele ter microfones ocultos para expor a corrupção de um empresário.
Aquelas algemas dizem tudo. Faremos com Rui Pinto o que mandam os verdadeiros poderes. E esses, infelizmente, estão onde não deviam estar – de Luanda ao Estádio da Luz (e muitos outros locais que por agora desconhecemos).

Henrique Monteiro, “Chamem-me o que quiserem”, Expresso, 29/01/20




segunda-feira, 27 de janeiro de 2020



Três tipos de reacionarismo
Mais do que nunca, é essencial que os outros partidos se distingam e recusem o populismo e a polarização destrutiva, venham de onde vierem.

Não sou conservador. Nunca o fui, no sentido político. O conservadorismo não faz parte do meu património ideológico. E, no entanto, julgo que consigo entender a importância intrínseca do pensamento conservador — pelo menos o suficiente para perceber que aquilo que mais se apresenta como conservador hoje não é mais do que uma traição ao conservadorismo.

Se não é preciso ser conservador para se entender como se pode ser conservador, também não é preciso ser reacionário para se entender o reacionarismo, e como este é diferente daquele. Posto simplesmente, o conservadorismo parte de uma valorização de elementos de estabilidade na realidade social e económica (incluindo aqueles que progressistas como eu vêem como injustos) e de uma rejeição em relação a ruturas e revoluções. O reacionarismo é anti-revolucionário como o conservadorismo é anti-progressista, mas ao passo que a ética política do conservadorismo se exprime pela vontade de estabilidade, em não deitar fora o que do passado chegou ao presente, o reacionário é sobretudo um revolucionário de sinal contrário, empenhado já não só em manter uma determinada ordem mas mesmo em deitar fora o presente para impor um passado idealizado. É essa a diferença no século XIX entre um Benjamin Disraeli, conservador, e um Joseph de Maistre, reacionário. E é essa a diferença neste início do século XXI entre um conservadorismo exangue e um reacionarismo pujante.

A partir deste fim de semana Portugal tem três opções diferentes de reacionarismo. Num ensaio célebre chamado A Retórica da Reação, o economista Albert Hirschman descrevia os argumentos da futilidade, da perversidade e do risco como sendo os argumentos centrais do reacionarismo, e dava exemplos de como eles foram usados no passado contra a abolição da pena de morte, a introdução de políticas sociais ou o alargamento do direito de voto, todos eles sofrendo a oposição de reacionários (mas nem sempre de conservadores) na história.

Ao atualizar o resumo de Hirschman, poderíamos dizer que em Portugal os três reacionarismos à nossa escolha se declinam da seguinte forma: contra o Estado social, contra a modernidade e contra os outros. O reacionarismo contra o Estado social é o da Iniciativa Liberal, e baseia-se principalmente no argumento da “futilidade” (não vale a pena fazer políticas pela igualdade porque elas exacerbam o problema, o que é preciso é confiar no mercado); o reacionarismo contra o “outro” é o do Chega, e baseia-se num argumento exacerbado do risco.

E o reacionarismo contra a modernidade é o do novo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que opta claramente por uma atitude de guerra cultural contra o que ele chama “a esquerda” (não é só a esquerda, já veremos), propala teorias da conspiração como as do “marxismo cultural” e da “ideologia de género” e quer não só conter o avanço de direitos sociais e culturais como revertê-los.

É muito difícil, para quem está de fora, entender a mentalidade do reacionarismo contemporâneo porque nos falta um elemento essencial que justifique o reacionarismo: a existência de uma revolução. Não vivemos nos tempos da Revolução Francesa, pensamos nós, e, portanto, não entendemos a urgência que algumas pessoas possam sentir numa contra-revolução. Nesse sentido, os reacionários de hoje podem parecer-nos animais estranhos, contra-revolucionários sem revolução.

Mas essa ingenuidade nossa procede de um erro de análise. Aquilo que grande parte da esquerda, e do centro, e até da direita não-reacionária, vê como meros avanços civilizacionais da modernidade e reposições da justiça e das liberdades individuais (o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária da gravidez sob certas condições, a alteração nas relações e nos papéis de homens e mulheres), os reacionários vêem como uma ameaça ao seu modo de vida. Por isso, na sua moção estratégica aprovada (com menos de metade dos votos do partido), Francisco Rodrigues dos Santos afirma “os valores judaico-cristãos” (mas não os greco-romanos nem os do iluminismo), a “Europa das Nações” (mas não refere a dos cidadãos), e vai buscar à extrema-direita estudantil a defesa de um conceito de “Portugalidade” cultural que não é o do republicanismo ou do patriotismo cívico.

Além disso, não se enganem: esta direita não é liberal, pelo menos no sentido político. Reparem na referência de Francisco Rodrigues dos Santos à “quadrilha das esquerdas unidas” que “tomou de assalto o sistema parlamentar”. Aquilo de que ele está a falar não é uma quadrilha e não é uma tomada de assalto: é o resultado legítimo do último ato eleitoral. Não andámos anos a fazer a pedagogia à esquerda da legitimidade da existência de uma direita para agora termos uma direita que acha que quando a esquerda ganha eleições (com mais de 60% dos votos) o resultado é ilegítimo. Por esse caminho chegamos rapidamente à “democracia iliberal” de Orbán, aquela que só é legítima quando a direita ganha.

No que poderá dar esta abundância de reacionarismos em Portugal? Numa disputa exígua por votos exíguos, ou no crescimento de votos para uma disputa intensa? Não o sabemos. Só sei uma coisa: que mais do que nunca é essencial que os outros partidos se distingam e recusem o populismo e a polarização destrutiva, venham de onde vierem.

sábado, 25 de janeiro de 2020


Tudo irritantemente previsível

Agora Isabel dos Santos desdobra-se em entrevistas, declarações, comunicados, explicações. Mas antes de o escândalo rebentar — ou melhor, antes de o controlo lhe escapar das mãos, porque o escândalo sempre esteve lá, à vista de todos — ela resguardava-se ao extremo, como pessoa politicamente exposta, que sabia ser, e como pessoa esperta, que era. Por isso, são poucas as imagens disponíveis dela, nas raras ocasiões em que se deixou filmar ou fotografar em Portugal. Nessas raras imagens, vemos sempre a “princesa de África” muito longe de um clima de racismo, de que agora também se reclama vítima. Antes pelo contrário: aparece rodeada de homens e mulheres de raça branca que lhe sorriem, abrem alas, bajulam quase lhe fazem vénias e só não rastejam a seus pés porque é tudo gente muito composta. Ó Isabel de África e do mundo, o dinheiro não tem raça!

E também não carece nem de razões, nem de explicações, nem de ética. Muito dinheiro, rios de dinheiro afogam quaisquer dúvidas. Veja, Isabel, como entre toda essa gente — os seus parceiros de negócios, os seus banqueiros, os seus advogados, os seus conselheiros, os traficantes de influências a seu soldo ou os políticos a seus pés — ninguém ousou fazer-lhe as duas perguntas que se impunham: como é que tinha conseguido o seu primeiro milhão; e como é que se justificava que, sendo Angola um país riquíssimo, o seu povo fosse miserável, enquanto o Presidente e a família do Presidente eram todos multimilionários e a filha do Presidente a mulher mais rica de África? Alguma vez sentiu, entre todos esses racistas que a rodeavam, a mais leve sombra de crítica, de desprezo, de desdém, pelos seus milhões? Sentiu alguma leve sombra de mal-estar pela sua presença nos conselhos de administração onde, como diz, se fazia sentir o seu “talento e inteligência”, ou nas lojas de luxo ou nos restaurantes com nome francês da Avenida da Liberdade, onde se fazia sentir a leveza do seu dinheiro?

Claro que a “princesa de África” agora tem razões para se sentir traída e abandonada. Julgou que o dinheiro também comprava lealdades e solidariedades, sempre e entre pares, e está a descobrir por si que não existe tal coisa como ser-se alguém sem escrúpulos na prosperidade e ser-se também um cavalheiro na adversidade. Uma vez sem princípios, sempre sem princípios. Concordo que ver o seu auditor de todos estes anos, o cavalheiro da PwC, declarar-se “desiludido” consigo deve meter nojo a uma ratazana. Ver Davos desconvidá-la, depois de se ter feito pagar bem pelo convite que lhe havia feito para intervir na qualidade de grande empresária internacional, mostra bem o estofo moral da elite do mundo. Ver o seu próprio banco, cúmplice nos seus desvios de fundos de dinheiro de Angola para o seu bolso, vir agora “cortar relações comerciais” com as suas empresas, continuando todos sentadinhos nos seus lugares lá no banco, prova que há gente que nem de si própria tem vergonha. Mas é a gente dela, é o mundo dela, são os valores dela. São os guardiões do mais desprezível dos bezerros de ouro: o dinheiro sujo que todos eles sempre souberem ser o dela. Dinheiro roubado a angolanos que morreram por falta de medicamentos nos hospitais, que morreram de fome num país com condições para alimentar de sobra toda a sua gente, que viveram miseráveis todos estes anos, sugados por um regime afogado em lençóis de petróleo e diamantes, cujas receitas, durante anos a fio, nem sequer entravam no Orçamento do Estado. Iam directamente para os bolsos da “grande família”, dos generais e da clique que em Luanda os apoiava, sobrando abundantes restos para os que, em Portugal e não só, lhes forneceram o indispensável know how financeiro, bancário, jurídico e organizativo para se transformarem de salteadores de estrada em respeitáveis empresários internacionais com entrada garantida em Davos.

Pelo caminho, e no que nos toca, foram décadas de sucessivos “irritantes” e outras tantas humilhações de Estado a que Angola nos submeteu e a que nós nos submetemos. Eles, a “grande família” de Luanda, pela sua atitude de novos-ricos reivindicando o direito de mandar até na nossa Justiça e na nossa imprensa; e nós, submetendo-nos tantas vezes pelo “interesse nacional” de não perder a mina de ouro dos negócios com Angola — refúgio, por vezes certo, outras vezes incerto, em tempos de crise. Por força das regras de jogo ditadas pela cleptocracia angolana, de que Isabel dos Santos era expoente e embaixadora, nunca tivemos com Angola uma relação limpa e transparente, entre iguais e amigos. E esta obscura e hipócrita relação foi sustentada como imperativo nacional por todos ou quase todos os quadrantes políticos portugueses, com a notável excepção do BE e, durante muito tempo, até se arrepender, do CDS. De resto, o PS e o PSD, sobretudo este, porque tinham as mãos na massa, e o PCP, por razões de psicanálise (pois continua a querer acreditar que Angola, tal como a China, a Rússia, a Venezuela ou a Coreia do Norte são países “socialistas”) fizeram sempre do dossiê Angola uma questão indiscutível. E até vimos alguma gente de extrema-direita, nacionalista e ex-colonialista a fazer negócios em Luanda, de mãos dadas com a elite dos generais corruptos do MPLA.

Vimos de tudo, e toda a gente soube sempre de tudo. Espero que ninguém se atreva a vir dizer que não sabia. Não é preciso que se suicidem, nem sequer esperamos que se demitam, mas ao menos que fiquem envergonhadamente calados. Até porque, ou muito me engano, ou nós ainda só vimos a ponta do icebergue. Como é evidente, Isabel dos Santos não acumulou 3 mil milhões de dólares sozinha, sem ter tido por trás de si um mar de conivências, cumplicidades e fechar de olhos de quem devia ter visto, ter falado e ter impedido. Lá, como cá. Aliás, muito gostaria de saber o que veio cá fazer ao certo o PGR de Angola, ao querer reunir-se com a sua homóloga portuguesa logo no dia seguinte a ter constituído Isabel dos Santos arguida por desvio de fundos da Sonangol. Gostaria de acreditar que não veio cá para combinar entre ambas as partes o quê e quem é que cada um dos lados deve investigar e quando é que deve parar. O que estará naqueles 700 mil documentos que ainda não sabemos e que mais pistas é que eles podem dar para outras investigações? Quando se segue a pista de dinheiro sujo — e rios de dinheiro é quase infalivelmente dinheiro sujo — nunca se chega só aos suspeitos do costume.
Tudo isto é bem mais do que irritante, é profundamente triste. Nós estivemos em Angola e em África 500 anos. Fizemos por lá aquilo que outros povos brancos e outros colonizadores fizeram em circunstâncias idênticas: explorámos a colónia, conforme era direito adquirido à época. Nem inventámos o colonialismo nem inventámos a escravatura em África, mas tirámos abundante partido de ambas as coisas e fizemos o Brasil à conta de Angola. E prolongámos ambas as coisas, o colonialismo e a escravatura quando, mesmo entre os brancos, tal se tinha tornado moral e juridicamente insustentável. E, por isso, para garantir o negócio de uma dúzia de famílias da metrópole, mantivemos uma guerra fora de tempo e fora da justiça durante 13 anos, que só terminou com a queda do regime. E porque foi tão mal conduzido o final da colonização e tão errada a guerra, a descolonização foi um desastre cujo preço foi pago, não pelos donos da colónia, mas pelos colonos pobres, impreparados para uma saída apressada. E para trás, depois de 500 anos, não deixámos, conforme era nosso estrito dever, uma elite local capaz de tomar em mãos o destino de uma nova nação. Deixámos, sim, o que ficou à vista: um país dividido entre etnias e facções, que se dilaceraram numa interminável guerra civil que destruiu Angola, finda a qual, os vencedores se instalaram a banquetear-se com o saque do país. E nós a colher as migalhas.
Dito assim, parece que nada de recomendável ficou da nossa passagem de 500 anos por Angola. Mas não é verdade. Muitos portugueses fizeram e deixaram lá obra notável e que nos orgulhou, muitos amaram como sua Angola e deram toda a sua vida por ela, muitos mereceram ficar para a História de Angola, por mais que se reescreva a História. Eles não merecem é a pequena história destes últimos 44 anos das nossas relações com Angola, em que o principal foi sempre a cobiça e a hipocrisia. Isabel dos Santos é o exemplo eloquente disso. Ela manchou o nome de Angola. E, com a nossa cumplicidade, manchou o nosso também.
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 25 de Janeiro de 2020

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


Por que é os leaks não são todos iguais?

As suspeitas do Luanda Leaks aceleraram a investigação em Angola e o provável é que o mesmo aconteça em Portugal. Mas há uma pergunta para a qual não há resposta. Por que é o Football Leaks não suscita o mesmo interesse público e judicial em Portugal?

As revelações dos esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, através dos quais terão desviado dinheiros públicos para paraísos fiscais, não são a surpresa do ano. Nos anos de crise, Portugal não tinha liquidez, Angola tinha. Nesse período, ninguém se importou muito em saber se a origem do dinheiro angolano era ou não fraudulenta. Afinal, o que se passou foi que as verbas de fundos públicos de Angola foram aplicadas na compra de empresas portuguesas em sectores fundamentais como a energia, as telecomunicações, a banca ou a comunicação social.

A promiscuidade entre elites e classes políticas dos dois países está à vista: dezenas de ex-governantes passaram pelas administrações de empresas de capital angolano, incluindo um ex-presidente do instituto de cooperação e ex-ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Quando o clã de José Eduardo dos Santos gozava de infinita impunidade, o tema era de delicada abordagem nas relações entre os dois países. E o interesse era mútuo.
Com o Luanda Leaks, Isabel dos Santos perdeu a impunidade. A empresária foi constituída arguida em Angola por má gestão e desvio de fundos da Sonangol e o Procurador-geral daquele país, que não afasta a emissão de um mandado de captura internacional, veio a Lisboa falar com as autoridades portuguesas. Isabel dos Santos vai vender a sua participação no banco Eurobic, os seus administradores na Nos demitiram-se, a PwC anunciou que vai deixar de trabalhar com a empresária, e a presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários deu início a “acções de supervisão concretas”. Isso mesmo, “concretas”.

O nome Isabel dos Santos tornou-se tóxico, a ponto de ter sido riscado do Fórum Económico Mundial de Davos. Como seria de esperar, as suspeitas aceleraram a investigação em Angola e o provável é que o mesmo aconteça em Portugal, onde o Ministério Público investiga há mais de oito anos várias figuras dessa elite angolana, entre as quais Isabel dos Santos.

Mas há uma pergunta cada vez mais frequente, pertinente e para a qual não há resposta cabal. Por que é o Football Leaks não suscita o mesmo interesse público e judicial em Portugal? O coordenador responsável da rede de investigação sobre agências anticorrupção diz que os magistrados portugueses “são conservadores” quanto à análise de informação fornecida em denúncias como estas. Talvez. Mas o conservadorismo não explica tudo. Pelo menos, não explica o desinteresse. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020


Nos 85 anos de Ramalho Eanes
Portugal deve a Eanes, para além da afirmação democrática e do esforço de conscientização cívica, a recondução das Forças Armadas à sua função de defesa nacional, a atenção prestada tanto aos Açores e à Madeira como ao interior, muitas preocupações de solidariedade social, a renovação dos laços com os países africanos de língua oficial portuguesa.

1. Entre os protagonistas principais de defesa e de realização da democracia aberta em 25 de abril de 1974 – de democracia firmada nos direitos e liberdades fundamentais e no princípio de eleição pluralista dos titulares de poder político (conforme se dizia no Programa do MFA) – avulta António Ramalho Eanes. Escrevo por amizade (que não escondo) e pelo reconhecimento de alguém que acompanhou e viveu intensamente os anos de 1974 a 1981‑82.

Defesa da democracia em 25 de novembro de 1975. Antes de mais, enquanto comandante operacional das forças militares que derrotaram o levantamento extremista em que culminaram o “verão quente” e o “outono escaldante” – infiltração partidária nas Forças Armadas, juramento de bandeira de punho erguido, domínio unilateral da comunicação social, desordem económica, tensões exacerbadas na vida política, discursos demagógicos, sequestro da Assembleia Constituinte.

Nos dias seguintes, com Melo Antunes, preocupação de que essa vitória não implicasse o banimento ou a ostracização dos vencidos, aparentes ou reais. Em democracia, todos têm lugar e o 25 de novembro não deveria converter‑se em 11 de março ao contrário.

Nesta linha, Eanes seria o impulsionador da Lei n.º 17/75, de 26 de dezembro, em cuja base V se estabelecia que os elementos das Forças Armadas teriam de observar os objetivos da maioria do povo consignados na Constituição, não poderiam estar ao serviço de nenhum partido político e não poderiam aproveitar‑se da sua arma, posto ou função para obrigar, ou mesmo influenciar, a escolha de uma determinada via política.

2. Em junho de 1976, acolhido como candidato à Presidência da República pelos partidos maioritários, ele disputaria a campanha eleitoral em igualdade com os demais candidatos, assumindo‑se como cidadão como qualquer outro. Assim como, uma vez eleito, mostraria um completo desprendimento das remunerações materiais do cargo.

Presidente por inerência do Conselho da Revolução (que, de harmonia com a Plataforma de Acordo Constitucional de fevereiro de 1976, deveria subsistir até à primeira, e obrigatória, revisão constitucional), Eanes juntava em si a legitimidade democrática do voto e o que restava da legitimidade revolucionária patente no Conselho. A legitimidade democrática viria a prevalecer, pelo modo como exerceu a presidência, pela lucidez de quase todos os conselheiros, pelo desenvolvimento cívico dos Portugueses e pelo contexto europeu.

3. Entretanto, numa área política significativa (em 1980 com maioria de Governo), erguiam‑se certas vozes contestando a Constituição e, por altura da nova eleição presidencial prevista para esse ano, chegando a preconizar a modificação das regras sobre revisão constantes do texto constitucional, e sustentando, para esse efeito, se necessário, o recurso a referendo.

Como a soberania reside no povo, este bem poderia derrogar a regra da maioria de dois terços do art. 287.º para serem aprovadas alterações à Constituição ou para se ultrapassarem os limites materiais do art. 290.º.

Era uma argumentação, porém, de evidente fraqueza jurídica, porque, no constitucionalismo, o próprio povo se encontra subordinado à Constituição. Não há democracia sem Estado de Direito. De resto, em quase todos os Estados compete ao Parlamento proceder às alterações à Constituição, pelo que nada tinham de exorbitantes as regras vindas de 1976 (e menos exigentes para a primeira revisão do que para as subsequentes).

Eanes sempre se afastou dessa proposta. Escrupuloso cumpridor da Constituição, não podia admitir uma revisão feita à sua margem. Com o resultado de 54% de votos, logo à primeira volta, o problema ficaria resolvido e a revisão constitucional decorreria normalmente em 1981 e 1982.

4. Por sinal, no entanto, não terá apreciado as alternativas no âmbito da organização do poder político e da fiscalização da constitucionalidade. Com toda a razão, quanto à concentração na Assembleia da República da designação dos juízes do Tribunal Constitucional, sem se atender ao reforço de legitimidade que eles teriam se alguns fossem nomeados pelo Presidente, órgão também eletivo e independente dos partidos. Outras vezes sem razão: quanto ao sistema de governo.

No texto inicial da Constituição, o Governo respondia politicamente perante o Presidente e perante a Assembleia da República (art. 193.º). Em 1982, desapareceu o advérbio politicamente e, embora se continuasse a falar em responsabilidade perante ambos os órgãos (art. 190.º, hoje), a responsabilidade perante o Presidente da República passou a ser só institucional, traduzida, no limite, na demissão do Governo quando tal seja necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, ouvido o Conselho de Estado (art. 195.º, n.º 2), um órgão meramente consultivo (art. 145.º); e esse poder presidencial não tem nenhum controlo político, a não ser o do eleitorado em subsequentes eleições parlamentares. É uma solução que melhor se coaduna com o semipresidencialismo.

5. Os quase dez anos dos dois mandatos não foram fáceis, por causa de vários circunstancialismos políticos. Nem foram poucas as críticas e os ataques que lhe foram dirigidos por diversos setores partidários. Encarou essas críticas e ataques com serenidade.

Seja como for, Portugal deve a Eanes, para além da afirmação democrática e do esforço de conscientização cívica, a recondução das Forças Armadas à sua função de defesa nacional, a atenção prestada tanto aos Açores e à Madeira como ao interior, muitas preocupações de solidariedade social, a renovação dos laços com os países africanos de língua oficial portuguesa.

Jorge Miranda, Constitucionalista, Público, 21 de janeiro de 2020

terça-feira, 21 de janeiro de 2020


O último jogo de Cristiano Ronaldo

Ninguém sabe ao certo quantos golos marcou Edson Arantes do Nascimento, a quem também chamaram Edison, por um erro na certidão, e que toda a gente ficou a conhecer por Pelé — o ‘rei’ Pelé. Digamos que há uma confusão contabilística entre os que ele diz ter marcado e os que a Rec.Sport. Soccer Statistics Foundation (RSSSF) e a International Federation of Football History & Statistics (IFFHS) certificaram: 1282, 767 e 541. Entre o primeiro e o último cálculo há 741 golos, a diferença é quase conceptual, como um delírio é de uma conta de somar.

Mas não é difícil eliminar um dos três números de Pelé: abanada a peneira, percebe-se que o ‘rei’ foi particularmente generoso consigo mesmo ao incluir jogos disputados pelo Sindicato dos Atletas, pelas Forças Armadas e pelo 6º Grupo de Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro. Ficam os números da RSSSF e da IFFHS — e a crítica tende a escolher a primeira, cuja lista de melhores marcadores contempla, ainda, dois figurões acima de Pelé.

Um deles é o caprichoso Romário, que garante ter feito 1002 golos, 77 destes antes de se tornar profissional e muitos outros em jogos de exibição, a categoria imediatamente a seguir à ocasional rabia com os amigos ao fim da tarde; a RSSSF credita-lhe 772 golos. O outro é o semidesconhecido Josef Bican (1913-2001), que marcou extraordinários 805 golos entre as duas grandes guerras mundiais.

Ora, Bican foi resgatado da obscuridade quando Cristiano Ronaldo chegou aos 700 golos, a 15 de outubro, na derrota de Portugal com a Ucrânia. Foi um acontecimento. Um dos dois melhores jogadores da história moderna — sendo Lionel Messi o outro — acabara de elevar a fasquia, outra vez, num desporto cada vez mais científico, estratégico e tático. Só que, na realidade, o golo 700 também não era bem o golo 700: o “Record” escreveu que era o 707, juntando, por exemplo, os obtidos no torneio olímpico de 2004; e outros jornais justificaram que era o golo 699, lembrando o ‘não-golo’ pelo Real Madrid diante da Real Sociedad, em 2011, que a “Marca” conferiu a Ronaldo mas que o árbitro, no seu relatório, atribuiu a Pepe.

Ainda assim, estes desvios não têm o nível de criatividade dos anteriores: contas mais ou menos bem feitas, Ronaldo andará entre os 728, 729 e os 736 golos, e é bastante provável que na sua ultracompetitiva cabeça esteja o número mágico de Bican. No cenário mais otimista, faltam-lhe 69 golos para lá chegar; a média é de 38,75 por época nas últimas quatro épocas, e neste exercício excluem-se os jogos por Portugal. Não é impossível. Na verdade, nada jamais pareceu impossível para este homem.

O GOLO
Josef Bican foi um poderoso avançado que percorria 100 metros em 10,8 segundos e chutava à baliza com os dois pés e com a cabeça; era alto e orgulhoso e bem parecido, imaculadamente penteado, nascido pobre e órfão de pai bastante cedo, com um apetite assumido pelo estrelato, que outros invejavam ao ponto de o insultarem. Em 2001, foi a vez de Bican se sentir insultado pela IFFHS, quando esta o homenageou esquecendo-se de somar os golos que ele marcara durante a II Guerra Mundial — Josef preferiu ficar no quarto de hotel com a mulher a beber chá do que ir receber o prémio.

As coincidências são notáveis, se pensarmos em tudo o que Cristiano Ronaldo ultrapassou para se transformar neste ícone. Filho de um futebolista amador atormentado pelo Ultramar, que o levou ao alcoolismo e à morte, e de uma mulher abandonada pelo pai, criada por freiras intolerantes e por uma madrasta violenta, Ronaldo sobreviveu à própria vontade da mãe. Dolores Aveiro, sem meios para sustentar outro bebé, decidiu-se por uma mezinha: bebeu cerveja preta fervida e correu até não poder mais para provocar o aborto.

Cristiano nasceu forte a 5 de fevereiro de 1985 como uma das maiores improbabilidades estatísticas deste desporto. Mal nutrido, mas com um cocktail genético abençoado, o rapaz cresceu saudável, alto, coordenado, rápido e explosivo, suportado pelas fibras musculares brancas herdadas de um antepassado cabo-verdiano que se revelariam nos seus sprints contínuos.

As suas primeiras histórias prodigiosas já fazem parte do folclore; estas são apenas algumas, para contexto. Ronaldo corria com pesos nos tornozelos em ruas íngremes do Funchal e, depois, nos primeiros treinos pela seleção A, surpreendendo os consagrados Rui Costa e Figo. Ronaldo decidiu que iria levantar mais peso do que o fibroso André Cruz, em Alvalade, e começou a entrar à socapa no ginásio, a meio da noite, para ganhar músculo. Ronaldo olhou os irmãos Neville e Rio Ferdinand nos olhos e disse-lhes que podiam gozar à vontade com as roupas e o cabelo dele, porque um dia, um dia ele seria o melhor do mundo. Ronaldo quis ser um goleador e trabalhou diariamente com Mike Clegg para esculpir o corpo de Adónis e controlar novos instintos; uma vez completada a tarefa, com o português já em Madrid, o preparador abandonou o futebol por nunca mais ter encontrado alguém que o desafiasse assim. Ronaldo mudou a forma como se treinava no Manchester United e, depois dele, as ‘cuecas’ e as fintas e os truques passaram a ser aceites nos ‘meiinhos’.

Ronaldo, que um dia foi castigado pelo Sporting por roubar iogurtes e o lanche dos colegas, contratou cozinheiros, fisioterapeutas, rodeou-se de aparelhos de exercício e dos que lhe são próximos para criar o ambiente certo para explodir. Tudo meticulosamente estruturado no dia a dia, em que o treino pessoal começa antes e acaba depois do treino coletivo e ainda termina na piscina. Sem vícios. Sem gorduras. Sem álcool. E com o apoio incondicional da mãe, das irmãs e do irmão e do superagente Jorge Mendes, que jamais hesitam em defender publicamente o menino — literalmente — de ouro.
Então, nas duas primeiras décadas do século XXI, os golos foram-se sucedendo, seguindo-se os títulos coletivos, os prémios e os recordes individuais, os milhões de euros em salários, patrocínios e investimentos. Cristiano Ronaldo tem uma Supertaça de Portugal, três Premier League, uma Taça de Inglaterra, uma Supertaça de Inglaterra, duas Taças da Liga inglesas, quatro Mundiais de Clubes, cinco Ligas dos Campeões, duas Supertaças UEFA, duas La Liga, duas Supertaças de Espanha, uma Serie A, uma Supertaça de Itália, e um Europeu e uma Liga das Nações por Portugal, que capitaneia desde 6 de fevereiro de 2007. Tem uma fortuna avaliada em 439 milhões de euros, segundo a “Forbes”, e também tem um museu, um estranho busto no Funchal e milhões de seguidores nas redes sociais — onde gera dinheiro e dá dinheiro a ganhar a quem o patrocina. É praticamente invencível.

O TEMPO
Mas todos nós temos o nosso tempo contado. Até Ronaldo. No dia 5 de fevereiro de 2020, o avançado da Juventus fará 35 anos, e o corpo amassado recomenda um campeonato periférico, pouco intenso, embora com a projeção mediática suficiente para manter a ilusão de que tudo continua na mesma, enquanto os golos acontecem.

O ego importa, e muitos cruzaram o Atlântico, para os EUA, para prolongarem a carreira. Célebres trintões como David Beckham, Raúl, Wayne Rooney, David Villa, Schweinsteiger ou Ibrahimovic foram para lá à procura de um final digno. Nenhum deles, contudo, é como Ronaldo, um espécime cinzelado e aparentemente indestrutível saído da animação japonesa, que parece atrasar a idade manipulando a alimentação e o exercício físico, usando a tecnologia que lhe dá aquela pequena vantagem necessária para se manter à frente dos concorrentes — de todos menos de um, Messi, pequeno, rápido, esquerdino e de baixo perfil, o antagonista adequado para alimentar uma rivalidade quase eterna. Só que nem todo o gelo das calotas polares, nem todas as posições do ioga e certamente nem todo o salmão do mundo o salvam da inevitabilidade do envelhecimento; num dia mau, o Super-Homem também morre. E como será estranho ver Cristiano jogar no lado mais fraco do planeta, é previsível vê-lo sair de cena enquanto estiver no topo — a não ser que alguma lesão muscular o faça desistir antes, o que seria anormal.

Durante a carreira, Ronaldo parou pouco, muito menos do que a generalidade dos craques, e apenas em 2014 se insinuou algo que poderia correr terrivelmente mal. Foi no Mundial do Brasil: o médico da FPF Henrique Jones falou em “índices de suspeição lesional superiores aos anos anteriores”. Ronaldo estava sobrecarregado, o corpo queixou-se, os alarmes soaram. E o que sucedeu? Ronaldo reinventou-se novamente: perdeu massa muscular, apostou em espaços curtos e passou os seus melhores anos desportivos com o Real Madrid. Seis anos depois, será difícil Ronaldo sacar outro coelho da cartola, e a hora é de poupar esforços, escutar o corpo e escolher as batalhas: o Euro 2020 é a que merece ser travada. A seguir, logo se vê. Talvez continue na Juventus, talvez queira ir até ao Mundial 2022, ano em que cessa o contrato com a Vecchia Signora. Ou então...

O VAZIO
Há um antes e haverá um depois de Cristiano Ronaldo no futebol português, porque ele fez o impensável: bateu Eusébio da Silva Ferreira. Mais golos. Mais títulos internacionais. E aquele Euro 2016, em que simbolicamente se consumou a transformação do miúdo birrento e atrevido para o líder da seleção nacional — e, naquele contexto específico, do país. Ao sacudir a ansiedade de João Moutinho nos penáltis com a Polónia, Portugal percebeu que o homem tinha realmente um ascendente sobre todos os outros; era desnecessário criticá-lo, o melhor era aceitá-lo, com as infantilidades e tropeções do passado. No final, com as traças de Paris à sua volta, a mariposa agarrou em Fernando Santos e celebrou o golo de Eder como se fosse o seu e voou com uma coxa ligada: era o momento mais alto da Seleção e ele estava lá. Mas... e quando não estiver?

Depois dele, o vazio. Dificilmente um millennial terá memórias de Portugal sem Ronaldo. São 17 anos, a idade da adolescência, a vestir os múltiplos equipamentos da Seleção, sem e com a braçadeira de capitão, penteados de berloques, cristas, riscos ziguezagueantes, gel, mais gel, poucos músculos, muitos músculos, menos músculos, à esquerda, à direita e ao meio, uma barba duvidosa no queixo, alguns amuos e triunfos. Cristiano disputou o Euro 2004, o Mundial 2006, o Euro 2008, o Mundial 2010, o Euro 2012, o Mundial 2014, o Euro 2016, a Taça das Confederações de 2017, o Mundial 2018 e a Liga das Nações de 2019. No caminho, entre qualificações, fases finais e amigáveis, marcou 99 golos em 164 jogos; Pauleta tem 47 em 88, Eusébio 41 em 64. CR7 está a 10 golos do melhor marcador por seleções da história — o iraniano Ali Daei — e, claro, é bem possível que destrua outro recorde antes de abandonar a competição. Ora, estes registos vão cristalizar, pois nenhum dos jogadores convocados por Fernando Santos nesta última campanha aparece, sequer, no top 10. Ronaldo cruzou três gerações e secou-as a todas, implacavelmente, uma por uma, como um predador insaciável.

Obviamente, isto alimenta três teorias interligadas e ainda por provar. Teoria A: os colegas estão obcecados em jogar para o obcecado Ronaldo. Teo­ria B: a Seleção jogará muito melhor quando Ronaldo a deixar. Teoria C: Bernardo Silva, João Félix, Gonçalo Paciência e Bruno Fernandes irão cumprir, então, o que lhes está destinado, mas que a omnipresença de Ronaldo tem travado.
A fase de grupos da Liga das Nações foi um teste de stresse, porque o avançado pediu escusa e não participou nos quatro jogos. A dúvida primordial, porém, subsistiu: dois empates, duas vitórias, cinco golos marcados e três sofridos; Bernardo Silva foi o líder temporário, as exibições convenceram q.b. E, quando Ronaldo regressou para a fase final da Liga das Nações, Portugal ganhou à Suíça (3-1) e à Holanda (1-0). Gonçalo Guedes disparou contra os holandeses. Cristiano fez um hat-trick com os suíços e acabaria a campanha de qualificação para o Euro 2020 com 11 golos, menos um do que Harry Kane.

A realidade é esta: Ronaldo não é um fenómeno ou um número, é uma determinada forma de estar na vida, uma forma de estar pouco portuguesa, na medida em que é über confiante, irreverente, por vezes arrogante e até insolente, sendo as faltas (in)justificadas nas cerimónias em que não é premiado os exemplos mais gritantes.

Este ano, enquanto Messi levantava a sexta Bola de Ouro perante a elite, Ronaldo não estava lá para ser aplaudido como o terceiro melhor do mundo. Caiu mal, mas ele tinha a desculpa protocolar perfeita: ia receber o galardão de melhor jogador da Serie A. O incansável Jorge Mendes também lá foi e disse que “Ronaldo era o melhor da história” e que o “mundo sabia isso”. Uma das irmãs disse mais ou menos o mesmo, o próprio Cristiano confessa ciclicamente que esse é o objetivo: tornar-se uma lenda. É este mantra repetido à exaustão que alimenta um fogo que recusa extinguir-se. Ronaldo construiu-se e conta a sua própria história. E uma história não se esquece. Messi certamente não a esquecerá.

Pedro Candeias, Revista E, "2030|Portugal", Expresso Semanário, 17 de janeiro de 2020

sábado, 18 de janeiro de 2020


O Banquete do Estado

Se o leitor faz parte da metade dos portugueses que efectivamente paga IRS, é provável que sinta o mesmo que eu já começo a sentir com este espectáculo que dura há meses, antes mesmo das eleições de Outubro passado: as discussões infindas sobre a aprovação do Orçamento do Estado entre o Governo socialista e os partidos à sua esquerda, onde hoje se incluem o PAN e o Livre. E o que eu sinto é que partidos e partidecos que não ganharam as eleições — e em alguns casos até, claramente, as perderam e recuaram eleitoralmente — chantageiam o partido que as ganhou, tirando vantagem da ausência de maioria absoluta deste para governar apenas com o seu programa, e actuam como se eles também tivessem recebido um mandato dos portugueses para nos co-governarem nos próximos quatro anos. E com que chantageiam eles? Com o meu dinheiro. Com o dinheiro que me custa muito a ganhar, fruto do meu trabalho e da enormidade do que dele dou ao Estado em troca do nada que lhe peço. Eu e os demais contribuintes líquidos deste espectáculo estamos, pois, sentados silenciosamente na plateia a assistir há meses a um bacanal de exigências sem fim, a serem financiadas com o dinheiro dos nossos impostos e a favor dos interesses e vaidades próprias de quem perdeu as eleições. Dir-me-ão que isto é normal e resulta do natural jogo de concertação democrática destinado a viabilizar a governação numa si­tuação em que um governo minoritário não consegue, ou não quer, estabelecer coligações com outros partidos para garantir uma maioria de legislatura. Pois, será natural para os analistas políticos e para os próprios actores deste jogo de máscaras em que hoje se abraçam e amanhã se anavalham. Mas para os cidadãos comuns — que trabalham ou que investem, que ­criam riqueza e pagam impostos, que vão às urnas e não se desinteressam pelos assuntos do país nem apostam na degenerescência da política como alternativa — isto não é normal nem aceitável. É ilegítimo e, a partir de certo ponto, pornográfico.

Comecemos pela ilegitimidade. Escrevia aqui a semana passada o Daniel Oliveira que o PCP e o BE, com a sua abstenção na votação global do Orçamento, tinham perdido uma oportunidade única de “definir as regras desta legislatura”. Como se, digo eu, tivessem ganho as eleições, juntamente com o PS. Mas acontece que não ganharam, perderam-nas — e o PCP perdeu-as estrondosamente. Com que legitimidade é que eles se poderiam arrogar o direito de “definir as regras da legislatura”? O Daniel Oliveira poderá dizer que, ao não darem a maioria absoluta ao PS, os eleitores quiseram mandar-lhe um recado para que repetisse a fórmula do acordo com a extrema-esquerda da anterior legislatura. E eu posso dizer o contrário: que o PS não teve a maioria absoluta exactamente porque a franja central de eleitores tradicionais socialistas não quis a repetição dessa fórmula. Tivesse António Costa tido a coragem de dizer previamente que não faria acordos à sua esquerda e talvez tivesse obtido a maioria absoluta que tanto desejava.
A meu ver, laboramos num erro de fundo, que contribui para o tal divórcio de que tanto se fala, entre eleitos e eleitores. Os entendimentos do nosso PS com a extrema-esquerda hão-de sempre esbarrar, mais tarde ou mais cedo, numa impossível conciliação: a liberdade individual contra a estatização, a iniciativa privada contra a luta de classes. O BE é hoje uma força profundamente institucionalizada do ponto de vista político. A sua facção folclórica foi metida ao bolso por uma outra facção muito mais organizada, inteligente e eficiente, que está presente em todos os níveis de poder da sociedade portuguesa: no Parlamento, nos sindicatos, na academia, nos media, nos reguladores. É um partido marxista para o século XXI, em contraste com o museu marxista-leninista do PCP. Ao contrário dos nostálgicos comunistas, o BE e os seus primos europeus perceberam que o objectivo final já não se faz bombardeando os Palácios de Inverno, mas é perfeitamente possível de se fazer num quadro democrático — até porque ele é necessário para combater o populismo de extrema-direita. E que, em vez dos sovietes e dos canhões do couraçado “Aurora”, há agora, misturando alhos com bugalhos, uma arma muito mais eficaz e tornada facilmente popular graças aos abusos e desmandos da banca e das grandes empresas multinacionais: a via fiscal. Dentro de um quadro democrático, e por via fiscal, o objectivo final dos neomarxistas mantém-se o mesmo: a sociedade sem classes e o consequente sufoco do indivíduo face ao Estado. Os neomarxistas sabem que nunca houve uma revolução que tenha trazido a felicidade aos povos nem o progresso económico; apenas as reformas o conseguiram. E quem faz as reformas é a classe média. É a classe média, e não a luta de classes, que faz avançar a Humanidade. É a classe média que produz os cientistas, os economistas, os arquitectos, os músicos, os escritores, os filósofos, os empresários visionários, os matemáticos, que acrescentam valor, inovação, riqueza às nações. Numa palavra, aquilo a que chamamos elites. Mas sucede que toda esta gente só existe e só funciona num quadro de absoluta liberdade individual e económica — sem depender do Estado e, se necessário, contra o Estado. E é isso justamente o que os marxistas e o seu delírio colectivista não compreendem, não podem aceitar e não toleram. E por isso, em lugar da liberdade individual, da iniciativa individual e do elevador social como motor da história, eles dedicam-se ao oposto: a nivelar todos por baixo, destruindo de cima para baixo, até atingirem uma sociedade em que todos estão dependentes do Estado e do favor do Estado. Já sabemos isto há mais de 100 anos, desde que os bolcheviques derrotaram os mencheviques, e querer experimentar outra vez uma impossível união só pode acabar em tragédia.
Voltando então ao nosso banquete do Estado e à parte da pornografia, ela consiste simplesmente no infindável e despudorado rol de exigências de mais e mais despesas públicas, mais e mais impostos sobre tudo o que mexe (a par de isenções fiscais tão adequadas como medicamentos e consultas para animais, propostas pelo PAN), apresentadas, tipo concurso de ideias, por todos os partidos à esquerda do PS. Que, uma vez garantidas, eles irão afixar em cartazes de rua como conquistas suas — com o dinheiro nosso. E assim, abstendo-se na generalidade, estes partidos dedicam-se depois, na especialidade, a acrescentar, grão a grão, mais umas centenas de milhares ou milhões de despesa pública, para cujo pagamento só prevêem, quando prevêem, dois tipos de cobertura: ou mais défice ou mais impostos. E chamam a isto uma discussão do Orçamento.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020


O Caroço no peito
O Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF) promove neste espaço semanal uma reflexão sobre as temáticas da fraude, da corrupção, da economia não-registada, da ética, da integridade e da transparência, contribuindo deste modo para a formação de uma opinião pública mais esclarecida e mais participativa
Estou à rasca. Há uns dias, ao terminar de fazer exercício, senti um caroço no peito, na zona inferior do esterno. Dei a palpar a outras pessoas, para ter a certeza que não estava errado na sensação, e todas sentiram algo que se assemelha a uma pequena massa com alguma mobilidade. Senti cair-me a vida aos pés, e uma miríade de prognósticos encheu-me a mente, cada um mais catastrófico que o outro. Acho difícil não ficar hipocondríaco numa situação destas.

Procurei de imediato as pessoas que conheço trabalharem em saúde a perguntar o que fazer, e unanimemente me encaminharam para a marcação de uma consulta de cirurgia geral num hospital privado. Poderia ter ido de imediato a uma urgência num hospital público, mas sinceramente pareceu-me descabido, pois não me estava a sentir mal, e tendo em conta o estado do SNS optei pela saúde privada.
Felizmente consegui agendar a consulta rapidamente, com um médico referenciado como excelente. Resta-me aguardar, e sujeitar-me ao que quer que seja.

E é neste aguardar que me encontro, cheio de incertezas, a tentar manter a calma, oscilando entre o tentar ‘pensar que está tudo bem’ e o ‘não interessa o que for, tens de aceitar e viver o melhor que conseguires’.
Pode-vos parecer exagerado, mas emocionalmente parece que estou às portas da morte. E para além do (ou devido ao) natural exaspero existencial, o que sinto e penso subitamente ganhou contornos estranhamento claros e concretos.
Por exemplo, sinto que todas as ansiedades e expectativas relacionadas com sucesso, bem-estar material, reconhecimento social, opinião dos ‘outros’, legado e posteridade não importam um chavo. A este nível, neste momento, só consigo ter no meu coração e espírito aqueles que amo e amei, só esses realmente interessam. De alguma forma eu já sentia isto, mas em escala residual. A agudização deste sentir neste meu contexto atual é quase inebriante, é algo que em meio a este terror da espera me enche de vontade de sorrir. Parece que antes de ter palpado esta massa no peito me preocupava mais e dava mais de mim a quem não importa que a quem realmente enche a minha vida de vida.
Não sinto ódio nem desprezo por ninguém que não seja este meu círculo interior, note-se. O meu humanismo e universalismo mantém-se intactos: todos são importantes, a aventura humana neste planeta e universo deve ser acarinhada e construída não deixando ninguém nem nada para trás. O que também se me agudizou foi a compaixão real por toda esta mole de gente, onde naturalmente me incluo, por ter a noção que na maior parte do tempo vivemos todos alheados daquilo que devem ser as nossas reais prioridades, entretidos com aversões e desejos que não são realmente os nossos, conduzidos em rebanho por não sei que mãos em direção não a uma qualquer glória mais ou menos eterna, mas ao inexorável pó.
Tenho a noção deste ridículo, mas em meio ao estado de nervosismo aterrorizado em que me encontro, e às tentativas emocionais e racionais de lidar com isto, de alguma forma sinto-me mais vivo, com uma sensação mais clara de significado para a minha vida. E penso na estupidez quotidiana que enquanto indivíduos vivemos ao corporizarmos diariamente o provérbio de que ‘só se dá valor ao que se tem quando se perde.’
A consulta é amanhã. Penso, pior caso possível, em quantos meses terei de vida. E penso também no que irá acontecer se isto não for nada.
DEPOIS DE AMANHÃ
A consulta (no privado) atrasou duas horas, entrei no gabinete do médico, mostrei o peito, expliquei o que havia palpado, o caroço, a mobilidade, os antecedentes oncológicos familiares, etc.
O médico levantou-se da cadeira, palpou o caroço, uma, duas, três vezes, e disse que não era nada, que podia estar descansado. O caroço mortífero que havia sentido era a base do osso esterno, que apresenta alguma mobilidade, nada mais. Sorri de alívio, enfraldei a camisa, apertei a mão ao médico, desejei-lhe boa sorte para uma noite que estava complicada de pacientes, e três minutos após haver entrado no consultório estava de saída, com a dupla sensação de alívio e de ridículo.
Ridículo não por ter ido ao médico devido a um caroço que senti no peito, achando que o meu fim estava traçado antes da hora prevista, mas sim por ter a clara sensação que a tal relação de prioridades pessoais que se haviam alterado quando eu ‘estava para morrer’ provavelmente voltarão para muito perto de onde estavam.
Ou seja, o esquecimento daquilo que parece sagrado, óbvio e indubitável quando estamos aflitos é rápido a atuar.
Em textos bem mais antigos já escrevi sobre o que denomino a ‘Auto-fraude’ (não relacionado com automóvel), o apossamento indevido de algo importante que é nosso por nós mesmos, para utilizações menos interessante. Isto acontece porque não temos as prioridades no lugar certo.
Seria talvez bom que nos lembrássemos mais vezes que estamos todos a morrer, mais cedo ou mais tarde. É o que irei tentar fazer, para tentar defraudar-me menos a mim mesmo.
Pedro Moura, “A poética da Ética”, Expresso, 09 de janeiro de 2020

domingo, 5 de janeiro de 2020


A guerra 2020: loucos contra fanáticos

O que se revela mais perigoso é precisamente o carácter errático, caótico e quase alucinado do novo rumo da intervenção americana

No final do artigo anterior sobre a abertura dos anos 20 deste século, referi uma data crucial de Novembro próximo em que estaria em jogo o futuro da democracia: Trump or not Trump that’s the question. Mas não foi preciso esperar muito – e muito menos pela data das eleições presidenciais americanas – para perceber até que ponto o destino do mundo pode estar suspenso da loucura de um homem e do fanatismo de outros milhões.

Mal 2020 começara, Donald Trump decidiu ajustar contas com os iranianos que, dias antes, tinham estimulado o assalto à embaixada americana no Iraque. Numa aparente reviravolta da sua mil vezes repetida intenção de retirar as tropas americanas do Médio Oriente, Trump fez uma nua e crua declaração de guerra ao Irão mandando matar o homem mais influente da sua elite militar: o general Soleimani.

Como quase sempre acontece, Trump insiste em ver as coisas pelo ângulo oposto ao da lógica mais elementar e em contradição radical consigo mesmo. Ele não teria contribuído para começar uma guerra mas para evitá-la, segundo confessou num dos seus imparáveis tweets. De qualquer modo, não fosse o diabo tecê-las, lá enviou 3500 militares americanos para a região turbulenta da qual prometera sair. Ainda não sabemos que tipo de guerra vem aí, mas que ela virá é absolutamente certo, com a loucura de Trump a estimular o fanatismo iraniano e a contribuir para que a recente crise social na antiga Pérsia – de que resultaram mais de três centenas de mortos, abatidos à bala pelas milícias do regime de que Soleimani era figura-chave – se transforme num movimento unitário de massas contra a assassina e odiada América. Sim, a loucura de Trump está em linha e conformidade com o fanatismo obscurantista do regime iraniano. E o problema são os terríveis custos dessa mortífera sintonia, evocando tragédias e sonambulismos históricos que vêm assombrando a humanidade (e, nos últimos dois séculos, desde a Grande Guerra de 1914/18).

Evidentemente, poderá dizer-se que esta é uma previsão exagerada e, até, demasiado apocalíptica. Mas se tivermos em conta as forças obscuras e cegas que se enfrentam neste palco e respectivos bastidores – e que não se limitam apenas à loucura de Trump e ao fanatismo iraniano – prever o pior talvez seja a forma mais lúcida e eficaz de tentar evitá-lo. Esta é uma questão que não diz respeito apenas a americanos e iranianos, mas a todos os governos e povos que poderão ser arrastados para o abismo. Autocratas como Putin e Erdogan, por exemplo, não resistirão à tentação de prosseguir a demarcação geopolítica do território explosivo do Médio Oriente, apesar dos insondáveis riscos e ameaças que configuram a nova estratégia de Trump (embora essa estratégia esteja aparentemente a ser desenhada no sentido oposto ao propósito anterior de retirada americana, como pareciam confirmar os casos sírio, líbio ou afegão). Aliás, o que se revela mais perigoso é precisamente o carácter errático, caótico e quase alucinado do novo rumo da intervenção americana numa geografia marcada pela intensidade dos conflitos bélicos e que, para já, do outro lado da barricada esteja um regime supostamente disposto a tudo (a partir do momento em que se não arriscar corre o risco de morrer).

Os antecedentes desastrosos da política americana no Médio Oriente desde a invasão do Iraque, baseada em factos falsos que viraram o feitiço contra o feiticeiro – e acabaram também por favorecer o expansionismo iraniano no antigo país inimigo – tinham, pelo menos, uma narrativa aparentemente coerente (embora fosse efectivamente uma mistificação). Ora, desta vez, nem isso se vislumbra. Se a América está ainda a pagar as consequências do que aconteceu no tempo de George W. Bush, agora o que se antevê é apenas o som e a fúria da loucura de Trump e do fanatismo iraniano. Cada vez mais, Trump or not Trump that’s the question.