“Tenho sido sempre um outsider”
O
novo livro do jornalista canadiano residente em Nova Iorque, “A Máfia dos Bombardeiros”,
questiona até que ponto a guerra pode ser ‘justa’ e conta como um grupo de
pilotos norte-americanos sonharam uma guerra de alta precisão travada a partir
do ar e sem perdas civis. Em entrevista exclusiva, o autor de cinco bestsellers diz
como ainda não chegámos lá
Expresso,
LUCIANA LEIDERFARB, 27 de maio de 2022
É (sempre)
o autor de que se fala. Está habituado a isso — e talvez por essa razão não
goste muito de dar entrevistas. Malcolm Gladwell já se habituou a que tudo o
que pensa seja comprimido no termo ‘gladwelliano’, apenas porque passou anos a
tentar olhar para o mundo — e desta vez as palavras são dele — como uma grande
“aventura”. Estar entre as 100 pessoas mais influentes do planeta e entre os
maiores pensadores globais, segundo a “Time” e a “Foreign Policy”, não chega
para explicar o porquê de este jornalista de 58 anos, nascido no Reino Unido,
criado no Canadá e a viver em Nova Iorque, se ter tornado um autor de culto. É
preciso abrir um dos seus livros — cinco bestsellers, entre os quais
“Blink”, “Outliers” ou “Falar com Desconhecidos” — para perceber o que o
distingue. E isso talvez seja o modo sem cedências como nos desafia a dissecar
o comportamento humano.
Agora,
Gladwell volta de novo à carga. “A Máfia dos Bombardeiros” (como os outros,
editado pela D. Quixote) é a história de um conjunto muito especial de pilotos
da Força Aérea norte-americana no início da II Guerra Mundial. Mas é, acima de
tudo, a reflexão sobre como o monstro devastador da guerra pode tornar-se um
pouco menos monstruoso. Houve quem, nos anos 1930 e 1940, pensasse já nisso: é
possível usar a mira de precisão criada por Carl Norden para, num contexto
bélico, bombardear apenas estruturas essenciais do inimigo, impedindo-o de
prosseguir? E substituir a destruição de cidades inteiras e a morte
indiscriminada de civis por uma guerra mais ‘limpa’? Na altura, a resposta foi
um rotundo ‘não’. E hoje?
É de
manhã em Nova Iorque quando Malcolm Gladwell, óculos de aros transparentes e
eterno cabelo encaracolado, surge bocejante no ecrã do computador para falar do
seu livro e de tudo aquilo que ele representa. E para contar que ele próprio —
que durante uma década fez parte do staff do “The Washington Post” e
outro tanto da “New Yorker” —abriu um novo capítulo na sua história de contador
de histórias, emocionalmente mais rico, graças ao podcast “Revisionist
History”, onde continua a chamar-nos a atenção para coisas esquecidas,
silenciadas, ou ambas.
Depois de
ler o seu último livro, “A Máfia dos Bombardeiros”, é impossível não pensar no
maior paradoxo da guerra: a moral versus a eficiência.
Os
pilotos que faziam parte do grupo conhecido como ‘Bomber Mafia’ perseguiam a
convicção de satisfazer tanto a moralidade como a eficiência. Tinham visto o
mundo ser arrasado na I Guerra Mundial, com a morte de milhões de pessoas.
Observaram métodos de guerra que provocaram destruição maciça de cidades e
países inteiros e disseram: não é ético fazer a guerra assim. Não deveríamos
destruir cidades para derrotar os nossos inimigos nem matar civis. Não só por
ser imoral mas porque nem sequer é eficiente. É mesmo necessário que milhões de
pessoas morram num conflito apenas para um país declarar vitória sobre outro?
Então, pensaram que podiam resolver os dois problemas. E a sua resposta foi:
vamos lançar bombas com grande precisão a partir de bombardeiros que voem a
grandes altitudes. Só isso será suficiente para ganhar uma guerra. Bombardear
com precisão permitirá não matar civis nem arrasar cidades. Vamos destruir
apenas as componentes cruciais dos países, isto é, as infraestruturas. Este era
o sonho.
E depois
veio a realidade...
Sim. E a
realidade revelou-se muito mais complexa do que eles pensaram. Não tinham ainda
a tecnologia adequada.
Mas
podemos usar a palavra ‘moral’ ao falarmos da guerra? No livro pergunta, entre
outras coisas, se se pode fazer a guerra e ter consciência.
Há uma
enorme quantidade de considerações filosóficas em torno da ideia de uma ‘guerra
justa’. Porque uma guerra justa é uma expressão moralmente complicada — é uma
contradição. A palavra ‘guerra’ e a palavra ‘justo’ não soam bem na mesma
frase. Por isso, penso que a única forma de colocar o tema seja questionar:
existe alguma forma de a guerra ser mais justa do que tem sido? Há
alternativas? Ninguém jamais poderá alegar que um ser humano matar outro
deliberadamente seja um ato justo. Em contrapartida, talvez haja uma forma de
orientar este tipo de assuntos humanos de modo a causarem menos danos. Matar
menos pessoas leva a que uma guerra tenha menos consequências negativas. Talvez
possamos, sim, falar de uma ‘guerra melhor’, embora nunca justa.
No livro,
Hansell sonha com uma guerra sem mortes e LeMay com uma guerra mais curta mesmo
que isso implique um grande número de vítimas humanas. Na introdução,
interroga: de que lado é que o leitor está? Não é uma pergunta simples.
Mesmo
depois de ter escrito o livro, de ter falado com muita gente e de ter
investigado um grande número de fontes, não estou seguro de poder responder a
essa questão. Sinto-me profundamente atraído pelo sonho da ‘Bomber Mafia’ — a
ideia de que podemos fazer a guerra com maior precisão e menores danos é muito
apelativa. Mas estou também consciente de que, na verdade, não o conseguiram.
Quando o sonho falha, eles enfrentam uma série de escolhas muito difíceis.
Estavam certos ao tentar outra abordagem, ver que alternativas existiam à
guerra convencional. Porém, uma vez que isso não funcionou, não tiveram outra
escolha a não ser seguir na direção apontada por Curtis LeMay. E ele foi longe
demais. Não creio que fosse necessário bombardear 66 cidades. Era um
extremista. Em nome da eficiência e de ganhar a guerra o mais depressa
possível, caiu na brutalidade. O que ele fez no Japão no verão de 1945 foi
injustificável. Foi um massacre.
Numa
entrevista anterior afirmou identificar-se com os dois. Porquê?
Ambos são
atrativos de modos diferentes. Hansell e o resto do grupo estavam muito
interessados em resolver as grandes questões morais e conceptuais da guerra. E
é sempre necessário haver militares a pensar dessa maneira. É sempre preciso
perguntar: isto está certo? Esta é a melhor forma de fazer isto? Não sendo a
perfeição possível, este é o caminho mais limpo, menos sangrento? Ao mesmo
tempo, LeMay tem também razão. Se a guerra não for levada a cabo com eficácia,
se não soubermos o que estamos a fazer nem pensarmos sobre as táticas, se não
formos conscientes da especificidade de cada conflito, as guerras podem prolongar-se
indefinidamente. E isso não ajuda ninguém. Por isso, gosto dos dois. Não sei se
é possível ter num conflito dois oficiais que defendam táticas tão opostas sob
o mesmo teto. A dada altura, iriam desprezar-se mutuamente. Mas sei que há
muitos militares no mundo que tentam satisfazer as duas condições, que se
preocupam com a moralidade e com a eficácia. Penso que talvez seja incorreto
fazer uma escolha. Talvez precisemos de um pouco de cada uma.
A
história deste grupo de aviadores é um case study que correu mal. No
fim, o napalm destruiu dezenas de cidades. Estamos ainda neste ponto?
Mesmo tendo a tecnologia, persistimos na destruição maciça?
Quando
analisamos o modo como os russos têm conduzido a invasão da Ucrânia ao longo
dos últimos meses, vemos que estamos perante uma forma muito tradicional e
pré-moderna de fazer a guerra. Eles usam armas modernas, mas nota-se que o
enquadramento mental é o de uma abordagem militar em que a tecnologia não serve
para tornar a guerra mais leve em termos de destruição. Basicamente, os russos
resolveram repetir as táticas usadas na I e na II Guerra Mundial. Tal como
fizeram na Síria, optaram por bombardeamentos indiscriminados em zonas de alta
concentração de civis e por atingir cidades. O tipo de ‘luta’ que há 70 anos
era travada pelos ideólogos militares, no sentido de adaptar as estratégias de
guerra para as tornar mais seletivas e precisas, essa luta não acabou. O russos
não receberam a mensagem. E isto por uma de duas razões: ou são indiferentes à
mensagem ou lhes falta a capacidade para usar as tecnologias modernas em prol
de guerras mais ‘limpas’. Não sei a resposta.
O livro
alerta para a necessidade de repensar o conceito de guerra, mesmo hoje, quando
temos a tecnologia. Ou seja, o problema não é apenas tecnológico, senão já
teria sido resolvido.
Sim, esse
é um ponto interessante. Porque continuamos a fazer o mesmo que se fazia há 70
anos. Uma das coisas que sempre me impressionou, ao olhar para a tecnologia, é
que a adoção de ideias novas demora mais tempo do que pensá-las. Aconteceu com
inúmeras invenções, das máquinas multibanco aos carros elétricos. Sempre que há
inovações capazes de resolver muitos problemas, pensa-se que as pessoas irão
adotá-las de imediato, mas isso não acontece. Cada grande inovação leva uns 20
anos para ser totalmente adotada. E 20 anos é muito tempo, é saltar uma
geração. Mas somos assim, os seres humanos. É sempre complicado encaixar uma
nova tecnologia na forma habitual de agirmos. E os assuntos militares não são
diferentes. O bombardeamento de precisão imaginado pela ‘Bomber Mafia’ não foi
totalmente utilizado pelos militares até os anos 1980 e 1990. Portanto, levou
40 anos, em parte porque a tecnologia teve de se desenvolver, em parte pela
inércia inevitável das instituições no que toca a adaptar-se a práticas novas.
Neste
livro, como noutros anteriores, tenta compreender o comportamento humano. O que
o empurra para essa abordagem?
Neste
caso, o tema atraiu-me por achar que é o exemplo perfeito de um problema
impossível. É útil recordar que há toda uma categoria de problemas a que
podemos chamar de ‘impossíveis’ — e ‘impossíveis’ não significa que não tenham
solução, mas que não existe uma solução simples, correta e elegante.
Necessariamente, qualquer via escolhida irá requerer algum grau de sacrifício.
Por outro lado, quis abordar algo que me parece tendencial: o modo como os
problemas são simplificados ao longo do tempo. E isso é um resultado da
ideologia. Perseguir uma ideologia permite simplificar os problemas,
resolvê-los de acordo com uma grelha de pensamento. Mas o mundo real é
inevitavelmente complicado. E pareceu-me importante levar as pessoas a entrar
nas cabeças daqueles que tomaram as decisões na Força Aérea norte-americana,
durante a II Guerra Mundial. Mostrar que não foi fácil. Que eles tentaram fazer
o melhor, mas não conseguiram, não funcionou. Então, o que se faz a seguir? A seguir,
comete-se uma série de atrocidades no Japão. Mas, mesmo nesse ponto, eles
tiveram as suas razões, e não eram triviais nem inventadas. Podemos discordar,
mas eles tinham argumentos. Uma das coisas que sublinho no livro é que certas
pessoas no Japão pensaram que os americanos tomaram a decisão certa.
Reconheço
que essa foi uma grande descoberta: haver japoneses — especialistas militares,
historiadores — a concordarem com os bombardeamentos maciços de napalm.
A questão
era que o governo japonês não se queria render. E o país, nesse inverno de
1945, enfrentava a fome e a possibilidade de uma invasão soviética. Essas
hipóteses eram vistas por eles como piores do que a dos bombardeamentos. O que
mais os aterrorizava era a invasão soviética, os russos entrarem e imporem o
mesmo tipo de regime que já estavam a impor a uma parte da Europa. Agora, este
tipo de situações, por mais terríveis e complexas que sejam, são não apenas
fascinantes como excelentes formas de aprender História, de perceber os
desafios que enfrentamos enquanto seres humanos.
Essa
palavra, ‘fascinante’, é perturbadora quando aplicada à guerra...
Escrever
este livro foi surpreendente. Nunca antes tinha escrito sobre história militar
e pensava que transformar esse material seco e técnico em algo de interessante
e fluido iria requerer muito trabalho. Porém, as questões com que as
personagens se debatem são tão dramáticas e humanas que acabou por ser fácil.
Este é,
acima de tudo, um livro escrito por um jornalista, certo? Baseia-se em factos e
na habilidade de os contar.
Sim. O
ponto de vista a partir do qual foi feito é o de um jornalista. Não de um
historiador. É uma distinção importante, porque a ideia é que seja lido por um
grande público. E não é um livro enorme — é sucinto, tenta agarrar a essência
desse capítulo histórico. Um livro exaustivo sobre esta história teria 800
páginas.
Mas na
introdução diz-nos que se considera uma pessoa obsessiva e que gosta de pessoas
obsessivas. Quer explicar?
Usei a
palavra de um modo simpático. Os obsessivos são pessoas que se comprometem com
os seus interesses e não se satisfazem com uma compreensão superficial. E eu
acho isso muito atrativo, a habilidade de pôr de lado outros assuntos e dizer:
“Quero saber tudo o que puder sobre este tema em particular.” É assim que nós,
os jornalistas, selecionamos e abordamos os temas, é isso que fazemos.
Praticamos tarefas obsessivas, para que as outras pessoas, que não têm nem o
tempo nem a vontade de o fazer, sejam beneficiadas pela nossa aprendizagem.
No meio
das toneladas de informação que circulam, vindas de todo o tipo de fontes, qual
é hoje o papel do jornalismo? Continua a afirmar que é “trazer ordem ao caos”?
Sim,
ainda defendo isso. Uma frase que eu costumava usar anos atrás era a seguinte:
muitas pessoas são ricas em experiências e pobres na sua análise. Ao longo das
nossas vidas, somos expostos a todo o tipo de situações, ideias, problemas,
ilusões. Mas o que nem sempre temos é a capacidade de as relacionar, de
encontrar o fio condutor, de as organizar mentalmente. E o que um jornalista como
eu faz é dizer: “Deixa-me ajudar-te a organizar todas essas experiências.” Acho
que é uma função valiosa. Se faltam às pessoas os meios para retirar lições
significativas sobre as suas experiências, nós tentamos fornecer-lhes as
ferramentas.
Mas, como
também afirmou, a melhor peça de jornalismo do mundo é inútil se ninguém a ler.
A inutilidade é perigosa quando estão em jogo os valores democráticos?
Sim,
penso que os jornalistas e o jornalismo contribuem para criar o sentido de
comunidade, ao contarem histórias sobre como os outros resolvem os problemas,
como vivem as suas vidas, como saem de determinadas situações, que tipo de
perguntas se colocam e como é que lhes respondem. Ajudamos a aproximar as
pessoas, a vinculá-las, levando-as a reconhecer nos outros coisas e atitudes
que lhes fazem sentido. Em “A Máfia dos Bombardeiros”, por exemplo, uma das
lições importantes do livro — em especial para quem não conhece bem os
militares — é a compreensão de que há militares a levarem as questões da
moralidade muito a sério. Isso não é imediato: existe a crença de que aqueles
que fazem a guerra são indiferentes às questões morais e que apenas estão
interessados em encontrar formas cada vez mais eficazes de matar pessoas. É
útil recordar que a classe militar está cheia de gente como nós, com as mesmas
preocupações morais do resto do mundo. Acontece que, por vezes, são levados a
decisões reais, extremas e difíceis. Mas não são uma espécie de seres humanos
separada da nossa. São como nós. Lendo sobre Hansell e LeMay, vemos que ambos
são um tipo de pessoa que todos conhecemos. Conhecemos o sonhador Hansell,
assim como o pragmático LeMay.
Há 10
anos, disse a este jornal que as redes sociais não fazem revoluções. O que
pensa disso hoje?
À medida
que o tempo passa, essa minha observação torna-se cada vez menos controversa.
No tempo das primaveras árabes surgiu a noção de que o Twitter ou o Facebook
tinham sido cruciais na mobilização e organização daqueles movimentos. Bom,
hoje sabemos que as primaveras árabes foram um grande falhanço e nem o Twitter
nem o Facebook se revelaram soluções mágicas. Na altura, o meu argumento foi o
de que as redes sociais são importantes no sentido de dar a cada um de nós uma
voz que podemos usar. Mas não resolvem os problemas mais prementes para uma
verdadeira mudança social. Um mudança social requer o compromisso de um
conjunto de pessoas com uma ideologia estruturada, que a ponha cuidadosamente
em ação. As redes sociais não asseguram nenhuma destas tarefas. Permitem dizer
ao mundo que tens uma queixa, mas ainda resta fazer o trabalho duro de criar
algum tipo de organização que responda às tuas preocupações.
E o que é
que as redes sociais trouxeram para o jornalismo?
Muitos
jornalistas utilizam-nas — eu tenho, por exemplo, o hábito dos tweets. Penso
que já percebemos para que servem. São boas para disseminar coisas que lemos, e
podem ser um bom canal para procurar pessoas e para absorver novas ideias.
Neste momento, uso-as muito para entender a guerra na Ucrânia, seguindo alguns
especialistas que me interessam e esclarecem sobre o tema. São extremamente
úteis para saber o que os outros pensam e para corrigir — e confrontar — os
nossos pontos de vista. Essencialmente, trata-se de uma vantagem incrível para
o jornalismo. Desde que, claro, se saiba fazer escolhas.
Numa
entrevista que deu à “Paris Review”, onde lhe perguntaram como é que começou
este caminho, a sua resposta foi: “Honestamente, por engano.” Em todos estes
anos, o que destaca como mais importante?
Sabe,
estou muito orgulhoso daquilo que tenho vindo a fazer nos últimos anos no campo
do áudio, com o podcast “Revisionist History”. O livro “A Máfia dos
Bombardeiros” surgiu primeiro como um audiobook — até diria que é
mais um audiodocumentário. Foi também deste modo que surgiu o meu livro anterior,
“Falar com Desconhecidos”. Fiz um grande esforço por usar a riqueza da escrita
no podcast, tendo sempre em conta que este se dirige a um público
diferente, que tem menos tempo para ler. Tenho vindo a explorar outras
possibilidades de contar histórias. É algo que nunca pensei que pudesse fazer,
mas que tem sido extremamente divertido.
O que
aprendeu a fazer podcasts? O que é que o áudio lhe traz que a escrita não
lhe tenha dado?
O áudio é
muito mais engraçado, permite-me usar melhor o meu sentido de humor. É também
um meio mais emocional — é capaz de mobilizar emocionalmente o público de um
modo que é muito difícil de conseguir na escrita. Isso também requer outro tipo
de histórias; por exemplo, em áudio não convém apresentar muitos números ou
expor tópicos demasiado complexos. Mas é excelente para contar histórias sobre
pessoas. E os meus livros têm vindo a ser contagiados por esta experiência, o
que os torna muito mais focados nas personagens. No áudio, aprendemos a
valorizar as personagens em primeiro lugar. Uma das razões por que estou
orgulhoso da “Máfia dos Bombardeiros” é por achar que funciona bem, e funciona
bem porque a história é contada através dos olhos, dos desafios e dos dilemas
daqueles dois homens.
Nasceu no
Reino Unido, de pai inglês e mãe jamaicana. Foi para o Canadá, depois para os
Estados Unidos. Como é que todas estas referências culturais o influenciaram?
É uma
pergunta difícil. Tenho sido sempre um outsider. Fui duas vezes um
imigrante: mudei-me de Inglaterra para o Canadá e dali para os Estados Unidos.
E, antes disso, da Jamaica para Inglaterra. Venho de uma família de imigrantes
em série, e por isso estive sempre situado de fora da cultura em que vivi — o
que é bastante útil para um jornalista. A vantagem de ser um outsider é,
às vezes, ver as coisas mais claramente do que as pessoas situadas dentro de
uma determinada cultura. Basicamente, porque tudo é mais ou menos novo. Por
outro lado, é interessante ser um canadiano nos Estados Unidos: são países
vizinhos que partilham quase tudo — a mesma economia, os mesmos programas de
televisão — e que, ao mesmo tempo, são profundamente diferentes. Isso tem sido
muito estimulante quando tenho de escrever sobre a América. Porque se só
conheceres a América não te dás conta do que tem de único, de específico.
Havendo um ponto de comparação, isso torna-se muito mais claro.
Não sei
se é por ser um outsider, mas os seus pontos de vista já foram
qualificados com uma nova palavra: ‘gladwelliano’. O que é que isto quererá
dizer?
Não tenho
a certeza. Penso que se refere ao exercício, presente na maior parte do que
escrevo, de combinar as referências da investigação científica com a narrativa.
A ideia de que é possível alimentar-se das noções da academia para falar do
comportamento e das escolhas das pessoas.
É a isso
que chama ‘histórias de aventura intelectual’?
Sim, no
fundo, histórias que possam ser divertidas e que contem verdadeiras aventuras
de vida. A vida é uma aventura. Não é preciso nada de muito extraordinário para
nos surpreendermos, para nos sentirmos desafiados, chocados; basta olhar para o
mundo real.
Expresso, 27 de maio de 2022