sábado, 28 de maio de 2022

Entrevista a Malcolm Gladwell

 

“Tenho sido sempre um outsider”

O novo livro do jornalista canadiano residente em Nova Iorque, “A Máfia dos Bombardeiros”, questiona até que ponto a guerra pode ser ‘justa’ e conta como um grupo de pilotos norte-americanos sonharam uma guerra de alta precisão travada a partir do ar e sem perdas civis. Em entrevista exclusiva, o autor de cinco bestsellers diz como ainda não chegámos lá

Expresso, LUCIANA LEIDERFARB, 27 de maio de 2022

É (sempre) o autor de que se fala. Está habituado a isso — e talvez por essa razão não goste muito de dar entrevistas. Malcolm Gladwell já se habituou a que tudo o que pensa seja comprimido no termo ‘gladwe­lliano’, apenas porque passou anos a tentar olhar para o mundo — e desta vez as palavras são dele — como uma grande “aventura”. Estar entre as 100 pessoas mais influentes do planeta e entre os maiores pensadores globais, segundo a “Time” e a “Foreign Policy”, não chega para explicar o porquê de este jornalista de 58 anos, nascido no Reino Unido, criado no Canadá e a viver em Nova Iorque, se ter tornado um autor de culto. É preciso abrir um dos seus livros — cinco bestsellers, entre os quais “Blink”, “Outliers” ou “Falar com Desconhecidos” — para perceber o que o distingue. E isso talvez seja o modo sem cedências como nos desafia a dissecar o comportamento humano.

Agora, Gladwell volta de novo à carga. “A Máfia dos Bombardeiros” (como os outros, editado pela D. Quixote) é a história de um conjunto muito especial de pilotos da Força Aérea norte-americana no início da II Guerra Mundial. Mas é, acima de tudo, a reflexão sobre como o monstro devastador da guerra pode tornar-se um pouco menos monstruoso. Houve quem, nos anos 1930 e 1940, pensasse já nisso: é possível usar a mira de precisão criada por Carl Norden para, num contexto bélico, bombardear apenas estruturas essenciais do inimigo, impedindo-o de prosseguir? E substituir a destruição de cidades inteiras e a morte indiscriminada de civis por uma guerra mais ‘limpa’? Na altura, a resposta foi um rotundo ‘não’. E hoje?

É de manhã em Nova Iorque quando Malcolm Gladwell, óculos de aros transparentes e eterno cabelo encaracolado, surge bocejante no ecrã do computador para falar do seu livro e de tudo aquilo que ele representa. E para contar que ele próprio — que durante uma década fez parte do staff do “The Washington Post” e outro tanto da “New Yorker” —abriu um novo capítulo na sua história de contador de histórias, emocionalmente mais rico, graças ao podcast “Revisio­nist History”, onde continua a chamar-nos a atenção para coisas esquecidas, silenciadas, ou ambas.

Depois de ler o seu último livro, “A Máfia dos Bombardeiros”, é impossível não pensar no maior paradoxo da guerra: a moral versus a eficiência.

Os pilotos que faziam parte do grupo conhecido como ‘Bomber Mafia’ perseguiam a convicção de satisfazer tanto a moralidade como a eficiência. Tinham visto o mundo ser arrasado na I Guerra Mundial, com a morte de milhões de pessoas. Observaram métodos de guerra que provocaram destruição maciça de cidades e países inteiros e disseram: não é ético fazer a guerra assim. Não deveríamos des­truir cidades para derrotar os nossos inimigos nem matar civis. Não só por ser imoral mas porque nem sequer é eficiente. É mesmo necessário que milhões de pessoas morram num conflito apenas para um país declarar vitória sobre outro? Então, pensaram que podiam resolver os dois problemas. E a sua resposta foi: vamos lançar bombas com grande precisão a partir de bombardeiros que voem a grandes altitudes. Só isso será suficiente para ganhar uma guerra. Bombardear com precisão permitirá não matar civis nem arrasar cidades. Vamos destruir apenas as componentes cruciais dos países, isto é, as infraestruturas. Este era o sonho.

E depois veio a realidade...

Sim. E a realidade revelou-se muito mais complexa do que eles pensaram. Não tinham ainda a tecnologia adequada.

Mas podemos usar a palavra ‘moral’ ao falarmos da guerra? No livro pergunta, entre outras coisas, se se pode fazer a guerra e ter consciência.

Há uma enorme quantidade de considerações filosóficas em torno da ideia de uma ‘guerra justa’. Porque uma guerra justa é uma expressão moralmente complicada — é uma contradição. A palavra ‘guerra’ e a palavra ‘justo’ não soam bem na mesma frase. Por isso, penso que a única forma de colocar o tema seja questionar: existe alguma forma de a guerra ser mais justa do que tem sido? Há alternativas? Ninguém jamais poderá alegar que um ser humano matar outro deliberadamente seja um ato justo. Em contrapartida, talvez haja uma forma de orientar este tipo de assuntos humanos de modo a causarem menos danos. Matar menos pessoas leva a que uma guerra tenha menos consequências negativas. Talvez possamos, sim, falar de uma ‘guerra melhor’, embora nunca justa.

No livro, Hansell sonha com uma guerra sem mortes e LeMay com uma guerra mais curta mesmo que isso implique um grande número de vítimas humanas. Na introdução, interroga: de que lado é que o leitor está? Não é uma pergunta simples.

Mesmo depois de ter escrito o livro, de ter falado com muita gente e de ter investigado um grande número de fontes, não estou seguro de poder responder a essa questão. Sinto-me profundamente atraído pelo sonho da ‘Bomber Mafia’ — a ideia de que podemos fazer a guerra com maior precisão e menores danos é muito apelativa. Mas estou também consciente de que, na verdade, não o conseguiram. Quando o sonho falha, eles enfrentam uma série de escolhas muito difíceis. Estavam certos ao tentar outra abordagem, ver que alternativas existiam à guerra convencional. Porém, uma vez que isso não funcionou, não tiveram outra escolha a não ser seguir na direção apontada por Curtis LeMay. E ele foi longe demais. Não creio que fosse necessário bombardear 66 cidades. Era um extremista. Em nome da eficiência e de ganhar a guerra o mais depressa possível, caiu na brutalidade. O que ele fez no Japão no verão de 1945 foi injustificável. Foi um massacre.

Numa entrevista anterior afirmou identificar-se com os dois. Porquê?

Ambos são atrativos de modos diferentes. Hansell e o resto do grupo estavam muito interessados em resolver as grandes questões morais e conceptuais da guerra. E é sempre necessário haver militares a pensar dessa maneira. É sempre preciso perguntar: isto está certo? Esta é a melhor forma de fazer isto? Não sendo a perfeição possível, este é o caminho mais limpo, menos sangrento? Ao mesmo tempo, LeMay tem também razão. Se a guerra não for levada a cabo com eficácia, se não soubermos o que estamos a fazer nem pensarmos sobre as táticas, se não formos conscientes da especificidade de cada conflito, as guerras podem prolongar-se indefinidamente. E isso não ajuda ninguém. Por isso, gosto dos dois. Não sei se é possível ter num conflito dois oficiais que defendam táticas tão opostas sob o mesmo teto. A dada altura, iriam desprezar-se mutuamente. Mas sei que há muitos militares no mundo que tentam satisfazer as duas condições, que se preocupam com a moralidade e com a eficácia. Penso que talvez seja incorreto fazer uma escolha. Talvez precisemos de um pouco de cada uma.

A história deste grupo de aviadores é um case study que correu mal. No fim, o napalm destruiu dezenas de cidades. Estamos ainda neste ponto? Mesmo tendo a tecnologia, persistimos na destruição maciça?

Quando analisamos o modo como os russos têm conduzido a invasão da Ucrânia ao longo dos últimos meses, vemos que estamos perante uma forma muito tradicional e pré-moderna de fazer a guerra. Eles usam armas modernas, mas nota-se que o enquadramento mental é o de uma abordagem militar em que a tecnologia não serve para tornar a guerra mais leve em termos de destruição. Basicamente, os russos resolveram repetir as táticas usadas na I e na II Guerra Mundial. Tal como fizeram na Síria, optaram por bombardeamentos indiscriminados em zonas de alta concentração de civis e por atingir cidades. O tipo de ‘luta’ que há 70 anos era travada pelos ideólogos militares, no sentido de adaptar as estratégias de guerra para as tornar mais seletivas e precisas, essa luta não acabou. O russos não receberam a mensagem. E isto por uma de duas razões: ou são indiferentes à mensagem ou lhes falta a capacidade para usar as tecnologias modernas em prol de guerras mais ‘limpas’. Não sei a resposta.

O livro alerta para a necessidade de repensar o conceito de guerra, mesmo hoje, quando temos a tecnologia. Ou seja, o problema não é apenas tecnológico, senão já teria sido resolvido.

Sim, esse é um ponto interessante. Porque continuamos a fazer o mesmo que se fazia há 70 anos. Uma das coisas que sempre me impressionou, ao olhar para a tecnologia, é que a adoção de ideias novas demora mais tempo do que pensá-las. Aconteceu com inúmeras invenções, das máquinas multibanco aos carros elétricos. Sempre que há inovações capazes de resolver muitos problemas, pensa-se que as pessoas irão adotá-las de imediato, mas isso não acontece. Cada grande inovação leva uns 20 anos para ser totalmente adotada. E 20 anos é muito tempo, é saltar uma geração. Mas somos assim, os seres humanos. É sempre complicado encaixar uma nova tecnologia na forma habitual de agirmos. E os assuntos militares não são diferentes. O bombardeamento de precisão imaginado pela ‘Bomber Mafia’ não foi totalmente utilizado pelos militares até os anos 1980 e 1990. Portanto, levou 40 anos, em parte porque a tecnologia teve de se desenvolver, em parte pela inércia inevitável das instituições no que toca a adaptar-se a práticas novas.

Neste livro, como noutros anteriores, tenta compreender o comportamento humano. O que o empurra para essa abordagem?

Neste caso, o tema atraiu-me por achar que é o exemplo perfeito de um problema impossível. É útil recordar que há toda uma categoria de problemas a que podemos chamar de ‘impossíveis’ — e ‘impossíveis’ não significa que não tenham solução, mas que não existe uma solução simples, correta e elegante. Necessariamente, qualquer via escolhida irá requerer algum grau de sacrifício. Por outro lado, quis abordar algo que me parece tendencial: o modo como os problemas são simplificados ao longo do tempo. E isso é um resultado da ideologia. Perseguir uma ideologia permite simplificar os problemas, resolvê-los de acordo com uma grelha de pensamento. Mas o mundo real é inevitavelmente complicado. E pareceu-me importante levar as pessoas a entrar nas cabeças daqueles que tomaram as decisões na Força Aérea norte-americana, durante a II Guerra Mundial. Mostrar que não foi fácil. Que eles tentaram fazer o melhor, mas não conseguiram, não funcionou. Então, o que se faz a seguir? A seguir, comete-se uma série de atrocidades no Japão. Mas, mesmo nesse ponto, eles tiveram as suas razões, e não eram triviais nem inventadas. Podemos discordar, mas eles tinham argumentos. Uma das coisas que sublinho no livro é que certas pessoas no Japão pensaram que os americanos tomaram a decisão certa.

Reconheço que essa foi uma grande descoberta: haver japoneses — especialistas militares, historiadores — a concordarem com os bombardeamentos maciços de napalm.

A questão era que o governo japonês não se queria render. E o país, nesse inverno de 1945, enfrentava a fome e a possibilidade de uma invasão soviética. Essas hipóteses eram vistas por eles como piores do que a dos bombardeamentos. O que mais os aterrorizava era a invasão soviética, os russos entrarem e imporem o mesmo tipo de regime que já estavam a impor a uma parte da Europa. Agora, este tipo de situações, por mais terríveis e complexas que sejam, são não apenas fascinantes como excelentes formas de aprender História, de perceber os desafios que enfrentamos enquanto seres humanos.

Essa palavra, ‘fascinante’, é perturbadora quando aplicada à guerra...

Escrever este livro foi surpreendente. Nunca antes tinha escrito sobre história militar e pensava que transformar esse material seco e técnico em algo de interessante e fluido iria requerer muito trabalho. Porém, as questões com que as personagens se debatem são tão dramáticas e humanas que acabou por ser fácil.

Este é, acima de tudo, um livro escrito por um jornalista, certo? Baseia-se em factos e na habilidade de os contar.

Sim. O ponto de vista a partir do qual foi feito é o de um jornalista. Não de um historiador. É uma distinção importante, porque a ideia é que seja lido por um grande público. E não é um livro enorme — é sucinto, tenta agarrar a essência desse capítulo histórico. Um livro exaustivo sobre esta história teria 800 páginas.

Mas na introdução diz-nos que se considera uma pessoa obsessiva e que gosta de pessoas obsessivas. Quer explicar?

Usei a palavra de um modo simpático. Os obsessivos são pessoas que se comprometem com os seus interesses e não se satisfazem com uma compreensão superficial. E eu acho isso muito atrativo, a habilidade de pôr de lado outros assuntos e dizer: “Quero saber tudo o que puder sobre este tema em particular.” É assim que nós, os jornalistas, selecionamos e abordamos os temas, é isso que fazemos. Praticamos tarefas obsessivas, para que as outras pessoas, que não têm nem o tempo nem a vontade de o fazer, sejam beneficiadas pela nossa aprendizagem.

No meio das toneladas de informação que circulam, vindas de todo o tipo de fontes, qual é hoje o papel do jornalismo? Continua a afirmar que é “trazer ordem ao caos”?

Sim, ainda defendo isso. Uma frase que eu costumava usar anos atrás era a seguinte: muitas pessoas são ricas em experiências e pobres na sua análise. Ao longo das nossas vidas, somos expostos a todo o tipo de situações, ideias, problemas, ilusões. Mas o que nem sempre temos é a capacidade de as relacionar, de encontrar o fio condutor, de as organizar mentalmente. E o que um jornalista como eu faz é dizer: “Deixa-me ajudar-te a organizar todas essas experiências.” Acho que é uma função valiosa. Se faltam às pessoas os meios para retirar lições significativas sobre as suas experiências, nós tentamos fornecer-lhes as ferramentas.

Mas, como também afirmou, a melhor peça de jornalismo do mundo é inútil se ninguém a ler. A inutilidade é perigosa quando estão em jogo os valores democráticos?

Sim, penso que os jornalistas e o jornalismo contribuem para criar o sentido de comunidade, ao contarem histórias sobre como os outros resolvem os problemas, como vivem as suas vidas, como saem de determinadas situações, que tipo de perguntas se colocam e como é que lhes respondem. Ajudamos a aproximar as pessoas, a vinculá-las, levando-as a reconhecer nos outros coisas e atitudes que lhes fazem sentido. Em “A Máfia dos Bombardeiros”, por exemplo, uma das lições importantes do livro — em especial para quem não conhece bem os militares — é a compreensão de que há militares a levarem as questões da moralidade muito a sério. Isso não é imediato: existe a crença de que aqueles que fazem a guerra são indiferentes às questões morais e que apenas estão interessados em encontrar formas cada vez mais eficazes de matar pessoas. É útil recordar que a classe militar está cheia de gente como nós, com as mesmas preocupações morais do resto do mundo. Acontece que, por vezes, são levados a decisões reais, extremas e difíceis. Mas não são uma espécie de seres humanos separada da nossa. São como nós. Lendo sobre Hansell e LeMay, vemos que ambos são um tipo de pessoa que todos conhecemos. Conhecemos o sonhador Hansell, assim como o pragmático LeMay.

Há 10 anos, disse a este jornal que as redes sociais não fazem revoluções. O que pensa disso hoje?

À medida que o tempo passa, essa minha observação torna-se cada vez menos controversa. No tempo das primaveras árabes surgiu a noção de que o Twitter ou o Facebook tinham sido cruciais na mobilização e organização daqueles movimentos. Bom, hoje sabemos que as primaveras árabes foram um grande falhanço e nem o Twitter nem o Facebook se revelaram soluções mágicas. Na altura, o meu argumento foi o de que as redes sociais são importantes no sentido de dar a cada um de nós uma voz que podemos usar. Mas não resolvem os problemas mais prementes para uma verdadeira mudança social. Um mudança social requer o compromisso de um conjunto de pessoas com uma ideologia estruturada, que a ponha cuidadosamente em ação. As redes sociais não asseguram nenhuma destas tarefas. Permitem dizer ao mundo que tens uma queixa, mas ainda resta fazer o trabalho duro de criar algum tipo de organização que responda às tuas preocupações.

E o que é que as redes sociais trouxeram para o jornalismo?

Muitos jornalistas utilizam-nas — eu tenho, por exemplo, o hábito dos tweets. Penso que já percebemos para que servem. São boas para disseminar coisas que lemos, e podem ser um bom canal para procurar pessoas e para absorver novas ideias. Neste momento, uso-as muito para entender a guerra na Ucrânia, seguindo alguns especialistas que me interessam e esclarecem sobre o tema. São extremamente úteis para saber o que os outros pensam e para corrigir — e confrontar — os nossos pontos de vista. Essencialmente, trata-se de uma vantagem incrível para o jornalismo. Desde que, claro, se saiba fazer escolhas.

Numa entrevista que deu à “Paris Review”, onde lhe perguntaram como é que começou este caminho, a sua resposta foi: “Honestamente, por engano.” Em todos estes anos, o que destaca como mais importante?

Sabe, estou muito orgulhoso daquilo que tenho vindo a fazer nos últimos anos no campo do áudio, com o podcast “Revisionist History”. O livro “A Máfia dos Bombardeiros” surgiu primeiro como um audiobook — até diria que é mais um audiodocumentário. Foi também deste modo que surgiu o meu livro anterior, “Falar com Desconhecidos”. Fiz um grande esforço por usar a riqueza da escrita no podcast, tendo sempre em conta que este se dirige a um público diferente, que tem menos tempo para ler. Tenho vindo a explorar outras possibilidades de contar histórias. É algo que nunca pensei que pudesse fazer, mas que tem sido extremamente divertido.

O que aprendeu a fazer podcasts? O que é que o áudio lhe traz que a escrita não lhe tenha dado?

O áudio é muito mais engraçado, permite-me usar melhor o meu sentido de humor. É também um meio mais emocional — é capaz de mobilizar emocionalmente o público de um modo que é muito difícil de conseguir na escrita. Isso também requer outro tipo de histórias; por exemplo, em áudio não convém apresentar muitos números ou expor tópicos demasiado complexos. Mas é excelente para contar histórias sobre pessoas. E os meus livros têm vindo a ser contagiados por esta experiência, o que os torna muito mais focados nas personagens. No áudio, aprendemos a valorizar as personagens em primeiro lugar. Uma das razões por que estou orgulhoso da “Máfia dos Bombardeiros” é por achar que funciona bem, e funciona bem porque a história é contada através dos olhos, dos desafios e dos dilemas daqueles dois homens.

Nasceu no Reino Unido, de pai inglês e mãe jamaicana. Foi para o Canadá, depois para os Estados Unidos. Como é que todas estas referências culturais o influenciaram?

É uma pergunta difícil. Tenho sido sempre um outsider. Fui duas vezes um imigrante: mudei-me de Inglaterra para o Canadá e dali para os Estados Unidos. E, antes disso, da Jamaica para Inglaterra. Venho de uma família de imigrantes em série, e por isso estive sempre situado de fora da cultura em que vivi — o que é bastante útil para um jornalista. A vantagem de ser um outsider é, às vezes, ver as coisas mais claramente do que as pessoas situadas dentro de uma determinada cultura. Basicamente, porque tudo é mais ou menos novo. Por outro lado, é interessante ser um canadiano nos Estados Unidos: são países vizinhos que partilham quase tudo — a mesma economia, os mesmos programas de televisão — e que, ao mesmo tempo, são profundamente diferentes. Isso tem sido muito estimulante quando tenho de escrever sobre a América. Porque se só conheceres a América não te dás conta do que tem de único, de específico. Havendo um ponto de comparação, isso torna-se muito mais claro.

Não sei se é por ser um outsider, mas os seus pontos de vista já foram qualificados com uma nova palavra: ‘gladwelliano’. O que é que isto quererá dizer?

Não tenho a certeza. Penso que se refere ao exercício, presente na maior parte do que escrevo, de combinar as referências da investigação científica com a narrativa. A ideia de que é possível alimentar-se das noções da academia para falar do comportamento e das escolhas das pessoas.

É a isso que chama ‘histórias de aventura intelectual’?

Sim, no fundo, histórias que possam ser divertidas e que contem verdadeiras aventuras de vida. A vida é uma aventura. Não é preciso nada de muito extraordinário para nos surpreendermos, para nos sentirmos desafiados, chocados; basta olhar para o mundo real.

Expresso, 27 de maio de 2022


sexta-feira, 27 de maio de 2022

ZELENSKY, O MUNDO A SEUS PÉS

Desde a Antiguidade que sabemos das quatro virtudes cardeais. Prudência, justiça, fortitude e temperança. Sem estas virtudes a vida perde o eixo, cardo em latim, da virtude. E degenera.

Andamos todos drogados com a guerra, comemos guerra, falamos guerra, dormimos e sonhamos guerra. Todas as guerras são tóxicas, têm a virtude de fazerem esquecer a monotonia agreste e melancólica da vida real e dos problemas frouxos da existência, a irrelevância burocrática que nos consome, e levantam valores mais alto, empurram-nos para uma ordem de grandeza onde o heroísmo e o sacrifício, a adrenalina da sobrevivência, fazem esquecer o quotidiano.

Vamos ter de cortar com isto. A injeção de adrenalina. E voltar para a vida. E deixar a guerra em paz.

A paz nunca é feita pelos heróis, é feita pelos homens e mulheres cinzentos e anónimos, com pastas e documentos, gráficos e mapas, números e relatórios, com os infindáveis argumentos da temperança, da prudência, da fortitude e da justiça. Sobretudo, a temperança e a prudência, que não contêm hormonas que fazem voar o cérebro. Na frente das negociações de paz estão os líderes, os heróis, pensem na Conferência de Ialta que deu forma ao mundo do pós-guerra, uma fotografia com a massa humana indistinta e os três chefes sentados na frente, Churchill, Roosevelt e Estaline. Nenhum deles era conhecido por apresentar todas as virtudes, Churchill abandonou a prudência contra Hitler, demonstrou considerável fortitude, Roosevelt tinha a justiça como virtude, e Estaline, bem, não tinha nenhuma das virtudes, a não ser que consideremos a fortitude sanguinária que demonstrou, ainda, uma virtude. Quando chega o momento de assinar e definir a paz, a temperança e a prudência reinam. Os que as carregam chamam-se diplomatas.

Quanto mais tempo duram as guerras mais se afastam as virtudes. Volodymyr Zelensky entrou nesta guerra outro homem. Nas fotografias parece um tipo afável, bem escanhoado, com um sorriso que afirma, imaginem, passei de fazer de presidente numa comédia a Presidente verdadeiro. E vou mudar a Ucrânia. Brevemente, a Ucrânia reparou que nada estava a mudar, e que Zelensky se revelava ingénuo, bem-intencionado e incapaz de controlar o país e os corruptos interesses do país, uma marioneta nas mãos dos oligarcas, muitos deles alinhados com o poder do Kremlin. A grande discussão da Ucrânia era por onde passariam os oleodutos e gasodutos que traziam o gás e o petróleo russos para a Europa, luz verde para a extorsão e a corrupção.

Vindo do teatro e da televisão, da encenação e do espetáculo, é provável que sobre isto Zelensky soubesse nada. No famoso diálogo com Trump, em que o Presidente americano chantageia o ucraniano para rebentar com Biden, por causa da posição do filho de Joe Biden numa administração de uma empresa ucraniana de energia (e este convite a Biden Jr., diz tudo sobre a Ucrânia desse período), Zelensky aparece titubeante. A Ucrânia precisa de armas, outra indústria da corrupção que os americanos alimentaram, e Donald precisa de um favor dos “amigos ucranianos”. Os amigos ucranianos de Donald eram, claro, pró-russos e alinhados com Putin, o mandachuva da região. Em Davos, os amigos de Putin e o dinheiro russo, as festas russas, eram os reis do pedaço. Este ano, os russos foram postos de lado pelas mesmas mãos que afagam os verdes dólares e que se fartaram de aplaudir o Presidente ucraniano no seu verde militar. Plus ça Change...

A guerra e a brutalidade de uma agressão difícil de prever fizeram de Zelensky um herói, nacional e internacional. O que começou por ser uma resoluta negativa para abandonar o país, com uma boa frase, preciso de armas não preciso de boleia, foi transformando o Presidente ucraniano num “novo Churchill”, com a ajuda de uma bem montada estratégia mediática que fez ajoelhar de admiração os media. O tempo fez o resto. Zelensky, bom comediante, foi vestindo o fato por medida do herói sem mácula. A cara foi mudando também, desapareceu o sorriso, as rugas desceram com o cansaço sobre as linhas da boca e dos olhos, o desgosto instalou-se na pele com o desespero ao lado. A agressão da Rússia, na qual Zelensky não acreditava, tentando moderar o discurso belicista da NATO e dos Estados Unidos, tornou-se um monopólio de emoções. Hoje, envelhecido e enervado, Zelensky vê morrer o seu país e afasta-se a passos largos da paz. A enxurrada de armas e a humilhação de Moscovo nos campos de batalha devida ao erro colossal de Putin, a mentalidade do bunker, a corte que o acompanha, protege e indica os discursos, cada vez mais beligerantes, e sobretudo a idolatria e a adulação do mundo, a atenção do mundo, estão a transformar Zelensky noutro homem. Que homem? Não sabemos.

Parece cada vez menos um homem que conheça as virtudes cardeais. O Ocidente convenceu a Ucrânia de que poderia ganhar a guerra, de que poderia destruir Putin e humilhar a Rússia, de que poderia aderir à União Europeia em fast-track, de que poderia vir a ser da NATO. E de que algo ou alguém, um fantasmagórico Plano Marshall, o dinheiro russo congelado, mas não confiscado, os milhares de milhões da Europa e da América dedicadas inteiramente a reconstruir a Ucrânia e a destruir os respetivos países, poderiam reconstruir um país europeu, democrático e com um Estado de direito. Em meses. Conhecemos esta fantasia, sabemos como acaba.

A Ucrânia entrou em dependência da guerra. A propaganda mediática, desvairada, ignorante do peso e do valor da realidade, contribuiu para a toxicidade. E aí temos Zelensky nos Óscares, Zelensky em Cannes, Zelensky na Eurovisão, Zelensky em Davos, Zelensky nos parlamentos nacionais e internacionais, nas Nações Unidas, em tudo quanto é organização internacional e lugar de prestígio. Zelensky na “Vogue” e na “Foreign Affairs”, Zelensky em todos os lados. Zelensky com o mundo a seus pés. O magnífico Zelensky é o homem mais famoso do século. O herói total, a consciência moral do mundo. O David que quer matar Golias. O tom mudou. A celebridade muda as pessoas para sempre. As livrarias estão cheias de livros com a sua cara, biografias escritas à pressa em todas as línguas, e as redes buscam-no a grande velocidade. Uma omnipresença divina. E, sim, orwelliana. O dedo acusatório apontado. Façam isto, exijo aquilo, quero aqueloutro.

E não, a Rússia não se prepara para invadir a Europa ocidental. Este discurso a pedir a entrada da NATO na guerra é mentiroso e perigoso.

O tom é um imperativo categórico. Nem cessar-fogo nem conversações. Retirada dos exércitos russos, nenhuma concessão, recuperação da integridade territorial da Ucrânia, o que quer que isto signifique. Nenhuma prudência ou temperança. O mundo ajoelha e obedece. Ninguém quer a paz. Muito menos Zelensky, intoxicado de guerra.

Já vi isto, em menor escala. Um líder intoxicado com a atenção do mundo, Yasser Arafat. Uma causa “santificada”, a palestiniana. Uma consciência moral, sobretudo depois de Sabra e Chatila. Quando chegou o momento da paz, Arafat continuava intoxicado e nunca soube governar o seu povo, abandonado para sempre. Na paz, Arafat e a corte heroica eram inúteis, corruptos, incompetentes, injustos, fracos, destemperados e imprudentes. A vitimização constante e as doações, um povo a viver de esmolas, foi o que sobrou. Israel tomou conta do assunto.

Na paz, e a paz terá de vir a seguir à overdose, será Zelensky o homem que a Ucrânia precisa que seja? Churchill sentiu essa depressão do fim da ação e do regresso à normalidade, passada a finest hour. Mas Churchill era um grande intelectual e um político experiente. Zelensky não é Churchill. Os formidáveis interesses ocultos da Ucrânia num pós-guerra, com as injeções de armas e dinheiro, afastá-lo-ão com pinças para o lugar da estátua. Ou, pior, corrompê-lo-ão.

Espero estar enganada.

Clara Ferreira Alves, Expresso, 27 de maio de 2022


segunda-feira, 9 de maio de 2022

Futebol, a mão de Deus

 

Um presidente de uma equipa que ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um clube campeão.

“A Mão de Deus” de Paolo Sorrentino é uma boa representação do poder do futebol. Uma história autobiográfica e uma homenagem aos pais do realizador, que morreram num acidente doméstico numa noite em que decidiu assistir ao Napoli a jogar em casa. Os dramas atravessam o filme mas, em nenhum momento, a paixão pelo futebol, e o amor ao Maradona, são ultrapassados pelos sentimentos causados por algum desses dramas. A possibilidade de contratação de Maradona pelo Napoli leva cada uma das personagens ao delírio. Nada é mais importante. Seria uma boa ideia para enredo. Mas terá mesmo acontecido.

Marx disse que a religião era o ópio do povo. Se estivesse ainda entre nós, provavelmente substituiria religião por futebol. A modernidade quase aniquilou os consolos da religião e as pessoas continuam a precisar de encontrar formas de alienação extática. Importa encontrar uma forma de concretizar o instinto, profundamente humano, da entrega à satisfação desses anseios psíquicos. Se a entrega for em grupo, melhor.

Não se está aqui a falar de vida intelectual. Trata-se de uma coisa diferente, que toca a irracionalidade. Observar adeptos, durante um jogo de futebol, é esclarecedor. A alegria vem das vísceras, os desgostos são devastadores. Adultos, cujas vidas não sofrerão qualquer alteração a partir do resultado de um jogo, choram como fariam a propósito de poucas coisas.

Albert Camus, um apaixonado até o fim da vida por futebol, disse que foi com ele que aprendeu tudo o que sabia sobre a moral e as obrigações do homem. A entrevista que aceitou dar, após ter ganhado o Nobel da literatura, teve lugar num estádio de futebol e durante um jogo. E foi uma opção do escritor. Jogou futebol na infância como muitos amantes de futebol fizeram e, como esses, considerava essa alegria de jogar futebol uma das melhores partes da sua vida.

Um bilhete para o infinito. A importância do futebol é desmesurada.

Sendo tão importante, o nível de exigência com tudo o que tem a ver com ele deveria ser grande, mas sucede o contrário; abrem-se exceções ao que se costuma exigir com tudo o resto.

Quando falam de futebol as pessoas perdem objetividade e o sentido de justiça. Tendem a acreditar que a sua equipa é que foi roubada pelo árbitro, que foi a que jogou melhor e aquela cujos jogadores não cometeram faltas. Já o VAR, que supostamente vinha tirar as dúvidas às jogadas menos nítidas, veio eternizar as discussões à volta delas.

Os presidentes dos clubes de futebol têm a tradição de estar envolvidos em situações menos claras. Não são todos, mas são alguns. São demasiados. Contudo, a grande contestação que se nota, relativamente a esses presidentes, não é a que resulta de indícios de estarem envolvidos em práticas ilícitas mas sim a das equipas a que presidem perderem jogos, quando sucede.

Um presidente de uma equipa que ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um clube campeão.

Os clubes costumavam pertencer exclusivamente às massas associativas mas atualmente os principais constituíram sociedades anónimas emitentes de valores mobiliários transacionáveis; em Portugal no Euronext Lisboa. O capitalismo é bom a misturar-se com quase tudo. Aqui também não falhou.

Grandes clubes europeus pertencem a milionários ou a grupos económicos. A combinação, a este ponto, entre desporto e negócio não agrada a todos. Muitos falam em devolver os clubes aos adeptos. Mas, outra vez, são as derrotas que arrancam as verdadeiras indignações.

Quando um clube é propriedade de um milionário, o que é que ainda o liga às origens e à sua identidade inicial? Eventualmente pouco. É como procurar Portugal numa loja de souvenirs da Baixa. Mas isso parece pouco interessar a quem continua a sentir ali o seu clube, aquele por quem vão torcer e gritar no próximo domingo.

Este fim de semana o FCP ganhou o campeonato no estádio do SLB. Uma felicidade para muitos, uma tristeza para mais. As emoções binárias são o combustível da indústria do futebol. No dia em que secarem, secará também o negócio e haverá lucidez para se falar melhor sobre isto.

Deus nos livre. Não está para breve.

domingo, 8 de maio de 2022

Maria de Lurdes Rodrigues: “O ISCTE não foi favorecido por nenhum governo”

O financiamento de um novo centro do ISCTE e a nomeação do ex-ministro das Finanças como vice-reitor desta universidade levantaram dúvidas e provocaram polémica. Dentro de um mês, Maria de Lurdes Rodrigues e João Leão apresentam-se no Parlamento para responderem a uma Comissão de Inquérito.

Primeiro, Maria de Lurdes Rodrigues mostra os estatutos do Centro de Valorização de Transferência de Tecnologias (CVTT), de 2020, para demonstrar que nunca se pensou em João Leão para tutelar aquele organismo que está em construção e cujo financiamento em parte veio do Ministério das Finanças (MF), cinco milhões de euros, quando este ainda era tutelado por Leão, escolhido pela ex-ministra da Educação para ser vice-reitor do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa.

Depois, a reitora mostra ainda as várias cartas enviadas ao então ministro Manuel Heitor, que tinha a pasta do Ensino Superior, com as suas queixas e propostas para solucionar o subfinanciamento crónico da instituição que, durante anos, não teve assento no Conselho de Reitores das Universidades Públicas (CRUP). Mostra a carta enviada recentemente aos reitores e aos presidentes dos politécnicos para esclarecer as notícias do PÚBLICO sobre o alegado favorecimento que o então ministro das Finanças, João Leão, terá dado ao ISCTE. Para a reitora, não houve qualquer ajuda. Não foi o ex-ministro que assinou o despacho de Julho passado, mas sim os então ministro do Planeamento, Nélson de Souza, e a secretária de Estado do Orçamento, Cláudia Joaquim.

O novo vice-reitor, que foi professor no ISCTE desde 2008, será responsável pela área do Desenvolvimento Estratégico, numa altura em que a instituição tem vários projectos em curso, a começar pela escola que abrirá em Sintra e em que vai oferecer 11 licenciaturas em Tecnologias Digitais. Mas não só, o plano é chegar a outras cidades da coroa norte de Lisboa, como Mafra, Amadora, Odivelas, Loures, Vila Franca de Xira, onde há 1,2 milhões de habitantes sem ensino superior.

Como é que surgiu o convite ao professor João Leão para ser seu vice-reitor?
O convite surgiu no dia em que ele pediu uma reunião comigo para me informar que regressava ao ISCTE. Eu tinha acabado de ser eleita e estava a constituir a equipa. E, quando ele se apresentou, fiquei muito contente, porque era a nossa oportunidade de ter uma pessoa altamente qualificada. Ele foi o melhor aluno no MIT no seu ano de doutoramento. Uma pessoa absolutamente excepcional no seu domínio na Economia e depois adquiriu uma grande experiência, uma visão das políticas em todos os sectores, que é muito interessante para uma escola como a nossa, que forma cientistas políticos, que forma na área das políticas públicas.

Mas João Leão não é professor catedrático, nem fez toda a sua carreira na academia.
Mas isso não significa que não seja académico. Faz um percurso na política e regressa, e nunca deixou de se interessar. O professor João Leão tem no seu currículo um dos artigos mais importantes na sua área, ou seja, ao mesmo tempo que fazia o seu trabalho político, continuou a interessar-se pela sua área de estudo.

Já trabalhara com João Leão?
Sim, ele ensinou em cursos que eu coordenava, conheci-o antes de ele ir para o Ministério [da Economia]. Não tem um percurso clássico, mas tem um percurso de elevadíssima qualidade.

Depois da acção política, os ex-governantes não deveriam fazer um período de nojo?
Porquê? Nem consigo entender essa pergunta. Eu regressei ao ISCTE, quando saí do Ministério da Educação e desenvolvi nesse período toda a área das políticas públicas, o que foi absolutamente decisivo. Uma pessoa sem experiência de governação não conseguia fazer aquilo que o ISCTE conseguiu nessa área. Hoje, várias universidades tentam ter programas nessa área e o ISCTE continua a ser líder, porque a minha experiência política, para alguns desses domínios de ensino, foi muito importante.

Porque passou pelo Governo?
Não é uma questão ideológica nem partidária — é mesmo a experiência da governação, do saber fazer políticas; de saber desenhar programas de intervenção pública. Quando houve a polémica com a ida do ex-primeiro-ministro Passos Coelho para o ISCSP, escrevi um artigo a defender [a decisão]. Da mesma maneira que para as universidades é muito importante a experiência na actividade empresarial, na administração pública ou na engenharia — e nós temos inúmeros professores convidados, justamente porque isso é importante para a academia —, também na área da administração pública, das políticas públicas, de ciência política é importante ter pessoas com experiência na política, porque enriquecem, complementam aquilo que é o trabalho académico.

Por vezes, diz-se que as universidades vivem isoladas do mundo e uma das formas de se abrirem à sociedade, à economia, à administração pública é justamente terem essas oportunidades de interacção e de fazer participar nos processos de ensino e nos de desenvolvimento da actividade científica pessoas com experiência. Portanto, não consigo entender essas reservas. Era o mesmo que dizer que o professor Manuel Heitor [ex-ministro do Ensino Superior] não podia regressar ao Instituto Superior Técnico.

Mas porquê regressar como vice-reitor?
As funções de vice-reitor são exercidas por professores, de qualquer nível ou de qualquer categoria da carreira docente. Não há nenhuma exigência. A exigência que existe é terem competências no pelouro que vão ocupar. Eu não consigo entender a questão da incompatibilidade ou da ilegitimidade. E fiquei muito surpreendida com a polémica que suscitou, porque ela é inteiramente nova, quando há inúmeros casos de professores que estão na vida política ou na administração e depois regressam à academia.

A polémica tem que ver com o financiamento de cinco milhões de euros para o ISCTE.
Esse financiamento não foi decidido por João Leão.

Mas foi decidido pelo ministério que ele tutelava.
Então o ministro Manuel Heitor que teve a tutela de todo o Ensino Superior não pôde regressar à sua universidade? Como ministro financiou todas as universidades. Vou explicar-lhe o processo e tudo começa pelo financiamento público anual por aluno. Este quadro [ver infografia abaixo] é relativo ao ano de 2022 — quanto é que cada instituição de ensino superior recebe por aluno ponderado.

Que é?
O conceito de aluno ponderado vem da própria fórmula de financiamento e estabelece que, por exemplo, um aluno de Engenharia custe mais do que um aluno de Ciências Sociais e Humanas. Não são os alunos reais, mas os alunos com o valor associado ao custo da sua formação. E, quando olhamos para este quadro, vemos que o ISCTE é o que recebe menos.

Porquê?
Pelo historial, desde 2009 que a fórmula de financiamento não é aplicada. No fundo, as instituições recebem a mesma proporção que nos anos anteriores e, à medida que os anos vão passando, as instituições que aumentam o número de alunos ficam prejudicadas, porque recebem o mesmo. Esta é a situação em 2022 e se formos para trás nunca saímos do mesmo. E isto revela o quanto o ISCTE foi beneficiado quer por governos do PS, quer do PSD — ou seja, nada, rigorosamente nada.

Porque não se cumpre a Lei do Financiamento do Ensino Superior?

Porque os governos sucessivos, desde 2009, estão em incumprimento.

Então esta deve ser aplicada?
Esse é um problema grave e que vai agravar-se, porque revela estas injustiças. O Instituto Politécnico de Tomar recebe mais de quatro mil euros por aluno ponderado e o ISCTE recebe 1500. Isto cria um grande desequilíbrio, uma grande injustiça. Os professores do ISCTE trabalham mais horas, têm mais alunos, não têm tempo para fazer investigação e os nossos alunos não têm Acção Social.

Mas todos os alunos têm direito a Acção Social. Porque é que os do ISCTE não têm?
Porque no financiamento não está previsto. O facto de, desde 2009, todos os governos estarem em incumprimento da lei teve justificação durante a crise, porque era uma situação difícil de gerir. Mas, passada a crise, manteve-se estável o financiamento; também se percebe que não tenha havido nenhum esforço, porque significaria tirar orçamento a umas instituições para dar a outras — percebe-se que isso era um problema complicado para as próprias instituições que têm as suas estruturas montadas. O que sempre se esperou era que, no momento em que houvesse um aumento das dotações, isso permitisse corrigir alguma coisa — o que não se faz de um dia para o outro.

E não aconteceu?
É um problema difícil de resolver. Quanto mais tempo passar, pior. O Tribunal de Contas veio em 2019 chamar a atenção e recomendou ao Governo que aplicasse a lei e que, se não estivesse de acordo, a alterasse. Não aconteceu nada e, na minha opinião, não aconteceu por falta de coragem política, de não querer enfrentar os problemas, por medo, mas os problemas têm de ser resolvidos.

E as propinas? Se o ISCTE tem mais alunos, recebe mais.
Temos mais alunos, mas nenhuma compensação pela perda de receitas das propinas. A situação do ISCTE piorou muito a partir do momento em que, além de não se aplicar a lei, se congelou primeiro a subida das propinas e depois baixaram. O compromisso do Governo era que o Orçamento do Estado (OE) compensaria a perda de receitas das propinas, mas não compensou. Eu escrevi uma carta ao ministro Manuel Heitor, dizendo que a nossa perda é da ordem dos 800 mil euros e a compensação é na ordem dos 700 mil.

Porquê?
Porque se aplicou outra vez o historial. Portanto, este assunto que está a querer tratar [a polémica do financiamento aprovado pelo MF] decorre disto. Eu escrevo uma carta ao professor Manuel Heitor, em 12 de Agosto, a dizer que não estou de acordo, porque não só não houve transparência — em 1200 milhões do orçamento resolve distribuir de maneira diferenciada seis milhões —, e aplica uma fórmula que beneficia universidades que já estavam sobrefinanciadas. Digo-lhe que, de novo, as universidades da Beira Interior e do Minho estavam na mesma situação que o ISCTE.

Qual é a consequência dessa carta?
É o próprio ministro, nesta minha pressão para que isto se resolvesse, que a páginas tantas diz que podemos resolver com um contrato-programa. É ele que me aconselha a escrever uma carta em que sugiro várias possibilidades de financiamento — eu nem sabia que possibilidades havia. Eu escrevo-lhe a carta e no mesmo mês o ministro despacha.

Ao PÚBLICO o ex-ministro disse que o contrato-programa “nunca chegou a existir”.
Mas isso eu não sei dizer porquê. A partir do momento em que ele assina e aquilo [o contrato-programa] desce aos serviços... Eu tive uma única reunião com os serviços do ministério para combinar o que era o pedido para fazer às Finanças, depois disso nunca mais ouvi falar sobre o assunto. Para mim, aquilo é o contrato-programa. Ponto número um: eu nem sabia que havia aquela dotação no MF para esse efeito. A minha interacção é sempre e só com o ministro Manuel Heitor — é ele que me diz para fazer o pedido, porque o MF tem uma verba para projectos financiados por fundos europeus, para que não deixem de ser executados por falta de contrapartida nacional. É o momento da minha vida e do meu mandato em que eu percebo que aquilo existe no OE.

Então porque diz o ministro que não existe contrato-programa?
Aquilo para mim é o contrato-programa. Se agora o ministro vem dizer que não é... Para mim é, porque o dinheiro entra no orçamento do ISCTE consignado àquelas despesas [do CVTT], eu não posso usar para outra coisa. Para mim, aquilo é um contrato-programa, tem a assinatura do ministro.

Este financiamento é para a construção do CVTT. Vai estar pronto para o ano?
Eu espero inaugurar aquele edifício no próximo ano. Portanto, isto para dizer que o ISCTE não foi favorecido por nenhum governo.

Aparentemente foi favorecido pelo Ministério das Finanças.
Eu não sei como é possível deduzir isso desta situação.

Se não tivesse convidado o professor João Leão para vice-reitor, o financiamento do CVTT passava despercebido?
Isto é decidido em 2021, foi pedido em 2020. Isto é um processo em que o ministro não teve qualquer interferência, como já provou. Eu nunca falei com ele sobre isto. Para mim, o João Leão é um ex-ministro das Finanças, tivesse ele beneficiado ou prejudicado o ISCTE, é um docente desta casa, que eu estimo e a quem reconheço inúmeras competências para nos vir ajudar a fazer o trabalho que temos para fazer. Pergunta-me se ele não tivesse vindo, alguém dava por este financiamento? A minha perplexidade é tão grande, faz-me lembrar aquele título de Shakespeare, Muito Barulho por Nada. Gerou-se uma confusão, a partir de vários equívocos.

É só isso?
Eu acho que também há alguma maldade ou uma tentativa de condicionamento da resolução deste problema. São vozes a tentar condicionar o actual Governo para que este problema não seja resolvido.

De quem são essas vozes?
O PÚBLICO fala de universidades e politécnicos que estão com muito medo. Eu percebo que alguns não queiram, mas não são só essas instituições.

Quem mais tem medo?
Quem teve a responsabilidade por manter essa situação, vários governos desde 2009. Há muita falta de coragem política e uma tentativa para continuar a condicionar para que as coisas não mudem.

"O Tribunal de Contas veio em 2019 chamar a atenção e recomendou ao Governo que aplicasse a lei [do Financiamento do Ensino Superior] e que, se não estivesse de acordo, a alterasse. Não aconteceu nada"

A solução passa por cumprir a Lei do Financiamento?
Nenhuma instituição de ensino superior com responsabilidade pode defender que se aplique a lei de um ano para o outro. Isso colocaria em risco a vida de muitas instituições. Aquilo que ouvi sempre falar no CRUP e que eu própria defendi foi, havendo um aumento da dotação, deve permitir começar a corrigir esta situação. Nos últimos três anos, houve um aumento e não se corrigiu, a situação só piorou.

O OE prevê um aumento para este ano?
O benefício do ISCTE é de 2,1%.

As principais beneficiadas são as instituições do interior?
Não gostaria de falar de nenhuma em particular. Gostaria que os critérios tivessem sido claros e transparentes. Os dados têm de ser públicos. Não posso dizer que há instituições beneficiadas; o que há é um défice grande de financiamento. O que posso dizer é que há instituições que estão gravemente prejudicadas. Apesar disso, nós somos uma instituição forte e inovadora. Fazemos este ano 50 anos, temos projectos para o futuro e vamos continuar a ser uma instituição pública de referência nas nossas áreas. Mas vivemos uma situação de grande injustiça e isso é intolerável.

Então, de nada serve ser um “viveiro” de ministros socialistas, como o ISCTE já foi apelidado?
Não somos. Temos orgulho de formar gente não para o PS, mas para o país. Temos orgulho em formar para a liderança — para a liderança no mundo empresarial, das elites para o sectorial social (de que ninguém fala). Nós orgulhamo-nos do trabalho que fazemos sem nenhuma orientação político-partidária. Fazemo-lo naturalmente, eu própria tenho tido alunos que foram assessores deste ou daquele e não são só do PS. A melhor imagem do que é o ISCTE é o Fórum das Políticas Públicas — por exemplo, Manuela Ferreira Leite é uma assídua, o professor Vítor Gaspar... Mais pluralismo do que isto... É o espelho do ISCTE.

As universidades devem ter esta ligação ao poder?
As universidades devem ter uma ligação à sociedade civil e empresarial, ao seu contexto, não devem estar fechadas em muros, devem ser abertas. A influência deve ser plural e resultante da abertura que obrigatoriamente temos de fazer para podermos enriquecer o nosso trabalho e dar-lhe relevância. Não é o facto de eu ter sido ministra de um governo socialista que faz do ISCTE [um viveiro do PS]; acho que é ofensivo para os meus colegas que sentem aqui um espaço de grande abertura.

Publicámos uma carta aberta de professores do ISCTE que pedem independência do poder político.
Nos primeiros parágrafos, reconhecem que há pluralismo e diversidade interna. Os pontos mais importantes da carta dos meus colegas, que fazem parte da lista da oposição (isso também é pluralismo interno), é reconhecerem que o ISCTE não é homogéneo e que o problema é o financiamento. No ISCTE as pessoas têm voz e falam, não têm medo.

Voltando ao financiamento do CVTT, este foi o único projecto aprovado pelo MF, em cinco anos.
Foram apoiados vários sectores; nas universidades só houve apoio ao ISCTE, porque não foi apresentado mais nenhum projecto — o que se compreende, porque as universidades localizadas em Lisboa e Vale do Tejo têm uma exigência de contrapartida nacional muito superior às das outras regiões.

E os projectos dos politécnicos que Manuel Heitor diz que foram também apresentados?
O que eu entendo do que li e daquilo que são as declarações do professor João Leão, é que não reuniam as condições para serem financiados por esta verba, mas beneficiaram de 16 milhões euros nos últimos anos. Portanto, tiveram muito mais financiamento do OE proveniente de outra rubrica que não esta, porque esta destinava-se exclusivamente a projectos de Fundo Social Europeu que necessitassem de contrapartida nacional.

No site do ISCTE apareceu que João Leão iria liderar o CVTT, mas agora está sob a alçada do vice-reitor Jorge Costa. Porquê?
Os estatutos do CVTT foram feitos em Fevereiro de 2020, logo a seguir à aprovação do projecto comunitário e este sempre foi um projecto da área da investigação. Nos estatutos está o vice-reitor para a Investigação. Portanto, nunca esteve previsto ser João Leão a dirigir o projecto. Quando o João Leão aceita [ser vice-reitor], digo-lhe: “Tenho aqui absoluta necessidade de si na reitoria para nos ajudar no desenvolvimento de projectos, que são muitos e variados.”

O que vai fazer João Leão?
Eu fiz um plano de acção e é para esse que precisamos de João Leão. Quando se está no governo, temos uma visão do país que é muito diferente — não é só do sector — e é essa a minha aposta em João Leão, como noutros que podem trazer à academia essa visão, o refrescamento, e darem contributos para melhorarmos no imediato o trabalho que estamos a fazer.

Há aquela frase de “À mulher de César não basta ser séria” ...
E “Quem não deve não teme”, não é? Para cada provérbio, há sempre o seu contrário. Eu estava longe de imaginar [a polémica].

E, se imaginasse, convidaria à mesma João Leão?
Sim, porque a coragem é um dos elementos essenciais da protecção da democracia e da liberdade.