sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tauromaquia: arte ou barbárie?




Começo por fazer uma confissão politicamente incorreta: sou aficionado. Não cresci num ambiente tauromáquico, nem tive ninguém próximo que me estimulasse o gosto pela matéria. Em miúdo, ficava fascinado por ver os programas e as corridas de touros na televisão, e estava sempre a pedir aos meus pais para ir às praças, para ver ao vivo e a cores o que só conhecia a preto e branco. Mais tarde, a partir da adolescência, comecei a juntar dinheiro para ir às principais feiras, conheci outros aficionados, estudei os fundamentos da tauromaquia, vivi de perto a sua realidade.

A minha adesão inicial à tauromaquia não se fez, pois, pelo argumento da tradição, muito menos pelo da razão, mas sim pela via da emoção. A mesma emoção, admito que incompreensível para muitos, que tocou e toca gente comum como eu e, também, espíritos superiores como Goya, Hemingway ou Picasso. Mais do que erudita ou popular, a tauromaquia é transversal, teve adeptos entre camponeses e marqueses, e hoje é seguida por gente de esquerda e de direita, ricos e pobres. E esta é uma das suas grandes riquezas: a de conseguir, nem que seja por momentos, a unanimidade de uma vasta diversidade.

A tauromaquia não é, claro, uma atividade asséptica. Implica emoção, risco e sofrimento. Mas está longe de ser a barbárie que os antitaurinos procuram fazer crer. Há quase 40 anos que acompanho o fenómeno tauromáquico. Estou convicto que ninguém vai para uma praça a esfregar as mãos, e a pensar em assistir a uma tarde de tortura. Os aficionados focam-se no comportamento do touro, e na forma com o toureiro, a pé ou a cavalo, procura encontrar soluções para contornar os desafios colocados por um animal poderoso, de forma a fazer parecer fácil algo que é tremendamente difícil. Para mim, é neste ponto que reside parte da emoção: a capacidade humana de suspender os seus medos e superá-los com estética e valentia.

Esta narrativa não pretende, porém, ignorar os argumentos dos que contestam a preservação dos espetáculos tauromáquicos. Aceito que muitos, sobretudo os que nunca tiveram contacto com a realidade tauromáquica, considerem o que acima escrevi um absurdo. A diferença entre um aficionado e um antitaurino, é que o primeiro encontra arte na tauromaquia, enquanto o segundo só vê barbárie. São dois pontos de vista igualmente respeitáveis, mas seria importante que fossem vincados com verdadeiro conhecimento de causa.

Objetivamente, o touro é posto à prova na arena. Mas este estado não pode ser interpretado de uma perspetiva antropocêntrica. Aliás, numa visão estritamente utilitária e asséptica, não faz hoje sentido qualquer relação entre o ser humano e os animais fora de um enquadramento de estrita liberdade: os cavalos já não são necessários enquanto meio de trabalho e transporte, e a companhia de animais domésticos não passa de capricho dos humanos. Também, sob um ponto de vista unicamente racional, não é lógico optar por carne mirandesa quando outras têm características nutricionais semelhantes. Nesta abordagem, tanto a equitação, quanto a escolha da carne, são prazeres humanos que implicam a exploração imoral de animais. Felizmente, a vida ainda não se pauta por critérios estritamente utilitários ou racionais, e a equitação continua a existir, assim como a possibilidade de optarmos por uns secretos de porco ibérico, ou por uma posta mirandesa. Como em tudo, é preciso bom senso e equilíbrio. Rejeitar toda a espécie de maus tratos ou violência gratuita sobre animais, mas saber separar o trigo do joio, e não confundir realidades.

Esta semana, Inês Sousa Real, líder parlamentar do PAN participou num debate com Miguel Sousa Tavares a propósito dos projetos de lei que hoje vão a debate no parlamento, e que pretendem por fim ao financiamento público das atividades tauromáquicas. Sobre estes, duas notas. A primeira, é sobre a quantidade dos projetos, baseados genericamente nas mesmas considerações e propondo a mesma medida. Dá ideia de que PEV, BE, PAN e a deputada não inscrita Cristina Rodrigues, não estiveram disponíveis para, simplesmente, considerar uma única iniciativa, e quiseram antes marcar pontos políticos com a matéria. A segunda, é a nula presença autárquica destes partidos. Descontando o PEV, que não se percebe o que é, mas que aproveita estes temas para fazer prova de vida, tanto BE quanto PAN são partidos urbanos, que nada conhecem para além das áreas metropolitanas das grandes cidades. Só assim se pode propor uma lei que impossibilita as autarquias de apoiarem festas e manifestações que fazem parte do património cultural e da sociabilidade de muitas localidades.

Não é, pois, de estranhar que, no referido debate, a líder parlamentar do PAN tenha referido uma sondagem que indica que a maioria dos lisboetas são contra a tauromaquia. Isto diz muito. Inês Sousa Real suporta o seu argumento com a opinião dos lisboetas. E que tal preocupar-se com a opinião de alentejanos, ribatejanos ou terceirenses? As decisões sobre estas matérias não devem basear-se na opinião de um mundo urbano politicamente correto que não conhece, ou não quer conhecer, o Portugal que se estende para além das suas muralhas.

Durante o debate, Inês Sousa Real defendeu que, caso as atividades tauromáquicas acabassem, os touros bravos poderiam continuar a existir, e ser visitados em “safaris” (!). Seria de facto boa ideia que todos os que se opõem à tauromaquia fizessem um “safari” pelo mundo rural. Ajudava-os a perceberem melhor as suas particularidades e a sua cultura, e o muito que distingue a tauromaquia da simples barbárie, o que é impossível de explicar em poucos parágrafos. Porque este tema não pode ser discutido nem percebido à luz de abstrações racionalistas e politicamente corretas, só depois de se conhecer a realidade tauromáquica que está para além da praça de touros é que se poderá decidir, com conhecimento de causa, se esta é de facto um fenómeno cultural, ou então um simples ato de tortura.

LOURENÇO PEREIRA COUTINHO

sábado, 15 de agosto de 2020

PSD não exclui alianças com o Chega no pós-autárquicas

 

A direção de Rui Rio mandou às distritais as regras para as próximas autárquicas: com o CDS, as conversas terão campo aberto, mas ideias de coligações com outros partidos terão de ser vistos na São Caetano. No e-mail que seguiu para o aparelho, não há referências ao Chega, mas o secretário-geral garante que há uma exceção: “Não haverá coligações pré-eleitorais com o Chega”, diz ao Expresso José Silvano. Porém, a regra só vale para antes das autárquicas de 2021. O depois é assunto que se verá adiante: “Falta um ano. Se houver uma política de coligações pós-autárquicas, ela também dependerá do que acontecer até lá.”

José Silvano até acha que a questão não se colocará (“não vejo nenhum sítio onde possam ser decisivos”), mas no aparelho do próprio PSD há quem discorde. E até quem veja vantagens em procurar alianças prévias com o partido de André Ventura: “Depende do concelho, à partida não vejo inconveniente, não excluo”, assume o líder da distrital de Lisboa, Ângelo Pereira. Contexto: a área da Grande Lisboa foi onde André Ventura teve mais votos nas legislativas de 2019, e Loures foi onde há quatro anos se lançou, ainda pela mão do PSD. Agora, Ventura tem outro palco e outro partido. Crescerá? “Acho que em Sintra, Loures e Amadora poderá fazer alguma mossa”, acrescenta o homem que vai escolher os candidatos (e coligações) locais do PSD na região.

Falta um ano para as autárquicas, mas há mais quem, no PSD, pressinta o partido de Ventura a crescer. No distrito de Beja, Beja e Moura são dois desses concelhos, admite o líder distrital Gonçalo Henrique. Em Évora, a líder Sónia Ramos receia o mesmo: “O Chega pode tirar algumas centenas de votos ao centro-direita. Pode não parecer muito, mas no Alentejo às vezes é suficiente para ganhar ou não uma Junta.” Um pouco por toda a região, as descrições feitas ao Expresso são idênticas: militantes a fugir (“alguns pouco recomendáveis”, diz uma das fontes), e até dificuldade em ter nomes suficientes para preencher algumas as listas de candidatos.

Na última reunião com as distritais antes de férias, diz o secretário-geral de Rio, responsável pela operação autárquicas, “curiosamente foram os dirigentes do Alentejo que mostraram maior preocupação” com a subida do Chega. “Mas no resto do país o partido não encontrou grandes estruturas”, acredita Silvano. Certo é que, no PSD, já ninguém desvaloriza Ventura. E todos, até na direção, assumem esperar para ver o que vai acontecer já em janeiro, todos com a mesma expectativa: “Nas presidenciais pode atingir o seu máximo”, admite Silvano, acreditando que nas autárquicas, sem outras caras conhecidas, o Chega perca força.

NÃO EXCLUIR NÃO É APROXIMAR

Em Beja, porém, Gonçalo Henrique não se mostra tão certo: também acha que o Chega pode ganhar força nas presidenciais (“há muita gente à direita descontente com Marcelo”), mas, acrescenta, “as autárquicas podem mudar muita coisa”. Até pela crise económica, “2021 pode ser um ano com alterações muito drásticas”, acrescenta. Em Lisboa, Ângelo Pereira põe-se a meio caminho: “Ouço muitas pessoas a dizer isso: ‘vou votar no Chega’. Mas não acredito, só o logótipo não chega. Antes das legislativas, muitos diziam que não iam votar nele e depois votaram”.

Certo, portanto, é que o PSD está de olho em Ventura, medindo o crescimento e profundamente dividido sobre se deve ou não abrir a porta a um diálogo. “Rui Rio não excluiu totalmente, mas não foi por estar em aproximação”, garante Silvano, mesmo depois de dirigentes como Miguel Albuquerque, na Madeira, terem defendido essa união total à direita — e de já ter permitido reuniões entre as estruturas dos dois partidos, segundo a “Sábado” desta semana. Neste caminho, o aparelho divide-se: “Tenho lido atentamente o programa do Chega. Quer abolir o SNS, não percebe que assim as pessoas ficam à margem. Não podemos criar um motim social”, diz ao Expresso Sónia Ramos.

Para já, na São Caetano, a ordem é para esperar, ver os resultados das presidenciais e medir Ventura. Em setembro, depois das férias, Silvano fará nova reunião com as distritais, para começar a avaliar nomes de candidatos às autárquicas. Pelo meio, será assinado um acordo com o CDS (que o PSD vê muito frágil). E até março serão feitas as escolhas dos candidatos. Se chega, em outubro de 2021 se verá.

David Dinis, Expresso, 15 de agosto de 2020


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Juan Carlos e o retrato da monarquia

Os chineses têm uma teoria a que chamam de ciclos dinásticos. Simplificadamente, reza assim: o imperador que estabelece a dinastia é capaz e virtuoso e melhora a vida dos súbditos. Geralmente é um imperador guerreiro (esmaga militarmente a dinastia cessante), sucedido por um filho erudito, mais preocupado com as artes e a burocracia governativa, igualmente virtuoso e, nos termos confucianos, um homem nobre (de carácter). Porém, com o passar das gerações, os imperadores vão amolecendo, ganhando gosto pela boa vida do palácio e das concubinas, secundarizando o governo do império. Até que se tornam tão viciados que as catástrofes começam a acontecer. As obras de irrigação degradam-se por falta de manutenção, resultando em cheias ou secas, ambas destruindo colheitas e gerando fome. Terramotos também marcam presença, sinalizando que a dinastia perdeu o Mandato do Céu. Os súbditos podem sentir-se legitimados em substituí-la por outra dinastia.

Mas há dinastias mais pragmáticas. Chegam ao estado de decadência moral mais rapidamente. No caso espanhol, num só reinado. O rei Juan Carlos passou de garante da transição espanhola do franquismo para a democracia, e uma das figuras que fez abortar o golpe fascista de 23 de fevereiro, para um agente investigado por corrupção. Estabelecendo a fortuna familiar (até aí inexistente), suspeita-se, através de tráficos de influências pelos quais foi magnificamente pago. De personalidade incontestada e venerada em Espanha – muitos diziam-se não monárquicos mas juancarlistas –, ganhou reputação de vulgar vendilhão e corrupto. Esta semana exilou-se para não perigar a monarquia espanhola deixando-se avistar por Espanha.

Em boa verdade, nada do que Juan Carlos fez foi novidade nos círculos reais. Podemos dizer que seguiu uma tradição bem estabelecida das famílias reais de se enriquecerem, e aos seus, fazendo uso do poder político que detinham. O azar de Juan Carlos foi viver numa era em que o método de amealhar dos seus antecessores é malvisto.

Em todo o caso, a família real espanhola é um ótimo exemplo de como a suposta probidade moral da monarquia – que a justifica, em oposição à necessidade de compromissos políticos e, tantas vezes, éticos de quem precisa de ganhar eleições – é ilusória. A filha mais nova de Juan Carlos escapou a acusações e julgamentos (provavelmente por benevolência e respeito pela sua posição), no entanto o marido cumpre pena de prisão.

Não espanta. Olha-se para a História e uma das realidades mais salientes é a quantidade de patifórios, cobardes, incapazes (não raro em estádios de idiotia clínica) que as monarquias produziram. As questões do vil metal, de resto, são sempre determinantes para estas almas supostamente desligadas da materialidade e somente preocupadas com conceitos etéreos como o dever e a dignidade do país. Vejamos um episódio que envolveu Portugal. Eduardo VIII, em fuga dos nazis que ocuparam Paris e temporariamente em Cascais, enquanto pesava deixar-se raptar pelos alemães (com quem simpatizava e que lhe guardaram com enlevo a casa parisiense) para servir de marionete aos inimigos dos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial ou chantagear a sua família para o receberem de volta em Inglaterra, decidiu manter-se afastado do seu país pela razão mais prosaica: um enviado de Churchill a Lisboa informou-o da quantidade de impostos que teria de pagar se regressasse.

O Rei Alberto II da Bélgica possuía tal retidão moral que se recusou aceitar a paternidade e a sustentar uma sua filha de uma ligação não conjugal. Foi obrigado ao reconhecimento por um teste de ADN, qual playboy sem escrúpulos. O príncipe André do Reino Unido participou no esquema de exploração sexual de adolescentes de Jeffrey Epstein. No lado oposto, é difícil apontar um caso de génio ou talento excecional nas casas reais. Nos exemplos mais virtuosos, que também existem, são personagens sensaboronas sensíveis ao sentido de dever.

Esta falta de têmpera é resultado da endogamia das casas reais que torna o sangue fraco, mas também da sensação de casta intocável, de distância incontestada dos mortais comuns que é promovida nas famílias reais. Na carta que Juan Carlos escreveu ao filho, atual rei, informando-o de que iria residir fora de Espanha, refere investigações sobre a sua vida privada. Fazendo lembrar as desculpas dos corruptos mais escancarados, que igualmente se escudam nos dinheiros da sua vida privada para se esquivarem de dar explicações da forma como abusam da sua posição.

Juan Carlos e a família real espanhola – incluindo Filipe VI, conhecido por ser bem-parecido mas particularmente pouco brilhante – tornaram-se num exemplo da falibilidade da monarquia. Num país onde rei ou rainha poderiam trazer um efetivo benefício – sendo o tal símbolo unificador e de perenidade e estabilidade que se lhe aponta como razão de existência, o substituto de espírito nacional num país com várias línguas e regiões que em tempos passados se viam como inimigas e separadas –, Juan Carlos e a sua família falharam e expuseram a sua inutilidade.

O poder simbólico da monarquia já não é suficiente para manter em união aparentemente amistosa zonas que se querem separar. (A Catalunha acena-nos.) Questões como a integração económica das diferentes regiões ou a pertença à União Europeia e ao euro provavelmente pesam mais que partilharem o mesmo chefe de Estado hereditário. Vê-se o mesmo efeito na Escócia, com o “Brexit” incendiando os ímpetos independentistas, malgrado a rainha Isabel II.

Há tentativas das monarquias se modernizarem e humanizarem. Os casamentos românticos dos herdeiros dos tronos europeus com plebeias (e, no caso sueco, plebeu) atraentes, substituindo casamentos de conveniência por vidas familiares mais recompensadoras. Uma (pouco) maior parcimónia no uso do dinheiro dos impostos. Porém, permanece o paradoxo: se são uma família normal, não merecem privilégio hereditário; se são diferentes, então têm de ser incansavelmente perfeitos – e ninguém é.

Por muito que alguns membros das famílias reais se constituam interessantes espécimes da natureza humana, são falíveis, entediantes, egoístas, com defeitos de carácter – tal como os demais. Ora para termos chefes de Estado corruptos e imorais não é necessária a manutenção de riquezas e honrarias hereditárias. Com eleições e numa república, o consulado destas personagens é sempre temporário. É uma vantagem.

Maria João Marques, Público, 5 de agosto de 2020


domingo, 2 de agosto de 2020

“Protejam a cabeça, tudo para o chão.” A mulher que nos salvou do acidente no Alfa Pendular


André Rito é jornalista e escreve regularmente no Expresso. Aqui relata a forma como viveu por dentro o acidente ferroviário desta sexta-feira, no Alfa Pendular, na zona de Soure. "O meu lugar era o 27 da carruagem número quatro". A história do acidente desta sexta-feira contada na primeira pessoa.

Há pessoas admiráveis, capazes de manter a calma nas situações mais caóticas. Ontem, seguia na carruagem quatro do Alfa Pendular quando me apercebi desta mulher, talvez com menos de 30 anos, sentada dois lugares à minha frente. Minutos antes tínhamos passado num túnel e eu, que estava meio a dormitar, abri os olhos e reparei que seguíamos a 20km/h. Outro comboio cruzou-se no sentido inverso e o nosso recomeçou a ganhar velocidade.

Confesso que tive um pressentimento – na minha ignorância ferroviária perguntei-me como é que um comboio de alta velocidade tem de parar para outro passar. Recostei-me no banco sem tempo para reagir: sentiu-se uma travagem seguida de um enorme estrondo que abanou a carruagem. Todos os passageiros devem ter percebido que estávamos a ter um acidente, tal a poeira e os detritos que voavam do lado exterior das janelas. “Protejam a cabeça, tudo para o chão”, gritou então a mulher, sobrepondo-se ao pânico geral e ao choro das crianças assustadas.

Foi exatamente o que eu e o rapaz que seguia ao meu lado fizemos. Durante aqueles segundos, o ruído da composição desgovernada, as bagagens a cair e os gritos das pessoas fizeram-me temer o pior. E por mais lugar comum que isto possa parecer, aqueles segundos até o comboio se imobilizar foram eternos. “Está tudo bem, está tudo, já parou, salvámo-nos”, disse-me o rapaz que seguia ao meu lado. Na extremidade norte da nossa carruagem – que era a terceira, embora tivesse o número quatro – não havia comboio. Tinha desaparecido e o sol entrava.

O som do alarme, um bip bip constante, funcionou na minha cabeça como uma ordem de saída. Corri para essa ponta norte da carruagem, na esperança de encontrar uma saída, e encontrei um senhor perto dos 70 que tentava abrir a porta, sem sucesso. Disse-lhe para me acompanhar, que havia gente a tentar a outra saída. A mulher que nos mandara proteger a aconselhava “calma, calma”. Nesses breves instantes, atónitas, incrédulas, sem saber o que fazer, as pessoas tentavam pegar nos seus pertences.

Gritei que tínhamos de abandonar o comboio, arranquei o martelo para partir o vidro e procurei a janela por onde poderíamos sair, até que alguém descobriu uma escapatória na extremidade sul. Não sei quanto tempo passou, sei que foi preciso saltar dois metros para conseguir chegar à berma, numa zona de mato. Saí disparado para o lado norte, onde estavam a tentar tirar uma senhora que ficara encarcerada. Na confusão, vi peças de metal espalhadas, senti o cheiro a queimado e a gasóleo, e vi a parte de baixo do comboio, o ferro retorcido, líquidos a verterem para a linha.

Alguém gritou para seguirmos na direcção oposta. Corri até conseguir encontrar uma vedação que dava acesso à estrada. Uma senhora e o filho, moradores das primeiras casas, já desciam a rua com garrafas de água. “O senhor quer uma?”, perguntou-me o adolescente. Bebi de um gole, percebi que tinha sobrevivido, e voltei para trás. Uma mulher com a cara ensanguentada tentava equilibrar-se carregada com uma geleira nos dois braços, ao longo da berma. Disse-me que tinha apenas escoriações e pediu-me para ter cuidado: a geleira estava cheia de água, com peixes vivos.

Fomos até à primeira ambulância – o socorro foi praticamente imediato – onde reconheci outro passageiro que tinha visto dentro do comboio. Perguntei-lhe se estava bem e ele retirou o pano com que cobria a boca: o lábio descaiu devido a um profundo corte que lhe rasgara metade da cara. Ainda consegui consertar a pega da geleira e fechar a tampa. Era tudo o que aquela mulher queria, salvar os seus peixes. Voltei para trás para ajudar quem estava na enorme fila, gente carregada de malas, um idoso em cadeira de rodas a ser transportado por vários passageiros, pessoas feridas, roupas com sangue.

Ninguém se prepara para um acidente de comboio, de avião ou para um naufrágio de um barco. A verdade é que a assistência – bombeiros, ambulâncias, populares da região – chegou rapidamente. Não foi preciso sequer meia hora para que a Câmara Municipal de Soure chegasse ao local, com paletes de garrafas de água, e, pouco depois, os autocarros que transportaram os feridos ligeiros para o pavilhão multiusos, transformado em hospital de campanha. Aí encontrei o rapaz que seguia ao meu lado – que estava bem – a família de estrangeiros com uma criança, uma adolescente que estava na minha fila.

Não voltei a encontrar a mulher que nos dera o melhor conselho que alguém poderia dar naqueles momentos de pânico. Gostava de lhe ter agradecido a coragem e calma que conseguiu transmitir à nossa carruagem, que estava praticamente cheia. Sei que ficou bem porque há pessoas que sobrevivem nem que seja para salvar os outros. Hoje, 24 horas depois, ainda oiço aquelas palavras. Nem sei se algum dia as esquecerei.

Médicos, bombeiros, protecção civil foram abordando cada um dos passageiros. Senti o olhar perdido de quase todos, sem saber muito bem o que fazer, às mãos de médicos, psicólogos e técnicos inexcedíveis. Não fiquei ferido, tive apenas algumas mazelas nas costas devido ao impacto, e fiquei por ali à espera que o meu pai chegasse de Braga, o meu destino final. Era a primeira vez que ia a casa desde a pandemia. Algumas horas depois, à porta do pavilhão, de máscara na cara, lá encontrei o meu pai que não via desde janeiro. Tirou a máscara e correu para mim: “vou ter de te dar um abraço”. Nunca o vejo chorar. Ontem vi.