Começo por fazer uma confissão politicamente
incorreta: sou aficionado. Não cresci num ambiente tauromáquico, nem tive
ninguém próximo que me estimulasse o gosto pela matéria. Em miúdo, ficava
fascinado por ver os programas e as corridas de touros na televisão, e estava
sempre a pedir aos meus pais para ir às praças, para ver ao vivo e a cores o
que só conhecia a preto e branco. Mais tarde, a partir da adolescência, comecei
a juntar dinheiro para ir às principais feiras, conheci outros aficionados,
estudei os fundamentos da tauromaquia, vivi de perto a sua realidade.
A minha adesão inicial à tauromaquia não se
fez, pois, pelo argumento da tradição, muito menos pelo da razão, mas sim pela
via da emoção. A mesma emoção, admito que incompreensível para muitos, que
tocou e toca gente comum como eu e, também, espíritos superiores como Goya,
Hemingway ou Picasso. Mais do que erudita ou popular, a tauromaquia é
transversal, teve adeptos entre camponeses e marqueses, e hoje é seguida por
gente de esquerda e de direita, ricos e pobres. E esta é uma das suas grandes
riquezas: a de conseguir, nem que seja por momentos, a unanimidade de uma vasta
diversidade.
A tauromaquia não é, claro, uma atividade
asséptica. Implica emoção, risco e sofrimento. Mas está longe de ser a barbárie
que os antitaurinos procuram fazer crer. Há quase 40 anos que acompanho o
fenómeno tauromáquico. Estou convicto que ninguém vai para uma praça a esfregar
as mãos, e a pensar em assistir a uma tarde de tortura. Os aficionados focam-se
no comportamento do touro, e na forma com o toureiro, a pé ou a cavalo, procura
encontrar soluções para contornar os desafios colocados por um animal poderoso,
de forma a fazer parecer fácil algo que é tremendamente difícil. Para mim, é
neste ponto que reside parte da emoção: a capacidade humana de suspender os
seus medos e superá-los com estética e valentia.
Esta narrativa não pretende, porém, ignorar
os argumentos dos que contestam a preservação dos espetáculos tauromáquicos.
Aceito que muitos, sobretudo os que nunca tiveram contacto com a realidade
tauromáquica, considerem o que acima escrevi um absurdo. A diferença entre um
aficionado e um antitaurino, é que o primeiro encontra arte na tauromaquia,
enquanto o segundo só vê barbárie. São dois pontos de vista igualmente
respeitáveis, mas seria importante que fossem vincados com verdadeiro
conhecimento de causa.
Objetivamente, o touro é posto à prova na
arena. Mas este estado não pode ser interpretado de uma perspetiva
antropocêntrica. Aliás, numa visão estritamente utilitária e asséptica, não faz
hoje sentido qualquer relação entre o ser humano e os animais fora de um
enquadramento de estrita liberdade: os cavalos já não são necessários enquanto
meio de trabalho e transporte, e a companhia de animais domésticos não passa de
capricho dos humanos. Também, sob um ponto de vista unicamente racional, não é
lógico optar por carne mirandesa quando outras têm características nutricionais
semelhantes. Nesta abordagem, tanto a equitação, quanto a escolha da carne, são
prazeres humanos que implicam a exploração imoral de animais. Felizmente, a
vida ainda não se pauta por critérios estritamente utilitários ou racionais, e
a equitação continua a existir, assim como a possibilidade de optarmos por uns
secretos de porco ibérico, ou por uma posta mirandesa. Como em tudo, é preciso
bom senso e equilíbrio. Rejeitar toda a espécie de maus tratos ou violência
gratuita sobre animais, mas saber separar o trigo do joio, e não confundir
realidades.
Esta semana, Inês Sousa Real, líder
parlamentar do PAN participou num debate com Miguel Sousa Tavares a propósito
dos projetos de lei que hoje vão a debate no parlamento, e que pretendem por
fim ao financiamento público das atividades tauromáquicas. Sobre estes, duas
notas. A primeira, é sobre a quantidade dos projetos, baseados genericamente
nas mesmas considerações e propondo a mesma medida. Dá ideia de que PEV, BE,
PAN e a deputada não inscrita Cristina Rodrigues, não estiveram disponíveis
para, simplesmente, considerar uma única iniciativa, e quiseram antes marcar
pontos políticos com a matéria. A segunda, é a nula presença autárquica destes
partidos. Descontando o PEV, que não se percebe o que é, mas que aproveita
estes temas para fazer prova de vida, tanto BE quanto PAN são partidos urbanos,
que nada conhecem para além das áreas metropolitanas das grandes cidades. Só
assim se pode propor uma lei que impossibilita as autarquias de apoiarem festas
e manifestações que fazem parte do património cultural e da sociabilidade de
muitas localidades.
Não é, pois, de estranhar que, no referido
debate, a líder parlamentar do PAN tenha referido uma sondagem que indica que a
maioria dos lisboetas são contra a tauromaquia. Isto diz muito. Inês Sousa Real
suporta o seu argumento com a opinião dos lisboetas. E que tal preocupar-se com
a opinião de alentejanos, ribatejanos ou terceirenses? As decisões sobre estas
matérias não devem basear-se na opinião de um mundo urbano politicamente
correto que não conhece, ou não quer conhecer, o Portugal que se estende para
além das suas muralhas.
Durante o debate, Inês Sousa Real defendeu
que, caso as atividades tauromáquicas acabassem, os touros bravos poderiam
continuar a existir, e ser visitados em “safaris” (!). Seria de facto boa ideia
que todos os que se opõem à tauromaquia fizessem um “safari” pelo mundo rural.
Ajudava-os a perceberem melhor as suas particularidades e a sua cultura, e o
muito que distingue a tauromaquia da simples barbárie, o que é impossível de
explicar em poucos parágrafos. Porque este tema não pode ser discutido nem
percebido à luz de abstrações racionalistas e politicamente corretas, só depois
de se conhecer a realidade tauromáquica que está para além da praça de touros é
que se poderá decidir, com conhecimento de causa, se esta é de facto um
fenómeno cultural, ou então um simples ato de tortura.


