sábado, 30 de abril de 2022

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

 

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Foram as memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Chekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

“Rezou com o pope, apenas com as mãos e com o coração. E, no seu coração, havia o sentimento de que, se aqui é bom para aquele que obedece e não ofende, também lá será bom.

Falou pouco. Pediu apenas que lhe dessem de beber e surpreendeu-se com alguma coisa.

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

quinta-feira, 28 de abril de 2022

“Caso flagrante.” Transparência Internacional pede explicações por nomeação de pai de deputada como assessor do Chega

 

Manuel Matias foi nomeado assessor do partido, sendo pai de Rita Matias, deputada do Chega. Trata-se de “uma relação de pai e filha, expressamente prevista e proibida pela letra da lei”, diz a associação, em carta enviada ao presidente da Assembleia da República

A Transparência Internacional (TI) Portugal enviou uma carta ao presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, a pedir esclarecimentos sobre a nomeação de Manuel Matias para assessor político do grupo parlamentar do Chega. Este caso torna-se “ainda mais flagrante”, refere a TI Portugal em comunicado enviado à imprensa, porque Rita Matias é deputada do partido, tratando-se de “uma relação de pai e filha, expressamente prevista e proibida pela letra da lei”.

Além disso, o cargo de assessor “constitui uma função de assessoria ao grupo parlamentar ou aos deputados e não, do ponto de vista jurídico, incluindo constitucional e da regulação parlamentar, de um só deputado”, acrescenta a representante portuguesa da rede global anticorrupção presente em mais de 100 países.

O pedido de esclarecimento baseia-se no facto de “tal ato de nomeação [ser] proibido pelo disposto na alínea b) do n.º 2, conjugado com o n.º 4 do artigo 2 da Lei n.º 78/2019, de 2 de setembro, que estabelece regras transversais às nomeações para os gabinetes de apoio aos titulares de cargos políticos, dirigentes da Administração Pública e gestores públicos”.

Apesar de o despacho de nomeação ter sido assinado por André Ventura, presidente então provisório do grupo parlamentar do Chega, Manuel Matias foi nomeado como assessor. De acordo com a TI Portugal, “este ato de nomeação parece violar tanto a letra, quanto o espírito da norma, além de contrariar a razão e finalidade da lei”, que foi feita para “impedir e tornar ilegal a nomeação para órgãos políticos de familiares dos respetivos titulares”.

Perante estes factos, a associação questionou Santos Silva no sentido de este esclarecer a aplicação da lei e a constitucionalidade da referida nomeação, nomeadamente:

·        “se entende a Assembleia da República que a lei permite a nomeação para membros de gabinetes de apoio de grupos parlamentares familiares de deputados que compõem o respetivo parlamentar;

·        se considera a Assembleia da República que ocorreu uma violação legal e/ou ética da regulação e/ou ética aplicável, ao ser nomeado como assessor político do grupo parlamentar do Chega o pai de uma das deputadas do referido grupo parlamentar;

·        em caso afirmativo, que diligências tomará a Assembleia da República para repor a legalidade?

·        em caso negativo, qual será, no âmbito de proteção e aplicação da ratio legis em causa relativamente aos grupos parlamentares, mais concretamente, quanto à proibição de nomeação para membros dos gabinetes de apoio dos grupos parlamentares ‘ascendentes’ de deputados que os compõem?”

Nuno Cunha Rolo, vice-presidente da TI Portugal, defende que “esta nomeação viola a lei e a ética parlamentar”, acrescentando que “a Assembleia da República aprovou a lei e está sujeita a ela”. “Não pode haver dois pesos e duas medidas, não é uma lei para se aplicar somente aos outros. Além disso, o Parlamento deveria estabelecer um padrão ético mínimo neste comportamento político e partidário, dando o exemplo, pela positiva, a fim de estabelecer um precedente, legal e ético”, remata.

Hélder Gomes

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O PCP e o anticomunismo

 

“Opor-se ao PCP” em todos ou em alguns temas não é fatalmente, como o partido propaga, ser-se anticomunista.

Ao chamar-lhe “fábrica de cristãos-novos”, António José Saraiva desenvolveu em Inquisição e Cristãos-Novos – publicado em 1969, mas saído em edição portuguesa apenas em 1985 – uma explicação sobre o que julgou ser uma das mais notórias e funestas consequências da Inquisição portuguesa. Considerou aí que a máquina trituradora por esta montada, ao “descobrir” judeus conversos em toda a parte, perseguindo e condenando por mais de dois séculos muitas pessoas que de modo algum o eram, não só ampliou muito o número dos perseguidos e sentenciados, como, por esta via, disseminou entre a população “cristã-velha” o medo e o ódio ao judeu, enraizando um sentimento antissemita preservado mesmo após o fim da instituição.

Na construção de uma mancha infamante, algo de similar ocorreu durante o Estado Novo com o Partido Comunista Português e os seus militantes, apontados em A Revolução de Maio, de António Lopes Ribeiro, o principal filme de propaganda do regime estreado em 1937, como os seus únicos verdadeiros inimigos. A obsessão anticomunista, aí expressa de forma simbólica no combate entre a bandeira nacional e a vermelha com a foice e o martelo, foi preservada ao longo da ditadura com a intenção de exagerar os “perigos” do comunismo e de disseminar o medo da sua hipotética vitória. Apesar da duríssima repressão, que afetou os seus quadros responsáveis e os militantes mais corajosos, quase o aniquilando em dois ou três momentos críticos, o PCP era o único partido ilegal que persistia no combate antirregime, hegemonizando pelo esforço e tenacidade, pelo menos até aos meados da década de 1960, os combates da oposição. Daí o pendor anticomunista da intervenção doutrinária do Estado.

Todavia, no seu combate pela preservação de uma autoridade incontestada, não bastava ao regime salazarista combater o partido e esforçar-se por desqualificá-lo em termos públicos. Era preciso também fazer com que os seus diversos aliados no combate antifascista fossem igualmente desclassificados, de modo a impedir a construção de uma frente alargada de resistência. A designação como “comunista” de todo o opositor, viesse este de onde viesse, passou então a ser usada como forma de desqualificação social e de exclusão política, transitando para o “senso comum” com um sentido que tendia a identificar quem recebesse o estigma como criminoso passível de castigo. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o impacto da Guerra Fria dilataria, aliás, essa estratégia. Desta forma, o regime funcionou também como “fábrica de comunistas”, ampliando a sua presença para além da realidade dos números e fazendo mesmo com que muitos cidadãos acabassem por tornar-se militantes.

No Estado Novo, a designação como "comunista" de todo o opositor, viesse este de onde viesse, passou a ser usada como forma de desqualificação social e de exclusão política

Em democracia, e em particular nos anos mais recentes, a memória desse anticomunismo tem sido, paradoxalmente, utilizada como arma usada pelo PCP. Aplicada com frequência, como vitupério, a todos, indivíduos, grupos ou tendências políticas, que rejeitam o seu programa ou discordam frontalmente das suas interpretações e propostas. Fá-lo de forma indiscriminada: não apenas em relação aos setores da direita ou da extrema-direita que, por natureza ou convicção, vêm no partido um alvo a combater ou a abater, mas também em relação à restante esquerda. Por vezes, e de uma forma muito agressiva, em relação aos setores que, sobretudo entre os intelectuais, conhecem bem a história do comunismo e por isso se distanciam criticamente das escolhas propostas pelo PCP. Ainda que os seus protagonistas se situem dentro de um pensamento próximo do campo plural do socialismo.

Esta opção advém da dupla herança do bolchevismo e do estalinismo. O primeiro definiu, no quadro da cisão de 1903 do Partido Operário Social-Democrata Russo que o opôs ao menchevismo, um quadro de transformação revolucionária que configurava já o modelo do partido-vanguarda único e da ditadura do proletariado. Após a vitória da Revolução de Outubro de 1917, Lenine foi determinante para o processo ao definir como inimigos a demolir os demais partidos que haviam combatido o czarismo, classificados como contrarrevolucionários e proibidos. Já o estalinismo levou a tendência ao paroxismo, combatendo todos os que se opunham às conceções e à autoridade do “pai dos povos”, ao ponto de tomar como inimigos, e exterminar em escala de largas dezenas de milhares, comunistas que tinham lutado pelo novo regime e participado na tomada do poder pelos bolcheviques. Todos acusados de “anticomunistas”. A sombra do estalinismo, a sua deriva de ódio contra toda a dissidência, sobreviveriam mesmo à “destalinização” de 1956 e à derrocada pós-1989 do “socialismo real”, encontrando-se ainda, formal ou informalmente, em partidos como o PCP.

No momento presente, o enorme isolamento no que respeita à posição tomada face à guerra de invasão da Ucrânia pela Rússia e à caraterização do regime imperial de Vladimir Putin tem levado o partido, e sobretudo muitos dos seus militantes, a usar largamente o qualificativo de “anticomunismo”, que após o 25 de Abril, aliás, jamais deixou de usar perante posições adversas. Neste momento aplicado a todas as pessoas e opiniões que não compreendam e não aceitem a sua posição de conciliação com o imperialismo russo, o seu esforço de diabolização do governo legítimo de Kiev e o seu efetivo alheamento pelo atentado à soberania da Ucrânia e pelo massacre do seu povo.

“Opor-se ao PCP” em todos ou em alguns temas não é fatalmente, como o partido propaga, ser-se anticomunista. Muitos dos que dele discordam se afirmam, aliás, simpatizantes ou até herdeiros do ideal igualitário e solidário do comunismo como utopia que corresponde a uma das mais dignas e necessárias experiências de demanda por sociedades mais justas. Muitos reconhecem e defendem também, sem sombra de dúvida, a legitimidade política e a importância social do partido. “Opor-se ao PCP” pode ser, muito simplesmente, discordar com frontalidade de escolhas que em certos momentos a sua direção assumiu e a maioria dos seus passou a defender sem hesitação. Ao usar o qualificativo “anticomunista” para, de forma hostil e em posição de persistente vitimização, apontar o dedo a quem se lhe oponha numa simples lógica de divergência, o PCP comete um enorme erro. É negativo para si próprio ao afastar possíveis aliados, e alimenta, agora sim, formas de anticomunismo. Num processo de isolamento que será uma perda para a democracia.

Público, Rui Bebiano, 27 de Abril de 2022

sábado, 23 de abril de 2022

PCP: ocultar que há um agredido e um agressor

 

Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Falar em guerra sem nomear o agredido e o agressor, e tirar daí consequências, é colocar-se do lado do agressor. Quem beneficia na apresentação neutral da “guerra”? O agressor. Quem beneficia numa defesa da “paz” que trata os beligerantes como iguais? O agressor. Quem fala em detalhe dos males de “uns” (os ucranianos) e genericamente e sem pormenores dos males dos “outros” (os russos) não está do lado da “paz”, mas da guerra. Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Toda a gente percebe, a começar por muitos eleitores, simpatizantes e militantes do PCP, por isso é que esta situação é devastadora para o PCP. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

O problema do PCP não é um remake do caso da Checoslováquia, como por aí se diz. Na invasão da Checoslováquia, havia de um lado a URSS e do outro um processo que os soviéticos consideravam ser de subversão do socialismo e do campo socialista. O PCP podia entender que devia estar de um “lado” contra o outro, porque um dos lados lhe era próximo ideológica e politicamente. Onde é que há hoje algo de remotamente parecido com “o lado” da URSS?

O PCP diz que “o lado” ucraniano é péssimo, mas diz também que não se identifica com “o outro” lado com Putin. Se é assim, porque não trata “os dois lados” da mesma maneira e se põe à margem? Se o conflito é entre a NATO e o regime de Putin, que é para todos os efeitos igualmente maléfico, por que razão o PCP acaba encostado a um dos lados, sempre pronto para o justificar pela equivalência? Por que razão, entre aquilo que considera o militarismo da NATO e a “violação do direito internacional” por Putin (um gigantesco eufemismo), entre o lado agressivo da NATO e o autocrata belicista, o PCP sente-se mais confortável com o segundo, que protege até pela terminologia cautelosa e moderada com que o trata? Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Não adianta vir com a história de que a “guerra” começou em 2014, porque esta de que estamos a ser testemunho começou em 2022. E, em 2022, não há um único factor que justifique a invasão da Ucrânia, não há motivo forte, nenhuma provocação, nenhum acto novo de envolvimento da NATO, nenhuma colocação de tropas americanas na fronteira, nenhum exercício militar conjunto, nenhuma manobra daquelas que se usam para preparar uma invasão. Nem pouco nem muito, não há mesmo. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Vamos admitir que o que Putin diz é verdadeiro (quase nada é…) e que a Ucrânia é governada por nazis (falso, embora haja demasiados nazis na Ucrânia como na Rússia, e na Europa, os que Putin financia), que são corruptos (verdade, como na Rússia os amigos de Putin), que reprimem o russo e a cultura russa no Donbass (em parte verdade), que perseguem os partidos pró-russos (idem), que assassinaram muitos ucranianos pró-russos (os números são fantasiosos, mas havia uma guerra de fronteiras em curso com a intervenção da Rússia), que querem entrar para a NATO (querer, querem, só que a NATO não os aceitou), e que desde 2014 existe uma guerra escondida naquela parte do mundo (que, se houvesse, seria conforme o direito internacional, depois da anexação da Crimeia e do apoio às milícias pró-russas no Donbass). Pelo contrário, os países ocidentais da agressiva NATO engoliram a conquista territorial russa da Crimeia com o rabo entre as pernas. Nem disso Putin se pode queixar. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Mesmo que se admita tudo isto (insisto que não é verdade a maioria das coisas), que o PCP repete numa lógica que só serve para a legitimação da invasão, o que é que aconteceu de muito grave em 2022 que levou Putin a preparar, negar e depois começar uma invasão maciça da Ucrânia? Nada. É uma pura agressão, uma pura guerra de grande escala que inclui desde início a ameaça do nuclear, o ataque a civis (incontroverso em geral, mesmo que nalguns casos possa haver montagens), e o PCP vem agora falar com neutralidade de uma “guerra” com dois lados igualmente culpados, um muito mais do que outro, o do agredido. Tretas. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

O PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular

A atitude do PCP não afecta apenas o PCP, afecta a saúde da democracia muito para além do partido. Permitiu à direita radical encontrar um adversário a jeito e o que deseja é a ilegalização do PCP. Não o diz, por falta de coragem, mas é o que está lá. E o PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular.

Pode-se afirmar que a CGTP segue a estratégia do PCP, politiza as lutas a favor da ideologia e política do PCP, tem uma visão marxista da sociedade e da “luta de classes”, pode-se dizer isto tudo, até porque é verdade. Mas com a crescente indiferença, para não lhe chamar outra coisa, dos partidos sociais-democratas, PS e PSD, sobre os direitos dos trabalhadores, um operário ameaçado de um despedimento colectivo predador, um empregado de supermercado obrigado a condições de trabalho degradantes que o Estado não controla como deve, uma trabalhadora vítima de assédio, sem meios nem recursos para ir a um advogado, todos os que são explorados por salários de miséria (sim, isto existe) e querem reivindicar os seus direitos e a dignidade do trabalho, todos eles precisam de uma força que encontravam num já muito debilitado movimento sindical e sem o qual não há democracia. O PCP, para além de se ter perdido a si mesmo, acabou por fazer, nas suas palavras, o maior frete possível ao “patronato”. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

PCP não participará na sessão do Parlamento com Zelenskii

 

Líder parlamentar comunista disse que o Presidente ucraniano é “alguém que personifica um poder xenófobo e belicista”.

Os seis deputados do grupo parlamentar do PCP não irão participar na sessão solene que decorre na quinta-feira à tarde, na Assembleia da República, de homenagem a Volodimir Zelenskii, em que o Presidente ucraniano vai intervir por videoconferência. Também discursarão o presidente do Parlamento, Augusto Santos Silva, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

“O PCP não participará numa sessão da Assembleia da República concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz, com a participação de alguém, como Volodimir Zelenskii, que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de carácter paramilitar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo, a quem Zelenskii deu palco na recente sessão no Parlamento grego”, afirmou a líder parlamentar comunista em conferência de imprensa.

A decisão foi anunciada pela deputada comunista Paula Santos argumentando que esta sessão solene não contribui para “um caminho de diálogo que promova o cessar-fogo e uma solução negociada do conflito”, mas antes para “animar a escalada da guerra e da confrontação política, económica e militar em curso”. A dirigente do PCP acrescentou que se trata de uma “instrumentalização” do órgão de soberania nacional - porque o Presidente ucraniano tem feito sempre discursos de apelo à participação dos países no esforço de guerra - e deixou duras críticas a Zelenskii, a quem acusou de xenofobia e fascismo.

A líder parlamentar fez questão de vincar que o Partido Comunista Português “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente e que a opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos”.

Paula Santos defendeu a necessidade de ser encontrada uma solução “negociada” para a paz, que é um “caminho contrário do que está a ser feito, que promova o diálogo”, ou seja, “não é pela lógica do armamento nem pela lógica das sanções”. “O caminho tem que ser a paz. (...) Tem que ser uma solução negociada, que tenha em conta os diferentes interesses em presença, com um espaço de diálogo para pôr termo a uma guerra que já dura há oito anos”, vincou Paula Santos.

“O PCP reafirma a sua posição de defesa dos princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional e de condenação de todo um caminho de ingerência, violência e confrontação, do golpe de Estado de 2014 (promovido pelos EUA na Ucrânia) que instaurou um poder xenófobo e belicista, da recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e da intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia”, afirmou a deputada.

No entanto, os comunistas consideram que o governo ucraniano “ataca e massacra a própria população” na região do Donbass há oito anos e “persegue e elimina quem se lhe opõe”, lembrando o massacre de Maio de 2014 na Casa dos Sindicatos em Odessa “por forças neonazis associadas ao poder ucraniano”.

“Um poder que, na sequência do golpe de 2014, discrimina os seus cidadãos com base na sua cultura e língua, ataca o direito de opinião, promove a perseguição política – de que é exemplo recente a prisão de dirigentes da juventude comunista –, encetou um processo de ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e reprime outras forças democráticas e antifascistas, como sucedeu agora com a suspensão da actividade de 11 forças políticas, entre as quais partidos com representação parlamentar, por terem uma posição diferente. Um poder que ao mesmo tempo enaltece os colaboracionistas das SS nazis na Segunda Guerra Mundial e branqueia as suas atrocidades cometidas contra as populações da Ucrânia e da Polónia”, relatou ainda a deputada Paula Santos.

O PCP foi o único partido a votar contra a realização desta sessão de homenagem a Volodimir Zelenskii. A líder parlamentar comunista insistiu na necessidade de um “outro caminho” que passe pela negociação para resolver o conflito, mas nunca respondeu em que termos a Rússia o deve fazer. E questionada sobre se o PCP participaria numa sessão com a participação das duas partes, Paula Santos também não deu uma resposta directa.

Há dois dias, o ex-líder da bancada parlamentar do PCP, Bernardino Soares, tinha admitido, num espaço de comentário na CNN Portugal, que seria expectável que os deputados comunistas estivessem presentes mas que a “posição do PCP não será certamente de aplaudir efusivamente a intervenção”.

O PCP já faltou a uma sessão com um líder estrangeiro: foi o caso do então Presidente norte-americano Ronald Reagan, em 1985. “Tenho pena que algumas cadeiras à esquerda pareçam desconfortáveis”, comentou, no seu discurso perante os deputados portugueses, Ronald Reagan.

sábado, 16 de abril de 2022

O que correu mal


Nada justifica o vil ataque da Rússia. Mas é longa a lista do que correu mal na Europa. São erros, ameaças e perigos. Erros das democracias, dos

Algo correu mal dentro de cada um ou vários países europeus. Alguma coisa não está a correr bem na Europa. Muito está a correr mal nas fronteiras do continente. Esta combinação entre causas internas e externas pode ser fatal. Para a paz e a democracia.

Nada justifica o vil ataque da Rússia. Mas é longa a lista do que correu mal na Europa. São erros, ameaças e perigos. Erros das democracias, dos sistemas políticos e dos seus dirigentes. Perigos nas relações internacionais entre a Europa e os seus vizinhos. Ou entre a Europa e todos os seus parceiros tradicionais, de África à China, da Ásia à América Latina. Ameaças vindas sobretudo do exterior, mas também do interior: o império russo renascente, a fábrica chinesa triunfante, o terrorismo islâmico ofensivo e a desigualdade internacional crescente. Não só a democracia está em recuo nos últimos vinte anos, como os perigos para a paz deixaram de ser ameaças: são agora morte, invasão e destruição.

Há anos que os sistemas democráticos entraram em período de crise e risco. Depois de terem superado as ameaças revolucionárias, estão agora sob pressão dos nacionalismos renascentes, cada vez mais afirmativos, cada vez mais abertamente adversários do sistema democrático e da paz social instalada. Políticos e partidos ditos tradicionais, de famílias afirmadas na história europeia (social-democratas, socialistas, comunistas, liberais, democratas cristão, cristãos sociais…) estão em vias de extinção, substituídos por agrupamentos políticos, de esquerda e de direita, com esquerda e direita, sem esquerda nem direita, sem pergaminhos, mas com uma voz nova e, por vezes, atraente. Isto num clima em que a abstenção política eleitoral não cessa de crescer e em que as instituições democráticas ficaram rígidas. Abriu-se um quase irremediável fosso entre democracia e cidadãos, entre política e a sociedade civil.

E o que correu mal entre as nações? O fim da Jugoslávia tinha dado sinais de alarme. É verdade que havia quem dissesse que se tratava do último estertor, do fim do velho mundo, do real fim da Guerra Fria. Eram as últimas páginas de um mundo que felizmente se extinguia. Mas, para outros, era o início de uma nova era, prenhe de alegrias talvez, mas recheada de perigos e desprovida dos mecanismos de segurança experimentados. Os acontecimentos imediatos sugeririam então que era a primeira perspectiva que se impunha. A capacidade de absorção e acolhimento manifestada pela União Europeia autorizava o optimismo. Um espírito vencedor permitia o orgulho. Mas a voracidade democrática da NATO e da UE era insaciável. E, depois de enormes derrotas tanto dentro de fronteiras como através do mundo, o despotismo russo saía gradualmente da sua letargia.

O que não deu certo? Os Estados europeus deixaram de perceber as nações ou tão só as aspirações nacionais. A nova construção racional da federação europeia, original e inédita, afastava e esquecia as pulsões identitárias, as histórias nacionais, os reflexos de comunidades antigas… Com todas as suas forças ameaçadoras, e muitas são-no deveras, o nacionalismo emergia aqui e ali. Em muitos países europeus, vem do nacionalismo a principal perturbação. Conjugada esta com a desigualdade social crescente, a distante construção democrática e a desordem nas políticas e nas realidades imigrantes, a Europa passou a viver sob ameaça e debaixo de tensão. Sem capacidade para perceber, sem disponibilidade para reconhecer os seus próprios erros, muitos democratas limitam-se a vociferar contra o nacionalismo e a extrema-direita, sem entenderem que apenas olham para os efeitos e não para as causas. Não foi a fraqueza europeia que causou a guerra russa. Mas a debilidade europeia e democrática tornou o continente mais vulnerável perante a agressão russa.

Na Europa, a riqueza cresceu. Como nunca na história. Mas a desigualdade social e económica também. Foram-se os tempos gloriosos de crescimento imparável de uma classe média robusta e em expansão. Há hoje, na rica Europa, zonas de pobreza e de fragilidade que se pensava estarem em vias de desaparecimento. Muita gente depende da protecção social, do Estado social como se diz, o que é motivo de orgulho: em qualquer sociedade, um grau elevado de compaixão é sempre positivo. Mas a dependência excessiva não é saudável e é perigosa. Gera novas desigualdades e exige recursos inexistentes. Há, pela Europa fora, bairros degradados, áreas de devastação social, ruínas de decadência urbana, zonas de conflito social e étnico que revelam sobretudo a incapacidade da Europa democrática para lidar com os problemas da imigração, do exílio e da integração de estrangeiros e de minorias. O cosmopolitismo e a extraordinária capacidade de acolhimento manifestada pelos países europeus atingiram, em muitas regiões, o ponto crítico de enormes dificuldades sociais, de tensões inter-raciais e de conflitos de identidade.

O tecido social europeu está em crise. As estruturas democráticas dão sinais de envelhecimento e esclerose. O sistema político tem dificuldades em resistir às pulsões nacionalistas. O equilíbrio colectivo continental foi quebrado pela saída do Reino Unido e sobretudo pela guerra iniciada pela Rússia. A capacidade de defesa da Europa é franzina e dependente. Sem a União Europeia, todos viveríamos pior. A Europa continua a ser objecto de desejo e de orgulho. Mas a saída da Grã-Bretanha da União foi um sinal grave da crise europeia. Nem britânicos nem europeus confessaram que se tratou de um recuo gravíssimo e de um enfraquecimento mútuo indesculpável.

A guerra está aí. Feroz. Selvagem. Com ecos de violência há muitas décadas desaparecidos (ou quase…) da Europa.

Esta guerra, imposta pela Rússia, nada tem de positivo, nem nos motivos nem nas consequências. Sobretudo para um povo atacado e um país destruído. Mas pode ser que exiba as deficiências da democracia, tornando assim mais urgente a sua renovação ou a sua reinvenção. Talvez tenha como efeito fortalecer a solidariedade europeia. Pode daqui resultar uma ajuda à construção de uma defesa europeia mais forte e autónoma. Talvez a aliança atlântica seja reforçada. É possível que seja renovada e actualizada a luta pela democracia e pela liberdade. Se assim for, honra ao espírito europeu que saberá fazer força das suas derrotas e das suas ameaças!




 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Uma moralista na cama de Putin


 

A Rússia faz a guerra com o dinheiro da energia que vende à Europa. 74% das exportações de gás foram, em 2021, para a Europa. Reagindo aos massacres de Bucha, Macron anunciou novas sanções, concentradas no petróleo e carvão. Para a Rússia, é mais fácil transferir a venda de carvão e petróleo para outros destinos do que o gás, que depende de infraestruturas fixas. E a disponibilidade europeia para cortar aqui também é maior porque, pela mesma razão, é mais fácil mudar de fornecedores. Se é mau para a Rússia será mau para a Europa. Foi com isso que a Rússia contou. Mas quando falamos de Europa falamos da Alemanha. Quando a guerra começou, metade das suas importações de carvão, um terço do petróleo e metade do gás vinham da Rússia. A Alemanha depende dela para um terço de consumo de energia. São €200 milhões de financiamento diário ao esforço de guerra.

Havia, no início dos anos 90, a sensação de que a paz era um dado adquirido. E que incluir a Rússia na “Casa da Europa”, envolvendo-a nas trocas comerciais, a manteria tranquila. A crença no milagre pacificador do comércio internacional estava nos píncaros como falácia moral em defesa da globalização desregulada. A relação era tão boa que, em 2001, Putin falou no Bundestag, em bom alemão. Nestes anos, não foi apenas a paz que pesou, como se viu pela transferência de Gerhard Schroeder para presidente do conselho da Rosneft, maioritariamente detida pelo Governo russo. Angela Merkel reforçou esta política. É ela que abre o Nord Stream 1, em 2011. Ainda mais relevante por causa da opção de encerrar as centrais nucleares (que garantiam um quarto da energia alemã), depois do desastre de Fukushima. Mesmo depois da invasão da Crimeia, a Alemanha manteve-se surda aos alarmes. Quando Olaf Scholz visitou a Casa Branca, em fevereiro deste ano, foi questionado pelos jornalistas se pretendia encerrar o Nord Stream 2, caso houvesse invasão. Fugiu à pergunta, mas, mostrando que não é só em Moscovo que há uma capital de um Império, Biden respondeu por ele, anunciando o fim de investimento alemão no gasoduto caso a invasão acontecesse. Até ao fim, a Alemanha acreditou que a dependência russa face ao seu mercado impediria Putin de ir demasiado longe. E a Rússia acreditou que a dependência alemã impediria as sanções ao gás. Não travou Putin, mas está a atrasar Scholz. O CEO da BASF explica porquê: “A energia russa barata tem sido a base da competitividade da nossa indústria.”

Compreendemos a catástrofe que seria um corte repentino na compra de gás. Não queremos ver na Alemanha o que assistimos em França, com a AfD a subir. Num país que passou por todas as crises quase sem as sentir, desde que o euro garantiu que essa função ficava para outros, um pequeno abanão é sentido como um terramoto. Mas compreendemos mesmo? Achamos, como defende o “Financial Times”, que “a Alemanha e outros países vulneráveis ​​devem ser ajudados” e “o gás disponível deve ser tratado como um recurso europeu”? Eu acho, porque não sou adepto egoísmo mascarado de moralismo dos “frugais”. Mas também não sou lorpa. Como esta partilha do risco não teve precedente na crise financeira, tem de vir com novas condições de equidade no funcionamento da UE.

Os sacrifícios da Alemanha com as sanções ao gás russo, de que decidiu depender, são moderados. Venha a partilha do risco, mas sem a ideia de que quando a crise é nossa é nossa, quando é deles é nossa

Um recente artigo de um conjunto de economistas sobre o impacto do corte de fornecimento de energia russa, citado pelo “Financial Times”, estima que o resultado do embargo imediato por agora necessário corresponderia a uma queda de 1,4% a 3% do PIB. O “ECONtribute” prevê uma redução temporária de 2,1%. Tudo muito abaixo da queda que foi imposta a Portugal pela troika e nem vagamente comparável ao que aconteceu à Grécia. Entre 2009 e 2013, a economia grega encolheu 21%, enquanto a taxa de desemprego subiu para 27%. Acompanhado por raspanetes moralistas que roçaram a xenofobia. E podia ter sido evitado com as palavras que viriam, demasiado tarde, de Mario Draghi, dando garantias aos mercados e impedindo o aumento das taxas de juro. Só que, no caso grego e português, tudo tinha de ser feito sem partilha de riscos — a Alemanha até lucrou com os programas de austeridade — e com urgência dolorosa. Agora, pede-se ponderação e calma.

Num artigo no “The New York Times” sobre esta “facilitadora” de Putin, Paul Krugman resumiu tudo muito bem: “O que impressiona é o contraste entre a atual relutância da Alemanha em fazer sacrifícios moderados, mesmo diante de crimes de guerra horríveis, e os imensos sacrifícios que exigiu de outros países durante a crise da dívida europeia (...). Recebeu um aviso muito mais claro sobre sua dependência irresponsável do gás russo do que a Grécia jamais recebeu sobre seus empréstimos pré-crise.” A escolha de se pôr nas mãos de Putin foi consciente, informada e reiterada. Enquanto Portugal depende em 34% de energias renováveis, sendo o quinto melhor na Europa, a Alemanha está em 16º, com 19%, abaixo da média da UE. Por mim, defendo a proposta de partilhar o risco. Mas só se isso for um ponto de viragem. Não pode vingar sempre a ideia de que quando a crise é nossa é nossa, quando é deles é nossa.

Daniel Oliveira, Expresso, 13 de abril de 2022

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Para acabar de vez com este sufoco


 

Neste texto, entre cada parágrafo, irei repetir esta frase:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

Digo isto não só porque é o que penso e já escrevi antes mas também para ficar mais uma vez lavrado em acta. Pois é aqui que chegámos, é aqui que estamos e é neste clima que, a propósito da guerra na Ucrânia, estamos a viver: num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes vivi em 30 anos de escrita em jornais. Quem não pensa exactamente segundo a cartilha pronta a pensar fornecida pela NATO e pelos países-guia do mundo ocidental é imediatamente catalogado como amigo de Putin e cúmplice moral das atrocidades russas na Ucrânia. Portanto, é preciso repetir:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

Porém, eu sei que dizer isto é inútil. Não se trata de discutir pontos de vista, até úteis para o futuro, de rebater argumentos ou de revisitar a história. A maior parte dos novos cruzados, arautos da guerra à distância, e novos censores ainda ontem nada sabiam da Rússia, da sua história ou da história da expansão da NATO para leste e nada lhes interessava a política internacional, entretidos que estavam a divagar sobre minudências da política doméstica, a educação dos filhinhos ou as tendências das redes sociais: com esses nem vale a pena perder tempo. Com outros, todavia, o caso é mais sério. Podiam e deviam discutir as opiniões contrárias sem recorrer à absoluta falta de seriedade intelectual e a argumentos de puro terrorismo e delação pública. Todos os dias leio dois ou três textos destes e até me pergunto como é que não têm vergonha de alinhar em tamanha campanha ostensiva de apelo ao silenciamento e ao linchamento moral de quem não pensa tal qual como eles, mesmo que digam e repitam o que eles fazem de conta que não ouviram:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

No “Público”, por exemplo, Francisco Mendes da Silva, alguém que eu leio sempre com interesse, escreveu um texto cujo título resume toda uma sentença: “Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia”. Para ele, estas pessoas, que veladamente desejam a vitória militar de Putin, “continuam a querer contaminar a discussão com uma complexidade que não existe”, quando “o seu problema não é a dificuldade de pensar, é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam”. Cobardes, portanto: tão simples quanto isto. Por exemplo, gente como Kissinger, como George Keenan, como Mário Soares ou Luís Amado, que, em devido tempo, avisaram que a expansão da NATO a leste era um grave erro geoestratégico e político, que traria necessariamente consequências para a paz, eram simplesmente pró-russos e cobardes. Pelo contrário, aqueles que imaginaram que Gorbachov e os seus sucessores iriam desmantelar o Pacto de Varsóvia, pôr termo à Guerra Fria e reconhecer a independência de 14 países antes sob a alçada da URSS e, simultaneamente, aceitar que eles passassem a integrar a NATO e pudessem instalar nos seus territórios mísseis nucleares tácticos capazes de atingir Moscovo em poucos minutos sem que a Rússia se sentisse ameaçada eram apenas genuínos defensores da paz e visionários perante Vladimir Putin ou qualquer outro Pedro, o Grande, reencarnado. Bem, a esta corajosa gente eu também poderia dizer: “Sejam adultos e assumam que o que querem é ver a NATO entrar na guerra e esmagar a Rússia, ou então prolongá-la indefinidamente até conseguir o mesmo resultado.” Mas não é preciso que eu o diga, disse-o o Presidente ucraniano, Zelensky, na sua entrevista à “The Economist”: “Há quem no Ocidente não se importe com uma longa guerra, porque isso significaria esgotar a Rússia, mesmo que represente o desaparecimento da Ucrânia e o sofrimento do seu povo.” Mas deixem-me que repita:

Estamos a viver num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes vivi em 30 anos de escrita em jornais

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

E volto a acrescentar, para que fique claro: nem a NATO nem o Ocidente começaram a guerra, foi a Rússia e Putin. A responsabilidade é dele, as mortes e a destruição são responsabilidade dele, os crimes conhecidos até hoje são dele. Porém, e desde sempre, a minha tese (se é que me permitem ter uma) é esta: com excepção de Macron, ninguém, entre os países ocidentais, tentou seriamente evitar a guerra ou pôr-lhe termo, uma vez iniciada. Neste momento, é verdade que Putin já não parece nada interessado num acordo de paz, embriagado pelo sinistro grito de “viva la muerte!” já deixou de pensar como alguém razoável ou mesmo humano. Mas houve momentos antes em que isso pareceu possível e em que ninguém no Ocidente se mostrou disponível para ajudar. Zelensky tem razão: a continua­ção da guerra afora não convém só a Putin, também convém à NATO. E convém por várias razões — militares, estratégicas, políticas e económicas —, reflectindo os interesses dos países dominantes da Organização, de que o seu secretário-geral, Jens Stoltenberg, é fiel servidor: Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá. Razões militares: a Ucrânia é um excelente campo de batalha convencional como nunca a NATO experimentara, tendo apenas sido testado em guerras de contraguerrilha ou contra forças mal equipadas no Iraque, Afeganistão, Somália, Síria, Balcãs; mais, esta guerra é uma insubstituível oportunidade para avaliar o grau de eficiência das Forças Armadas russas em combate, do seu armamento, preparação e logística, e, paralelamente, da capacidade de resposta dos dispositivos da NATO. Razões geoestratégicas e políticas: depois do inacreditável erro de avaliação de Putin, a NATO, achincalhada por Trump e declarada em “morte cerebral” por Macron, ressurgiu agora como uma inevitabilidade face à nova ameaça russa e prepara-se para integrar a Suécia e a Finlândia e afirmar-se como entidade indispensável e inquestionável. Razão económica: o rearmamento de todos os seus 29 membros é um maná caído do céu para os grandes fabricantes de armas dos países líderes da Organização, cujos interesses determinam a sua sobrevivência. Mas nada disto impede que:

— A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.

E, obviamente, nada disto também equivale a dizer que a culpa da guerra é da NATO e dos Estados Unidos, como escreveu acerca dos “cobardes” António Barreto, num texto que um dia talvez venha a lamentar ter escrito. Que a responsabilidade da guerra é da Rússia é um facto inegável; que a NATO cercou a Rússia é outro: não sei como é que alguém de boa-fé pode negar qualquer um deles. Porém, nesse texto, e na sua fúria acusatória a propósito do massacre de Bucha e outros, escreve António Barreto: “Há quem (diante disto) seja subitamente invadido por escrúpulos jurídicos e exija comissões independentes para analisar a situação no terreno, identificar as vítimas e fazer relatórios sobre as circunstâncias das mortes.” Fico na dúvida se para ele nada disto interessa e convém investigar ou se o problema está em ser investigado por uma comissão independente: talvez fosse melhor se fosse investigado pela London Metropolitan Police, como pateticamente propôs a secretária do Foreign Office. Todavia, e a propósito de Bucha, cito-lhe Ursula von der Leyen, de visita ao local do massacre e mesmo assim invadida de escrúpulos jurídicos: “É extremamente importante que tudo seja bem documentado para evitar derrotas em tribunal se as provas não forem suficientemente fortes” — ou seja, o Estado de Direito, esse detalhe que distingue as democracias das sociedades sem escrúpulos jurídicos. Mas, tal como Mendes da Silva, também António Barreto acusa os que divergem dele “da mais covarde atitude, que consiste em não dizer o que realmente pensam, escondendo-se atrás do biombo da hipocrisia”. Eu leio isto e custa-me a acreditar que um intelectual que o país se habituou a admirar como alguém que sempre pensou livremente e tantas vezes ao arrepio da opinião dominante seja agora capaz não apenas de presumir a opinião oculta dos outros mas ainda de chamar-lhes cobardes por não confessaram a hipocrisia de que os acusa, como ele gostaria que fizessem. E, desenfreado, acabar a acusá-los de, “diante do incómodo causado pela violência bruta e pela destruição cega, terem a desfaçatez de pedirem pensamento”! Esta assassina frase é de uma absoluta indignidade: pressupõe que para os que ousam pensar diferente dele sobre questões laterais o essen­cial — as imagens de morte e destruição que todos vemos — são apenas um “incómodo” para as suas ideias. E isso permite-lhe, tendo-os desclassificado ao nível dos pró­prios criminosos de guerra, acusá-los da desfaçatez de quererem pensar! Mas, com toda a amizade de sempre, digo ao António Barreto: eu não peço pensamento, não peço licença para pensar. Nem peço nem exijo, porque não é preciso, vivendo, felizmente, em democracia. Simplesmente exerço o direito que me assiste, sem me escudar em abaixo-assinados nem me intimidar com a fúria que possa causar a “desfaçatez de pensar” diferente e de assim “contaminar a discussão”. E não: não penso aquilo que eles queriam que pensasse e que lhes dava jeito confessar que pensava. Lamento o incómodo, mas penso exactamente aquilo que escrevo. E adiante veremos o preço inteiro desta guerra tão desejada por alguns.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

domingo, 10 de abril de 2022

O direito à solidão




É um dos vários direitos humanos que não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão. Sem solidão ninguém vive, mas há muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão.

Pus-me à conversa com um ajudante de cozinha que estava encostado às traseiras de um hotel, a fumar um cigarro.

Ofereceu-me um, eu disse-lhe que já não fumava e ele respondeu que também já não gostava de fumar, mas que não passava sem estar sozinho uns minutos, longe da algazarra da cozinha. Mas se o vissem ali sozinho, sem um cigarro na mão, iam achar estranho, iam levar a mal.Reproduzir

 

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Percebi o que ele me estava a querer dizer e afastei-me, sentindo-me culpado pela intromissão e pelos momentos de solidão que lhe tinha roubado.

É um dos vários direitos humanos que não estão consagrados em nenhuma constituição: o direito à solidão.

Sem solidão ninguém vive, mas há muitas pessoas que simplesmente não têm acesso à solidão: não têm espaço, não tem tempo, não têm transporte. Pior do que tudo é quando nem sequer têm consciência da necessidade da solidão.

A solidão é um intervalo. Até as ilhas estão no meio do mar: mar que leva até outras ilhas. Uma ilha é como uma casota à beira de uma auto-estrada. O que falta não é um meio de comunicação: é um barco ou um carro.

É preciso saber de um campo escondido no meio da cidade, ou de um pinhal longe de onde passam os carros. Mas é preciso ter maneira - tempo, autorização, vagar, transporte - para lá chegar.

É preciso poder fugir - mas ter onde voltar. A solidão feliz é sempre temporária. Não rejeita ninguém: refresca toda a gente.

Estar sozinho onde não está mais ninguém, olhando para as árvores e para a linha do mar, é matar uma saudade. É matar a saudade da solidão antes de nascermos - e da solidão com que vamos morrer.

“Não tenho tempo para mim": é esta a queixa de quem foi espoliado da solidão que merece, da solidão de que precisa para poder viver em sociedade.

Bem ou mal.

 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Bucha e a recordação de Jan Karski

 

No dia 24 de abril celebra-se mais um aniversário (o 108.º) do nascimento de Jan Karski. Poucos sabem quem foi este tenente da cavalaria polaca, herói da II Guerra e considerado justo entre as nações por Israel. Mas será necessário alguém como ele para acreditarmos que o mal, a brutalidade e o genocídio fazem parte da condição humana. Mesmo da parte de quem parece civilizado

Jan Karski, depois de preso pelos russos, na sua Polónia natal (os russos e os alemães eram, nessa altura, aliados), conseguiu fugir. Por pouco tempo: foi preso pelos alemães e metido num comboio, cujo destino não era bom. Foi torturado e mandado para um hospital, de onde fugiu outra vez, atirando-se nu por uma janela e despistando os perseguidores. Juntou-se à resistência polaca (ou ao que restava dela) e presenciou crimes indescritíveis dos nazis contra os judeus no gueto de Varsóvia. Por exemplo, que os judeus tinham direito a 184 calorias de alimentação por dia, contra 1800 para os polacos e 2400 para os alemães.

Além de morrerem de fome e frio, os filhos de Israel morriam de tifo dentro dos muros que os alemães construíram ao redor do gueto; a partir de 1942 morriam, também, levados aos milhares para Treblinka, Auschwitz ou Majdanek. A tudo isto assistiu ou de tudo teve conhecimento o tenente Karski, que iniciara a guerra com o célebre ato de coragem que foi investir de cavalo e sabre contra os tanques alemães, recontro em que morreram muitos dos melhores soldados polacos.

Karski tornou-se uma espécie de embaixador do Governo legítimo, clandestino e no exílio da Polónia; contactava os governos inglês e dos EUA, além de ilustres resistentes franceses como De Gaulle. Mesmo quando lhes forneceu o opúsculo “O extermínio de massas de judeus na Polónia ocupada pelos alemães”, publicado pelo governo polaco no exílio, houve muitos que duvidaram de tais barbaridades.

Nem sempre é fácil acreditar-se que tal desumanidade seja possível em sociedades desenvolvidas. O que agora se soube de Bucha, na Ucrânia – mesmo sem sabermos ao certo o que foi – é suficientemente grave para que as principais testemunhas sejam levadas a sério. Não apenas os geoestrategos ou generais e especialistas que falam nas televisões, alguns dos quais parecem ter comichão se alguém responsabilizar os russos.

A mulher que em lágrimas diz que foi violada e precisa de um ginecologista pode ser uma figurante? Pode! Mas teria um excelente curso de teatro.

O homem que diz que viu cinco pessoas sair do bunker em que estava e que pouco depois ouviu cinco tiros, para mais tarde encontrar aquelas cinco pessoas mortas, depois de um deles ter gritado “não disparem, somos civis”, pode estar a mentir? Pode!

Mas os que defendem a Rússia mentem de certeza. Por uma razão lógica: Bucha foi ocupada por russos, não por ucranianos, e quando os russos saíram da povoação nos arredores de Kiev a Comunicação Social pôde entrar. Não antes disso. Quem nada tem a esconder, nada esconde. O que os jornalistas viram foi imediatamente enquadrado pelos serviços russos: quem estava morto eram apoiantes da Rússia que as brigadas nazis ucranianas mataram. Pode isto ser verdade? Pode. Mas algo estranho acontece: por que razão os pró-russos, sabendo de tão desumanas brigadas nazis, não retiraram com os russos? Estranho… A menos que a retirada fosse desordenada, mas isso também desmente os russos.

Depois há o The New York Times, a BBC e muita outra Imprensa. Todos dizem o mesmo: que o genocídio, a matança inacreditável que se vê na cidade, foi obra de russos. E aí vemos a desconfiança, dizem-nos que na guerra tudo é mentira. Sim... é, em parte, verdade. Mas gostavam da BBC e do NYT quando estes denunciaram My Lai, os abusos de Guantánamo, a invasão do Iraque e tantas outras tropelias feitas pelo Ocidente, não os acham suficientemente credíveis agora. Aliás, é como o abaixo-assinado publicado no Expresso a exigir a paz – algo que não reparei quando os russos destruíram a Tchetchénia, invadiram a Geórgia, se apropriaram da Crimeia ou dizimaram Aleppo.

Muita gente pode ter dúvidas legítimas. Eu próprio duvido de muita informação, sobretudo quando é prestada em tempo de guerra. Mas estou certo de uma coisa: de um lado mora a liberdade e do outro a tirania; de um lado há o debate aberto, do outro a imposição autoritária de uma verdade oficial; de um lado, alguns senhores generais continuam a ir à televisão e a receber o salário; do outro estariam sabe-se lá onde? Talvez ao pé do líder da oposição a Putin, numa prisão qualquer da Federação Russa.

Acreditemos em tantos Jan Karski que hoje nos falam e nos alertam; porque não costuma haver fumo sem fogo.

Henrique Monteiro, Expresso, 6 de abril de 2022


sábado, 2 de abril de 2022

Portugal: o país que os portugueses estavam proibidos de conhecer


 


“Ah! Se os homens pudessem somente persuadir-se que a força não está na força, mas na verdade! “ (Tolstoi) – Cortado pela Censura

A Censura durou ininterruptamente 48 anos da ditadura. A PIDE e a polícia atacavam os corpos, a Censura atacava as cabeças. “Fazer” as cabeças necessita de tempo, poder, proibições, ameaças, violências diversas, matilhas de vigilância, medo e autocensura, mas “desfazê-las” é muito mais difícil. Isso significa que a “obra” da Censura ainda está connosco, sem reconhecermos a sua assinatura sinistra, o que a torna mais poderosa. A essa marca inconsciente de 48 anos, que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar, somam-se agora novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas também “de baixo”, do activismo político à esquerda e à direita, e das redes sociais. É por isso mesmo que falar e mostrar a Censura (na verdade um complexo de censuras para os livros, os periódicos, para a música, o teatro, os filmes, a publicidade, tudo o que podia mexer com as cabeças) é a melhor pedagogia cívica nos nossos dias.

A essa marca inconsciente que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar, somam-se agora novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas também “de baixo”, do activismo político à esquerda e à direita e das redes sociais

Na verdade, sendo a Censura poderosa pelo rastro de interditos e “inconveniências” que deixou – um exemplo recente é falar das crises estudantis dos anos 60-70 como se fossem apenas movimentos espontâneos de revolta, minimizando o papel decisivo das organizações políticas clandestinas, o PCP e os grupos esquerdistas, acabando por as “despartidarizar” como se o papel dos partidos “manchasse” o valor dos eventos –, é também a mais fácil de denunciar, quando se vai à sua realidade. E isso significa ir muito para além da acção contra o explícito político, e ter uma concepção holística da Censura.

É o que, integrado nas comemorações de Abril da Câmara Municipal de Lisboa e com o seu apoio, a exposição que será inaugurada na próxima semana em Lisboa com materiais das censuras do Arquivo Ephemera vai tentar fazer. A exposição estará no Edifício do Diário de Notícias, por debaixo das grandes pinturas murais de Almada, incluindo a que ilustra este artigo. A sua citação titular é de Salazar, um activo mentor e legitimador da Censura, mas duas frases, entre milhares produzidas de 1926 a 1974, retratam a “obra” da Censura e pouco importa sobre que livros ou autores foram escritas:

“parece que o autor esteve em qualquer vila, ou aldeia, e escolheu para protagonista do seu romance a família mais asquerosa do povoado”

“as obras destes autores não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões óbvias”

As “razões óbvias” explicam tudo. Visitemos o arranque e a moldagem da Censura nos anos 30 que a fez como existiu até 1974. O conflito entre a Itália e a Etiópia não podia ser comentado, porque isso era “propaganda antifascista”, do mesmo modo que não se podiam fazer “referências menos respeitosas para com o Chefe do Governo Alemão”, Adolfo Hitler. Aliás, condenar a invasão da Etiópia era proibido por “antibelicismo”. Como “propaganda inconveniente” eram cortadas as referências a “António José da Silva (O Judeu)” queimado pela Inquisição. Duarte Nuno de Bragança não podia ser identificado como pretendente ao trono português, mas a restauração da monarquia na Grécia era cuidadosamente protegida de dichotes.

Corrupção não havia e as negociatas da Sociedade dos Açúcares eram “cortadas totalmente”. Em Espanha podia-se falar de “escândalos”, por cá não. Violências também não, o país tinha “brandos costumes”. Por exemplo, não se podia saber que em Peniche um “motim”, provocado por protestos contra a prisão de pescadores que pescavam com dinamite, teve dois mortos. Violência sobre as mulheres, infanticídio, aborto, pedofilia, violações – tudo cortado.

A religião era intocável e a Censura escondia dezenas de conflitos anticlericais. A queixa de um missionário sobre as dificuldades de ensinar a doutrina cristã aos indígenas, porque estes consideravam que as histórias de “Criador que rege o céu a terra” eram da mesma natureza das suas histórias com “leões, hienas e chacais” – subversivo.

Falar do analfabetismo no exército era antimilitarismo. Falar da lepra em Portugal? Proibido, porque era “assunto fechado”. Um jornalista estivera preso num local com muitos ratos – corte total. A tuberculose como “doença social” era perigosíssima para os censores: não bastavam sanatórios, mas ter vida “sem fome” – corte total. Não podia haver queixas sobre o “caríssimo” serviço telefónico, sobre a falta de assistência aos pescadores do bacalhau na Terra Nova, etc.

Suicídios, como se sabe, não havia. Era um país propício a quedas em poços e a acidentes com armas de fogo. Uma “figura popular” teve um misterioso “desaparecimento” (expressão muito usada para os suicídios) – corte total “por se depreender que é suicídio”. Um tenente em Penacova fez um desfalque e matou-se – corte total. A Greta Garbo chinesa, a atriz Ruan Lingyu que se suicidara em 1935, era objecto de uma atenção detalhada da censura, que suprimia com vigor as “doentias sugestões”.

A moral e os bons costumes eram, junto com a subversão, real ou imaginada, e o desrespeito o núcleo duro da acção da Censura. E nisso os censores, muitas vezes tratados como pouco inteligentes e ainda menos cultos e “burros” no sentido popular do termo, eram mesmo bons.

Não se podia saber que em Évora uma rapariga tinha desaparecido da “casa da família”, coisa assaz inconveniente. Umas “quadras em que se canta o amor prostituído, totalmente cortadas por imorais”. Uma “versalhada para fadistas” cortada “por porca” …

Quarenta e oito anos assim. O Portugal que aparece nos cortes das censuras não era o Portugal que existia. Esse os portugueses não o podiam conhecer. Alguns saudosistas de Salazar e alguns neo-saudosistas actuais, que arranjam mil pretextos para legitimar a ditadura, lavando-a das suas violências para diminuir a democracia, têm nesta matéria um osso duro de roer. Eles sabem disso, eles sabem como foi, mas fazem de conta.