Relato da ambição mais inútil e masoquista
jamais concedida na história das ilhas
Todos podemos concordar que vamos ficar um
pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer, se vale a pena
fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Eis os dias do ‘Brexit’
TEXTO IAN MCEWAN ESCRITOR, VENCEDOR DO BOOKER PRIZE E
AUTOR, ENTRE OUTROS, DO ROMANCE “A BARATA”, SOBRE O ‘BREXIT’
Está feito. Triunfo da negociação
persistente por May e a seguir, brevemente, por Johnson cumpriu a ambição mais
inútil e masoquista jamais concebida na história destas ilhas. O resto do
mundo, à exceção dos Presidentes Putin e Trump, olhou com espanto e
consternação. Em dezembro, uma maioria votou em partidos que apoiavam um
segundo referendo. Mas esses partidos, lamentavelmente, não conseguiram unir-se
numa causa única. Devemos arrumar as nossas tendas, talvez ao som dos sinos da
igreja, e esperar pelo começo de uma caminhada difícil de regresso até algo
semelhante aonde estávamos ontem, com os nossos múltiplos acordos comerciais, a
cooperação científica, na saúde e na segurança e mil outros arranjos úteis.
A única certeza é de que vamos continuar a
fazer-nos perguntas durante muito tempo. Esqueçamos de momento as mentiras do
“Vote Leave”, o financiamento suspeito, o envolvimento russo ou a Comissão
Eleitoral permissiva. Em vez disso, consideremos o pó mágico. Como é que um
assunto de consequências tão importantes a nível constitucional, económico e
cultural foi decidido por um voto de maioria simples e não por uma
supermaioria? Um documento parlamentar (v. Briefing 07212) por alturas da lei
de 2015 sobre o referendo dá uma pista: o referendo era meramente consultivo.
“Permite ao eleitorado exprimir uma opinião.” Como é que ‘consultivo’ se
transformou em ‘vinculativo’? Através desse pó que populistas à direita e à
esquerda nos atiraram para os olhos, impedindo-nos de ver.
Sofremos uma cumplicidade entorpecedora
entre Governo e oposição. A porta de saída da Europa foi mantida aberta por
Corbyn, e Johnson atravessou-a. Neste caso, indo suficientemente para a
esquerda, encontrava-se e abraçava-se a direita que vinha na direção oposta.
O que aprendemos na nossa cegueira? Que
quem não florescia dentro do statu quo não
tinha uma boa razão para votar nele; que o nosso prolongado caos parlamentar
derivou de uma pergunta sim-não mal formulada, para a qual havia uma data de
respostas; que a ecologia longamente desenvolvida da UE moldou profundamente a
flora da paisagem da nossa nação, e arrancar essas plantas vai ser brutal; que
aquilo que em tempos se chamava um ‘Brexit’ duro tornou-se suave em contraste
com o não-acordo que mesmo agora persiste; que qualquer forma de saída, segundo
a própria estimativa do Governo, encolherá a economia; que temos um dom para
divisões múltiplas e azedas — jovens contra velhos, cidades contra o campo,
licenciados contra os que deixam cedo a escola, Escócia e Irlanda do Norte
contra Inglaterra e Gales; que todos os tratados ou acordos comerciais
internacionais passados, presentes e futuros são um compromisso da soberania,
tal como o é a nossa assinatura nos Acordos de Paris ou a nossa participação na
NATO, e, portanto, o “Take Back Control” (retome o controlo) foi a promessa
mais vazia e triste desta lamentável temporada.
Surpreendemo-nos a nós mesmos. Há uns
anos, se nos pedissem para enumerar os males da nação — desigualdades de
riqueza, SNS doente, desequilíbrio norte-sul, crime, terrorismo, austeridade,
crise da habitação, etc. — não teria ocorrido à maioria de nós incluir o facto
de sermos membros da UE. Nessa altura não pensávamos em Bruxelas. O que nos fez
começar foi, na famosa expressão de Guy Verhofstadt, uma “luta de gatos” dentro
do Partido Conservador. Esses gatos andavam à bulha uns com os outros desde há
décadas. Quando nos arrastaram para dentro dessa luta e nos obrigaram a
escolher um lado, tivemos um colapso nervoso coletivo; e depois um número
suficiente de pessoas queria que a angústia desaparecesse e “fazer o ‘Brexit’”.
Repetido ad nauseam pelo primeiro-ministro, parecia quase
indelicado perguntar porquê.
Nos dias iniciais da campanha do
referendo, percebemos que “à porta” tinha que ver com migração; mas também
percebemos que foi decisão do Reino Unido, não da UE, permitir migração
ilimitada dos nossos Estados-membros antes de os sete anos de transição
chegarem ao fim; foi por opção do Reino Unido que se permitiu aos migrantes da
UE permanecerem mais de seis meses sem um emprego; foi o Reino Unido que fez
campanha com sucesso para alargar a UE a leste; é o Reino Unido, não a UE, que
deixa a migração de fora da UE continuar (e porque não?) enquanto a migração da
UE diminui. Também ficámos a saber que foi o Reino Unido, não a UE, que
preferiu passaportes castanhos em lugar do patriótico azul. Embora, quando
olho, os meus velhos passaportes parecem quase pretos.
Vão de carro desde a
Grécia até à Suécia, desde Portugal à Hungria. Cada Estado-nação profundo é
orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum sinal de estar sujeito à
bota de Bruxelas
Há bastante injustiça histórica no Estado
britânico, mas muito pouco dessa injustiça deriva da UE. Bruxelas não insistiu
para negligenciarmos as cidades pós-industriais das Midlands e do Norte; ou
exigiu que deixássemos os ordenados estagnar, ou permitiu pagamentos
multimilionários aos CEO de companhias falidas, ou privilegiou o valor para os
acionistas em detrimento do bem social, ou arrasou os nossos serviços de saúde,
a nossa assistência social e o nosso Sure Start, ou fechou 600 esquadras e
deixou o tecido das nossas escolas públicas degradar-se.
Coube à campanha do ‘Brexit’ persuadir o
eleitorado de que fora assim. Tiveram êxito no referendo com 37%, o suficiente
para transformar o nosso destino coletivo durante pelo menos uma geração.
Convencer um número suficiente de pessoas de que a fonte de todas as suas
queixas reside nalgum elemento exterior hostil é o truque mais antigo do manual
populista. Tal como Trotsky para Estaline, os EUA para os mullahs do Irão e Gulen para Erdogan, Bruxelas
serviu na sua vez.
Donos de fundos de risco, plutocratas
doadores para a causa, etonianos e proprietários de jornais assumiram-se como
inimigos da elite. Mais pó mágico. A afirmação de que a questão da Irlanda do
Norte foi resolvida é um fingimento perigoso. Assistimos ao desprestigiar da
argumentação razoável. O impulso do ‘Brexit’ tinha fortes elementos de terra e
solo, com traços de nostalgia do Império. Essas saudades inquietantes flutuaram
bem acima dos meros factos.
Adquirimos um calão. “Artigo 50”,
“comércio sem fricção”, “mesmo a tempo”, “o backstop” — como
eles escorregavam pela língua. Aprendemos a respeitar uma “fronteira
invisível”. Antes de tudo começar, só uns poucos conheciam a diferença entre a
União Alfandegária e o Mercado Único. Três anos depois, as coisas não mudaram
assim tanto. O ano passado, uma sondagem mostrou que muitos de nós pensavam que
“cair para fora” era o mesmo que ficar. Antes fosse.
A liderança do ‘Brexit’ e o líder da
oposição estavam sempre com pressa de começar a contagem decrescente de dois
anos do artigo 50. Receavam que os votantes do ‘Leave’ mudassem de ideias, que
os que não tinham votado da última vez fossem 2:1 a favor de ficar, e que os
jovens que iam votar pela primeira vez fossem largamente pró-UE. Os generais do
‘Brexit’ temiam, com razão, um segundo referendo.
No mínimo, todos podemos concordar que
vamos ficar um pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer,
se vale a pena fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Theresa May nunca foi
capaz de dizer que o ‘Brexit’ nos deixaria melhores. Nem sequer disse que, num
segundo referendo, votaria para sair. Devemos reconhecer a sua honestidade. Por
contraste, Boris Johnson, ao apresentar a sua visão ‘pós-Brexit’ no Parlamento,
prometeu diminuir o fosso de riqueza e oportunidade entre o norte e o sul, e
torná-lo o centro da tecnologia de baterias avançadas. Esqueceu-se de referir
que a UE jamais se opôs a nenhum desses projetos.
Redefinir as nossas novas relações
comerciais com a UE vai-nos preocupar durante anos. Quanto à posição dos EUA,
dê um longo passeio no Midwest americano e passará um mês num deserto de
monoculturas, sem uma flor selvagem à vista. Para concorrer, a nossa própria
agricultura terá de acolher a hormona hipodérmica. Os nossos agricultores terão
de se livrar de sebes ineficientes, árvores demarcadoras de fronteiras e
margens de campo com três metros — tudo peças de museu. Em negociações
comerciais com a UE, os EUA jamais contemplaram padrões mais elevados de
cultivo ou criação de animais, padrões alimentares e proteção ambiental, embora
isso lhes tivesse dado acesso a 500 milhões de consumidores. As corporações
agropecuárias americanas não vão mudar os seus hábitos por causa de uma nação
de apenas 65 milhões. Se queremos um acordo, nós é que vamos ter de baixar a
fasquia.
Pressentimos danos e diminuição à nossa
frente. Num mundo perigoso cheio de ‘homens fortes’ a falar alto, a UE era a
nossa melhor esperança de uma comunidade de nações aberta, tolerante, livre e
pacífica. Com movimentos populistas a assolar a Europa, essas expectativas já
estão ameaçadas. A nossa saída enfraquecerá a resistência à tendência xenófoba.
A lição da história do nosso país neste último século é clara: tumultos na
Europa continental arrastam-nos para conflitos sangrentos. O nacionalismo
raramente é um projeto de paz. Nem se preocupa em conter as alterações
climáticas. Prefere deixar as florestas tropicais e o mato australiano arderem.
Vão de carro desde a Grécia até à Suécia,
desde Portugal à Hungria. Não levem o passaporte. Que rico e vibrante molho de
civilizações — na comida, nas maneiras, na arquitetura, na linguagem. Cada
estado-nação profundo é orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum
sinal de estar sujeito à bota de Bruxelas. Nada daquela sensação de
uniformidade comercial sombria que há nos EUA continentais. Pensem em tudo o
que aprenderam sobre o estado ruinoso e desesperado da Europa em 1945, e
contemplem um estupendo feito económico, político e cultural: paz, fronteiras
abertas, relativa prosperidade, e o encorajamento dos direitos individuais, da
tolerância e da liberdade de expressão. Até ontem, isto era onde os nossos
filhos adultos iam à vontade para viver e trabalhar.
Acabou, e para já a Força está com o
nacionalismo inglês. O seu paladino é o Governo ‘Vote Leave’ de Johnson, cujo
monumento será para sempre um tipo especial de expressão cínica, apurada nos
dias da velha União Soviética. Estou a mentir, vocês sabem que estou a mentir e
eu sei que vocês sabem e estou-me nas tintas. Como em “A prorrogação do Parlamento
durante cinco semanas nada tem a ver com o ‘Brexit’”. Michael Gove e Jacob
Rees-Mogg foram mestres do sorriso trocista. O juízo inconveniente do Supremo
Tribunal de que essa prorrogação era ilegal ainda irrita. Recentemente, o
ex-ministro do Interior, Michael Howard, foi mandado murmurar contra os juízes.
Exercer controlo político contra um judiciário independente seria coerente com
o projeto Johnson-Cummings. Viktor Orbán da Hungria ilumina o caminho.
Os remainers esperavam
um mundo mais simpático, mas fomos sempre os herbívoros neste debate, com as
nossas marchas enormes, bem-dispostas e muito criticadas — “uma multidão cheia
de ódio”, disse “The Sun”; “uma elite”, segundo o “Daily Telegraph”. Se 16
milhões de remainers são uma elite, então
devemos alegrar-nos por o Reino Unido ser um modelo de meritocracia.
Na verdade, fomos os deixados para trás.
Pela graça de Corbyn e dos seus sombrios lugares-tenentes, não tivemos voz
efetiva no Parlamento. No seu primeiro dia como primeira-ministra, Theresa May
prometeu à porta do Nº 10 que governaria para todos nós. Em vez disso, atirou
metade do país aos cães para apaziguar a ala direita do seu partido. À partida,
a elevação de Boris Johnson foi decidida por um eleitorado minúsculo de
constituintes idosos, cuja maioria disse nas sondagens que gostava que Donald
Trump governasse a Grã-Bretanha e que ansiavam pelo regresso do enforcamento.
Num espírito similar, Johnson descobriu frescas profundidades de vulgaridade
populista quando falou de usar forquilhas para retirar das costas da nação o
demónio da UE. Agora realizou o seu sonho.
Quanto aos extremos marginais, nós jamais
esfaqueámos e matámos um deputado brexiteer na
rua; só raramente tendemos a enviar ameaças anónimas de morte e violação como
as que chegaram tão abundantemente a Gina Miller, Anna Soubry e muitas
deputadas. Porém, os e-mails antissemitas
de dentro do Partido Trabalhista foram uma desgraça. Como o foram as turbas a
gozar à porta de Jacob Rees-Mogg. Mas nós não exortámos maliciosamente os
nossos compatriotas a amotinarem-se no caso de um segundo referendo dar um
resultado contra nós. Quase dois terços do eleitorado não votaram para sair; a
maioria dos empresários e dos sindicatos, da agricultura, da ciência, da
finança e das artes era contra o projeto do ‘Brexit’; três quartos dos
deputados votaram para ficar. Mas os nossos representantes ignoraram o
interesse público evidente e esconderam-se atrás de cabalas partidárias e de “o
povo falou” — essa deprimente locução soviética — seguido pelo “façam o
Brexit’”, esse pó mágico que enevoou a mente, cegando a razão e diminuindo as
perspetivas para os nossos filhos.
Tradução Luís
M. Faria, Revista E, Expresso, 08 de Fevereiro de 2020.