sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020


                                          Manoel de Povos


Caso Marega: um outro olhar
Depois de se ter lido e relido opiniões sobre o «caso Marega», artigos jornalísticos, comentários televisivos e redes sociais – por especialistas ou tudólogos - resta acrescentar uma visão do comportamento humano face ao ocorrido e não se ficar apenas com as opiniões em defesa ou ataque, tenham elas ou não cores clubísticas, sejam elas em consonância ou não com a opinião dominante, com o politicamente correcto.

Segundo Malcolm Gladwell, no seu livro «Blink, somos na maioria das situações cognitivamente racistas. Racismo inculcado por decisões espontâneas ao conviver com este tipo de casos de maneira inconsciente. E as decisões que são tomadas rapidamente, como foi o caso, podem ser tão «certas» como as decisões tomadas com cautela e deliberação. O curioso é que podemos aprender a pensar desta última forma, como também podemos fazer melhores avaliações instantâneas.

As avaliações instantâneas do comportamento do Marega – se foi ele foi primeiramente insultado ou se foi ele o provocador ao festejar o golo e correr para a bancada vimaranense, apontando com o dedo a cor da sua pele – ocorreu por trás de uma «porta trancada». Porta esta que é guardada no nosso inconsciente e que se solta logo quando activada. Por isso, neste caso, as decisões podem ser aleatórias ou incoerentes.

O inconsciente age, segundo Gladwell, como um «mordomo intelectual». Este, toma conta de todos os aspectos mentais menores da nossa vida. Coloca etiquetas em tudo o que acontece à nossa volta e certifica-se de que agimos como deve ser, deixando-nos livres para nos concentrarmo-nos no principal problema que precisa de ser resolvido. Isto é, o que motivou o comportamento do Marega ao abandonar o relvado tem posições contrárias: as que a defendem, as que a acusam ou as que a desculpabilizam.    

Serão todos os que insultaram ou os que os defendem – mesmo com argumentos similares de outros jogadores ou de outras situações - totalmente racistas? Claro que o são. É a explicação mais radical para o que aconteceu.

Alguns «analistas» mantêm a opinião primeira e, mesmo contra todas as evidências, chegaram a uma conclusão em que, na realidade, deixaram de pensar. Tudo serve para justificar aquilo que estava no seu inconsciente, na sua porta fechada.

A discriminação inconsciente é um pouco difícil de alterar. Se uma coisa ocorre fora da nossa consciência, como é que a vamos mudar? E o racismo não se confina apenas à cor da pele, pode-o ser por tribalismo étnico ou político. As emoções negativas têm a ver com o desprezo ou aversão, pela rejeição total de uma pessoa da «sua» comunidade. Quantas pessoas que afirmam (e acreditam) categoricamente que não são racistas, chamam, em publico ou em privado, de «monhé» ao nosso Primeiro Ministro?

Será necessário mais do que um simples compromisso com a igualdade. Que, quando quisermos colocar etiquetas, não sejamos traídos pela nossa hesitação ou por aquilo que é «estranho». E se nos apercebermos disso, só não mudamos porque não queremos mesmo. Aceitar a situação – por convicção, com mais ou menos desculpas ou explicações mirabolantes – é ser racista.

A sociologia indica como estigma a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena, como é exemplo a mentalidade racista. Na identidade social, o individuo estigmatizado frusta as expectativas da «normalidade» da sociedade em que se insere.

E muitos estigmatizados, sabemos bem, desenvolvem estratégias de encobrimento, de maneira a garantir ao máximo uma vida normal. Moussa Marega, no Afonso Henriques, não!

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Manoel de Povos


A Nova Desordem Liberal e Mental Internacional

Está tudo do avesso. Olhemos lá para fora. Olhemos para o que passa fora do nosso quintal, pois no nosso não há respostas que nos sosseguem. E o que vemos? Um vácuo num horizonte sem fim. Um vácuo semelhante ao nosso, com as respectivas proporcionalidades, é claro. Avistamos, como cá, um desejo de um passado. Uma nostalgia que é sempre irreal e enganadora.

A Oeste, um Trump tuitado dos miolos a prometer o «Make America Great Again», esquecendo-se - ou a querer fazer esquecer - que a grande indústria americana já não volta e que os mercados são ultravoláteis, que o perigo já não só mora em determinado sítio e que, como tudo o resto, está globalizado. A Leste, Putin, com os seus oligarcas de ocasião e de estimação, a querer recuperar o grandioso império czarista. A Oriente, a elite chinesa redescobriu a sua herança imperial e confuciana como substituta, mais na economia, da duvidosa herança marxista importada do Ocidente.

Na Índia, na Turquia, na Polónia, entre outros, a nostalgia chocalha entre o apego nacionalista e as tradições religiosas. Os fundamentalistas «brexistas» sonham em retornar a uma Grã-Bretanha potencialmente independente, como se vivessem ainda no tempo da Rainha Vitória. Orgulhosamente sós (onde já se ouviu isto?!), uma bolha, como se não estivéssemos no tempo da internet, do mercado e do aquecimento global.

Mas tudo isto nada parecido com as fantasias nostálgicas e extremas do Médio Oriente. Com os islamitas a quererem copiar o sistema estabelecido há mais de mil e quatrocentos anos pelo profeta Maomé. E, por outro lado, os judeus fundamentalistas de Israel ainda vão mais longe no tempo. Sonham com o regresso de dois mil e quinhentos anos, até aos tempos bíblicos e expandir as suas fronteiras para as de Israel Bíblica. E ambos não olham a meios.

Perante tudo isto, nós, comuns mortais, andamos à beira de uma apoplexia social. E não entendemos bem o que se passa. Tudo foge ao nosso controlo e à nossa percepção. E não temos boias e muito menos âncoras para nos agarrarmos. Andamos à bolina ou, ainda pior, à deriva num mar encapelado.

Somos tratados como supérfluos, não contamos, verdadeiramente, para «eles», reis da manipulação de passagem, numa desordem, democrática (tem dias), assente numa teia de corrupção nunca vista, ou não antes escrutinada, num ambiente tentadoramente apocalíptico que nós, os vivos, nunca assistimos.

Perde-se a fé em doutrinas que davam certezas. Nostálgicos regressamos também, consoantes as idades e as ideologias de cada um, às «certezas», salazarentas, aos sóis adaptados que nunca brilharam ou aos jogos do «mata», do berlinde ou do pião. Estamos pessimistas, até porque o pessimista tem mais prestígio intelectual do que o optimista. Aliás, um diagnóstico é tão mais acreditado quanto mais negativo o seja.

O populismo ou a desestatização neoliberal querem agora, mais do que nunca, vingar. E vincar épocas douradas da nossa História. Seja pelo regresso aos bons velhos tempos, com roupagem contrafeita, seja pela individualização purista, pelo empreendedorismo, pela meritocracia.

Surgem, perante o caos mental, os «fazedores de felicidade». Os gurus que nos ensinam que o problema está dentro de nós. O Eu torna-se determinante. Tudo pode estar mal à nossa volta, mas se nós, por dentro, qual ilha mental, podemos e devemos conseguir atingir a nossa própria felicidade. A incerteza, a tristeza, a «moral em baixo» podem ser resolvidas. Apesar das desigualdades sociais ou por elas existirem, todos podemos chegar ao topo. Disciplina mental, acreditar, resiliência, torna tudo possível.

A psicologia tradicional, moribunda, renasceu com os «positivos». A felicidade está ao virar da esquina. Se os psicólogos positivos explicam «cientificamente», como chegar à felicidade, o que dizer dos milhões de livros de auto-ajuda que se vendem como mel mundo afora. E o best-seller, «O Segredo» vendeu 19 milhões de cópias em todo o mundo, e também foi traduzido para outros 44 idiomas. Aproveitando esta onda dos milhões, vieram também a terreno psiquiatras, psicanalistas, psicoterapeutas. Tudo «psi».

É verdade que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e que a fortuna mundial está apenas nos «cofres» de uns poucos. Mas isso, para o caso, não interessa. Paciência, resiliência e outras «ências» podem-nos fazer felizes. E, milagre: podemos até ser pobres. É só querer. Se a cenoura da felicidade se afastar, aceleremos o passo, corremos atrás dela, e os mais esforçados conseguirão apanhá-la. Mas rapidamente ela se esvai porque se transmuda num ápice. Não buscámos a verdadeira, a real, a genuína, a imortal. Por isso, bora lá outra vez. Um, dois, três … partida.

Povos, 15 de Fevereiro de 2020


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


Um vírus contra a bazófia

Anos a fio discutimos o poder dos seres humanos sobre a natureza, o modo como modificam o clima e as condições de vida, ou devastam a natureza e as florestas, ou extinguem espécies inteiras. Até que num local remoto surge um minúsculo ser, apenas detetado por microscópios, e ameaça-nos a vida, a economia, enfim tudo aquilo que nos fez construir e destruir “coisas belas”, como cantou Caetano Veloso. Esse ser minúsculo cresce, multiplica-se, divide-se, viaja de avião e de barco, graças ao ser humano. Distanciemo-nos um pouco, para poder ver toda a cena, e reparemos que não deixa de ser irónica.

Desde que, em meados do séc. XIX, Louis Pasteur (notável cientista francês cujo nome ficou imortalizado nos alimentos pasteurizados) propôs a teoria microbiana das doenças, afirmando que as nossas maleitas se deviam a “algum tipo de vida diminuta” que se multiplica no organismo doente e, por vezes, se transmite e contamina outro, que sabemos da nossa vulnerabilidade. Uma espécie de kryptonite do Super-Homem. Sim, conseguimos tudo, damos cabo de tudo, como o herói da banda desenhada, mas somos afetados por um pequeno ser agora batizado por COVID-19 (de Corona Vírus 2019) com uma sequência genética constituído por várias moléculas. Algo que deveria ser simples destruirmos, mas não conseguimos, como mostram as nossas vastas e comprovadas capacidades para a destruição.
Os especialistas dizem que conseguirão uma vacina, mas mesmo assim demorarão meses ou mais de um ano a encontrá-la. Há esperanças em que o fenómeno viral esteja na sua curva descendente, mas não há certezas. Se queremos aprender como se trabalha em rede, poderemos aprender com os vírus; se queremos aprender como se resiste e se adaptam organismos a novas condições, os vírus ensinam-nos; assim como se pode fugir a uma arma letal (recordemos o vírus HIV, de cuja vacina andamos à procura há quase 40 anos e apesar de progressos notáveis na contenção da doença e na sua minoração e aumento brutal de esperança de vida dos pacientes, não conseguimos a cura). Sim, o pequeno vírus é uma arma também contra a bazófia de um ser humano que a cada momento pensa que sabe tudo e que o passado, mais do que um país estrangeiro, é algo que jamais nos revisitará.
Vejam as notícias: quarentena, cidades isoladas de onde ninguém entra e sai, ameaças de crise económica, mais de um milhar de mortos, por enquanto, e casos diagnosticados em 27 países diferentes, tudo isto provocado por algo que terá uns milionésimos de milímetro de tamanho (ou nanomícrons, ou 0,000 000 001 de milímetro). Uma coisa assim é uma peste medieval combatida com meios modernos, mas cuja eficácia advém sobretudo de meios muito antigos, e repito-os: quarentena, cidades isoladas, impossibilidade de comércio.
Todos os especialistas concordam numa coisa: um dia teremos um surto epidémico que cobrará centenas de milhares ou mesmo milhões de vida. Se é o COVID-19 ou não, ninguém pode saber. Mas que a ameaça é real, ninguém duvida.
Se não servir para mais nada, que daqui retiremos conclusões contra a arrogância, a pesporrência, a bazófia dos Homens. Sim, somos bem-sucedidos como espécie, mas não estamos sós no planeta nem somos invulneráveis. Bem pelo contrário: em certos casos, podemos não passar de agentes de outros seres que têm a mesma estratégia de todos os seres: sobreviver e aumentar em número. No fim, aquilo que sabemos dos livros sagrados: crescer e multiplicar-se.
Henrique Monteiro, «Chamem-me o que quiserem», Expresso, 12 de fevereiro de 2020

domingo, 9 de fevereiro de 2020


Relato da ambição mais inútil e masoquista jamais concedida na história das ilhas

Todos podemos concordar que vamos ficar um pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer, se vale a pena fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Eis os dias do ‘Brexit’


TEXTO IAN MCEWAN ESCRITOR, VENCEDOR DO BOOKER PRIZE E AUTOR, ENTRE OUTROS, DO ROMANCE “A BARATA”, SOBRE O ‘BREXIT’

Está feito. Triunfo da negociação persistente por May e a seguir, brevemente, por Johnson cumpriu a ambição mais inútil e masoquista jamais concebida na história destas ilhas. O resto do mundo, à exceção dos Presidentes Putin e Trump, olhou com espanto e consternação. Em dezembro, uma maioria votou em partidos que apoiavam um segundo referendo. Mas esses partidos, lamentavelmente, não conseguiram unir-se numa causa única. Devemos arrumar as nossas tendas, talvez ao som dos sinos da igreja, e esperar pelo começo de uma caminhada difícil de regresso até algo semelhante aonde estávamos ontem, com os nossos múltiplos acordos comerciais, a cooperação científica, na saúde e na segurança e mil outros arranjos úteis.

A única certeza é de que vamos continuar a fazer-nos perguntas durante muito tempo. Esqueçamos de momento as mentiras do “Vote Leave”, o financiamento suspeito, o envolvimento russo ou a Comissão Eleitoral permissiva. Em vez disso, consideremos o pó mágico. Como é que um assunto de consequências tão importantes a nível constitucional, económico e cultural foi decidido por um voto de maioria simples e não por uma supermaioria? Um documento parlamentar (v. Briefing 07212) por alturas da lei de 2015 sobre o referendo dá uma pista: o referendo era meramente consultivo. “Permite ao eleitorado exprimir uma opinião.” Como é que ‘consultivo’ se transformou em ‘vinculativo’? Através desse pó que populistas à direita e à esquerda nos atiraram para os olhos, impedindo-nos de ver.

Sofremos uma cumplicidade entorpecedora entre Governo e oposição. A porta de saída da Europa foi mantida aberta por Corbyn, e Johnson atravessou-a. Neste caso, indo suficientemente para a esquerda, encontrava-se e abraçava-se a direita que vinha na direção oposta.

O que aprendemos na nossa cegueira? Que quem não florescia dentro do statu quo não tinha uma boa razão para votar nele; que o nosso prolongado caos parlamentar derivou de uma pergunta sim-não mal formulada, para a qual havia uma data de respostas; que a ecologia longamente desenvolvida da UE moldou profundamente a flora da paisagem da nossa nação, e arrancar essas plantas vai ser brutal; que aquilo que em tempos se chamava um ‘Brexit’ duro tornou-se suave em contraste com o não-acordo que mesmo agora persiste; que qualquer forma de saída, segundo a própria estimativa do Governo, encolherá a economia; que temos um dom para divisões múltiplas e azedas — jovens contra velhos, cidades contra o campo, licenciados contra os que deixam cedo a escola, Escócia e Irlanda do Norte contra Inglaterra e Gales; que todos os tratados ou acordos comerciais internacionais passados, presentes e futuros são um compromisso da soberania, tal como o é a nossa assinatura nos Acordos de Paris ou a nossa participação na NATO, e, portanto, o “Take Back Control” (retome o controlo) foi a promessa mais vazia e triste desta lamentável temporada.

Surpreendemo-nos a nós mesmos. Há uns anos, se nos pedissem para enumerar os males da nação — desigualdades de riqueza, SNS doente, desequilíbrio norte-sul, crime, terrorismo, austeridade, crise da habitação, etc. — não teria ocorrido à maioria de nós incluir o facto de sermos membros da UE. Nessa altura não pensávamos em Bruxelas. O que nos fez começar foi, na famosa expressão de Guy Verhofstadt, uma “luta de gatos” dentro do Partido Conservador. Esses gatos andavam à bulha uns com os outros desde há décadas. Quando nos arrastaram para dentro dessa luta e nos obrigaram a escolher um lado, tivemos um colapso nervoso coletivo; e depois um número suficiente de pessoas queria que a angústia desaparecesse e “fazer o ‘Brexit’”. Repetido ad nauseam pelo primeiro-ministro, parecia quase indelicado perguntar porquê.

Nos dias iniciais da campanha do referendo, percebemos que “à porta” tinha que ver com migração; mas também percebemos que foi decisão do Reino Unido, não da UE, permitir migração ilimitada dos nossos Estados-membros antes de os sete anos de transição chegarem ao fim; foi por opção do Reino Unido que se permitiu aos migrantes da UE permanecerem mais de seis meses sem um emprego; foi o Reino Unido que fez campanha com sucesso para alargar a UE a leste; é o Reino Unido, não a UE, que deixa a migração de fora da UE continuar (e porque não?) enquanto a migração da UE diminui. Também ficámos a saber que foi o Reino Unido, não a UE, que preferiu passaportes castanhos em lugar do patriótico azul. Embora, quando olho, os meus velhos passaportes parecem quase pretos.

Vão de carro desde a Grécia até à Suécia, desde Portugal à Hungria. Cada Estado-nação profundo é orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum sinal de estar sujeito à bota de Bruxelas

Há bastante injustiça histórica no Estado britânico, mas muito pouco dessa injustiça deriva da UE. Bruxelas não insistiu para negligenciarmos as cidades pós-industriais das Midlands e do Norte; ou exigiu que deixássemos os ordenados estagnar, ou permitiu pagamentos multimilionários aos CEO de companhias falidas, ou privilegiou o valor para os acionistas em detrimento do bem social, ou arrasou os nossos serviços de saúde, a nossa assistência social e o nosso Sure Start, ou fechou 600 esquadras e deixou o tecido das nossas escolas públicas degradar-se.

Coube à campanha do ‘Brexit’ persuadir o eleitorado de que fora assim. Tiveram êxito no referendo com 37%, o suficiente para transformar o nosso destino coletivo durante pelo menos uma geração. Convencer um número suficiente de pessoas de que a fonte de todas as suas queixas reside nalgum elemento exterior hostil é o truque mais antigo do manual populista. Tal como Trotsky para Estaline, os EUA para os mullahs do Irão e Gulen para Erdogan, Bruxelas serviu na sua vez.

Donos de fundos de risco, plutocratas doadores para a causa, etonianos e proprietários de jornais assumiram-se como inimigos da elite. Mais pó mágico. A afirmação de que a questão da Irlanda do Norte foi resolvida é um fingimento perigoso. Assistimos ao desprestigiar da argumentação razoável. O impulso do ‘Brexit’ tinha fortes elementos de terra e solo, com traços de nostalgia do Império. Essas saudades inquietantes flutuaram bem acima dos meros factos.

Adquirimos um calão. “Artigo 50”, “comércio sem fricção”, “mesmo a tempo”, “o backstop” — como eles escorregavam pela língua. Aprendemos a respeitar uma “fronteira invisível”. Antes de tudo começar, só uns poucos conheciam a diferença entre a União Alfandegária e o Mercado Único. Três anos depois, as coisas não mudaram assim tanto. O ano passado, uma sondagem mostrou que muitos de nós pensavam que “cair para fora” era o mesmo que ficar. Antes fosse.

A liderança do ‘Brexit’ e o líder da oposição estavam sempre com pressa de começar a contagem decrescente de dois anos do artigo 50. Receavam que os votantes do ‘Leave’ mudassem de ideias, que os que não tinham votado da última vez fossem 2:1 a favor de ficar, e que os jovens que iam votar pela primeira vez fossem largamente pró-UE. Os generais do ‘Brexit’ temiam, com razão, um segundo referendo.

No mínimo, todos podemos concordar que vamos ficar um pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer, se vale a pena fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Theresa May nunca foi capaz de dizer que o ‘Brexit’ nos deixaria melhores. Nem sequer disse que, num segundo referendo, votaria para sair. Devemos reconhecer a sua honestidade. Por contraste, Boris Johnson, ao apresentar a sua visão ‘pós-Brexit’ no Parlamento, prometeu diminuir o fosso de riqueza e oportunidade entre o norte e o sul, e torná-lo o centro da tecnologia de baterias avançadas. Esqueceu-se de referir que a UE jamais se opôs a nenhum desses projetos.

Redefinir as nossas novas relações comerciais com a UE vai-nos preocupar durante anos. Quanto à posição dos EUA, dê um longo passeio no Midwest americano e passará um mês num deserto de monoculturas, sem uma flor selvagem à vista. Para concorrer, a nossa própria agricultura terá de acolher a hormona hipodérmica. Os nossos agricultores terão de se livrar de sebes ineficientes, árvores demarcadoras de fronteiras e margens de campo com três metros — tudo peças de museu. Em negociações comerciais com a UE, os EUA jamais contemplaram padrões mais elevados de cultivo ou criação de animais, padrões alimentares e proteção ambiental, embora isso lhes tivesse dado acesso a 500 milhões de consumidores. As corporações agropecuárias americanas não vão mudar os seus hábitos por causa de uma nação de apenas 65 milhões. Se queremos um acordo, nós é que vamos ter de baixar a fasquia.

Pressentimos danos e diminuição à nossa frente. Num mundo perigoso cheio de ‘homens fortes’ a falar alto, a UE era a nossa melhor esperança de uma comunidade de nações aberta, tolerante, livre e pacífica. Com movimentos populistas a assolar a Europa, essas expectativas já estão ameaçadas. A nossa saída enfraquecerá a resistência à tendência xenófoba. A lição da história do nosso país neste último século é clara: tumultos na Europa continental arrastam-nos para conflitos sangrentos. O nacionalismo raramente é um projeto de paz. Nem se preocupa em conter as alterações climáticas. Prefere deixar as florestas tropicais e o mato australiano arderem.

Vão de carro desde a Grécia até à Suécia, desde Portugal à Hungria. Não levem o passaporte. Que rico e vibrante molho de civilizações — na comida, nas maneiras, na arquitetura, na linguagem. Cada estado-nação profundo é orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum sinal de estar sujeito à bota de Bruxelas. Nada daquela sensação de uniformidade comercial sombria que há nos EUA continentais. Pensem em tudo o que aprenderam sobre o estado ruinoso e desesperado da Europa em 1945, e contemplem um estupendo feito económico, político e cultural: paz, fronteiras abertas, relativa prosperidade, e o encorajamento dos direitos individuais, da tolerância e da liberdade de expressão. Até ontem, isto era onde os nossos filhos adultos iam à vontade para viver e trabalhar.

Acabou, e para já a Força está com o nacionalismo inglês. O seu paladino é o Governo ‘Vote Leave’ de Johnson, cujo monumento será para sempre um tipo especial de expressão cínica, apurada nos dias da velha União Soviética. Estou a mentir, vocês sabem que estou a mentir e eu sei que vocês sabem e estou-me nas tintas. Como em “A prorrogação do Parlamento durante cinco semanas nada tem a ver com o ‘Brexit’”. Michael Gove e Jacob Rees-Mogg foram mestres do sorriso trocista. O juízo inconveniente do Supremo Tribunal de que essa prorrogação era ilegal ainda irrita. Recentemente, o ex-ministro do Interior, Michael Howard, foi mandado murmurar contra os juízes. Exercer controlo político contra um judiciário independente seria coerente com o projeto Johnson-Cummings. Viktor Orbán da Hungria ilumina o caminho.

Os remainers esperavam um mundo mais simpático, mas fomos sempre os herbívoros neste debate, com as nossas marchas enormes, bem-dispostas e muito criticadas — “uma multidão cheia de ódio”, disse “The Sun”; “uma elite”, segundo o “Daily Telegraph”. Se 16 milhões de remainers são uma elite, então devemos alegrar-nos por o Reino Unido ser um modelo de meritocracia.

Na verdade, fomos os deixados para trás. Pela graça de Corbyn e dos seus sombrios lugares-tenentes, não tivemos voz efetiva no Parlamento. No seu primeiro dia como primeira-ministra, Theresa May prometeu à porta do Nº 10 que governaria para todos nós. Em vez disso, atirou metade do país aos cães para apaziguar a ala direita do seu partido. À partida, a elevação de Boris Johnson foi decidida por um eleitorado minúsculo de constituintes idosos, cuja maioria disse nas sondagens que gostava que Donald Trump governasse a Grã-Bretanha e que ansiavam pelo regresso do enforcamento. Num espírito similar, Johnson descobriu frescas profundidades de vulgaridade populista quando falou de usar forquilhas para retirar das costas da nação o demónio da UE. Agora rea­lizou o seu sonho.

Quanto aos extremos marginais, nós jamais esfaqueámos e matámos um deputado brexiteer na rua; só raramente tendemos a enviar ameaças anónimas de morte e violação como as que chegaram tão abundantemente a Gina Miller, Anna Soubry e muitas deputadas. Porém, os e-mails antissemitas de dentro do Partido Trabalhista foram uma desgraça. Como o foram as turbas a gozar à porta de Jacob Rees-Mogg. Mas nós não exortámos maliciosamente os nossos compatriotas a amotinarem-se no caso de um segundo referendo dar um resultado contra nós. Quase dois terços do eleitorado não votaram para sair; a maioria dos empresários e dos sindicatos, da agricultura, da ciência, da finança e das artes era contra o projeto do ‘Brexit’; três quartos dos deputados votaram para ficar. Mas os nossos representantes ignoraram o interesse público evidente e esconderam-se atrás de cabalas partidárias e de “o povo falou” — essa deprimente locução soviética — seguido pelo “façam o Brexit’”, esse pó mágico que enevoou a mente, cegando a razão e diminuindo as perspetivas para os nossos filhos.

Tradução Luís M. Faria, Revista E, Expresso, 08 de Fevereiro de 2020. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Manuel Carvalho

O “bota-abaixo” ao vivo na Assembleia

Se se compreende que o PCP faça tudo o que estiver ao seu alcance para beneficiar uma ligação a Loures, onde reina, custa a entender o que leva o PSD a definir a obra como um “carrossel para turistas”, quando um sistema circular é banal em qualquer linha de metro da Europa.

Os deputados da oposição mostraram ao país uma faceta que seguramente ninguém conhecia: o seu profundo conhecimento sobre as artes da mobilidade urbana e a sua infinita sabedoria sobre os segredos das obras do metro na capital. De repente, de surpresa, diferentes propostas foram aprovadas em bloco para obrigar o Governo a suspender a construção da designada “linha circular” do metro de Lisboa, entre o Cais Sodré e o Rato, ou para forçar o estudo ou a execução de soluções complementares para Alcântara ou Loures. Sem aviso prévio, fazendo tábua rasa do debate público em torno de opções que quer o Governo, quer a administração do metro, quer a Câmara de Lisboa defendem, o PSD encabeçou o movimento e forçou o congelamento da obra.

Se se compreende que o PCP faça tudo o que estiver ao seu alcance para beneficiar uma ligação a Loures, onde reina, custa a entender o que leva o PSD a definir a obra como um “carrossel para turistas”, quando um sistema circular é banal em qualquer linha de metro da Europa. Mais: não se entende como podem o PAN ou os Verdes embarcar nestas aventuras que congelam durante anos o avanço da rede de transportes públicos. Ou o que pretende o Bloco com esta súbita intransigência em apoiar tudo o que desgaste o Governo. Melhor, percebe-se: há um clima na Assembleia cada vez mais arredado do compromisso e do consenso – a história do IVA da electricidade pode correr muito mal.  

No caso, o que está em causa não é saber se a linha circular é boa ou má. Ou se Loures ou Alcântara deveriam ficar à frente. Nem sequer questionar se é uma prioridade num país onde os comboios gastam tanto tempo a ligar as duas principais cidades do país como o velho Foguete nos anos de 1950. O que esta balbúrdia “partizan” põe em causa é um processo e uma lógica inerente à concretização de opções políticas. Uma obra que é discutida em público, que recebe pareceres, que tem de obedecer a estudos de viabilidade e a uma declaração de impacte ambiental não deve ser travada quando já está em fase de concurso. O Parlamento não é nem pode ser o derradeiro fiscal de obras do regime e os deputados não podem usar escolhas políticas legítimas, mesmo que contestáveis, mesmo que apenas defendidas pelo PS, como alvos para desgastar o Governo. Usar o expediente da recomendação para meter o metro na gaveta é um recurso do “bota-abaixo” que Rui Rio jurou não usar como recurso na oposição.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020




Ainda teremos razões para ser otimistas?

Gostaria de iniciar este texto com um tema mais ameno. Mas o que fazer, se o ano de 2020 começa com presságios inquietantes e perturbadores? Conforme os indícios inaugurais do novo ano, parece que a mística dos anos capicua não passa disso mesmo: mística. Crendice. Razão ingénua e talvez inútil.
Outros autores, neste e em outros jornais de todo o mundo, expressaram o mesmo ou idêntico mal estar durante os primeiros dias do ano. A maka (quando é que esta palavra originariamente angolana será registada no vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, como tantas outras já o foram, há séculos?) não são os factos ou ocorrências registadas nos últimos anos, do aquecimento global às guerras persistentes, ao terrorismo e à escolha democrática de líderes autoritários, para dizer o mínimo (coisa que, é bom recordar, já tinha acontecido com Hitler). É, principalmente, e para resumir, a falta de perspetivas e de lideranças à altura dos desafios do século XXI.
Viriato Soromenho-Marques, no seu texto publicado aqui no passado dia 18 de Janeiro deste ano, queixou-se, precisamente, da atual ausência de "visões de mundo", isto é, reflexões globais e estruturadas (ideológicas, acrescentaria eu) acerca das causas e dos meios para superar os complexos desafios contemporâneos. Para ele, isso deve-se ao desaparecimento dos últimos grandes pensadores europeus.
Não posso deixar de observar que essa aparente incapacidade de pensar globalmente os desafios do nosso tempo e, sobretudo, o(s) modo(s) de enfrentá-los como que deita por terra as expectativas geradas a partir de meado dos anos 80 do século passado acerca das possibilidades da comunicação - simultaneamente entendida como desenvolvimento das respetivas tecnologias e como informação - funcionar como um meio propiciador da liberação e, sobretudo, da convivência e comunhão da humanidade. Ao invés disso, parece que regressamos, não à Idade Média, como previa Eco, mas, pior do que isso, ao mundo tribal.
Para o brasileiro Muniz Sodré, considerado um dos maiores teóricos da comunicação do mundo - e que, por isso, deveria ser mais conhecido em todo o espaço de língua portuguesa -, assistimos, neste momento em que o improvável é cada vez mais possível, à emergência daquilo a que ele chama a sociedade incivil, isto é, "um ordenamento humano regido por tecnologias de comunicação e solidário à desestabilização das formas consensuais de representação do mundo".
Ele não tem dúvidas: - "Em meio à notável expansão tecnológica dos dispositivos, é crescente o défice humano de compreensão mútua". Assim, enquanto a liberdade de expressão, um dos conceitos essenciais da democracia, se converte cada vez mais numa espécie de "psitacismo" e de fala robótica, outro, o civilismo (negociação pública de diferenças, cooperação, solidariedade, discernimento crítico e empatia), praticamente desaparece, sendo substituído pelo vácuo institucional.
Na verdade, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação esconde, sob a sua aura promissora e redentora, uma realidade que parece concretizar a profecia de G. Orwell: o agravamento da hegemonia do capitalismo financeiro e a instauração da cultura algorítmica e do biopoder tecnológico.
Acontece que, devido à desconstrução dos laços representativos entre povo e Estado, a reação (ou ajustamento?) a essa nova ordem ainda em constituição está a acontecer, como se pode ver com o Brexit, a eleição de Trump, a ascensão de Bolsonaro e o fenómeno dos "coletes amarelos" em França, para citar apenas estes exemplos, de maneira fragmentária, disruptiva e depressiva, em que o ódio joga um papel cada vez mais central.
Temos, pois, poucas razões para ser otimistas.
João Melo, 01 fevereiro 2020

sábado, 1 de fevereiro de 2020


Ainda não tinha completado 3 anos, já a menina Isabelinha andava ao graveto. Ia para a campo, onde apanhava os raminhos que os seus bracitos frágeis permitiam, a fim de vendê-los aos que queriam aquecer a casa ou cozinhar. Porém, uma vez que estávamos em África, ela — que segundo uma amiga era bonita, inteligente, esperta, vivaça — cedo percebeu que não dava lucro vender lenha para lareiras em climas tropicais. Foi assim que, ainda não tinha 4 anos, decidiu mudar de ramo, de tronco e de galho.

Como sempre acontecia quando se deparava com um problema, aconselhava-se com o pai. O pai da menina, que a aconselhara a andar ao graveto, explicou-lhe que o graveto era outro: o que está nas carteiras dos pobres, nas contas bancárias dos remediados e nos fundos de investimento dos milionários. Esse era graveto que valia a pena em qualquer clima. Nomeadamente, naquele país, sacar o graveto das carteiras, das contas e dos fundos era algo que não aquecia nem arrefecia.
Com menos de 7 anos, Isabelinha tinha criado a primeira conta offshore e uma esplanada de praia. Com isso, embora a esplanada não desse assim tanto graveto, começou a pôr dinheiro na conta, dizendo que vinha da esplanada, e fez constar, com obras esplendorosas contratadas a grandes empreiteiros de um pequeno país europeu, que o negócio corria de feição. Aos 9 anos já tinha uma operadora de telemóveis e uma operadora de caixa na esplanada, além de muitos mais sabores nos gelados do que o número de ricos que não eram da sua família. Isabelinha ficou contente por constatar que a sua esperteza, vivacidade, inteligência e jeito para os negócios era uma coisa que lhe estava no sangue, porque, em matéria de graveto, não havia melhor do que o pai, os irmãos e aqueles tios todos de nome estranho que eram generais e coisas assim importantes.

Reconfortada com tais pensamentos, com 10 anos e picos comprou um banco e aumentou a esplanada de praia com mais duas mesas. Fez uma festa enorme, onde apareceram imensos banqueiros, consultores, advogados e jornalistas, todos prontos a admirar a sua vivacidade e capacidade de prever onde estava o próximo negócio rentável. Mas ela era tímida e não gostava de aparecer. Porque o pai também lhe tinha explicado que quem anda ao graveto não deve expor-se, pois caso o faça outras pessoas podem reparar como é fácil ganhar uns cobres e antecipam-se, podendo até tornar-se violentas nas disputas territoriais pelos locais com mais graveto.
Por isso, Isabelinha não era de aparecer muito, embora fosse muito bondosa, porque fazia bem sem olhar a quem. Por exemplo, os consultores eram vários e concorrentes entre si, assim como os escritórios de advogados, e nunca houve qualquer confusão. “Chega para todos, se formos devidamente organizados”, dizia Isabelinha ainda na verdura dos seus 14 anos. Foi, pois, sem surpresa que ela, aos 18, quando atingiu a maioridade, se revelou multimilionária. O pai deu-lhe um pequeno presente para ela brincar, acho que uma petrolífera, e ela comprou um pequeno iate de 95 metros e um avião particular de 200 lugares, com sauna e piscina aquecida, além de 27 palácios espalhados pelo mundo. A esplanada de praia, que entretanto se transformara num bairro chique que tivera como dano colateral inevitável o despejo de uns pobres — que não eram vivazes, nem espertos, nem inteligentes, nem da família e que só serviam para dar o graveto a quem sabia tratar dele —, continuava a ser, no entanto, o seu negócio preferido.
E tudo parecia correr bem, para um final feliz. Porém, os finais felizes só existem nos contos infantis e para aqueles que acreditam na ressurreição dos mortos. Por isso, começaram-se a juntar contra Isabelinha vozes de inveja, de maledicência. Os bancos, dominados pelos brancos (caso contrário, seriam petos), numa demonstração de racismo, quiseram saber de onde vinha a fortuna, sobretudo depois de terem lucrado bué com ela. E não acreditaram que vinha do graveto que, com esforço e uns tiros, o pai ganhara e ela ajudara a apanhar e da esplanada de praia. Hoje em dia, Isabelinha é uma rapariga triste e incompreendida. De tal modo que recorreu à agência para que os incompreendidos, como Trump, se voltam. Os amigos das festas desapareceram! Tem um mandado de busca! É revoltante! A culpa é do capitalismo, do Soros, dos corruptos e dos invejosos. E aqui estou eu a defendê-la a troco de nada, ou quase. Bastou uma mera esplanada de praia que a boa Isabelinha me ofereceu.
Comendador Marques de Correia, Revista E, Expresso, 01 de fevereiro de 2020