segunda-feira, 25 de maio de 2020

Frases do desmaio e … des-con-fi-na-das


25ºDia

«Apoiar a luta de um trabalhador que exige melhores condições de vida e de trabalho é o mesmo que apoiar um melhor serviço por ele prestado. No caso dos enfermeiros levamos uma grande lição. De “bestas” passaram a “bestiais” esperemos que o que o futuro nos reserva não nos faça mudar, mais uma vez, de opinião.» Rui Gualdino Cardoso

«É que a segunda parte do “é capaz de ser...” é “...mas não deve ser”. É conveniente que assim seja. Sabe bem sonhar “2020 é capaz de ser o ano em que eu vou ficar rico” mas só se o “mas não deve ser” não ficar muito atrás, para fazer os preparativos para a inevitável desilusão.» Miguel esteves Cardoso

«Imagine-se o que teria acontecido ao ensino-aprendizagem se a universidade não dispusesse de plataformas digitais quando se iniciou o estado de emergência! Portanto, desconsiderar o ensino online é olhar para o passado em vez de se olhar para o presente e para o futuro.» Abel J. P. Gomes

«É óbvio que não podemos viver para sempre com medo do vírus, é óbvio que temos de começar a sair, a ir trabalhar, a ir para a escola, a ir aos barbeiros e cabeleireiros, a ir comprar livros ou a ir comer ao restaurante, mas também é óbvio que não podemos deixar ninguém para trás, seja nesta fase de pandemia, seja numa altura normal. Neste momento, infelizmente, não é isso que está a acontecer.» Gonçalo Angeiras

«O povo diz, na sua grande sabedoria, que só se reza a Santa Bárbara quando troveja. O povo tem razão, porque passada a tormenta já ninguém bate palmas aos enfermeiros, já ninguém quer saber daqueles que o que tinham e o que não tinham, que se expuseram à doença de uma forma altruísta e com espírito de missão.» Rui Gualdino Cardoso

«A Alemanha, como aqui já referi na última semana, quer avançar com esta medida de forma permanente.  O Twitter pensa em soluções de teletrabalho para sempre. São sinais de mudança. Sinais a que se juntam a decisão da Nova Zelândia, de pensar em semanas de trabalho de apenas 4 dias.» Diogo Agostinho

«Nos últimos meses, o país provou que sabe viver sem medo das palavras. Em vez de aprender essa notável lição, o Governo dispensa-a e tenta regressar à política normal, talvez com o intuito de acalmar as hostes e limpar com seda uma realidade rugosa. É um erro.» Manuel Carvalho

«Parece, a avaliar pela resposta nacional ao aumento das temperaturas, imediatamente exemplificada nas televisões pelos mais altos dignitários da nação, que, mais do que barbearias, cabeleireiros, lojas de bairro, médias superfícies comerciais, etc., a prioridade patrioteira passou a ser ir à praia.» João Gonçalves

«… faz sentido, nos tempos que correm, gabinetes enormes para uma pessoa estar sentada em frente ao computador? Ou fará mais sentido a existência de espaços de cowork, com salas de reunião, com regime de agendamento prévio? … Nem abusos, nem laxismos. De todos. Trabalhadores e patrões. Liberdade, significa sempre responsabilidade. …estes modelos significam apostar e reconhecer o que todas as Empresas e Serviços Públicos têm de mais valioso: os seus recursos humanos, as pessoas que fazem girar a engrenagem.» Diogo Agostinho

«Especial atenção aos adolescentes com história de perturbação de ansiedade ou sintomas, para os quais a situação de pandemia pode ser um ativador ou um fator de manutenção dos sintomas.» Rita Castanheira Alves

«Dos organizadores de eventos às quintas, passando pelo vestuário e maquilhagem, a indústria dos casamentos move milhões por ano. O arranque de 2020, com a pandemia, não é promissor.» Rute Cardoso

«Mas a pandemia pôs a nu outros privilegiados para além dos bancos - os proprietários dos alojamentos locais! É o que se depreende do programa Porto com Sentido que Rui Moreira, com o apoio do PS, aprovou para salvar o alojamento local na cidade. … De facto, a Câmara vai alugar alojamentos locais e, depois, subarrenda-os àquilo a que chama "classe média". Na verdade, os apoios não serão dados às famílias, mas sim aos proprietários de alojamentos locais, independentemente de estes serem pequenos ou grandes proprietários, de terem recuperado fogos devolutos ou terem expulsado os seus antigos arrendatários.» Rui Sá

«Há quem continue sem contactos sociais, evitando a todo o custo lojas, praias e parques. E quem se exponha a transportes públicos, às ruas, a locais de trabalho cheios de gente … A nova normalidade não é só a ausência de beijos e abraços. A nova normalidade é um país com mais gente desprotegida e a passar dificuldades. E esta é uma lição à qual ninguém pode fechar os olhos.» Inês Cardoso

domingo, 24 de maio de 2020

Frases do desmaio e … vacínicas

24º Dia

«E a vacina da pobreza é para quando?» Vítor Belanciano

«As vacinas são simples em princípio, mas complexas na prática. … Mais de 30 anos depois que os cientistas isolaram o HIV, o vírus causador da Sida, não temos vacina. O vírus da dengue foi identificado em 1943, mas a primeira vacina foi aprovada apenas no ano passado e, mesmo assim, ainda com a preocupação de piorar a infecção nalgumas pessoas. A vacina mais rápida, já desenvolvida, foi a da papeira. Demorou quatro anos.» Ian Sample

«O vento que enfunava o conspiracionismo antivacinas perdeu força com o drama da covid-19, e mesmo André Ventura vem agora assegurar que até vacinou a coelha de estimação.» Francisco Louça

«Se formos forçados a escolher uma vacina que oferece apenas um ano de proteção, estamos fadados a fazer com que o Covid se torne endémico, uma infecção que estará sempre connosco.» Larry Brilliant

«A todo o texto subjaz a velha ideia de que "a pressa é inimiga da perfeição", como quem acredita que nos vão vacinar com uma coisa feita em cima do joelho, como aqueles TPC de geografia que fazíamos nos primeiros 30 segundos da aula, enquanto o professor ditava o sumário. A rematar, pode ler-se qualquer coisa como isto: "no entanto, se uma pessoa maior de idade desejar ser vacinada, e vacinar os seus filhos, isso é com ela".» Joana Marques

«Ele [estudo sobre vacinados pela BCG] fornece "mais evidências a favor da existência de uma memória de imunidade inata”, o que explicaria "os prolongados efeitos benéficos do BCG contra doenças respiratórias". E contra o Covid-19? Resposta em seis a doze meses.» Florence Rosier

«Uma equipa internacional de investigadores propõe um confinamento de 50 dias seguido de 30 dias de relaxamento das medidas restritivas. … “um número significativo de novas infeções e mortes poderá ser evitado se estas medidas rotativas puderem ser mantidas durante um período de 18 meses” ou até uma vacina ser disponibilizada, defendem os investigadores.» Hélder Gomes

«Saltámos do confinamento e do medo, para o desconfinamento e a incerteza durável, enquanto no horizonte vinga a ideia de que só estaremos a salvo quando uma vacina surgir numa qualquer manhã de nevoeiro.» Vítor Belanciano

sábado, 23 de maio de 2020

Frases do desmaio e ... presidencialistas

23º Dia

«Também Ana Gomes é cada vez mais candidata. Como escrevi neste espaço, em 15 de Fevereiro, “Ana Gomes pode resolver problemas a António Costa”, como baixar um resultado quilométrico de Marcelo Rebelo de Sousa, mas também não deixar a esquerda do PS fugir para a abstenção ou para o voto nos mais que prováveis candidatos a apresentar pelo BE e pelo PCP. Poderá, assim, evitar à esquerda o que poderá acontecer à direita, com parte do eleitorado do CDS e do PSD a sentir-se atraído para votar em André Ventura.» São José Almeida

«Com ironia qb: Alberto João Jardim: “Não vejo como Rui Rio iria, perante o país e como líder da oposição, apoiar o candidato do Partido Socialista”. (in observador).» Vítor M. Trigo

«E agora, senhoras e senhores, António Costa, o primeiro-ministro que se viu envolvido numa embrulhada … fugiu ao tema Novo Banco, obrigou os críticos internos a saltar da toca e teve ainda o mérito de conseguir dividir ainda mais o centro-direita. Já que PSD e CDS continuam cheios de dúvidas existenciais sobre o atual Presidente, Costa jogou na antecipação, começando a capitalizar para si uma eventual vitória de Marcelo nas presidenciais de 2021.» Anselmo Crespo

«Marcelo fez toda a vida uma carreira de cínico lúdico, inócuo e pouco importante nas “gentes” dos jornais e nos comentários. Se lhe acrescentamos poder, não é a mesma coisa. Marcelo é muito mais autoritário do que se pensa, e o segundo mandato, com apoio do PS, vai dar-lhe ainda mais legitimidade, logo, poder. Faça-se a justiça de que Costa, melhor do que ninguém, sabe disso, mas, como Cavaco em 1991, é um pragmático e, se pode evitar um problema hoje, não o troca pelas dificuldades do futuro. A seu tempo, vai-se arrepender.» José Pacheco Pereira

«O centro-direita tem um dos seus na Presidência da República, tem poucas hipóteses de ir para o governo no curto prazo e tem as principais instituições ocupadas por socialistas, mas anda metido em conspirações a ver se arranja um candidato para enfraquecer Marcelo Rebelo de Sousa. Se isto não é a coisa mais estúpida que se pode fazer, anda lá muito perto.» Pedro Marques Lopes

«Para Rodrigo Moita de Deus, consultor de comunicação, nas presidenciais os outros candidatos terão de seguir o “método marceliano” … Em Portugal, as redes sociais foram até agora “um instrumentozinho”. Mas isso vai mudar …» Liliana Coelho

«Nunca haverá outro tabu presidencial como o de Cavaco Silva no já longínquo ano de 1995 … A ex-eurodeputada Ana Gomes indignou-se com os modos de um anúncio que devia ser solene e deixou no ar a possibilidade de se candidatar à presidência para contrariar já não o tabu mas o inquebrável tandem entre os dois palácios que nos governam. Eis o facto: se avançar com uma candidatura, Ana Gomes será apenas a quinta mulher a fazê-lo.» Bruno Vieira Amaral

«Durante a semana, não houve movimentações da ala mais à esquerda do PS ou de pesos pesados do partido a alimentar um momentum para Ana Gomes … o BE não quer abdicar de marcar um espaço próprio na corrida a Belém, mesmo que isso signifique arriscar ir contra uma candidatura de Ana Gomes … Uma recandidatura de Marisa … um mau resultado poderia comprometer a possibilidade de suceder a Catarina Martins … ficar atrás do populista do Chega não é currículo que algum concorrente a Belém queira …» Liliana Valente e Mariana Lima Cunha

«A decisão sobre as presidenciais, seja ela qual for, será tomada em breve. E o futuro político começará a ser planeado a partir daí … De resto, os sinais que Mesquita Nunes foi recebendo apontam noutro sentido: o país vai enfrentar uma crise económica e social sem precedentes; e a direita, pelo menos a que não se sente representada nas atuais direções do PSD ou CDS, terá de se organizar em torno de um projeto político que encontre respostas e um programa alternativo, federador. Adolfo podia ser um protagonista nesse movimento.» Miguel Santos Carrapatoso

«E as presidenciais. A romaria das presidenciais é o nosso momento zen, como se diz agora. Está ralado com a vida? Pense nas presidenciais … O que seria de nós sem as presidenciais.» Clara Ferreira Alves


«Ana Gomes … Enfrenta António Costa e responde ao apoio que este fez à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República, pondo em cima da mesa a hipótese da sua própria candidatura.» Alexandra Carita



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Não seja como os economistas



Os economistas são ótimos a propor soluções fantásticas, pelo menos dentro de um quadro teórico, que têm um defeito: são politicamente inexequíveis. Lembram-se de quando, em 2012, Vítor Gaspar propôs que se baixasse a TSU para as empresas, aumentando a dos trabalhadores? Era uma solução mágica que resolvia três problemas: (1) baixavam os custos das empresas, o que levava a um aumento da competitividade externa, (2) reduziam-se os custos de trabalho, combatendo o desemprego, e (3) resolvia-se a inconstitucionalidade dos cortes dos salários dos funcionários públicos. O principal problema desta brilhantíssima proposta? Era politicamente impossível. O povo saiu à rua e não o permitiu. Numa semana, o PSD deu um trambolhão de 34 para 20% nas sondagens. Não ganhou mais nenhuma eleição até hoje.

Lembrei-me disso quando, na semana que passou, vi um economista no Twitter a propor que o próximo governador do Banco de Portugal fosse estrangeiro. Nem teria de saber falar português. Eu conheço o quadro teórico que leva a uma tal proposta: se queremos alguém competente e independente, sem ligações ao poder político, nada mais fácil do que ir buscar um estrangeiro. O facto de ser completamente irrealista admitir que alguma vez isso seria aceite é um pormenor.

Vem isto a propósito de me aperceber de que cada vez mais pessoas, ao ver que a pandemia em Portugal não foi tão má como isso, consideram um erro o confinamento decretado em meados de março e terminado no início de maio.

Não me entendam mal, houve demasiado unanimismo na opinião publicada. Foi pena que vozes como a de Jorge Torgal fossem varridas do espaço público — conto escrever sobre isso. Podemos e devemos aprender com o que fizemos aqui, com o que se fez na Suécia, Reino Unido, Espanha, etc. Todo esse debate é útil para o desconfinamento e pode ser fundamental caso tenhamos de enfrentar novas investidas do coronavírus. Mas uma coisa é querer discutir o passado para tirar lições para o futuro; outra é avaliar as políticas de há dois meses com base em informação que apenas agora é conhecida.

Em março, fomos bombardeados com reportagens assustadoras vindas de Itália. Tivemos Matteo Renzi, ex primeiro-ministro italiano, a dar entrevistas em que apelava a que não cometêssemos os mesmos erros de Itália. Muitos pais deixaram de levar as crianças à escola. Muitos fecharam-se em casa. O nosso Presidente fechou-se em casa em autoquarentena. Os autarcas andavam maluquinhos. Por exemplo aqui em Braga a Câmara, reconhecendo não ter autoridade para encerrar comércio e serviços, fez-se valer da competência para definir os horários. Decidiu que as lojas apenas podiam estar abertas entre as 9h e as 9h01min da manhã. Um minuto por dia, portanto. Ainda assim, no meio de toda esta irracionalidade, o primeiro-ministro não quis o primeiro estado de emergência. Foi-lhe imposto por Marcelo Rebelo de Sousa, que foi com a maré da opinião pública.

Acusar o Governo de ter imposto um lockdown excessivo é absurdo. Pelo contrário, o mérito do Governo foi o de ter resistido a impor o confinamento mais agressivo que tantos exigiam. Dentro do exequível, o Governo foi o mais moderado que era possível. Não seja como os economistas, essa discussão é improdutiva. O tempo não volta para trás. O que temos de discutir é o presente e o futuro.

Faz sentido mandar as pessoas para a rua e que ao mesmo tempo a polícia as tire dos areais das praias? Se houver nova vaga, como fazemos? Mandamos os alunos de volta para casa? Dedicamos todo o SNS a esta doença, adiando milhares de consultas, operações, exames e diagnósticos? Vamos fazer como a Suécia? Nesse caso, temos de apostar em aumentar a capacidade dos hospitais. O que está a ser feito quanto a isso?

LUÍS AGUIAR-CONRARIA


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Museu do Neorrealismo de Vila Franca de Xira



A 40 minutos de Lisboa, temos de fazer uma visita indispensável. A cidade de Vila Franca de Xira alberga o Museu do Neorrealismo. É um museu, inédito em toda a Península, que põe em destaque esta grande corrente cultural, literária e artística tão essencialmente portuguesa. O museu, de arquitetura moderna, tem linhas limpas e um tamanho acolhedor. Há que estar atento às suas exposições, pois além de serem sempre interessantes, são muito cuidadas, são impecáveis e são acompanhadas de um conjunto crítico importante; o museu conta, além do mais, com um arquivo, centro de documentação e uma biblioteca especializada. Foi memorável uma exposição sobre o pintor brasileiro Cândido Portinari, assim como a dedicada a Fernando Namora. Agora, está instalada uma exposição de Rui Filipe, fechada por causa da pandemia, mas que talvez possamos ver quando acabem ou sejam aliviadas as medidas de confinamento.

Aquilo a que se chama a família artística e literária do neorrealismo surge no final dos anos 30 do século passado. Entre os seus expoentes estavam Carlos de Oliveira, o próprio Alves Redol, vila-franquense que deixou nos seus romances o testemunho do campo ribatejano de há 100 anos e a quem é dedicado o museu, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, o escritor e crítico de arte Mário Dionísio e muitos outros.

Para a moda e o cânone atuais o realismo parece algo datado, mas todos os romances são datados, pois pertencem a um tempo e um espaço dados ("datado é qualquer escritor, na medida em que somente pode refletir as experiências do seu tempo"), disse Celso Cruzeiro. Os neorrealistas são por vezes despachados sumariamente como escritores militantes, cuja denúncia social parecia ser o primordial. Foram inclusivamente associados ao comunismo - alguns pertenceram, com efeito, ao PCP -, pretendendo assim desvalorizá-los, o que é notoriamente injusto pois estes escritores foram um marco na literatura meio-amordaçada da época. Com uma escrita depurada e uma grande cultura, deixaram-nos uma obra considerável e interessante. Como é natural, acontecia serem homens de esquerda e, portanto, molestados e perseguidos pelo Estado Novo. Mas era preciso esquivar-se à censura e isso, como se sabe, aguça a criatividade, as canetas e os pincéis. Muitas das suas obras lemo-las hoje com prazer, além de com interesse, pois são de uma plasticidade e de um relevo, de um contraste pouco comuns. Os personagens, as circunstâncias, os lugares e paisagens são o puro Portugal de então, e, às vezes, até de agora.

Não eram intelectuais contemplativos, mas antes o testemunho vivo do seu tempo, de um Portugal onde viviam, trabalhavam e partilhavam as dores e as esperanças do povo. Um Portugal que não terminava no Chiado nem nos salões nem nas tertúlias literárias, um Portugal que não era snob. Nas suas páginas ouve-se o barulho de fundo do país. Felizmente, o Museu do Neorrealismo devolve-nos esses escritores e artistas que escreveram "para a sua época e sobre a sua época"; passada esta, parece que é como se já não fossem necessários. E, no entanto, são indispensáveis para conhecer e para compreender melhor o Portugal do século XX, como o continuam a ser Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco para o século XIX.

Gostaríamos que em Espanha houvesse um museu com estas características, pois houve uma grande tradição realista, e alguns dos seus mais recentes representantes, como Armando López Salinas, Jesús López Pacheco, Juan Eduardo Zúñiga ou Antonio Ferres- estes dois últimos recentemente falecidos -, deixaram uma obra interessante.

Na pintura de Rui Filipe, agora exposta, mas sem se poder ainda visitar, dominam aqueles cinzentos que seguramente aprendeu com Daniel Vásquez Díaz, o pintor espanhol de quem fora aluno e discípulo. Vásquez Díaz teve uma importante relação com Portugal (ele era originário da província fronteiriça de Huelva), e deixou alguns retratos singulares, como o do marechal Carmona, do grande historiador e médico Reinaldo dos Santos e o de Almada Negreiros, além de umas paisagens da Nazaré e de outros locais portugueses. Os cinzentos de Vásquez Díaz, como os de Rui Filipe, derivam claramente dessa maestria da cor que remonta a el Greco e a quem logo se seguiria Velásquez, meio português.

Em Vila Franca, além das touradas, da visita ao pequeno museu taurino Mário Coelho, do passeio pelo agradável parque junto ao Tejo, há também um grande espaço para exposições como o Celeiro da Patriarcal; em novembro passado tivemos ocasião de ver ali uma formidável exposição sobre as cheias de 1967, aquela catástrofe que, paradoxalmente, seria um despertar da consciência dos estudantes de medicina que chegaram como voluntários para colaborar na mitigação da catástrofe e descobriram como viviam muitos dos seus compatriotas a dois passos da capital. Uma cheia, como as que mencionava Redol, "e aí vinha o troar da cheia a persegui-lo".

Noutro dia, numa dessas viagens por que tanto ansiamos, seguiremos até Alpiarça, no Ribatejo, para visitar a Casa-Museu dos Patudos, a residência de José Relvas construída pelo grande arquiteto Raul Lino. Nessas terras da Lezíria imortalizadas por Alves Redol.

Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Abutres há muitos


A abjeta morte de Valentina revira-nos as tripas, como qualquer crime sobre uma criança, que antes de todos temos de proteger. Ainda mais quando o forte suspeito é o próprio pai. E é por ser especialmente revoltante e nos entregar a uma incontrolável náusea, que os mais sensatos respiram fundo antes de gritar. Porque este é, naturalmente, um momento em que a emoção se impõe à razão. Felizmente, as leis são abstratas. Não são feitas para nenhum criminoso com nome, para nenhuma vítima com rosto. E são assim porque a diferença entre a justiça e a vingança não é a ausência de sentimentos, é a vontade que a razão se imponha às emoções. Sabemos que é isso que nos salva do caos e da arbitrariedade de que todos, justos e pecadores, acabamos por ser vítimas.

Só uma sociedade plenamente convicta dos valores que lhe ofereceram previsibilidade, segurança e liberdade pode resistir à revolta e não ceder a sistemas penais que a História mostrou serem menos eficazes na luta contra o crime. E que têm sobre os nossos a enorme desvantagem de levar o Estado a assemelhar-se ao criminoso.

Se eu pedir prisão perpétua para o pai da Valentina poucos se vão opor. Se eu pedir a pena de morte dirão que é melhor, porque se poupa dinheiro. Se eu pedir a tortura acharão excelente, porque é um monstro. Se eu pedir o apedrejamento público, a forca, o desmembramento... Tudo será aceite e sem limite, porque nada parece ser suficiente perante a suspeita de um pai matar a sua própria filha, sobretudo nas condições que se descrevem. Cuidam que vingam alguma coisa, mas apenas cedem à ignomínia, acompanhando-a. Não foi a compaixão pelo criminoso que nos fez escolher outro caminho. Foi a compaixão por nós mesmos. A de não nos querermos assemelhar aos piores entre os piores de nós.

Podemos debater tudo, incluindo a pena de prisão perpétua (eu não debato a pena de morte, porque não reconheço a nenhum Estado ou pessoa o direito de assassinar). Mas temos de estar capazes de o fazer com base em argumentos, não apenas na fúria. Todos por vezes aproveitamos a emoção do outro para fazer passar um argumento. É irresistível. O adversário está mais frágil e o público mais disponível para nos ouvir. Mas a diferença entre as pessoas decentes e as outras é sempre a fronteira das coisas. O momento em que, sabendo que usamos o outro como instrumento, não o conseguimos fazer com o assassinato de uma criança para tentar mudar uma lei penal. Porque há momentos que são para emoção, não para a razão.

Poderão pensar que neste texto estou a falar do abutre residente, que se insurgia contra o populismo penal quando não precisava de votos e agora usa-o sem limites. Mas não é o único caso nem o mais grave. A juíza Clara Sottomayor, que em boa hora abandonou o Tribunal Constitucional, para onde tinha sido indicada pelo Bloco de Esquerda, e Dulce Rocha, uma das mais assombrosas desilusões que tive em toda a minha vida cívica, acompanharam este aproveitamento. Confundido guarda conjunta com o debate em curso sobre o regime de residência, quiserem transformar todos os pais homens em suspeitos potenciais da mais abjeta das monstruosidades. Apesar de não precisarmos de muito esforço para nos lembrarmos que o filicídio não tem género.

Só que o tema não tem qualquer relação com este caso. Partindo das notícias conhecidas, a menina estava a viver transitoriamente com o seu pai por causa da pandemia, e não por qualquer decisão de um tribunal: “Valentina vivia com a mãe no Bombarral, mas encontrava-se a passar um período mais longo do que habitual com o pai, por não ter escola, encerrada desde meados de março para evitar a propagação da covid-19. ‘A mãe tinha de trabalhar’, desabafa João Silvestre [tio-avô de Valentina]”. A utilização deste caso para discutir qualquer regime jurídico ou decisão judicial sobre a regulação de responsabilidades parentais ou residência habitual é, com base nos dados conhecidos, um aproveitamento descarado para uma agenda que, sendo legítima, não tem aqui cabimento.

Mais grave: a juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça Clara Sottomayor não hesitou em especular publicamente sobre o caso, imaginando o que podia ou não podia ter acontecido, o que teria sido ou não decidido por um juiz, que queixas teriam ou não existido, em direto e ao sabor do que as televisões iam dizendo. Como se fosse uma transeunte. Nada a distingue, no julgamento sumário feito nas redes sociais e na utilização do alarme geral para proveito de agendas legislativas, de André Ventura. Até é mais grave, porque Clara Sottomayor ataca tudo o que deve defender: presunção de inocência e direito a um julgamento baseado em factos, não em conjecturas. Para além, claro, do seu dever de reserva.

Por fim, a CMTV. Instalada em Atouguia da Baleia, Peniche, montou o circo macabro com que costuma garantir negócio. Não faltou nada. Das perguntas idiotas a familiares próximos e distantes às "postas de pescada" de vizinhos sedentos do seu minuto de fama, acrescentando zero de informação ao tema. Num desses momentos, foi o próprio jornalista, sentindo que as audiências podiam estar a fraquejar, que perguntou a um senhor se não achava que devia existir, naquele caso, “justiça popular”, acicatando o povo para o crime. No mesmo sentido, foram visitar a página da madrasta, também suspeita, relatando os insultos deixados pelos corajosos de teclado. O negócio da CMTV é este mesmo: usar os cadáveres para entreter o público.

São abutres todos os que tratam a morte de uma criança como uma oportunidade eleitoral ou comercial. Mas os suspeitos estão presos e a justiça não será feita pela CMTV, pelos linchadores das redes sociais, por alcoviteiros sedentos do seu bocadinho de fama, por políticos para quem a morte é um momento de campanha ou por magistradas que fazem julgamentos em comentários de Facebook. Será feita por juízes a sério, em tribunais legítimos e usando a lei que impede a arbitrariedade e o caos. Tudo o que nos faz ser diferentes dos assassinos de Valentina. Como sempre, a civilização contra a barbárie. A justiça contra criminosos e linchadores, que sempre se assemelharam.

Daniel Oliveira, Expresso, 13 de Maio de 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Qual o problema de darem o caneco ao FC Porto?

Cara

Bom dia,
Este é o seu Expresso Curto desta segunda-feira, 11 de Abril, a meio do primeiro período de desconfinamento, iniciado na última semana, e que nos próximos dias será avaliado, de forma a sabermos como e de que forma (e se) entramos no segundo período do mais bizarro regresso à normalidade de que há memória nas nossas vidas.

Há uns dias, dizia que já estava a ficar com saudades de ver futebol, embora tenha saudades zero das polémicas e quezílias e questiúnculas que tantas vezes rodeiam o desporto-rei por cá. Mas eu, seguramente como milhões de portugueses, querem voltar a ver a bola rolar.

Nas últimas semanas ficámos a saber que a ideia era que o campeonato voltasse logo no último fim de semana de maio, para que a dezena de jornadas restantes possam ser cumpridas, e assim ser encontrado um campeão.

E estávamos assim. Estávamos.

Primeiro foi a notícia de que havia vários jogadores testaram positivo na Alemanha. Logo pensei: e cá, vai acontecer o mesmo? Pois nos últimos dias as notícias não são encorajadoras, com casos confirmados no Famalicão, no Guimarães, no Moreirense e no Benfica.

E os árbitros têm previsto para hoje o regresso aos treinos.

A Direcção Geral de Saúde também já elaborou o plano, detalhado de 14 pontos, para a reabertura do futebol, com regras para os clubes e jogadores. E Graça Freitas deixou o alerta de que a situação pode mudar, se os casos se multiplicarem.

Se as coisas continuarem assim, dificilmente todos poderão continuar a assobiar para o lado.

Rui Santos já veio insurgir-se contra a voracidade em ver terminado o campeonato, sem que estejam garantidas todas as condições de segurança (neste caso para os participantes, já que adeptos sabemos que não existiriam em qualquer caso).

Tendo a concordar. Ainda precisamos de mais dados e mais informações. Mas talvez seja altura de se pensar a sério se faz mesmo sentido os jogadores dos clubes na primeira divisão estarem a treinar e a prepararem o regresso à competição, com colegas a continuar a testar positivo.

Como fazer então? Francamente só sei que não tenho certezas sobre o assunto. Mas já me chocou mais a adopção de uma solução como em França, em que o campeão foi decretado administrativamente. Era o clube que ia à frente quando tudo parou. Se for o caso, que se faça o mesmo em Portugal. Não me choca nada. Dêem a taça ao FC Porto.

Costumamos achar que o futebol é muito importante. Como já todos constatámos ao longo destes mais de dois meses, o futebol na verdade não tem importância nenhuma quando se trata de coisas que verdadeiramente são importantes.




sexta-feira, 1 de maio de 2020

Frases do desmaio

22º Dia

«Os evangélicos não gostaram de ser associados a nazis, os nazis não gostaram de ser associados a evangélicos, os nazis e os evangélicos não gostaram de ser associados a senhoras de cabelo azul e os consultores imobiliários ficaram com medo que as suas actividades nazis e/ou evangélicas prejudicassem o seu negócio de venda de imóveis.» Jovem Conservador de Direita

«A História recente demostrou que António Costa tem uma capacidade política invulgar. No caso das próximas presidenciais, só ele saberá os reais motivos sobre o timing do seu apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.» Lourenço Pereira Coutinho

«Neste ponto sobre o impacto da opção sexual de Adolfo Mesquita Nunes, António Costa Pinto diverge. "Não há dúvida de que se se candidatasse teria peso, sobretudo para alguns segmentos da direita liberal mais conservadores."» Paula Sá

«Entretanto, o mesmo Luís Figo que apoiou Sócrates participa numa manifestação do VOX espanhol. Cabeças de animais no relvado. Esta semana, numa extensa investigação jornalística, sabe-se algo mais sobre a trama de ligações da extrema-direita de Ventura aos lóbis evangélicos e ao fascismo luso. O regresso dos mortos-vivos vive a sua época de pleno esplendor nas mãos dos torcionários e revisionistas da História.» Miguel Guedes

«Mas até quando aguentamos um mundo de gente mascarada? … Não sabemos ainda, mas começamos a sentir que isto não se pode prolongar por muito tempo. A catástrofe está a tornar-se uma paródia e vamos todos acabar mortos de riso.» António Guerreiro

«Até que as mortes começaram a crescer. E a crescer. E a crescer. E a crescer. E não, não dá para negar as mortes. Não, não dá para dizer que as mortes são "uma metáfora". Mortes são mortes, ponto. De tanto gritar que vinha aí o lobo, os "trumpistas" não conseguiram mesmo perceber quando apareceu o lobo a sério. É no que dá quando se aceita o inaceitável e se prefere a mentira "sexy" e rápida.» Germano Almeida

21º Dia

«No governo de Bolsonaro, ou se é louco ou se é militar.» Daniel Oliveira

«Há poucos dias, somaram-se mais 850 milhões (mais 85 euros por cabeça). Mas não há problema, é tudo para devolver até 2046. É como o Pai Natal, sabemos que não existe, mas nem por isso deixamos de esperar por ele.» Rafael Barbosa

«Manuel Monteiro voltou ontem a ser militante de base do CDS. Ao ver o estado a que chegou o partido fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, Monteiro quase parece o general De Gaulle.» Luís Osório

«É ver quem mais corre para declarar apoio a Marcelo Rebelo de Sousa, potencial candidato a um segundo mandato. Nem se disfarça. António Costa resolveu peitar o professor na visita à Autoeuropa que, mascarado, só conseguiu rebolar os olhos. Ficaram sem hipótese os potenciais candidatos da sua área ideológica e atrasados os apoiantes naturais da área política de Marcelo (se é que a tem...).» Cristina Azevedo

«Um Serviço Nacional de Saúde público, universal, gratuito e bem apetrechado é uma condição de civilização. Depois das palmas, devemos acarinhá-lo e dotá-lo dos recursos adequados.» Alexandre Abreu

20ºDia

«Uma candidatura de Ana Gomes, que depois desta manifestação de disponibilidade pouca margem de recuo terá, vai ser um incómodo para o Presidente, uma maçada para o primeiro-ministro e uma dificuldade para André Ventura.» Vítor Matos

«O Expresso anunciou ontem que Aníbal Siva tem novo livro, sobre uma “experiência de social-democracia moderna”. Não se estranha a vocação literária tardia, o que maravilha é o facto de ter pensamento político e, quem diria, sobre a ‘social-democracia moderna’.» Carlos Esperança

«Nos últimos dias, através da força motriz que, mesmo com altos e baixos, sempre foi o eixo franco-alemão, terá ficado gizada uma possível resposta aos efeitos devastadores da pandemia, num tempo político global que já era de extrema complexidade. Uma vez mais, a Europa parece ter acordado à beira do precipício.» Francisco Seixas da Costa

«De resto, a direita vive em permanente estado de calamidade: é que estamos todos prestes, a minutos, de sermos engolidos pelo socialismo.» Maria João Marques

«Será curioso saber se a esquerda do PS se juntará a Francisco Assis, o primeiro a sugerir o nome da ex-eurodeputada, e se Ana Gomes conseguirá que a sua candidatura seja um espaço alargado de convergência a outros partidos de esquerda.» Amílcar Correia

«É de pasmar o que está a acontecer com o Novo Banco. Já não bastava o anúncio de que os senhores administradores não prescindiram de receber dois milhões de euros de prémios, agora sabemos também (notícia de Cristina Ferreira, no Público) que os salários dispararam 75 por cento nos últimos dois anos. Isto num cenário de perdas de 4 mil milhões de euros nos últimos três anos e da recente injeção de 850 milhões pelo Estado. António Ramalho é o presidente desta troupe. Uma imoralidade. Uma amoralidade.» Luís Osório

19º Dia

«Há 66 anos o abrutalhado tenente da GNR, Carrajola, ficou na memória dos portugueses por ter assassinado a tiro uma ceifeira analfabeta, mãe de três filhos, durante uma greve de assalariados rurais, quando esta resistia à repressão fascista. (…) Ser mulher, pobre, analfabeta e assalariada rural foi o ónus de milhares de portuguesas que sofreram a ditadura. Catarina morreu a combater com a intuição de que é preferível morrer lutando do que desistir e sobreviver na escravidão.» Carlos Esperança

«As pessoas não são de plasticina. Não se cria e tira o medo quando se quer. Só é possível tirar as pessoas de casa dando-lhes confiança e um discurso claro, responsável e coerente. Deste ponto de vista, a proposta do BE, de manter apoios a quem não queira pôr os seus filhos na creche, é irresponsável.» Daniel Oliveira

«Não sendo, de forma alguma, defensora do regime chinês – ​como, aliás, de qualquer regime autoritário –, não deixo, todavia, de interpretar esta avalanche de comentários e análises dos responsáveis das nossas democracias liberais como uma tentativa para esconder a sua própria incúria, não só face à antecipação de uma situação deste tipo, perfeitamente previsível…, mas também à sua gestão, caótica, irresponsável e opaca.» Cristina Semblano

«Indispensável para conter o risco de revolta iminente das populações, o confinamento destas últimas – sem equivalente na história da Humanidade e sem nenhuma outra justificação que não seja a falta de meios para adoptar as boas práticas – vai constituir um poderoso instrumento nas mãos dos poderes políticos neoliberais, permitindo-lhes mudar a responsabilidade de campo, ou seja, transpô-la do plano colectivo (político), onde efectivamente se encontra, para o plano individual, segundo o princípio basilar do neoliberalismo.» Cristina Semblano

«Cada cidadão é doravante responsável pelo que lhe vier a acontecer, com a agravante de que poderá também vir a ser responsável, com a sua atitude, pelo que vier a acontecer aos outros.» Cristina Semblano

«O Inimigo mudou de campo. Deixou de ser o Estado austeritário que cortou na saúde para dar às multinacionais e à finança, a sua impreparação e gestão criminosas, mas o Outro, o que sai à rua, vizinho, familiar ou desconhecido.» Cristina Semblano

«Mas Ana Gomes pode contribuir para diminuir a abstenção elevada que as caracteriza. O seu discurso justicialista pode até atrair alguns votos mais transversais, forçando o BE a encontrar um "Senador" à altura. O PS já está habituado a esta pluralidade interna.» António Costa Pinto

18º Dia

«E qualquer incentivo será fundamental para mitigar a austeridade, perdão, a dificuldade que iremos sentir no futuro.» Diogo Agostinho

«Se perdermos as palavras, acabamos em silêncio, a abrir caminho para sermos silenciados.» Carlos Esperança

«É certo que nem todas as salas de aula e nem todos os professores são a versão real do "Clube dos Poetas Mortos", mas para quem teve a experiência de dar aulas sabe que o vínculo professor-aluno será talvez um dos maiores desafios no ambiente escolar. Também um dos mais poderosos. Não há tecnologia que o substitua. É o segredo para o sucesso do aluno, é a chave para a realização profissional do professor.» Manuel Molinos

«Os economistas são ótimos a propor soluções fantásticas, pelo menos dentro de um quadro teórico, que têm um defeito: são politicamente inexequíveis.» Luís Aguiar-Conraria 

«Mas uma parte maior da responsabilidade, numa doença que, para já, necessita do empenho cívico de cada um para ser domada, cabe também a esta geração de alunos que parte sabendo que tem pela frente a desafiante tarefa de erguer um mundo novo contra o medo, o mundo que será o deles. São eles que nos vão ensinar agora.» David Pontes

17º Dia

«Quem morre agora vai num espanto de solidão. Junta-nos tristes e a medo em funerais bizarros onde recusámos abraços e cobrimos as bocas mascaradas de nenhuma expressão.» Valter Hugo Mãe

«Acho pouco mas acredito que possa ser um bom começo. Talvez as pessoas lhe tomem o gosto, e descubram os encantos de estar na praia sem roçar com o dedo mindinho do pé na lancheira da família do lado, e sem ouvir a conversa do casal de trás mais alto do que a rebentação.» Joana Marques

«Não é à toa que o aperto de mão leva a melhor sobre outras formas de cumprimento, como a vénia chinesa, ou a mão sobre o coração, islâmica, ou o namaste hindu, ou mesmo o shaka do Havai, popularizado pelos surfistas do mundo todo. É que o aperto de mão é um sinal extraordinário de confiança - e já era, mesmo antes de sabermos o quanto era, que foi, no fundo, o que nos disse este vírus.» Catarina Carvalho

«O tempo político de António Costa não é despropositado. … condiciona os putativos candidatos do seu partido, liberta a Esquerda para o Bloco poder avançar com Marisa Matias e o PCP fazer as suas escolhas. Abre espaço à Direita para um candidato que represente o "passismo", o CDS e a Iniciativa Liberal, e fecha o caminho à ascensão do Chega.» Domingos De Andrade

«O mundo parou para deixar passar esta pandemia e para que, no fim, se pudessem ver os estilhaços e o que restou desta luta transparente que atinge e mata milhares de pessoas. Mas será que o vosso médico de família parou? Segundo as últimas estatísticas nacionais sabe-se que até cerca de 80% das pessoas afectadas pela covid-19 é tratado no domicílio, cuja gestão da doença é feita pelo seu médico de família.» Ana Aires

16º Dia

«Para a extrema-direita, o apoio de Costa a Marcelo é uma autoestrada rumo às legislativas» Daniel Oliveira

«Mas essa é, afinal, uma responsabilidade de todos: sacrificarmo-nos individualmente, mantendo a guarda e reduzindo os riscos, para permitir uma outra sobrevivência, não menos importante, a do país social e económico. Ou seja, a sobrevivência de todos nós.» José Fidalgo

«Ao revelar que “não tinha sido informado” por Centeno, António Costa quis dizer que foi contrariado. Mas este dossiê estava condicio­nado a prazos de pagamento que o Chefe do Governo conhecia e aceitou e não dependia, à partida, de auditorias.» Paula Santos

«É preciso encontrar um candidato alternativo que dê voz a quem não se revê nem em André Ventura nem no atual Presidente. E há um nome na cabeça de muitos: Adolfo Mesquita Nunes.» Miguel Santos Carrapatoso

«A história das nossas civilizações é, em importante medida, a história da socialização dos riscos. O que nos distingue, hoje, é não sermos individualmente responsáveis pela nossa saúde e o nosso bem-estar económico depender de mecanismos coletivos (à cabeça a segurança social pública).» Pedro Adão Silva

«Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela.» José Pacheco Pereira

«Temo que, entregue nas mãos dos “praiaocratas” aquele que eu pensei que poderia ser o melhor Verão desde a minha infância, se torne no maior Inferno que a imaginação deles conseguir parir. … quando oiço os “especialistas” dizer e repetir que o vírus veio para ficar durante muito tempo (e, infelizmente, são capazes de ter razão), também me interrogo se eles, as suas regras e a sua volúpia de controlar a nossa vida ao detalhe, não vieram para ficar durante muito tempo. Porque, diz quem experimentou, o poder é inebriante.» Miguel Sousa Tavares

15º Dia

«Alguns ainda recordam o pedido do ministro Centeno ao clube de futebol, de que é sócio e onde tem camarote reservado, para assistir a um jogo, com o filho, na tribuna do presidente do clube, por razões de segurança. Certamente já esqueceram a campanha da oposição contra ele, e a sobranceria deste PR, a dizer que ficava, mas…, como se o PM ou os ministros dependessem do PR. Agora, perante um lamentável erro de comunicação, que já critiquei, Marcelo revelou a irrefreável tentação de se imiscuir nas funções governamentais. Errou, mas não quis ser acusado dos riscos da crise que fomentou.» Carlos Encarnação

«Um é muito bom em contas, tem sempre vinte a matemática, outro é muito bom a história, tem uma memória incrível, dá-se bem com toda a gente, mas nunca se esquece do que os outros lhe fizeram e, mais cedo ou mais tarde, aviva-lhes a memória, o terceiro é mais matreiro, amigos, amigos, negócios à parte. (…) Tudo começou num episódio, sem importância. (…) Uma fábula, deve ter sempre uma moral no fim. Há escolas que são muito pequenas para egos tão grandes…» José Gameiro


«Já morreram 300 mil pessoas no mundo, metade delas na Europa, 1184 das vítimas em Portugal. Os casos de Covid-19 em Lisboa já são 40% superiores aos do Porto, levando Rui Moreira a acusar o vírus de ser “portofóbico” e a pedir “justiça popular”.» MC Somsen
  
«Sim, o capitalismo adora os burgueses do Bloco, burgueses que não têm coragem para fazer o desmame da sociedade e do Estado em relação a este capitalismo.» Henrique Raposo
  
«Todos os portugueses estão infetados com o sal de Salgado, o homem que roubou uma parte substancial do bem-estar da nossa vida coletiva. A sua dívida colossal, assente numa soberba desmesurada, sem arrependimento até hoje, ditou esta peste, esta desgraça, que faz com que há seis anos estejamos atolados num oceano inquinado chamado Novo Banco e BES-mau.» Daniel Deusdado

«Marcelo (que conhece bem Costa) admite, aliás, que o primeiro-ministro possa apenas estar a exercitar uma das suas principais características, segundo a qual um problema só é problema quando chegou mesmo a hora de o resolver. Antes, não vale a pena mexer uma palha, até porque há problemas que se resolvem por si...» Ângela Siva

14º Dia

«Centeno não caiu (ainda) na última noite, mas tudo indica que passou a contrato a termo.» Rosália Amorim

«Confirmada uma certa inabilidade política, resta a Mário Centeno o crédito da competência técnica que o mantém no Governo. Não é pouco.» Vítor Santos

«Não faz mal: o PS tem um candidato natural às presidenciais de 2026, quando Marcelo finalmente cumprir dois mandatos. Chama-se António Luís Santos Costa.» Ana Sá Lopes

«Uma bandeira, um cachecol do Benfica, à varanda, à janela, na mão, uma camisola vermelha vestida, em cada dia e durante os últimos 10 jogos para sermos campeões e no dia da final da Taça… depois do meu apelo, o que nós - sócios, adeptos, simpatizantes do Benfica - temos que fazer é mostrar, até ao fim do campeonato e na final da Taça, que somos ... maiores que Portugal!» Rui Gomes da Silva

«Será importante que, mesmo em pandemia, não se pense que os portugueses são estúpidos.» António Tavares

13º Dia

«A terceira data é óbvia, é no primeiro ano do segundo mandado do senhor Presidente, faço-me desde já convidado.» António Costa

«Esse meu amigo também se faz eco de teorias conspirativas, de Bilderberg às máscaras e aos ventiladores, que, como é da natureza das ditas teorias, ajudam a explicar tudo, mesmo que não saibamos exatamente o quê. É que ele compra o único jornal diário que me teriam de pagar para ler, o que me habilita com o contacto indireto com o mundo dos títulos e dos escândalos, sem correr o risco de ser diretamente infetado.» Francisco Seixas da Costa

«Infelizmente, vão-se sucedendo os exemplos de uma abjecta devassa da dor privada, não apenas numa certa comunicação social – curiosamente de ampla procura – quanto nesse moderno terreiro da justiça popular, em que se converteram as redes sociais. (…) É que este é, afinal, o mesmo tipo de gosto mórbido que levava, no século XIX e primeira metade do século XX, às digressões dos circos de horrores, em que a doença, a deficiência e a miséria eram expostas, para júbilo e regozijo de uma população igualmente miserável em cultura e humanidade.» Maria José da Silveira Núncio

«Quem não tenha a criatividade de Marques Mendes, o sectarismo de Paulo Rangel ou a mitomania de Nuno Melo e André Ventura, tem de censurar a falha de comunicação ao PM da transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco, fosse ou não inevitável e obrigatória.» Carlos Esperança

«Este ano Fátima demonstra que é, todavia, mais do que isto … O silêncio e simplicidade deste 13 de Maio, nos seus 103 anos, foi a lição de um bem maior.» Henrique Monteiro

12º Dia

«Abram as creches. Abram os olhos. Saiam do medo. Isto não é uma guerra. E, mesmo que fosse, os generais nunca poderiam mandar sozinhos.» Henrique Raposo


«Ventura não tem qualquer limite ético. (…) Esta semana, porém, sedento de fazer uso da natural comoção popular em torno de uma circunstância que apela à nossa decência e respeito, foi até ao fundo do poço da sua miséria moral. Apropriar-se do rosto e da tragédia de uma criança é criminoso.» Isabel Moreira

«Francisco Rodrigues dos Santos transformou-se numa espécie de eco de André Ventura. Sendo o eco, é quase igual a ele, mas vem sempre menos nítido e sempre mais tarde. (…) Será uma redundância ineficaz, ridícula e infantil do Chega.» Daniel Oliveira

«Para o dizer com todas as letras, não se encontra um dirigente ou uma instituição europeia em quem se possa confiar.» Francisco Louçã

«As dificuldades e incerteza actuais aumentam a necessidade de inclusão digital e financeira dos mais velhos e de outros grupos sociais vulneráveis, dos quais muitos ainda não têm acesso ao sistema financeiro nem literacia digital.» Paulo Barradas

11º dia

«Ainda precisamos de mais dados e mais informações. Mas talvez seja altura de se pensar a sério se faz mesmo sentido os jogadores dos clubes na primeira divisão estarem a treinar e a prepararem o regresso à competição, com colegas a continuar a testar positivo.» Martim Silva

«Como disse, esta metodologia futebolística estendeu-se hoje a toda a sociedade e é plenamente dominante, seja na ordem económica, seja na ordem jurídica, seja na ordem política. (…) Para agradecer ao mundo do futebol onde foi descoberta esta táctica de chico-espertice de engana papalvos, a Direcção-Geral de Saúde inventou uma nova distinção: o campeonato pode retomar os jogos, porque a liga, os clubes, os atletas e os apanha-bolas assumiram a responsabilidade pelo que possa acontecer.» António Conceição

«O próprio conhecimento é iminentemente masculino. Os nossos currículos secundarizam a produção teórica das mulheres (e das pessoas não brancas), invisibilizando autoras que deram contributos importantes aos diferentes campos disciplinares. Simultaneamente, a produção científica das mulheres parece interessar apenas quando trata temas relacionados com a condição feminina.» Leonor Rosas

«Costa pediu desculpa a Catarina Martins e, indiretamente, quero acreditar, ao país. Porque o Novo Banco ainda não esgotou os quase quatro mil milhões de euros que pode pedir. Na prática, ainda lhe é permitido reclamar mais mil milhões ao fundo que é alimentado por nós. É como se fôssemos convidados para um festim protagonizado por uma doença terminal: depois de comer a carne, o bicho ainda aproveita os ossos para fazer música.» Pedro Ivo Carvalho


«Assim sendo, e tendo como critério a única coisa que não transforma limitações impostas pelo Estado com base em critérios sanitários em limitações impostas pelo Governo com base em critérios partidários, que nenhum democrata aceitaria, será muito difícil sustentar, com todos os festivais proibidos, a realização da Festa do "Avante!". Pelo menos sem um altíssimo preço político. (…) Mas espero que o PCP não dê este trabalho aos constitucionalistas, não insistindo numa polémica com derrota certa que só lhe fará perder eleitores. Claro que isto corresponderá a uma forte perda de autofinanciamento (que eu defendo que exista). Mas o PCP, não sendo uma empresa, deve pôr os critérios políticos à frente dos critérios financeiros.» Daniel Oliveira

10º Dia

«É uma situação muito complexa, conciliar o retorno da atividade do futebol com regras sanitárias e de segurança. É difícil definir linhas vermelhas. Se os testes feitos às equipas derem um número elevado de pessoas positivas, terá de ser equacionada pelas autoridades de saúde de nível local, regional e nacional a avaliação do risco em concreto.» Graça Freitas

«Não é de admirar o crescimento de movimentos populistas e eurocéticos a ocuparem os espaços vazios das palavras e dos gestos. E não é fácil ser otimista. O que vivemos é o reflexo de fracas lideranças que fazem fracos os povos. Se é que os povos têm alguma vaga ideia do que é um dos sonhos mais extraordinários das últimas décadas.» Domingos De Andrade

«A chicotada psicológica parece estar cada vez mais próxima, apesar de Ventura continuar a prometer uma vitória na Liga dos Campeões aos apoiantes do Chega.» Joana Marques

«O egoísmo narcisista do nosso tempo só é diferente do eterno porque hoje não só não é castigado ou reprimido como é jubilantemente encorajado.» Miguel esteves Cardoso

«Segundo o mandado de detenção os três arguidos entraram na sala, algemaram Ihor atrás das costas, amarraram os cotovelos com ligaduras, deram-lhe socos e pontapés e usaram ainda um bastão, “enquanto aos gritos lhe exigiam que permanecesse quieto”.  (…) e disseram “agora ele está sossegado” e “hoje já nem preciso de ir ao ginásio”.» Joana Gorjão Henriques


9º Dia

«Covid custa €700 por segundo.» Joana Nunes Antunes

«Fiquei muito mal impressionado ao ouvir a presidente da Comissão Europeia dizer que os idosos deveriam ficar confinados até ao fim do ano. São nove meses, é um sequestro. Essa é uma forma de resolvermos o problema dos idosos ou o nosso?  Não queremos ter problemas de consciência com estas mortes?» Jorge Soares

«1º de Maio, estado de emergência, reação à pandemia: o fosso que separa o BE e o PCP aumentou.» Mariana Lima Cunha

«Novo Banco recebeu €1035 milhões, menos €2 milhões do que o previsto. É o valor que equivale aos bónus dos gestores.» Diogo Cavaleiro

«O mundo está a depositar a esperança de pôr fim à pandemia em hipóteses que têm muito para falhar. A vacina ou os anticorpos contra o novo coronavírus são caminhos que começam a ter percalços, já que os investigadores estão a descobrir aspetos da infeção que podem tornar aqueles tratamentos mais letais do que o próprio vírus. (…) Resumindo, o melhor cenário é ter uma vacina segura no outono de 2021, e mesmo assim só para alguns.» Vera Lúcia Arreigoso

«‘João Paulo Rebelo é um dos cinco secretários de Estado nomeados para coordenar a aplicação do estado de emergência pelo país. Já rejeitou, em comunicado, que tivesse uma intenção de favorecimento. Mas em tempo de ajustes diretos todas as cautelas são poucas. Eticamente, devia ter-se mantido à margem de qualquer negócio.’ (…) ’Rui Rio não concorda com os ­apoios do Governo à comunicação social. Está no seu direito. Mas os argumentos que utiliza para contestar a decisão passam por equiparar as empresas de comunicação a fábricas de sapatos, móveis ou têxteis. Sei que falo em causa própria, mas Rio sabe que não são sectores comparáveis.’ (…) ‘Não basta aos sindicalistas medirem distâncias, porque antes e depois não há controlo que valha.’ (…) ‘A Igreja decidiu manter a suspensão das cerimónias num sinal de responsabilidade e bom senso’.» Paula Santos 

«Mas tenho um perfil na cabeça: gostaria que o próximo Presidente tivesse a verticalidade de Ramalho Eanes, o institucionalismo de Cavaco Silva e a proximidade de Marcelo Rebelo de Sousa.» Francisco Rodrigues dos Santos


«E a famosa retoma da economia, podem esquecer. Sem o movimento, a viagem, a algazarra, sem os bares e restaurantes, sem os barcos e aviões, sem o rangido ácido da ambição, sem a barafunda do quotidiano, sem a evidência das caras e das mãos, não haverá economia. Ninguém quer gastar a vida online.» Clara Ferreira Alves 

8º Dia

«Claro que os políticos continuam a ocupar um espaço substancial das notícias, mas o grupo reduziu-se drasticamente. (…) Neste contexto pandémico, são ouvidos todos aqueles que têm alguma coisa relevante para dizer. Deveria ser a regra a partir de agora.» Felisbela Lopes

«Não elevou a voz e não disse um único palavrão. Do ponto de vista da forma, foi uma proposta exemplar. Se uma pessoa vai propôr um genocídio, que o faça seguindo as regras de etiqueta da Dra. Paula Bobone, como um ser humano civilizado.» Jovem Conservador de Direita

«Gente guerreira, que moveu pedras e muralhas, construiu socalcos no Douro, gente mártir, torturada, que amargou anos, meses, dias, mas ainda assim capaz de louvar a Deus numa soberana gratidão... vejo-os partir, às centenas, tão ingloriamente nesta maldição que se abateu sobre a Humanidade, como se um deus-algoz, qual Prometeu acorrentado, soltasse as amarras para com elas açoitar a terra, e assim mostrar quão efémera e insignificante é a condição humana. Quão frágil é o planeta dos homens, onde um simples abraço ou apenas o bafo de um olá podem pôr em causa a sobrevivência dos que amamos.» Alexandre Parafita


«Argumentar que as escolas não são capazes de garantir o bem-estar e segurança de toda a comunidade é contribuir para a degradação da imagem dos professores construída muitas vezes por quem os representa.» Manuel Molinos


7º Dia
«O mundo dá voltas. O Brasil, capota.» João Almeida Moreira
 «A Galp (318 milhões), a REN (114 milhões) e a EDP (694 milhões), três empresas que já foram públicas, têm luz verde para continuar a festa, como se nada tivesse acontecido. Grandes males, grandes remédios? Os adágios já não têm o valor que tinham.» Rafael Barbosa

«O político é pior do que o técnico a olhar para o pormenor mas melhor a perceber o geral. Até por ser pressionado por forças contraditórias.» Daniel Oliveira

«Eu não vou falar da coelha anã "Acácia, a coelha anã do deputado do Chega", fotografada em pose e em gesto fofo com o referido político. Não vou porque também tive um sagui com o qual dormia, agarradinho ao meu pescoço. É certo que eu ainda não tinha idade para ser elegível, tinha oito anos, mas defendo que todos temos direito às nossas idiossincrasias peludas e não devemos ser julgados por elas.» Ferreira Fernandes

«Os pedidos de apoio chegam de todos os lados e, ontem, o primeiro-ministro viu-se obrigado a defender a ministra do Trabalho: “cento e oitenta e sete anos seria o tempo que a Segurança Social levaria a processar os pedidos de apoio extraordinário que chegaram em mês e meio se o fizesse ao ritmo do tempo pré-pandemia”, lê-se em mais um Exclusivo Expresso, número revelador da “pressão extraordinária” a que está submetida esta frente.» Miguel Cadete

«Os tempos que vivemos demonstram que a sala de aula, onde estudantes e professor estão presencialmente, é o espaço mais democrático e onde as desigualdades, ainda assim, estão mais esbatidas. Revela a importância do trabalho presencial dos professores com os alunos, no seu acompanhamento, tendo em conta as especificidades de cada criança e de cada jovem. Revela também que o ensino à distância, adotado excecionalmente neste período, não deve ser tornado como regra no processo ensino-aprendizagem.» Paula Santos

6º dia

«Os jogadores não podem tomar posições políticas porque pode prejudicar políticos e não beneficiam nada com isso. A única coisa que fazem é moldar mentes a partir do seu estatuto de ídolos. Já o contrário é perfeitamente aceitável. Proto-políticos devem utilizar a imagem de um clube do desporto futebol para alavancarem a sua carreira e ter logo do seu lado adeptos do mesmo clube. E a partir daí, formam uma ideologia.» Jovem Conservador de Direita

«De qualquer modo, é interessante acompanhar o caso da Suécia. (…) O ponto que me interessa é que, nesse país, estas decisões não cabem, normalmente, aos governantes: cabem às autoridades de saúde, que decidem segundo critérios científicos e técnicos. A esmagadora maioria das pessoas considera que isso é uma garantia, porque os cientistas é que sabem e os políticos não devem meter-se. Grave erro. (…) Os decisores políticos têm sempre de tomar decisões em contexto de incerteza, guiados por valores civilizacionais e pelo conhecimento das formas de funcionamento das comunidades. A decisão política é sempre prudencial, precisamente porque é impossível ver o futuro de consequências dos passos dados hoje. (…) E esta dimensão irredutível da decisão política não se conforma com a postura de deixar a chave de uma encruzilhada destas nas mãos dos especialistas, embora os especialistas não possam ser ignorados.» Porfírio Silva

«Ou o CDS retira o absurdo requerimento ou muda para um campo que já não é democrático, em que morrerá sem glória nem honra e às mãos daqueles a quem tenta retirar taticamente espaço e que já provaram ser mestres na tática, porque mais primários, manipuladores e menos escrupulosos do que os aprendizes de feiticeiro.» Paulo Pedroso

«E já que falamos de história, isto é de um total desrespeito pela tradição do CDS nesta matéria. Ainda há poucos anos o CDS dizia — e está documentado — que “a autoridade dos professores não pode ser posta em causa”. Agora exige ao governo uma intervenção para que não volta a acontecer as professoras terem autonomia para escolherem um conteúdo de alguém que o CDS não goste. E isto sem que o CDS lhes consiga apontar a elas — ou a mim — qualquer falha deontológica.» Rui Tavares

«Os atuais programas Erasmus+ e as Ações Marie Curie continuam a ser reconhecidos como histórias do maior sucesso na construção Europeia, a curto, médio e longo prazo. Os milhões de jovens do ensino secundário e superior, que deles beneficiaram, são unânimes ao confirmarem o extraordinário impacto que tiveram para as suas vidas e carreiras profissionais. A simples ideia de poderem conviver e conhecer outras culturas e de estudar em contextos diferentes dos que lhes são familiares abriu cabeças e deu-lhes mundo! Estimulou a curiosidade e a imaginação, essenciais quando queremos inovar. (…) Num momento em que muitos líderes mundiais, de forma imprudente e ignorante, responsabilizam e culpabilizam o Outro pelos enormes desafios que enfrentamos, é imperativo que estes programas de intercâmbio, de mobilidade e de colaboração sejam alargados e reforçados.» Alexandre Quintanilha


«Mas o Dia Mundial da Língua Portuguesa foi ontem. Exatamente, o dia mundial da língua portuguesa foi ontem e há muito tempo: poucas línguas foram ontem, mundiais e há tanto tempo. Por isso falo hoje que ela tem amanhã.» Ferreira Fernandes


5º dia

«A manifestação teve más reações e Marcelo Rebelo de Sousa desresponsabilizou-se. Nunca a expressão catavento foi tão adequada.» Daniel Oliveira 

«Fazem a cama, higienizam o doente e dão-lhe de comer, entre outras funções. De acordo com os números do Sindicato Independente dos Técnicos Auxiliares de Saúde (SITAS), serão a categoria profissional com mais infetados pela covid-19, mais do que médicos e enfermeiros, mas têm regalias muito inferiores. Queixam-se de serem excluídos do retrato do combate à pandemia e viram-na interromper a luta pelo grande objetivo: a criação de uma carreira profissional.» Fábio Monteiro

«Que a imprensa desportiva não venha pedir ajuda ao Governo! Até porque ela é um instrumento nefasto de perversão da vida social e até da vida política do país. Lentamente, ao longo de anos, foi inculcando (com a ajuda das rádios e das televisões que temos) a “cultura” de boa parte do desporto e sobretudo do futebol na mecânica intelectual de demasiados cidadãos. Com a sua conceção de batalha campal, de confrontação, de agressão e de violência. Com a sua terminologia em parte inspirada na prática militar da guerra. Com a sua incapacidade para o diálogo, o compromisso e o consenso.» J.-M. Nobre-Correia

«Tomando como base as línguas faladas como língua materna, o português é a quarta língua mais falada no mundo, a seguir ao mandarim, ao inglês e ao espanhol. Seguramente, o português é falado por todo o mundo por mais de 260 milhões de pessoas, em todos os continentes. (…) Na China é impressionante: 50 universidades ensinam português a 5000 alunos.» Luís Faro Ramos

«Tudo se passou há menos de dois anos. Paulo Portas, já comentador, não via nada "eticamente reprovável" em Bolsonaro e considerava exageradas as acusações de ultraliberalismo. Nuno Melo, sempre enraivecido, desdobrou-se na defesa de Bolsonaro. Assunção Cristas não via diferenças entre o candidato democrático Haddad e este extremista de Direita. Santana Lopes chegou ao ponto de escrever-lhe uma carta de felicitações pela eleição. Carlos Peixoto, deputado do PSD, estava certo que o exercício do poder levaria Bolsonaro "à moderação e ao pragmatismo". Luís Nobre Guedes, do CDS, declarou que, se pudesse, votaria nele. André Ventura, do Chega, encantava-se com "essa frescura de pensamento que os liberais ocidentais podiam aprender com Bolsonaro".» Mariana Mortágua



4º dia

«A hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana pode sempre dispensar por um ano as peregrinações a Fátima, porque ninguém perde a Fé por isso. Se fossem mais anos, o perigo seria grande, com a competição de igrejas mais demagógicas e populistas. Mas, para já, não há perigo que venha da "responsabilidade sanitária". Já os sindicatos não podem dizer o mesmo». Luís Capucha

«Sei que o primeiro-ministro não é católico, mas não haverá um católico no Governo ou no PS capaz de lhe explicar o que é a missa para nós? E se no universo socialista não houver ninguém, será que o católico Presidente da República lhe é capaz de explicar que a missa está para os católicos como a economia para a sobrevivência de um país?» Raquel Abecassis

«Secretário de Estado Tiago Antunes tem representado António Costa nas conversações. O Governo vai abrir a primeira excepção ao estado de calamidade. Na Basílica de Fátima, eclesiásticos e fiéis vão respeitar o distanciamento social. As televisões transmitem.» São José Almeida

«O PR a querer estar de bem com Deus e com o diabo. Em entrevista à Rádio Montanha da Ilha do Pico, Marcelo veio dizer que pensou que as comemorações do 1º de Maio seriam mais "simbólicas e mais restritivas" mais no estilo 25 de Abril na Assembleia da República. Para além de ter sido ele a propor e promulgar a aceitação das comemorações do 1º de Maio, não lhe fica bem fazer comparações entre as duas datas e as pessoas nelas envolvidas. (…) Também não lhe fica bem sacudir a água do capote mandando a responsabilidade para cima da DGSaúde. Como disse muito bem, hoje, o Secretário Estado da Saúde, Sr. António Sales, não querendo comentar o que disse o PR, a DGS apenas emite normas e recomendações, não exerce autoridade sobre os eventos, a lei quem a faz cumprir são as autoridades.» Jorge Martins


«O Manuel David Masseno tem toda a razão: o que o tribunal quer impor ao PCP é como um Padre a querer continuar à frente duma paróquia depois de excomungado ou um assessor parlamentar do PAN querer acumular com uma carreira de toureiro e achar que tem direito a isso.» Porfírio Silva



3º dia

«Afinal, ao contrário do que vociferaram, PSD e CDS, estes dois partidos aprovaram as comemorações do 1º de Maio, incluindo a possibilidade de mobilidade entre concelhos desde que respeitadas determinadas condições. Basta ler o Decreto do PR 20-A/2020 de 17 de Abril, após aprovação na Assembleia da República em 16 de Abril. Das duas uma, ou se arrependeram o que é grave, ou não sabem o que aprovam o que é gravíssimo. Tenham juízo.» Jorge Martins

«A promessa de que o Mundo, gravemente empobrecido e arruinado, poderá regressar ao padrão de consumo e bem-estar anterior, é a semente de uma ilusão que convém aos que procuram manter as desigualdades que a riqueza acentuou. (…) Vai ser difícil conciliar a continuidade das sociedades livres e mínimos de bem-estar individual, no clima de depressão económica, aviltamento de valores e indiferentismo perante as ditaduras, que ora se vive.» Carlos Esperança

«Aliás, o bondoso objectivo de “protecção” tem escondido algumas evidentes, outras menos evidentes, tentativas de discriminação de uma faixa etária, aquela que já era mais sensível e de risco na era pré-covid. Independentemente do que se pense sobre a celebração do 1.º de Maio da CGTP na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, quando se pergunta a Jerónimo de Sousa o que é que está ali a fazer, uma vez que tem 73 anos, isto é o quê?» Ana Sá Lopes


«Foi um tempo difícil para a Suécia, porque antes tínhamos o Reino Unido do nosso lado, ou do mesmo lado. Para mim era mais fácil dizer: “Estamos a fazer o mesmo do que a Inglaterra.” Mas, de repente, quando apareceu o famoso artigo científico do Imperial College, fizeram uma inversão de 180 graus. Isso foi mau para nós. (…) Não devemos contar os mortos agora, porque é demasiado cedo. Daqui a um ano, conseguimos começar a ver quantas pessoas morreram da infecção pela covid-19 e não penso que vá haver grandes diferenças entre os países europeus. O número de mortes por covid-19 será quase o mesmo em todos os países europeus.» Johan Giesecke


2º dia

«Devemos, pois, concluir, pelas informações prestadas, que o "prejuízo" causado à Igreja Católica advém da falta de esmolas - as esmolas, ficamos a saber, que considera "receitas". E que numa situação de crise, ao invés de se disponibilizar para servir, recorrendo às suas reservas, Igreja Católica procura servir-se.» Fernanda Câncio

«Se sempre boas razões para celebrar o 1º de Maio, o quadro actual tornava esse ritual obrigatório. Até que a secretária-geral da CGTP decidiu fechar os olhos à causa das coisas, à origem do problema e transformou a data num regresso ao tempo das lutas operárias que já só existem na imaginação da militância histórica do PCP. (…) Porque não nos convida a todos, trabalhadores e patrões e sindicatos, funcionários públicos ou do privado, a concentrar atenções na origem dos problemas e encontrar respostas. Antes fomenta a ideia com cheiro a mofo que isto só vai lá com luta contra os malvados dos patrões. Era tão simples se assim fosse…» Manuel Carvalho

«Para lá daquele pé direito que colocava a bola onde bem queria, dos livres perfeitos, dos cruzamentos teleguiados, David Beckham deu ao futebol aquilo que até aos anos 90 ele não tinha: holofotes e purpurinas. O inglês, que este sábado completa 45 anos, pode não estar no restrito grupo de melhores da história, mas a sua face também mudou o jogo: com ele, o futebol tornou-se mais global.» Lídia Paralta Gomes

«Quem fazia habitualmente compras online não estranhou certamente a rotina adaptada ao confinamento, o mesmo se passa com a relação mantida com o banco ou no uso recorrente das plataformas de videoconferência. Não será o retrato de uma larga maioria, mas não é certamente uma bizarria do último mês (…) Reza a história que quando o primeiro-ministro britânico Lord Palmerston recebeu a primeira mensagem por telégrafo, em 1860, terá imediatamente exclamado, "meu deus, isto é o fim da diplomacia". Não foi. Pelo contrário, a dispersão de contactos foi facilitada, expandiram-se redes de interesses e ter-se-ão evitado mal-entendidos que preveniram alguns conflitos. (…) A tecnologia é um recurso ao serviço das democracias, nunca a deturpação mortal da sua natureza.» Bernardo Pires de Lima 

1º dia

«É a ciência, estúpido!» Ricardo Costa

«É possível que Itália e Espanha tenham uma crise tão profunda que acabem por escolher sair do euro, o que lhes permitiria fazer desvalorizações competitivas das suas moedas e, via inflação, desvalorizar as suas dívidas. Sem estes países, não fará sentido Portugal continuar no euro.» Luís Aguiar-Conraria

«Como se em causa estivesse uma espécie de revelação, vimos um chefe de Governo realista, prudente, ligado aos problemas globais sem descurar os pequenos dramas que afectam as pessoas, sempre a evitar a solução fácil ou um amanhã que canta, sem certezas absolutas nem promessas fáceis. Um anti-Costa dos tempos de Pedrógão, portanto.» Manuel Carvalho

«Mas o 25 de Abril foi apenas um pretexto: o que Marcelo fez foi o discurso de lançamento da sua recandidatura. Encostando-se descaradamente ao eleitorado do PS e acenando ao do BE.» Miguel Sousa Tavares

«Aliás, só a ideia de ter que dar a minha palavra quanto àquilo de que sou capaz me aterroriza. Afinal, é muito mais fácil lamentar na morte do que reconhecer em vida, não é?» Pedro Valente Lima