No dia 27 de outubro de 2020, a Europa tinha
8.786.209 casos reportados de infeção, e os Estados Unidos tinham 8.704.524
casos reportados. Donald Trump não é o Presidente da Europa, o continente
esclarecido e desenvolvido onde vigoram sistemas nacionais de saúde e Estado
social. A Europa, de repente, excedeu os números da América, e na Europa, a
Espanha, a França, o Reino Unido e a Itália foram os campeões da infeção. A
Alemanha acompanhou a subida. Estamos a falar dos países mais avançados e
prósperos da Europa, os que têm uma economia mais sólida e um sistema social
mais aperfeiçoado e bem-sucedido. Nenhum líder político europeu ousou desafiar
as regras gerais emanadas dos peritos sobre como controlar a epidemia, nenhum
fez o que Trump e alguns chefes locais rebeldes fizeram nos Estado Unidos,
desafiando a ciência.
A Europa entrou numa fase descontrolada da
epidemia, com crescimentos diários brutais de infeções, internamentos e mortes.
Podemos dizer que talvez haja mais testes na Europa, e mais identificação de
infetados, mas isso não explica os aumentos bruscos, sentidos em todos os países,
incluindo os mais pequenos ou periféricos como Portugal e a Grécia, ou os mais
centrais e mais ricos como a Bélgica ou a Holanda. Ou os que tinham reputação
estelar, como a República Checa. Talvez haja um efeito de contaminação, mas o
que se vê, empiricamente, é que os europeus estão a contrariar as instruções,
as admoestações e punições, com um desespero e uma rebeldia que indicam que a
entropia começou. E não são apenas os jovens, embora seja compreensível que
quando se tem 20 ou 30 anos, ou se está na adolescência, e se sabe e se ouve
que a doença não ataca e muito menos mata os corpos jovens e os sistemas
imunitários, e quando se passaram sete meses, quase oito em nada mudou a não
ser a cacofonia, quando se é condenado a não viver a vida, seja compreensível,
repita-se, que os jovens desobedeçam.
A repressão deve ser o derradeiro recurso e
não funciona durante muito tempo em democracia. Os governos e autoridades
deveriam pensar o que correu mal e porque correu tão mal. Parecem coelhos
assustados e todos os dias há uma notícia a dizer que os ministros, os peritos
e os cientistas vão reunir e decidir novas medidas de alarme, emergência e
recolher obrigatório. Caminhamos para a destruição da economia europeia, e
nenhum pacote de resgate será suficiente.
A desorientação é visível não apenas nos
políticos. É visível nos cientistas e nos jornalistas. Os políticos ouvem os
cientistas, mas os cientistas discordam entre si com ferocidade e as velhas
rivalidades deste meio tão santificado chegam à superfície como espuma suja.
Não são diferentes dos artistas e das suas rivalidades, embora o prestígio e o
dinheiro tenham sido desviados dos artistas, gente considerada improdutiva e
sem mérito na nova economia, para os cientistas. Quando precisávamos de um
módico de clareza e de método científico validado pela prova dos pares e do
tempo, vemos estudos atrás de estudos, todos contraditórios, uns dizendo uma
coisa e outros a oposta. Os media vão dando eco destes estudos, sem
cuidarem de os escolher, não têm a perícia nem os meios, e muitos desses
estudos não são mais do que emanações da Big Pharma ou dos fundos públicos e
privados que financiam pesquisa covid, mediados pelos lóbis e agências de
comunicação. O Reino Unido, que não abandona a mania da supremacia científica
da Europa, apesar dos penosos resultados em vidas humanas, e do cadastro de
indecisões, é o país donde saem todos os dias novos estudos de reputadas
instituições.
Desisti de ler as proclamações científicas do
Imperial College ou de Oxford, qualquer lugar em Oxford. O Imperial College
previu, em março, 40 milhões de mortos pela pandemia sem as restrições. Na
Europa. Em junho, disse que as restrições tinham poupado 3,1 milhões de vidas.
Na Europa. O mesmo se diga para as vacinas, que durante meses foram a panaceia
universal e que estariam prontas no outono, depois no final do ano, dando
esperanças falsas e alimentando os cofres dos investidores e especuladores dos
laboratórios que apuram as vacinas. Agora sabemos que a vacina virá mais tarde,
muito mais tarde do que foi prometido. A vacina de Oxford anunciou que estaria
pronta em setembro.
Em Portugal, foi proclamado que nos
deveríamos vacinar contra a gripe este inverno, mas não há vacinas suficientes
para os doentes de risco e com mais de 65 anos, muito menos para os restantes,
mesmo os que a querem tomar fora do plano nacional de vacinação. Imagine-se a
desordem quando se tratar da vacina covid. A ira que a inexistente previsão
logística irá provocar.
O efeito mais deletério da falta de
coordenação e pensamento é o campeonato diário das infeções, o desporto mais
praticado em Portugal. A perda de autoridade é generalizada, e as pessoas
apenas se dividem em pouco assustadas, assustadas, e muito assustadas. Num dia,
a penosa DGS anuncia as contas do desastre e ralha com os portugueses, no dia
seguinte autoriza quase 30 mil pessoas na Fórmula 1, e ao terceiro dia faz o
mea culpa e arrepende-se de ter autorizado o “evento”.
A penosa OMS tem sido, também, parte do
problema, limitando-se a arrefecer a esperança, não contem com a vacina, e a
dizer que a vida está muito difícil, exceto na China, que escapou qualquer
escrutínio como bem sabemos, mas não podemos dizer alto. A estratégia inicial
da OMS para as máscaras? Não eram eficazes e podiam ser perigosas. Porque não
havia máscaras suficientes, soube-se. Quando a China começou a fabricar
máscaras, mudou a política e as máscaras passaram a obrigatórias.
Vamos fechar de novo a economia, confinar
mais seres humanos, policiá-los, multá-los, coagi-los, empobrecê-los, porque
não os conseguimos persuadir com honestidade e coerência. Assim está a Europa.
Nem uma campanha foi feita a explicar os perigos da infeção dita curada. Em 40%
dos casos de infetados com gravidade, as pessoas ficarão com doenças autoimunes
e sérios problemas de saúde até à morte e sobrecarregarão os sistemas de saúde.
O vírus tem uma longa vida para alguns doentes, e não são todos velhos. Seria
tão difícil pedir que se respeite a vida destas pessoas porque todos podemos
ser uma delas?
Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa,
Expresso, 31 de outubro de 2020



