sábado, 31 de outubro de 2020

COMO COELHOS ASSUSTADOS

No dia 27 de outubro de 2020, a Europa tinha 8.786.209 casos reportados de infeção, e os Estados Unidos tinham 8.704.524 casos reportados. Donald Trump não é o Presidente da Europa, o continente esclarecido e desenvolvido onde vigoram sistemas nacionais de saúde e Estado social. A Europa, de repente, excedeu os números da América, e na Europa, a Espanha, a França, o Reino Unido e a Itália foram os campeões da infeção. A Alemanha acompanhou a subida. Estamos a falar dos países mais avançados e prósperos da Europa, os que têm uma economia mais sólida e um sistema social mais aperfeiçoado e bem-sucedido. Nenhum líder político europeu ousou desafiar as regras gerais emanadas dos peritos sobre como controlar a epidemia, nenhum fez o que Trump e alguns chefes locais rebeldes fizeram nos Estado Unidos, desafiando a ciência.

A Europa entrou numa fase descontrolada da epidemia, com crescimentos diários brutais de infeções, internamentos e mortes. Podemos dizer que talvez haja mais testes na Europa, e mais identificação de infetados, mas isso não explica os aumentos bruscos, sentidos em todos os países, incluindo os mais pequenos ou periféricos como Portugal e a Grécia, ou os mais centrais e mais ricos como a Bélgica ou a Holanda. Ou os que tinham reputação estelar, como a República Checa. Talvez haja um efeito de contaminação, mas o que se vê, empiricamente, é que os europeus estão a contrariar as instruções, as admoestações e punições, com um desespero e uma rebeldia que indicam que a entropia começou. E não são apenas os jovens, embora seja compreensível que quando se tem 20 ou 30 anos, ou se está na adolescência, e se sabe e se ouve que a doença não ataca e muito menos mata os corpos jovens e os sistemas imunitários, e quando se passaram sete meses, quase oito em nada mudou a não ser a cacofonia, quando se é condenado a não viver a vida, seja compreensível, repita-se, que os jovens desobedeçam.

A repressão deve ser o derradeiro recurso e não funciona durante muito tempo em democracia. Os governos e autoridades deveriam pensar o que correu mal e porque correu tão mal. Parecem coelhos assustados e todos os dias há uma notícia a dizer que os ministros, os peritos e os cientistas vão reunir e decidir novas medidas de alarme, emergência e recolher obrigatório. Caminhamos para a destruição da economia europeia, e nenhum pacote de resgate será suficiente.

A desorientação é visível não apenas nos políticos. É visível nos cientistas e nos jornalistas. Os políticos ouvem os cientistas, mas os cientistas discordam entre si com ferocidade e as velhas rivalidades deste meio tão santificado chegam à superfície como espuma suja. Não são diferentes dos artistas e das suas rivalidades, embora o prestígio e o dinheiro tenham sido desviados dos artistas, gente considerada improdutiva e sem mérito na nova economia, para os cientistas. Quando precisávamos de um módico de clareza e de método científico validado pela prova dos pares e do tempo, vemos estudos atrás de estudos, todos contraditórios, uns dizendo uma coisa e outros a oposta. Os media vão dando eco destes estudos, sem cuidarem de os escolher, não têm a perícia nem os meios, e muitos desses estudos não são mais do que emanações da Big Pharma ou dos fundos públicos e privados que financiam pesquisa covid, mediados pelos lóbis e agências de comunicação. O Reino Unido, que não abandona a mania da supremacia científica da Europa, apesar dos penosos resultados em vidas humanas, e do cadastro de indecisões, é o país donde saem todos os dias novos estudos de reputadas instituições.

Desisti de ler as proclamações científicas do Imperial College ou de Oxford, qualquer lugar em Oxford. O Imperial College previu, em março, 40 milhões de mortos pela pandemia sem as restrições. Na Europa. Em junho, disse que as restrições tinham poupado 3,1 milhões de vidas. Na Europa. O mesmo se diga para as vacinas, que durante meses foram a panaceia universal e que estariam prontas no outono, depois no final do ano, dando esperanças falsas e alimentando os cofres dos investidores e especuladores dos laboratórios que apuram as vacinas. Agora sabemos que a vacina virá mais tarde, muito mais tarde do que foi prometido. A vacina de Oxford anunciou que estaria pronta em setembro.

Em Portugal, foi proclamado que nos deveríamos vacinar contra a gripe este inverno, mas não há vacinas suficientes para os doentes de risco e com mais de 65 anos, muito menos para os restantes, mesmo os que a querem tomar fora do plano nacional de vacinação. Imagine-se a desordem quando se tratar da vacina covid. A ira que a inexistente previsão logística irá provocar.

O efeito mais deletério da falta de coordenação e pensamento é o campeonato diário das infeções, o desporto mais praticado em Portugal. A perda de autoridade é generalizada, e as pessoas apenas se dividem em pouco assustadas, assustadas, e muito assustadas. Num dia, a penosa DGS anuncia as contas do desastre e ralha com os portugueses, no dia seguinte autoriza quase 30 mil pessoas na Fórmula 1, e ao terceiro dia faz o mea culpa e arrepende-se de ter autorizado o “evento”.

A penosa OMS tem sido, também, parte do problema, limitando-se a arrefecer a esperança, não contem com a vacina, e a dizer que a vida está muito difícil, exceto na China, que escapou qualquer escrutínio como bem sabemos, mas não podemos dizer alto. A estratégia inicial da OMS para as máscaras? Não eram eficazes e podiam ser perigosas. Porque não havia máscaras suficientes, soube-se. Quando a China começou a fabricar máscaras, mudou a política e as máscaras passaram a obrigatórias.

Vamos fechar de novo a economia, confinar mais seres humanos, policiá-los, multá-los, coagi-los, empobrecê-los, porque não os conseguimos persuadir com honestidade e coerência. Assim está a Europa. Nem uma campanha foi feita a explicar os perigos da infeção dita curada. Em 40% dos casos de infetados com gravidade, as pessoas ficarão com doenças autoimunes e sérios problemas de saúde até à morte e sobrecarregarão os sistemas de saúde. O vírus tem uma longa vida para alguns doentes, e não são todos velhos. Seria tão difícil pedir que se respeite a vida destas pessoas porque todos podemos ser uma delas?

Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa, Expresso, 31 de outubro de 2020






 

domingo, 25 de outubro de 2020

Covid-19: a sindemia que nos afronta e desafia *


 

O termo “sindemia” (sinergia + pandemia) foi cunhado nos anos 1990 pelo antropólogo médico americano Merrill Singer. Trabalhando em grupos com sida, Singer verificou que a síndroma devastava uma comunidade porto-riquenha de Hartford e utilizou o acrónimo SAVA (Substance Abuse, Violence and AIDS) para suportar o conceito de que a sida grassava num contexto social de droga e violência que potenciava a disseminação da infeção, a sua gravidade e agravava o seu prognóstico.

Em 2017, o mesmo Singer e co-autores desenvolvem o modelo sindémico de saúde onde enfocam o complexo biossocial, que consiste na interação, co-apresentação ou na sequência de doenças e nos fatores sociais e ambientais que as promovem e potenciam os seus efeitos negativos.

Esta abordagem da conceção de saúde e prática clínica reconfigura a história convencional da compreensão das doenças como entidades individuais, separadas de outras e independentes do contexto social. Em vez disso, todos esses fatores tendem a interagir sinergicamente de várias e consequentes formas, tendo um impacto substancial na saúde de indivíduos e populações inteiras, e através deles na sociedade, e só podem ser abordados de forma integrada a favor de toda a comunidade.

Num artigo publicado no final deste mês de setembro no The Lancet, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo, Richard Horton, editor-chefe da revista, vem exatamente focar a atenção de toda a comunidade para esta questão.

Ele argumenta que a covid-19 não é uma peste como qualquer outra já vista no passado e que, por isso, merece uma abordagem diferente. A designação de sindemia seria, por isso, mais adequada: o vírus não atua sozinho, mas compactuando com outras doenças. E a desigualdade social tem um papel-chave na sua disseminação.

A natureza sindémica da ameaça que enfrentamos significa ser necessária uma abordagem mais global e integrada se quisermos proteger a saúde das nossas comunidades.

O artigo repercutiu em alguns dos principais meios de comunicação internacionais e ganhou eco no mundo científico. A Sociedade de Medicina de Catástrofes e Saúde Pública Americana, por exemplo, defendeu, em artigo intitulado “Covid-19 à Covid-20”, que a resposta institucional à atual crise seja baseada num “pensamento sindémico, e não pandémico”.

A palavra “sindemia” vai, deste modo, entrar agora no léxico do debate sobre a covid-19, ao lado de termos como “lockdown”, “imunidade de grupo” e “achatamento da curva”, antes praticamente desconhecidos do grande público.

À medida que o mundo se aproxima do milhão e meio de mortes por covid-19, é importante enfrentar o facto de que a atual abordagem é demasiadamente restrita para gerir e ainda menos para ultrapassar a crise do novo coronavírus.

Até agora, todas as intervenções se concentraram em cortar linhas de transmissão viral. A “ciência” que tem guiado os governos é baseada principalmente em modelos de combate a epidemias que enquadram a atual emergência sanitária num conceito de peste que tem séculos de existência.

“Mas a história da covid-19 não é assim tão simples”, argumenta o editor-chefe da Lancet. “Duas qualidades de doenças estão a interagir em populações específicas – a síndrome respiratória aguda severa (Sars-Cov-2) e uma série de doenças não transmissíveis (DNTs).” Estas condições estão agrupadas em grupos sociais de acordo com padrões de desigualdade profundamente enraizados nas nossas sociedades. A agregação dessas doenças num contexto de disparidade social e económica exacerba os efeitos adversos de cada doença isoladamente.

Uma epidemia sindémica, ou uma sindemia, contém em si a ideia que o vírus não age isoladamente, tal como um vilão solitário que simplesmente espalha pneumonias e falência generalizada de órgãos nos alvos que atinge. Ele tem cúmplices sérios, como a idade e o seu contexto social, a obesidade, diabetes, doenças cardíacas e condições sociais, que agravam a doença e prognóstico do atingido.

A questão maior é que muitos dos “cúmplices” da covid-19 já são epidemias por si só em algumas sociedades. A obesidade, por exemplo, é um fator de risco para o desenvolvimento de diabetes e doenças cardíacas. A diabetes e a hipertensão são epidemias nas sociedades ocidentalizadas. Um artigo recente da revista Obesity Reviews, por exemplo, concluiu que as pessoas obesas têm uma probabilidade 50% maior de morrer de coronavírus.

No caso da covid-19, como argumenta o editor da Lancet, atacar doenças não transmissíveis é um pré-requisito para um combate bem-sucedido à atual crise. “O número total de pessoas que vivem com doenças crónicas está a crescer. Tratar a covid-19 significa tratar também a hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias crónicas, e cancro.”

Afirma ainda ser especialmente importante prestar maior atenção às doenças não transmissíveis em países mais pobres, algumas fatais tais como a epilepsia, doença renal, anemia falciforme. Para os mil milhões de pessoas mais pobres do mundo, as DNTs representam mais de um terço do seu fardo como doença. O artigo de Singer afirma que a disponibilidade de intervenções acessíveis e económicas nestas doenças, durante a próxima década, poderia evitar quase cinco milhões de mortes entre as pessoas mais pobres do mundo. E isso sem considerar os riscos reduzidos de morrer por covid-19.

A mais importante consequência de ver a covid-19 como sindemia é sublinhar a sua componente social. A vulnerabilidade dos idosos; das comunidades étnicas minoritárias tal como da gente dos bairros degradados; dos trabalhadores essenciais que são comummente mal pagos, das condições de vida e transportes das periferias para as grandes cidades; apontam para uma verdade até agora escamoteada: não importa quão eficaz irá ser um tratamento ou qual a proteção de uma vacina, porque a busca de uma solução puramente biomédica para a covid-19 será um falhanço e não teremos aprendido nada.

A menos que os governos elaborem políticas e programas para reverter profundas disparidades, as nossas sociedades nunca serão verdadeiramente seguras contra a covid-19 e as pandemias que se lhe seguirão. Como Singer escreveu em 2017, “Uma abordagem sindémica oferece uma abordagem muito diferente à medicina clínica e à saúde pública por mostrar como uma abordagem integrada para a compreensão, prevenção e tratamento de doenças pode ter muito mais sucesso do que simplesmente controlar a doença epidémica ou tratar eficazmente um doente.”

Horton acrescentou mais uma vantagem. “As nossas sociedades precisam de esperança. A crise económica que avança na nossa direção não será resolvida por um medicamento ou uma vacina. Nada menos que a mobilização coletiva e consciência nacionais por uma causa são necessários.”

Ver a covid-19 como uma sindemia vai envolver-nos numa visão mais ampla e nacional, abrangendo a educação, emprego, habitação, condição dos idosos, segurança, transportes, alimentação e meio ambiente.

Ver a covid-19 apenas como uma pandemia exclui tal perspetiva mais ampla e necessária que nos vai ensinar, em boa hora, para onde atirar as toneladas de dinheiro sem deixar tudo igual.

*Américo Manuel da Costa Figueiredo, Público, 25 de outubro de 2020




quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Quando acabar o recreio, avisem


Temos no Parlamento um OE, numa ‘pen’ que o ministro das Finanças entregou ao Presidente da AR. A cerimónia mantém a tradição de quando eram molhos de papéis, o que acho bem. Agora até é abrilhantada pelas televisões, que nos dão a emoção de um ministro a avançar pelos Passos Perdidos de São Bento até um gabinete onde, de máscara, como mandam as regras, o presidente da Assembleia da República recebe a dita pen (onde caberiam 500 OE em papel).

Uma repórter queixa-se de que agora, com as máscaras, não se ouve o que dizem as duas figuras. Hão de dizer coisas importantes, do tipo ‘boa noite, como está?’ e outras frases de circunstância. O motivo pelo qual o OE é sempre entregue de noite, não sendo por uma causa semelhante à da passagem do Ano ter de ser à meia-noite, é também incompreensível, mas é assim há muito tempo e – honra seja feita ao Dr. Leão – desta vez até foi bastante (cerca de duas horas) mais cedo.

O Orçamento está, pois, no hemiciclo à espera de aprovação. É um documento feito num tempo em que não se sabe o que se vai passar até ao fim do mês, quanto mais em 2021… mas tem de ser. É um documento que há de estar cheio de erros de previsão, de tal modo que o próprio primeiro-ministro, António Costa –cujo nome do meio foi ‘o que não precisa de Orçamentos retificativos, como os outros’ -, já admitiu que talvez tenha de recorrer a essa possibilidade que a lei e a tradição lhe abrem, que é a de alterar o que entrega agora para outra coisa diferente no decurso da execução da lei orçamental.

O OE, como aqui escrevi na semana passada, é o que pode ser; depois inclui-se uma série de coisas que não poderiam ser, mas que a chamada esquerda exige que sejam.

Como todos sabem, neste jogo de taberna (que, por um engano de que me penitencio, ia chamando florentino), o facto de se exigir não interessa nada. Porque a realidade acaba por se impor e promessas, compromissos e essas coisas ficam sempre adiados para segundas núpcias, sabendo-se que isto de casamentos também anda mal; não só porque a instituição já estava em crise, mas porque a pandemia também não os permite com convidados e testemunhas que se vejam. Ora, a menos que o PS e o seu líder e dirigentes dessem cabo disto tudo de uma vez, tudo o que se discute são trocos e meras expressões ideológicas. Veja-se a TAP... Emprego para menos 1600 e a nossa esquerda calada.

A pandemia é, aliás, um tema de que o BE gosta muito. Grita “ai, ai, ai”, diz frases grandiloquentes sobre hospitais do tipo “Não podemos ter privados a fazer o que lhes apetece” e depois age como se vivêssemos num mundo normal e, para mais, cheio de dinheiro.

As negociações da esquerda apresentam-se como uma espécie de brincadeira vergonhosa. Vergonhosa, porque se passa num tempo, que é este, de angústia, incerteza e urgência social; brincadeira, porque sabe-se no que resulta (o OE vai passar) e, sobretudo, que os efeitos pretendidos com estas encenações é uma espécie de concurso de quem perde e ganha. Nesse aspeto, há que dizê-lo, o PCP e o PAN demonstram muito mais responsabilidade do que o Bloco e os seus acólitos. Pergunto-me por que motivo tem um partido com 10% de votos tanta influência mediática e política. Eu sei que não é de agora, mas tem vindo a piorar.

A própria Comunicação Social poderia – e deveria – levar em conta o aspeto tetricamente lúdico deste jogo, e não lhe dispensar as toneladas de páginas (quase tantas quantas tinha um OE dos velhos tempos) que lhe dedica.

Não há, de facto, paciência. Ver o tempo, a energia e o dinheiro gasto com estes jogos infantis.

PS – A propósito do constante repúdio do racismo, da violência e do fascismo, registo que a decapitação, à faca, do professor de História e Geografia Samuel Paty, a 200 metros da sua própria escola, nos arredores de Paris, não mobiliza assim tantas consciências. Numa aula sobre tolerância e liberdade, Samuel tinha mostrado algumas caricaturas de Maomé para explicar a intolerância. Foi dela vítima. A vida em liberdade importa? White lives matter?

Henrique Monteiro, Expresso, 21 de outubro de 2020


sábado, 17 de outubro de 2020

UM CÃO A DANÇAR NA CHUVA


Ontem fiquei feliz a ver um cão dançar na chuva. Sei que o meu ontem não é o vosso ontem, mas ontem é um conceito elástico e sendo um e outro ontem diferentes, não passam do mesmo. O tempo covid está dissolvido na água dos dias iguais. Ontem, portanto. Era um vídeo do WhatsApp e o cão dançava ao som de ‘Singing in the Rain’, de Gene Kelly. Uma canção do tempo em que importávamos felicidade da América. O cão saltava e parecia brincar com as gotas de chuva grossa num bailado de felicidade e liberdade. Felicidade é o que nos falta, tornou-se um bem proibido. Não podemos consumir um instante de alegria sem que venha a suspeita. Não podemos abraçar os pais e os filhos, não podemos abraçar os amigos, beijar os amantes, ou ter amantes, não podemos, nas palavras melífluas e orwellianas dos vigilantes, confraternizar. Nem com a família. Nem beber álcool fora de horas. Nem dançar na chuva ao som de uma canção. A polícia pode pensar que nos embriagámos. Deixem-se disso. Talvez pela mesma razão que um cão a dançar na chuva nos emociona, as prédicas de mestre-escola têm efeito por causa do grau de infantilização a que estamos remetidos.

Quando digo nos emociona, no plural, em vez de me emociona, sei o que digo. Reenviei o cão a dançar na chuva a meia dúzia de amigos e todos expressaram, por palavras breves ou emojis, a sua alegria. Aquilo tinha-lhes feito bem. O emoji com dois corações no lugar dos olhos foi o mais utilizado. Estou a falar de adultos com vidas profissionais completas, uma educação superior, experiência de vida e o cinismo protetor que a acompanha. Quando passámos a utilizadores em vez de cidadãos, sendo utilizador o update de consumidor, passámos a usar as partes menos complexas do cérebro. Em vez de articular uma frase, grande trabalho, podemos usar uma careta amarela e engraçada e assim demonstrar as nossas emoções. Crianças, portanto. Crianças com signos simples e evidentes, mais fáceis de combinar do que um brinquedo da Lego.

Tudo foi simplificado para nos neutralizar, equalizando as emoções individuais num emoji coletivo, para normalizar no mínimo tempo e espaço disponíveis. Na sociedade em que vivemos, economizar tempo é mais importante do que economizar dinheiro, e quando nos sobra tempo podemos gastá-lo a colecionar mais cães a dançar na chuva, gatos furibundos e outros bonecos e vídeos das redes sociais, que têm uma hierarquia de popularidade. Em todo o caso, prefiro o cão feliz a dançar na chuva do que um sul-coreano a dançar gangnam, que foi outrora e durante um bater de pestanas o mais popular vídeo da internet. Visto por milhões, o selo da qualidade.

Infantilizámos. Passámos de ser uma sociedade europeia que privilegiava o pensamento e a racionalidade, a filosofia e a literatura, ou a literatura como filosofia moral, a uma sociedade de crianças grandes que brincam umas com as outras ou mutuamente se agridem com furor por coisas sem importância. A agressão tem como contrapartida a lisonja, propiciada por fotografias idiotas em pose e dando a ilusão da beleza e da viagem, ou do luxo e da intimidade, do erotismo empacotado. É um filme inofensivo de banalidades que nada acrescenta nem diminui, serve de sintoma da infantilização.

As sociedades ditatoriais são sociedades infantilizadas, onde as ordens são para cumprir e a opinião é censurada ou, como tudo o resto, relativizada ou neutralizada. A selfie não é perigosa. Nas sociedades asiáticas ditatoriais ou semidemocráticas, quase todas, as massas não têm o poder de contraditar os poderes, o partido, o rei, a nomenclatura, o politburo, a corte, os generais, a tradição, o costume, com todos os acessórios da ditadura tosca ou da ditadura centrada e inteligente. Nessas sociedades, como qualquer viagem num transporte público pode atestar, as pessoas veem bonecos no telemóvel o tempo todo. Manga, posts, fotografias, vídeos, desenhos ou grafismos de qualquer ordem. As massas consomem imagens, não consomem discursos, porque não os podem contraditar. Livros e filmes são censurados quando quebram um tabu nacional ou local. Talvez venha desta obediência o êxito destas sociedades no combate à pandemia. Do mesmo modo que se diz a uma criança cala-te e obedece porque sim, diz-se a um povo, faz o que te mando porque sim. Se aliarmos a este diktat a tecnologia e a riqueza e disponibilidade dos recursos, temos a receita para eliminar a covid sem danos. É isto ou o isolamento total, que estará condenado no dia em que se abrir a primeira janela para deixar entrar o ar fresco. Caso da Nova Zelândia.

No meio de mensagens vagas ou contraditórias, avançamos como crianças com medo do escuro. Nem ousamos perguntar se este modo de abordar a pandemia será o certo, o racional, o útil e o eficaz. Os governos comportam-se como crianças caprichosas e assustadas, decretando quarentenas, novas regras e confinamentos de um dia para o outro, destruindo indústrias e milhões de empregos, assustando as pessoas e usando a esmo profissionais e peritos, alguns de última hora e mais peritos do que seria desejável, quase todos com ameaças e profecias de charlatães. Salva-se meia dúzia. No escuro, jaz o vírus e aquilo que não nos é dito. Como são tratadas as pessoas no hospital? Qual o perfil dos internados e dos mortos? Quais os medicamentos que estão a ser usados? Quantos recuperados estão doentes e com sequelas? Como mata e quanto debilita o vírus, ao certo? A estatística não cobre as nossas dúvidas, mas a estatística diz-nos que uma pequeníssima percentagem de pessoas morre. O que interessa é saber como e quanto se recupera. É das sequelas que as pessoas têm medo. E sobre isso sabemos pouco. E quantos mortos continuam a fazer as doenças do costume, aquelas de que ninguém fala e que não estão a ser tratadas? Mais. Muito mais.

As dúvidas são legítimas porque já nos foi dito tudo e o seu contrário. Desde as máscaras não serem úteis e serem perigosas à obrigatoriedade de máscaras na rua e ao vento.

Infantilizados, coagidos, aprisionados em regras que não entendemos, aterrorizados por mensagens e contagens, abdicámos de pensar pela nossa cabeça. Estamos proibidos não apenas de fazer o que queremos, estamos proibidos de pensar o que queremos porque nada sabemos. Eles é que sabem. E cenas como as de Trump, a criança mal-comportada que contamina com o vírus da estupidez tudo o que toca, não ajudam à clareza.

Quando sairmos deste pesadelo, e este quando é opcional, estaremos mais tristes, mais irritados, mais agressivos, mais violentos, muito mais doentes do que quando entrámos. E infinitamente mais pobres. E talvez um dia possamos perceber como é que um cão a dançar na chuva se tornou na nossa alegria.

Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa, Revista do Expresso, 17 de outubro de 2020