Governo de Passos negou todas as
alternativas à queda do BES
No Verão
de 2014 todos ficámos a saber factos que até ali nos tinham sido dados por impossíveis. O primeiro
era que o BES era afinal um castelo vazio, com accionistas sem capital e
activos sobrevalorizados. O segundo era que os supervisores (e os Governos)
eram distraídos e durante duas décadas ignoraram os sinais de falta de solidez
do grupo e de falhas de idoneidade de alguns gestores. O terceiro era que as
mensagens de tranquilidade que tinham partido nas vésperas do resgaste de
Belém, de São Bento e do Banco de Portugal (BdP), escondiam a realidade: o
banco estava insolvente.
O
resultado dos sucessivos equívocos ficou à vista a 3 de Agosto de
2014, quando o governador, Carlos Costa
chamou, ao início da noite de um domingo, os jornalistas para com toda a serenidade lhes dar conta de que o BES
seria alvo de uma medida extrema que salvava os depositantes. E perante um país
incrédulo, o governador e a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque,
concluíram a uma só voz que a solução não deixava de ser uma boa notícia para
os contribuintes que não seriam chamados a pagar a factura. Por outro lado,
seria péssima para os bancos portugueses que teriam de meter no Fundo de
Resolução, um veículo de risco público, qualquer coisa como oito mil milhões de
euros. Ou seja: teriam de manter “vivo” o BES, que a partir do dia seguinte,
segunda-feira, estaria a concorrer no mercado com uma outra designação, Novo
Banco.
A medida
de Resolução do BES foi o desfecho possível de uma corrida contra o tempo que
começou na segunda-feira, 27 de Julho, num dos endereços mais reservados e
opacos da baixa pombalina, o local onde funciona a sede do Banco de Portugal e
a cujos corredores apenas acedem alguns privilegiados.
O que
levou ao abrir e fechar de portas pouco habitual no BdP foi um telefonema de
Vítor Bento, que a 14 de Julho assumira funções de presidente do BES, com apoio
do BdP. Uma das condições para aceitar substituir Ricardo Salgado foi que a
nova equipa, que incluía José Honório e João Moreira Rato, ficasse isenta de
assinar as contas relativas à gestão anterior. Os resultados do primeiro
semestre de 30 de Junho de 2014 continuavam por divulgar e previam um prejuízo
em torno dos dois mil milhões de euros, coberto por uma provisão de idêntico
valor, imposta pelo supervisor para cobrir a exposição ruinosa ao Grupo
Espírito Santo (GES).
Ora, uma
das primeiras decisões de Vítor Bento foi requerer à auditora PwC a análise dos
movimentos e das várias deliberações ordenadas pela gestão anterior, entre as
quais estava a recompra de obrigações próprias do BES com prejuízo
(Eurofin) e as cartas de conforto endereçadas (a 9 de Junho) ao Banco de
Desarrollo Economico Y Social Venezuela e ao Fundo de Desarrollo Nacional
Fonden no valor de 267,2 milhões de euros.
As
diferentes análises obrigariam a KPMG, há vários anos o auditor histórico do
BES, a impor a correcção do balanço do banco de modo a ficar devidamente
provisionado.
Na
sequência, a KPMG, a 25 de Julho, foi ao BdP entregar os números preliminares e os alarmes
dispararam. E nesse domingo, o supervisor chamou Vítor Bento que, durante a
conversa, colocou ao telefone o Deutsche Bank, o consultor financeiro. O banco
alemão defendeu que a capitalização privada era possível e deu conta de
manifestações de interesse de fundos, condicionadas a conhecerem o balanço. E à
clarificação da relação do BES com Angola. O consultor antecipou, porém, que
uma operação daquela natureza demoraria semanas.
E
recordou que na Europa havia casos de bancos gregos e cipriotas, sistémicos,
autorizados a funcionar com os rácios abaixo do exigido, acreditando que uma
negociação com Bruxelas permitiria aplicar este cenário. E ficaram assim.
28 de Julho
A uma
semana do resgate, Vítor Bento voltou a trocar mensagens com a tutela para
informar que a KPMG iria contactar os serviços para oficializar os números
semestrais do BES, com uma imparidade adicional de 1,2 mil milhões de euros,
pelo que a almofada de dois mil milhões de euros se tornara insuficiente e o
prejuízo disparara para 3,4 milhões de euros. O BES ficava com os rácios de
capital em 5%, abaixo do limiar exigido de 8,5% para poder operar.
Corrigidas
as contas, o BdP reportou-as ao Banco Central Europeu (BCE) que deu instruções:
até final da semana, o BES teria de apresentar uma solução de capitalização, de
outro modo era-lhe retirado o estatuto de contraparte. O que se traduziria em
fechar a torneira da liquidez e impedir que continuasse a aceder aos fundos do
BCE, o que, na prática, ia colocar a instituição em situação de ruptura.
De
acordo com o Expresso, o BES ia anunciar prejuízos de mais de três
mil milhões de euros, o que levou o BdP a relatar em comunicado que o
“interesse demonstrado por diversas entidades em assumirem uma posição de
referência no BES indicia que é realizável uma solução privada para reforçar o
capital”. E que, “no limite”, havia a linha de recapitalização pública
parcialmente usada pela CGD, pelo BCP e pelo Banif (o BPI tinha, entretanto,
reembolsado o empréstimo), o mecanismo de apoio à banca portuguesa criado no
quadro do programa de assistência negociado com a troika e que
continuava em vigor.
29 de Julho
Porém,
na terça-feira, na sede do BdP começaram movimentações para aplicar um plano de
contingência, com um cenário inicial único: promover uma venda do banco em
mercado (que teria de ter apoio dos accionistas do BES) com possível
recapitalização pública ou bail-in, que admitia a execução de
obrigacionistas.
E foi
assim que, à tarde, na maior sala do terceiro piso da sede do BdP, na baixa de
Lisboa, conhecida pela “sala da troika”, foi montado um gabinete de
crise onde se agruparam várias mesas para formar uma de maior dimensão
rectangular, para ali se dispersarem computadores e documentação relativa ao
BES. E começaram a chegar os técnicos, incluindo os do departamento de Política
Monetária, para o caso de ser necessário injectar liquidez no BES.
Ao lado
do director do departamento de supervisão, Luís Costa Ferreira, sentou-se João
Freitas, com o plano de contingência, e o jurista Pedro Machado, ex-chefe de
gabinete de Vítor Gaspar, como coordenador da task force. E o
responsável pela ligação às autoridades, europeias e nacionais. No segundo
andar, os administradores chefiados por Carlos Costa acompanharam os trabalhos,
mas cada um recolhido no seu gabinete. Como todos planeavam passar ali os dias
seguintes, foi encomendado o catering para fornecer o
pequeno-almoço, o almoço, o jantar e a ceia. E pelos corredores começou a
falar-se inglês.
Então,
Luís Costa Ferreira chamou o BNP Paribas, para dar apoio financeiro, e Pedro
Machado fez prospecção de gabinetes de advocacia para ajuda jurídica. E acabou
a telefonar a Pedro Cassiano Neves, sócio da VdA, para pedir o “número” de
Jorge Bleck, com treino em fusões e aquisição (M&A). Dava-se a
circunstância de Bleck estar a viajar do Algarve, onde estava de férias, para
Lisboa, para resolver questões relacionadas com a venda da Tranquilidade [a
seguradora do BES] à Apollo, um negócio encalhado naquele momento.
Quando
Bleck ligou de volta a Machado, este transmitiu que preferia falar pessoalmente
ao final da tarde. Frente a frente, o jurista abriu parte do jogo: “O BdP está
a avaliar uma decisão sobre o BES, mas nada está decidido, e vai necessitar de
contratar uma firma com experiência em recapitalizações e capacidade de
resposta rápida em termos de M&A. E quero saber se o vosso gabinete [VdA]
tem algum conflito de interesses”. Bleck participou-lhe que dava apoio à Apollo
e Machado questionou-o: “À parte disso há outros conflitos?” O advogado
observou que iria saber e tentando puxar por ele, inquiriu: “De que estamos a
falar?” O jurista do BdP fugiu à questão: “Ainda não sei, nem se vai
acontecer.”
À espera
no escritório estavam os dois sócios, João Vieira de Almeida (M&A) e
Cassiano Neves (da área da recapitalização), que confirmaram que a VdA podia
aceitar mandato. Na troca de impressões, Bleck ventilou: “Acho que pode estar
em curso uma bomba, não sei é qual é.”
Por
carta, o supervisor acabara de notificar o conselho de administração do BES,
onde se sentavam os accionistas, como o Crédit Agricole, a apresentarem um
plano de recapitalização em dois dias. O tema iria ser debatido na reunião do
dia seguinte, quarta-feira.
30 de Julho
Que o
GES estava “rebentado” era do domínio geral, mas o que poucos sabiam é que o
BES também estava. E foi o que Bleck, Vieira de Almeida e Cassiano Neves
perceberam quando, na ida ao BdP, ouviram Pedro Machado dizer: “Estamos a
equacionar realizar uma operação de mercado que terá de ser feita até ao
fim-de-semana pois o BCE ameaça cortar a liquidez ao BES na segunda-feira.”
A estratégia
da autoridade de supervisão era isolar um potencial interessado no BES. Mas
antes de sair da sala, Machado antecipou aos advogados: “Pode acontecer que o
BdP ainda tenha de fazer uso dos seus plenos poderes.”
Por
isso, os advogados da VdA foram olhar para o Regime Geral das Instituições de
Crédito e concluíram que só havia um potencial adquirente do BES: o BPI, que
acabara em Junho [de 2014] de liquidar o empréstimo da linha da troika e
estava livre de restrições a aquisições, o que não acontecia com a CGD e o BCP.
Foi o
que indicaram a Pedro Machado. E ainda: “Como o volume de negócios do BPI não é
grande, não tem de passar pelo crivo da DGComp [autoridade de concorrência
europeia]. E para situações como a do BES, a lei dispensa a AdC [autoridade de concorrência
portuguesa] de ser consultada.”
Meses
antes, em 2013, o BPI apoiara Pedro Queiroz Pereira na luta contra o assalto do
GES à Semapa, fizera uma due dilligence [análise às contas] ao
BES, e constatara graves problemas, um deles que cerca de 60% do capital estava
aplicado no banco de Luanda.
Por tudo
isto, Bleck observou: “O BPI nada fará sem ter o apoio dos accionistas e em
dois dias é impossível falar com todos”.
Mesmo
assim, o presidente do BPI, Fernando Ulrich, foi sondado pelo BdP sobre o
eventual interesse na concentração, decisão que teria de ser rápida e tratada
com os accionistas do BES. O BdP facilitaria.
Para
aprovar as contas semestrais (sem os nomes de Vítor Bento, de José Honório e de
Moreira Rato), mas também para dar resposta à carta remetida pelo BdP, o
Conselho de Administração do BES esteve reunido durante toda a manhã de
quarta-feira. E por escrito pronunciou-se nestes termos: o BES estava
disponível para encontrar meios para recapitalizar o banco, não o podia fazer
em dois dias (na prática em um) e garantia que iniciaria o processo
imediatamente.
Simultaneamente,
Vítor Bento, José Honório e o administrador delegado de Crédit Agricole,
pediram uma audiência ao BdP, onde chegaram depois de almoço para insistir
junto de Carlos Costa que “qualquer processo de capitalização não pode ser
feito em dois dias, como lhes fora exigido.” O governador frisou que não há
tempo e que o BES pode usar a linha de recapitalização da troika [que
Ricardo Salgado sempre rejeitara]”. E adicionou à conversa uma sugestão: “Vão
falar directamente com a senhora ministra das Finanças.”
Com o
aperto, Bento foi falar com Maria Luís Albuquerque com quem teve um diálogo que
dificilmente esquecerá. Quando a interpelou sobre a receptividade do Estado em
permitir que o BES se recapitalizasse junto da linha da troika (que
implicava pagar juros e diluir capital com a entrada do Estado), conforme
solução mencionada por Carlos Costa, a ministra transmitiu: “a receptividade é
nula.”
O BES
tornara-se uma surpresa e um pedregulho que as autoridades, o BdP e o Governo,
tinham ignorado durante anos. Agora evitavam tropeçar nele. Com a situação do
país controlada, os juros em queda, Maria Luís Albuquerque queria uma saída
limpa, isto é, terminar o período de ajuda externa sem qualquer problema por
resolver.
E havia eleições no ano seguinte. A par e passo, nos bastidores
controlados das Finanças, ultimava-se a transposição para a lei nacional da
directiva europeia da Resolução bancária, planeada para entrar em vigor em
2016.
Quando
Vítor Bento saiu do edifício das Finanças uma coisa percebeu: o que ouvira à
ministra contrariava o que Carlos Costa lhe dissera. O Governo não se
comprometia.
Durante
a noite de quarta-feira, o BES revelou os maiores prejuízos da história de toda
a banca portuguesa: contabilizara 3,577 mil milhões de euros no primeiro
semestre. Só em imparidades inscrevera 4,3 mil milhões.
“Será
desencadeado de imediato um processo visando aumentar o capital do banco”, que
ficou com um rácio Tier 1 de 5% (para metas de 8,5%), e “o plano de
capitalização deverá, desejavelmente, contemplar uma almofada de precaução”
para garantir o futuro de longo prazo, lê-se no comunicado emitido por Vítor
Bento.
Dali a
minutos foi o BdP que se fez ouvir: “Reitero que estão reunidas as condições
necessárias à continuidade da actividade desenvolvida pelo BES e à plena
protecção dos interesses dos depositantes”. Ou seja, segundo o supervisor, o
banco tinha todas as condições para continuar a operar. E, além disso,
clarificou que o reforço de capital devia ser feito com base em soluções de
mercado e que “a solidez do BES será salvaguardada pelo facto de continuar
disponível a linha de recapitalização pública criada no âmbito do Programa de
Assistência Económica e Financeira para suportar eventuais necessidades de
capital do sistema financeiro”. O BdP teimava em aludir à linha de
recapitalização, como meio de resolver o problema, que horas antes Maria Luís
Albuquerque negara.
31 de Julho
O
cenário não podia ser pior. Os investidores e os clientes do BES assustaram-se,
sobre a rede comercial houve pressão de levantamentos e no mercado um recuo na
cotação de 42,07%, para 0,20 cêntimos. Então, o porta-voz do Governo, Luís
Marques Guedes, interveio para dizer que o BES seria normalizado por via
“essencialmente privada”.
Mas o
BPI colocou-se fora de jogo e Fernando Ulrich descartou ficar com o BES, nem
discutiu o cenário em Conselho de Administração.
A
nacionalização do BES era tecnicamente admissível, mas politicamente não era.
Por razões ideológicas e pelos custos que dali poderiam resultar, o
primeiro-ministro Pedro Passos Coelho nem olhou para ela. Para mais, havia um
preconceito decorrente do dossiê BPN, que com menos de 3% do mercado vai acabar
por custar aos contribuintes qualquer coisa como sete mil milhões (ou seja,
quase tanto quanto se admite acabar por meter no BES).
A
hipótese da liquidação, que o BCE e Bruxelas não afastavam, foi excluída pelo
BdP com o argumento de que um banco não é uma empresa, que se fechar só perdem
os trabalhadores e os fornecedores. No caso de “um banco sistémico como o BES
os efeitos são em cascata, é mandar liquidar o sistema financeiro português.” E
o cenário da Resolução precipitou-se.
Nessa
noite, Bleck, Vieira de Almeida e Cassiano Neves atravessaram a pé o Terreiro
do Paço, onde os viram a jantar numa esplanada. Estavam descrentes, a comentar
entre si: “Isto é Portugal, não se vai fazer.” Tradução: politicamente vai ser
difícil desmantelar o império Espírito Santo.
Subestimavam
o Governo que, aparentemente, determinara o momento e o modelo da intervenção.
A resolução permitia a Maria Luís Albuquerque manter intocável a narrativa da
saída limpa, pois não iria implicar a injecção de dinheiros públicos à cabeça.
1 de Agosto
No
segundo andar da sede do BdP, ao final da manhã de sexta-feira, dois dias antes
do resgate, Carlos Costa reunido, via teleconferência, era avisado pelos
membros do Conselho de Governadores do BCE: o estatuto de contraparte do BES
será retirado na segunda-feira, 4 de Agosto, suspendendo, assim, o acesso às
operações de política monetária; e nessa data o BES terá também de reembolsar
integralmente o crédito junto do Eurosistema, de cerca de 10 mil milhões de
euros. Ditavam-lhe o fim.
A partir
dali deram-se múltiplas interacções para desenhar a solução definitiva. Fixadas
as linhas vermelhas, o que era intocável, os depósitos e a seguir a dívida não
subordinada, as equipas internas e externas do BdP começaram a partir o balanço
daquele que alguns classificavam como o banco mais emblemático do país.
Para
Vítor Bento, valia a pena passar uma mensagem de tranquilidade sobre o futuro
aos quadros do BES e foi o que começou a fazer à hora de almoço, quando o
interromperam: Carlos Costa queria-o no BdP ao final da tarde e a CMVM preparava-se para intervir.
Eram
15h00 quando a negociação do BES foi suspensa, e só depois de Carlos Tavares
ter tido conhecimento oficial de que o BdP estava a planear uma acção iminente.
Em dois dias, o banco descarrilara em bolsa mais de 100%. Colapsava à vista de
todos.
Finalmente,
Carlos Costa e Pedro Duarte Neves iam transmitir a Vítor Bento, a José Honório
e a João Moreira Rato os planos: “seria aplicada ao BES a medida de Resolução”
e [os três gestores] “ficariam a gerir a instituição saneada”. Mais: o BdP
entendia que deste modo o problema do BES seria ultrapassado.
As
explicações do BdP compraram tempo, mas não garantiram o fim dos problemas.
Embora Bento, Honório e Rato tivessem deixado a baixa lisboeta convencidos de
que se abriria um novo ciclo, e como não tinham conhecimento pormenorizado da
lei, fizeram o óbvio: pediram esclarecimentos aos assessores jurídicos do BES,
o advogado António Soares e o agora ministro Pedro Siza Vieira, da Linklaters.
2 de Agosto
No dia
seguinte, sábado, véspera da Resolução, a equipa de Vítor Bento (que na altura
já não tinha gestores da administração de Salgado) foi alertada por Siza Vieira
para um equívoco: “Da resolução ia resultar um banco de transição que teria de
ser vendido em pouco tempo, no máximo dali a dois anos, ou inteiro ou
retalhado.” E, portanto, com tantas limitações, significava que a gestão teria pouca
margem de manobra para o recuperar.
E aí Vítor
Bento marcou o número de telefone de Carlos Costa para avisar que naquelas
condições não se manteria no cargo e pedia-lhe uma reunião urgente que começou
pouco depois. Ao lado de Honório e de Rato, Bento ouviu o governador contar que
Bruxelas exigia que a venda do banco de transição ocorresse em dois anos, assim
como o desaparecimento da marca Espírito Santo. E diz-lhes que acreditava numa
venda rápida e lucrativa do banco. O gestor recordou que o seu desafio era o de
recuperar o BES e não o de o liquidar. Participou que estava de saída do BES.
E foi
quando Carlos Costa contrapôs, hesitou, disse que sim e disse que não, mas como
queria o dossiê fechado, instruiu Pedro Machado para corrigir a lei da Resolução
de modo a que a continuidade de Vítor Bento fosse preservada. E o prazo de
venda do banco de transição que na lei da Resolução está em dois anos, foi
estendido até cinco anos.
O
ambiente padrão do BdP é sem registos emocionais ou de velocidade, mas agora
andava agitado. Ao piso de cima tinham chegado os técnicos da DGComp para
negociar os termos da Resolução com João Freitas e Miguel Mendes Pereira, sócio
da VdA.
Um dos
principais pontos da Resolução não podia ser mais claro: os bancos concorrentes
iam salvar o BES, entre eles a CGD. E nesse sábado, o almoço de Fernando Faria
de Oliveira, presidente da APB, foi estragado quando um banqueiro lhe comunicou
que havia grande aceleração no BdP e no BCE. E lhe propôs uma audiência com o
governador.
Eram
18h00 quando Faria, José Matos (CGD), Nuno Amado (BCP) e Fernando Ulrich (BPI)
chegaram ao BdP. No decurso da conversa, Carlos Costa confirmou que o resgate
os envolveria directamente.
A
irritação por terem sido associados à operação sem terem sido consultados foi
substituída pela perplexidade ao perceberem que o BdP já tinha passado a
estratosfera, rodopiava mesmo no espaço sideral, pois ouviram da equipa do
governador uma reflexão do género: “Confiamos que o banco de transição venha a
ser vendido rapidamente, talvez mesmo por 70% ou 90% do que vier a ser
injectado e os bancos vão conseguir recuperar o que lá meteram.” O que se
passará depois nada terá a ver com o que ali foi dito.
Foi
tanta a discussão que a dada altura Carlos Costa deu um conselho: “Vão falar
com a senhora ministra das Finanças.” Passava das 21h00 quando Faria, Matos,
Amado e Ulrich entraram no elevador das Finanças.
Não é
preciso perder tempo para saber o que Maria Luís Albuquerque lhes disse ao ser
confrontada sobre a razão por que não houve disponibilidade para deixar o BES
ir à linha da troika. A ministra justificou a opção pela Resolução
com a mudança das regras das ajudas do Estado à banca. Ainda assim, foi
contrariada pelos banqueiros, que argumentaram que “Portugal continua debaixo
do programa de assistência e a linha de recapitalização fora criada para ajudar
a banca nacional”.
“E por
que não liquidar o BES e dividir os activos e passivos entre os bancos?” Não
valia a pena levantar a discussão. Por conveniência política, ou falta de informação,
Albuquerque viajara com o BdP para o espaço sideral, pois apresentou o cenário
optimista: a expectativa é de uma venda rápida por um valor próximo do que vier
a ser injectado. Eram 23h00 quando Faria, Matos, Amado e Ulrich saíram do
Terreiro do Paço. Caíra-lhes em cima o meteorito BES.
Enquanto
decorria a conversa acesa dos banqueiros com a ministra, Luís Marques Mendes
com linha directa para o BdP, transfigurara-se de jornalista e no seu
comentário semanal na SIC, deu a notícia da década: “Na segunda-feira nasceria
um novo BES”, dividido em dois, uma parte boa, com outra designação e outra má.
E “não se trata nem de uma solução de nacionalização como aconteceu no BPN” e
“também não será feita uma recapitalização exactamente como foi feita no BCP ou
no Banif ou no BPI”. E apresentou números: o banco necessitará de “cerca de
quatro a cinco mil milhões de euros, verba que virá do fundo de resolução
bancária”.
A
iniciativa chegou em boa hora para as autoridades, pois com a tarimba de
advogado Marques Mendes deu uma explicação tão esquemática, que quem ouviu,
percebeu tudo. Mas colocou os quadros do BdP em choque: não só revelara o que
estava a ser preparado em ambiente controlado como adiantara detalhes novos.
Durante
a noite, Pedro Machado, reuniu-se com António Soares, Pedro Siza Vieira, David
Ereira (ligado à falência do Lehman Brothers), da Linklaters, e Jorge Bleck,
Cassiano Neves, Mark Sterling, da VdA/ Allen & Overy, para analisarem as
questões jurídicas da divisão dos activos entre bons e maus para que o balanço
do banco de transição se pudesse fechar.
3 de Agosto.
No
domingo, ao início da manhã, o vice-governador Pedro Duarte Neves, e o director
do departamento de supervisão do BdP, Luís Costa Ferreira, atravessaram a Praça
do Comércio para ir falar com Albuquerque, a quem informaram que o banco de
transição necessitaria de uma injecção de dinheiro público entre 5,5 e seis mil
milhões.
Articulada com Passos Coelho, a ministra transmitiu que não libertaria
mais de cinco mil milhões, o que limitava a folga para resolver todos os
problemas do banco. E fixou-se o valor em 4,9 milhões.
Com a
pressão a crescer e os buracos a aparecerem, no BdP faziam-se contas simples
para se cozinhar um balanço ajustado ao montante da injecção pública (4,9 mil
milhões). Depois? Logo de verá. Quando os técnicos chegaram a um rácio de
capital (Tier 1) do banco de transição de 8,5%, trancaram o dossiê. E foi
quando se ouviu o desabafo de um inglês, Mark Sterling, que colaborara na
reestruturação da banca grega: “Isto vai ter muitos problemas com um Tier 1 de
8,5%, pois para fazer face ao que se vai acabar por descobrir, o Tier 1 teria
de ser 13%.”
Às 20h00
de domingo, 3 de Agosto, Carlos Costa começou a revelar a um país estupefacto o
plano de resolução do BES, com a linha de argumentação política de Maria Luís
Albuquerque: a Resolução é a melhor solução para os contribuintes, que não vão
meter dinheiro no BES.
O que se
passou a seguir é conhecido
As
expectativas do anterior Governo e as do BdP sobre o timing e
o encaixe da alienação do banco de transição eram, evidentemente, exageradas. O
Novo Banco foi vendido em 2017, com o incentivo ao contrário: o Lone Star
comprou 75% do capital, com um seguro de 3,9 mil milhões que pode (e está a)
accionar quando entender. O Governo acaba de lhe destinar mais 600 milhões de
euros, o que se somará aos 1,941 mil milhões de euros já usados.
O Novo
Banco não é só um tema da banca, como Carlos Costa e Maria Luís Albuquerque
quiseram fazer crer, é também dos contribuintes. E manter-se-á risco público
por mais 30 anos, o prazo dado ao sector bancário para pagar ao Estado os
empréstimos ao Fundo de Resolução.
Com a
partilha do BES em dois, as contingências legais, um risco sem fim, ficaram do
lado do BES (em liquidação), e não dos contribuintes e do Fundo de Resolução.
O
advogado, agora ministro Pedro Siza Vieira, que alertou Vítor Bento para as
limitações do banco de transição, aprendeu a lição. Não só acompanhou a venda
do Novo Banco, como a do Banif ao Santander, com ajudas do Estado.
Mesmo
com as equipas do BdP a andarem por esse mundo fora a dar lições sobre o que
foi a Resolução do BES, não se repetiu a experiência nos mesmos moldes. Haverá
novos combates quando o Lone Star vender o controlo do Novo Banco.
Pedro Passos
Coelho ganhou as eleições de 2015, mas não voltou a São Bento, e quem se sentou
no seu lugar foi António Costa. E Maria Luís Albuquerque foi trabalhar para a
Arrow como assessora para a compra de créditos tóxicos, um negócio que a banca
que tutelou tem vindo a rentabilizar. Carlos Costa foi reconduzido no cargo.
Sobre Ricardo Salgado, o primeiro rosto da ruína e queda do BES, caem múltiplos
processos judiciais e criminais.
Todos os
episódios relatados pelo PÚBLICO têm por base testemunhos directos ou
documentos escritos dos intervenientes. Maria Luís Albuquerque declinou falar
com o PÚBLICO.
Cristina Ferreira