Há quase 15 dias fiz, no Eixo do Mal,
uma pergunta que sabia brutal. Avisei previamente que o seria. De tal forma que
me custa verbalizar a resposta: “é justo sacrificar o futuro de uma geração
para termos mais anos de vida noutra?” A pergunta parece tratar como
descartáveis as vidas dos mais velhos. Quem me lê aqui sabe que estou a léguas
desse tipo de raciocínio. Esse é, aliás, um dos meus maiores choques culturais
com o pragmatismo demolidor do norte da Europa. Mas se a pergunta tem, como têm
todas as que lidam com a vida e com a morte para lá da comoção, qualquer coisa
de insensível, não a fazer não terá menos.
O que discuto é se estamos disponíveis para
fazer o que sempre fizemos e permitiu a sobrevivência da espécie: os
sacrifícios indispensáveis para a preservação e superação das nossas
capacidades pelas gerações que nos seguem. Só um egoísmo e suicida para a
espécie nos poderia levar a abandonar esta quase instintiva pulsão. Felizmente,
o desenvolvimento permitiu que esse esforço não se fizesse de forma cruel. Mas
ele não se extinguiu.
Sempre que se fala de tudo o que temos
exigido a crianças, adolescentes e jovens a apaziguadora convicção que observo
é que eles têm, ao contrário de nós, uma vida toda para recuperar o tempo
perdido. É exatamente ao contrário. Nunca se recupera do que se perde na
infância e na fase mais estruturante daquilo que depois seremos. Ao contrário
do que acontece na vida adulta, onde o tempo é só tempo. O que eles estão a
perder, e será tão trágico quanto mais novos forem e mais tempo durar, é o
momento certo para aprender. É o ritmo certo para crescer. São os amores que
não terão, a aprendizagem afetiva e sexual que se adia, a socialização
indispensável para se formarem como seres humanos que se atenua. Tantas e
tantas coisas que acontecem tão depressa que um ano deles é a uma década na
minha idade. Eles perdem grande parte do que nos permitiu ser quem somos. O que
quer dizer que perdem o que nós já temos.
Vamos assumir o que nos custa dizer-lhes: o
risco que eles correm nesta pandemia é baixíssimo. Até aos 29 anos a taxa de
letalidade, em Portugal,
não anda longe dos 0%. Cerca de 2% dos infetados na casa dos 60 acabam por
morrer e esse número salta para os 17% acima dos 80 anos. Havendo riscos, eles
são incomensuravelmente inferiores para as crianças e adolescentes do que para
os mais velhos. O que quer dizer que lhes pedimos o sacrifício máximo (eles
estão a perder mais do que nós) para fazer face a um risco mínimo (eles correm
menos perigo do que nós). Esse pedido faz-se, e bem, em nome da solidariedade
geracional. E é aqui que cito um texto do psicólogo e catedrático Leonel
Garcia-Marques, que me levou a escrever este artigo. Não vale a pena
fazer-vos qualquer resumo. É um texto curto e acessível. Devem ler. Escolho
esta passagem:
“Devemos, mais do que tudo, sentirmo-nos
gratos pela disponibilidade manifestada pela grande maioria dos jovens para nos
proteger, colocando a sua disponibilidade em destaque, em paralelo com a dos
outros heróis da pandemia, os profissionais de saúde e todos os outros
trabalhadores que impedem que a sociedade entre em colapso. (...) Se o desconfinamento
mais lento acarreta riscos especiais para os jovens (e para a sociedade futura)
no que concerne a ultrapassagem bem-sucedida das tarefas de
desenvolvimento, nós, os menos jovens, estamos também numa situação de
risco moral por, aparentemente, estarmos dispostos a expor os jovens (e futura
sociedade de que farão parte) a esses riscos, sem a mínima hesitação.”
O dever moral que temos é, antes de tudo, o
de não lhes mentir, levando-os a acreditar que fazem este sacrifício por eles e
não por nós. Seria desonesto e sinal de ingratidão. E só lhes podemos pedir o
indispensável para garantir a segurança dos mais velhos, mostrando-nos
disponíveis para corrermos alguns riscos em nome do seu futuro.
Uma sociedade que não se sacrifica pelos
velhos é falha de empatia. Uma sociedade que não se sacrifica pelos novos está
condenada. Isto não tem dois lados da barricada e não há nada tão inútil e
repetitivamente e passageiro como guerras de gerações. Desde que não nos
esqueçamos de uma coisa: é por nós, não por eles, que lhes pedimos sacrifícios.
Temos de lhes agradecer e dar o nosso melhor para os compensar pelo esforço.
Daniel Oliveira, Expresso, 22 de setembro de 2020

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