Temos no Parlamento um OE, numa ‘pen’ que o ministro das
Finanças entregou ao Presidente da AR. A cerimónia mantém a tradição de quando
eram molhos de papéis, o que acho bem. Agora até é abrilhantada pelas
televisões, que nos dão a emoção de um ministro a avançar pelos Passos Perdidos
de São Bento até um gabinete onde, de máscara, como mandam as regras, o
presidente da Assembleia da República recebe a dita pen (onde caberiam 500 OE
em papel).
Uma repórter queixa-se de que agora, com as máscaras, não se
ouve o que dizem as duas figuras. Hão de dizer coisas importantes, do tipo ‘boa
noite, como está?’ e outras frases de circunstância. O motivo pelo qual o OE é
sempre entregue de noite, não sendo por uma causa semelhante à da passagem do
Ano ter de ser à meia-noite, é também incompreensível, mas é assim há muito
tempo e – honra seja feita ao Dr. Leão – desta vez até foi bastante (cerca de
duas horas) mais cedo.
O Orçamento está, pois, no hemiciclo à espera de aprovação. É
um documento feito num tempo em que não se sabe o que se vai passar até ao fim
do mês, quanto mais em 2021… mas tem de ser. É um documento que há de estar
cheio de erros de previsão, de tal modo que o próprio primeiro-ministro,
António Costa –cujo nome do meio foi ‘o que não precisa de Orçamentos
retificativos, como os outros’ -, já admitiu que talvez tenha de recorrer a
essa possibilidade que a lei e a tradição lhe abrem, que é a de alterar o que
entrega agora para outra coisa diferente no decurso da execução da lei
orçamental.
O OE, como aqui escrevi na semana passada, é o que pode ser;
depois inclui-se uma série de coisas que não poderiam ser, mas que a chamada
esquerda exige que sejam.
Como todos sabem, neste jogo de taberna (que, por um engano de
que me penitencio, ia chamando florentino), o facto de se exigir não interessa
nada. Porque a realidade acaba por se impor e promessas, compromissos e essas
coisas ficam sempre adiados para segundas núpcias, sabendo-se que isto de
casamentos também anda mal; não só porque a instituição já estava em crise, mas
porque a pandemia também não os permite com convidados e testemunhas que se
vejam. Ora, a menos que o PS e o seu líder e dirigentes dessem cabo disto
tudo de uma vez, tudo o que se discute são trocos e meras expressões
ideológicas. Veja-se a TAP... Emprego para menos 1600 e a nossa esquerda
calada.
A pandemia é, aliás, um tema de que o BE gosta muito. Grita
“ai, ai, ai”, diz frases grandiloquentes sobre hospitais do tipo “Não podemos
ter privados a fazer o que lhes apetece” e depois age como se vivêssemos num
mundo normal e, para mais, cheio de dinheiro.
As negociações da esquerda apresentam-se como uma espécie de
brincadeira vergonhosa. Vergonhosa, porque se passa num tempo, que é este, de
angústia, incerteza e urgência social; brincadeira, porque sabe-se no que
resulta (o OE vai passar) e, sobretudo, que os efeitos pretendidos com estas
encenações é uma espécie de concurso de quem perde e ganha. Nesse aspeto, há
que dizê-lo, o PCP e o PAN demonstram muito mais responsabilidade do que o
Bloco e os seus acólitos. Pergunto-me por que motivo tem um partido com 10% de
votos tanta influência mediática e política. Eu sei que não é de agora, mas tem
vindo a piorar.
A própria Comunicação Social poderia – e deveria – levar em
conta o aspeto tetricamente lúdico deste jogo, e não lhe dispensar as toneladas
de páginas (quase tantas quantas tinha um OE dos velhos tempos) que lhe dedica.
Não há, de facto, paciência. Ver o tempo, a energia e o
dinheiro gasto com estes jogos infantis.
PS – A propósito do constante repúdio do racismo, da violência
e do fascismo, registo que a decapitação, à faca, do professor de História e
Geografia Samuel Paty, a 200 metros da sua própria escola, nos arredores de
Paris, não mobiliza assim tantas consciências. Numa aula sobre tolerância e
liberdade, Samuel tinha mostrado algumas caricaturas de Maomé para explicar a
intolerância. Foi dela vítima. A vida em liberdade importa? White lives matter?
Henrique Monteiro, Expresso, 21 de outubro de 2020

Sem comentários:
Enviar um comentário