Ontem fiquei feliz a ver um cão dançar na
chuva. Sei que o meu ontem não é o vosso ontem, mas ontem é um conceito elástico
e sendo um e outro ontem diferentes, não passam do mesmo. O tempo covid está
dissolvido na água dos dias iguais. Ontem, portanto. Era um vídeo do WhatsApp e
o cão dançava ao som de ‘Singing in the Rain’, de Gene Kelly. Uma canção do
tempo em que importávamos felicidade da América. O cão saltava e parecia
brincar com as gotas de chuva grossa num bailado de felicidade e liberdade.
Felicidade é o que nos falta, tornou-se um bem proibido. Não podemos consumir
um instante de alegria sem que venha a suspeita. Não podemos abraçar os pais e
os filhos, não podemos abraçar os amigos, beijar os amantes, ou ter amantes,
não podemos, nas palavras melífluas e orwellianas dos vigilantes,
confraternizar. Nem com a família. Nem beber álcool fora de horas. Nem dançar na
chuva ao som de uma canção. A polícia pode pensar que nos embriagámos.
Deixem-se disso. Talvez pela mesma razão que um cão a dançar na chuva nos
emociona, as prédicas de mestre-escola têm efeito por causa do grau de
infantilização a que estamos remetidos.
Quando digo nos emociona, no plural, em vez
de me emociona, sei o que digo. Reenviei o cão a dançar na chuva a meia dúzia
de amigos e todos expressaram, por palavras breves ou emojis, a sua alegria.
Aquilo tinha-lhes feito bem. O emoji com dois corações no lugar dos olhos foi o
mais utilizado. Estou a falar de adultos com vidas profissionais completas, uma
educação superior, experiência de vida e o cinismo protetor que a acompanha.
Quando passámos a utilizadores em vez de cidadãos, sendo utilizador o update de
consumidor, passámos a usar as partes menos complexas do cérebro. Em vez de
articular uma frase, grande trabalho, podemos usar uma careta amarela e
engraçada e assim demonstrar as nossas emoções. Crianças, portanto. Crianças
com signos simples e evidentes, mais fáceis de combinar do que um brinquedo da
Lego.
Tudo foi simplificado para nos neutralizar,
equalizando as emoções individuais num emoji coletivo, para normalizar no
mínimo tempo e espaço disponíveis. Na sociedade em que vivemos, economizar tempo
é mais importante do que economizar dinheiro, e quando nos sobra tempo podemos
gastá-lo a colecionar mais cães a dançar na chuva, gatos furibundos e outros
bonecos e vídeos das redes sociais, que têm uma hierarquia de popularidade. Em
todo o caso, prefiro o cão feliz a dançar na chuva do que um sul-coreano a
dançar gangnam, que foi outrora e durante um bater de pestanas o mais
popular vídeo da internet. Visto por milhões, o selo da qualidade.
Infantilizámos. Passámos de ser uma sociedade
europeia que privilegiava o pensamento e a racionalidade, a filosofia e a
literatura, ou a literatura como filosofia moral, a uma sociedade de crianças
grandes que brincam umas com as outras ou mutuamente se agridem com furor por
coisas sem importância. A agressão tem como contrapartida a lisonja, propiciada
por fotografias idiotas em pose e dando a ilusão da beleza e da viagem, ou do
luxo e da intimidade, do erotismo empacotado. É um filme inofensivo de
banalidades que nada acrescenta nem diminui, serve de sintoma da infantilização.
As sociedades ditatoriais são sociedades
infantilizadas, onde as ordens são para cumprir e a opinião é censurada ou,
como tudo o resto, relativizada ou neutralizada. A selfie não é
perigosa. Nas sociedades asiáticas ditatoriais ou semidemocráticas, quase
todas, as massas não têm o poder de contraditar os poderes, o partido, o rei, a
nomenclatura, o politburo, a corte, os generais, a tradição, o costume, com
todos os acessórios da ditadura tosca ou da ditadura centrada e inteligente.
Nessas sociedades, como qualquer viagem num transporte público pode atestar, as
pessoas veem bonecos no telemóvel o tempo todo. Manga, posts, fotografias,
vídeos, desenhos ou grafismos de qualquer ordem. As massas consomem imagens,
não consomem discursos, porque não os podem contraditar. Livros e filmes são
censurados quando quebram um tabu nacional ou local. Talvez venha desta
obediência o êxito destas sociedades no combate à pandemia. Do mesmo modo que
se diz a uma criança cala-te e obedece porque sim, diz-se a um povo, faz o que
te mando porque sim. Se aliarmos a este diktat a tecnologia e a
riqueza e disponibilidade dos recursos, temos a receita para eliminar a covid
sem danos. É isto ou o isolamento total, que estará condenado no dia em que se
abrir a primeira janela para deixar entrar o ar fresco. Caso da Nova Zelândia.
No meio de mensagens vagas ou contraditórias,
avançamos como crianças com medo do escuro. Nem ousamos perguntar se este modo
de abordar a pandemia será o certo, o racional, o útil e o eficaz. Os governos
comportam-se como crianças caprichosas e assustadas, decretando quarentenas,
novas regras e confinamentos de um dia para o outro, destruindo indústrias e
milhões de empregos, assustando as pessoas e usando a esmo profissionais e
peritos, alguns de última hora e mais peritos do que seria desejável, quase
todos com ameaças e profecias de charlatães. Salva-se meia dúzia. No escuro,
jaz o vírus e aquilo que não nos é dito. Como são tratadas as pessoas no
hospital? Qual o perfil dos internados e dos mortos? Quais os medicamentos que
estão a ser usados? Quantos recuperados estão doentes e com sequelas? Como mata
e quanto debilita o vírus, ao certo? A estatística não cobre as nossas dúvidas,
mas a estatística diz-nos que uma pequeníssima percentagem de pessoas morre. O
que interessa é saber como e quanto se recupera. É das sequelas que as pessoas
têm medo. E sobre isso sabemos pouco. E quantos mortos continuam a fazer as
doenças do costume, aquelas de que ninguém fala e que não estão a ser tratadas?
Mais. Muito mais.
As dúvidas são legítimas porque já nos foi
dito tudo e o seu contrário. Desde as máscaras não serem úteis e serem
perigosas à obrigatoriedade de máscaras na rua e ao vento.
Infantilizados, coagidos, aprisionados em
regras que não entendemos, aterrorizados por mensagens e contagens, abdicámos
de pensar pela nossa cabeça. Estamos proibidos não apenas de fazer o que
queremos, estamos proibidos de pensar o que queremos porque nada sabemos. Eles
é que sabem. E cenas como as de Trump, a criança mal-comportada que contamina
com o vírus da estupidez tudo o que toca, não ajudam à clareza.
Quando sairmos deste pesadelo, e este quando
é opcional, estaremos mais tristes, mais irritados, mais agressivos, mais
violentos, muito mais doentes do que quando entrámos. E infinitamente mais
pobres. E talvez um dia possamos perceber como é que um cão a dançar na chuva
se tornou na nossa alegria.
Clara Ferreira Alves, Pluma
Caprichosa, Revista do Expresso, 17 de outubro de 2020

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