Os economistas são ótimos a propor soluções
fantásticas, pelo menos dentro de um quadro teórico, que têm um defeito: são
politicamente inexequíveis. Lembram-se de quando, em 2012, Vítor Gaspar propôs
que se baixasse a TSU para as empresas, aumentando a dos trabalhadores? Era uma
solução mágica que resolvia três problemas: (1) baixavam os custos das
empresas, o que levava a um aumento da competitividade externa, (2) reduziam-se
os custos de trabalho, combatendo o desemprego, e (3) resolvia-se a
inconstitucionalidade dos cortes dos salários dos funcionários públicos. O
principal problema desta brilhantíssima proposta? Era politicamente impossível.
O povo saiu à rua e não o permitiu. Numa semana, o PSD deu um trambolhão de 34
para 20% nas sondagens. Não ganhou mais nenhuma eleição até hoje.
Lembrei-me disso quando, na semana que passou, vi um
economista no Twitter a propor que o próximo governador do Banco de Portugal
fosse estrangeiro. Nem teria de saber falar português. Eu conheço o quadro
teórico que leva a uma tal proposta: se queremos alguém competente e
independente, sem ligações ao poder político, nada mais fácil do que ir buscar
um estrangeiro. O facto de ser completamente irrealista admitir que alguma vez
isso seria aceite é um pormenor.
Vem isto a propósito de me aperceber de que cada vez mais pessoas, ao ver que a pandemia em Portugal não foi tão má como isso, consideram um erro o confinamento decretado em meados de março e terminado no início de maio.
Não me entendam mal, houve demasiado unanimismo na
opinião publicada. Foi pena que vozes como a de Jorge Torgal fossem varridas do
espaço público — conto escrever sobre isso. Podemos e devemos aprender com o
que fizemos aqui, com o que se fez na Suécia, Reino Unido, Espanha, etc. Todo
esse debate é útil para o desconfinamento e pode ser fundamental caso tenhamos
de enfrentar novas investidas do coronavírus. Mas uma coisa é querer discutir o
passado para tirar lições para o futuro; outra é avaliar as políticas de há
dois meses com base em informação que apenas agora é conhecida.
Em março, fomos bombardeados com reportagens
assustadoras vindas de Itália. Tivemos Matteo Renzi, ex primeiro-ministro
italiano, a dar entrevistas em que apelava a que não cometêssemos os mesmos
erros de Itália. Muitos pais deixaram de levar as crianças à escola. Muitos
fecharam-se em casa. O nosso Presidente fechou-se em casa em autoquarentena. Os
autarcas andavam maluquinhos. Por exemplo aqui em Braga a Câmara, reconhecendo
não ter autoridade para encerrar comércio e serviços, fez-se valer da
competência para definir os horários. Decidiu
que as lojas apenas podiam estar abertas entre as 9h e as 9h01min da manhã. Um
minuto por dia, portanto. Ainda assim, no meio de toda
esta irracionalidade, o primeiro-ministro não quis o primeiro estado de
emergência. Foi-lhe imposto por Marcelo Rebelo de Sousa, que foi com a maré da
opinião pública.
Acusar o Governo de ter imposto
um lockdown excessivo é absurdo. Pelo contrário, o mérito do Governo
foi o de ter resistido a impor o confinamento mais agressivo que tantos
exigiam. Dentro do exequível, o Governo foi o mais moderado que era possível.
Não seja como os economistas, essa discussão é improdutiva. O tempo não volta
para trás. O que temos de discutir é o presente e o futuro.
Faz sentido mandar as pessoas para a rua e que ao
mesmo tempo a polícia as tire dos areais das praias? Se houver nova vaga, como
fazemos? Mandamos os alunos de volta para casa? Dedicamos todo o SNS a esta
doença, adiando milhares de consultas, operações, exames e diagnósticos? Vamos
fazer como a Suécia? Nesse caso, temos de apostar em aumentar a capacidade dos
hospitais. O que está a ser feito quanto a isso?
LUÍS AGUIAR-CONRARIA
LUÍS AGUIAR-CONRARIA

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