A Associação Sindical dos Polícias apresentou
queixa contra os indivíduos que na manifestação deste sábado empunhavam
cartazes com a apologia do ódio contra as forças policiais. A decisão merece
elogio e apoio. Porque, como diz o sindicato, “esta mensagem, desenquadrada do
motivo da manifestação, reflecte bem a intenção de quem a exibia”, e porque
“não é este tipo de mensagens que contribui para a construção de uma sociedade
mais justa, mais livre e mais igual”. Pelo contrário, quem empunha um cartaz
num acto público defendendo que “um polícia bom é um polícia morto” está a
fazer o jogo da intolerância e do extremismo em tudo semelhante aos que
continuam a alimentar a peste do racismo. Quem não
suporta o preconceito racial ou qualquer outro preconceito violador do
princípio da igualdade de todos os seres humanos à face da lei
não pode tolerar este tipo de mensagens radicais e violentas.
O que nos leva para um problema que, não
sendo estrutural em Portugal, exige todos os cuidados e atenções: o problema do
extremismo que contamina e subverte as causas justas. A denúncia e o protesto
contra o racismo serão tanto mais eficazes quanto mais forem feitos dentro das
regras democráticas e dos limites da lei. Uma vez que o extremismo alimenta o
extremismo, o discurso arruaceiro contra as forças de segurança, transformando
todos os seus agentes em perigosos delinquentes e inimigos de causas progressistas,
é o melhor estímulo que se pode conceder à
extrema-direita. Porque legitima e normaliza o seu próprio radicalismo
e intolerância. Para lá de criar ruído gratuito e divisão numa causa que deve
mobilizar todas as pessoas de bem.
Num fim-de-semana em que tantas centenas de
milhares de pessoas se mobilizaram em todo o mundo contra esse veneno das
nossas sociedades que discrimina pessoas em função da cor da pele, quando
tantos se uniram para afirmar que a barbárie que assassinou George Floyd não é
tolerada, os exemplos do
radicalismo anti-racismo acabaram por desviar os focos de
atenção – nem uma figura ímpar da história na luta europeia contra o fascismo,
como Winston Churchill, escapou à sanha. O pior que pode acontecer é deixar que
este movimento se transforme numa luta de energúmenos contra energúmenos. Se é
crime fazer a apologia do racismo, também há-de ser crime incentivar o ódio
contra pessoas, sejam polícias ou políticos, negros ou brancos. E mesmo que não
haja condenações, fica ao menos o alerta: num Estado de direito, não se fecham
os olhos aos abusos, principalmente os que são cometidos sob a égide de boas
causas.

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