A utilização excessiva de certas palavras, a
sua repetição à exaustão, gastam-nas, e esta erosão coloca-as num mercado de
apropriação em que elas funcionam pela parte, não pelo todo. É o caso da
palavra “vergonha”. A extrema-direita tem usado e
abusado da palavra “vergonha”. O seu uso e abuso reduz o estatuto
pleno da mesma. Hoje, é com precaução que se pode dizer “isto é uma vergonha”
ou “já chega”. Apesar de serem expressões de uso quotidiano, foram sequestradas
por um discurso de ódio como bandeiras. Este sequestro transformou-se quase
numa forma de propriedade. As palavras foram possuídas, encarceradas, gerou-se
quase um muro em torno, colocou-se uma matilha a vigiá-las, elas próprias tornaram-se
monstruosas e temos quase medo de as usar, podem morder.
Ou, por exemplo, nas mãos de radicais de esquerda
orientados para o problema da segregação racial, dizer “branco”, dizer “preto”.
São palavras reduzidas a pedras rugosas, atiradas como balas de armas
calibradas para ferir, para matar, como as balas e as armas que feriram e
mataram por uso excessivo da força, por critérios rácicos, por estupidez.
A diminuição da polissemia de vários
substantivos e adjetivos, a teimosa determinação de lhes dar um só sentido –
aquele que convém à ira e a todas as consequências associadas – é um problema
crescente, uma ameaça efetiva às democracias.
Vivemos em tensão. A pandemia gerou
distúrbios comportamentais face ao confinamento, ao temor da doença e da
possibilidade de morte que se lhe associa. Estes distúrbios, por vezes
provocando ou aumentando a doença mental, potenciam atos desviantes. Também a
agressividade no espaço público tem uma expressão ampliada, na circunstância
que vivemos.
Os protestos no espaço público – sejam ruas
ou praças, sejam ecrãs de computadores e portáteis –usam as “palavras de
ordem”, como elementos mobilizadores: palavras e frases indutoras de
pensamento, de emoção. Agentes provocatórios que são palavras-ato, pontes entre
enunciar e agir. A violência sobre as palavras e a violência das palavras
tornam-se elementos chave da ação política, das operações de curto, médio e
longo prazo sobre os modelos de sociedade, por aquilo que dizem, que não dizem,
que suscitam, que provocam.
As dinâmicas de protesto atuais, se
propulsadas por um estado de enervamento face à condição de ameaça permanente
que vivemos, não se explicam só por ela. O descontentamento com certos modos de
vida, a propagação dos extremismos de direita e de esquerda no Ocidente, o
aumento da repressão na China e a erosão da democracia nos Estados Unidos, a
escalada global do fundamentalismo religioso, a crise dos refugiados, as
guerras do Próximo Oriente ou de África, as crises alimentares, a crise
ambiental e a sustentabilidade da economia de consumo, a excessiva concentração
de riqueza e os monopólios, são situações complexas – anteriores à pandemia – e
que com esta se tornaram avatares cobertos por estranho véu.
Em todo o mundo, aumentam os movimentos de
protesto. Ao longo da história do século XX, foram movimentos de protesto como
os que Mahatma Gandhi liderou na Índia, Martin Luther King nos Estados Unidos
ou Nelson Mandela na África do Sul que promoveram mudanças decisivas nos
respetivos países. Em diferentes escalas, há movimentos de protesto que
contribuem para melhorar a condição de vida dos cidadãos, para melhorar representações
da História e a situação de minorias ou partes mais desprotegidas da sociedade.
Hoje, há diversos movimentos genuínos de
protesto que sofrem muitos tipos de infiltrações, tendo a manipulação das
mensagens um papel determinante: os movimentos de protesto do século
XXI têm padrões de comunicação e propagação discursiva diferentes dos do
século XX, podendo, facilmente, ser desviados por agentes que procuram obter
resultados muito diferentes dos que estes pretendem.
Tanto na rua como no espaço digital,
movimentos pacíficos de reivindicação são induzidos, através da linguagem, à
agressividade e à violência gratuita.
A utilização manipuladora das palavras é
elemento importante da estratégia de poder, usada por governos e por oposições
e agora exponenciada por populismos de Estado e populismos de movimentos de
vários setores do espetro político.
Como acontece no lugar em que o predador mata
a presa e o abutre ou a hiena espreitam a sua oportunidade, também na selva
urbana há animais que se alimentam da carne dos cidadãos. E o requinte da
maldade humana supera largamente o exercício da Natureza.
Nos países ocidentais, concomitante às
tendências de ampliação dos extremos é a existência da Polícia dos Novos
Costumes e da Linguagem. A PNCL vigia-nos. Tanto posso levar com uma multa como
com uma punição mais elevada pela utilização de dada palavra ou expressão.
A PNCL, como qualquer polícia política, só vê
o que quer ver, só pune quem se lhe coloca no caminho, só combate quem não
corresponde ao figurino do “novo cidadão”. Só o “novo cidadão” – puro, não
conspurcado por comportamentos inferiores – pode ser membro de pleno direito da
“nova sociedade”. Sim, os discursos das novas identidades, enquanto exigência
de supremacia – sejam de direita ou de esquerda – são indícios de uma vontade
de exclusão social que tende para a censura, intolerância, agressão. Exclusão
que gera ressentimento. Que, ao gerar ressentimento, promove mobilizações
antagónicas. Que, ao estimular o antagonismo, cria fratura e mobiliza a ira.
A tendência do reducionismo
discursivo e da apropriação radical dos modos da linguagem oral e escrita
merece um vivo repúdio. Este modo de totalitarismo não pode vencer. Que forma
mais insidiosa de silêncio existe do que aquele que é auto-infligido, por medo ou
temor reverencial?
Vivemos numa sociedade em crescente fratura.
Uma sociedade que, cada vez menos, reconhece o direito ao pluralismo, que se
fecha em redutos de intolerância.
Está em curso o enfraquecimento do sistema
democrático, deste sistema onde é possível ter opinião livre, escolher
governos, ter separação de poderes, livre concorrência.
O sentido dos discursos, das comunicações,
das conversas, reduz-se drasticamente.
Novos e novas líderes, revestidos com a aura
de autoridades morais, nóveis sacerdotes e sacerdotisas, determinam que quem
não pensa como eles (ou como elas) obviamente são perigosos passadistas,
conservadores, reacionários, que precisam de ser combatidos, marginalizados,
excluídos. Estas atitudes enfraquecem as democracias.
Não tem de ser assim.
A tendência do reducionismo discursivo e da
apropriação radical dos modos da linguagem oral e escrita merece um vivo
repúdio. Este modo de totalitarismo não pode vencer. Que forma mais insidiosa
de silêncio existe do que aquele que é auto-infligido, por medo ou temor
reverencial?
A oralidade e a escrita têm a riqueza da
pluralidade. São veículos privilegiados de encontro para corações abertos a
aprender, a conhecer, a reconhecer. Corações disponíveis para amar, para se
abrirem, para crescerem com a exposição à diferença. Os territórios das
palavras são florestas, não são desertos. São riquezas de biodiversidade, temos
de os defender das ações de apropriação exclusiva e da diminuição do seu
sentido em ordem ao pensamento único.
Hoje, uma das guerras mais importantes a ser
travada está no campo do discurso. Trata-se de defender o espaço de comunicação
verbal, território plural face às investidas iradas que visam a devastação como
ponto de partida para ordens autoritárias.
As democracias são territórios de encontro
dentro da diversidade, em que nenhuma maioria ou minoria pode reivindicar o
exclusivo do discurso legítimo.
Jorge Barreto Xavier, Público, 30 de Junho de
2020

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