A direção de Rui Rio mandou às distritais as regras para as próximas
autárquicas: com o CDS, as conversas terão campo aberto, mas ideias de
coligações com outros partidos terão de ser vistos na São Caetano. No e-mail
que seguiu para o aparelho, não há referências ao Chega, mas o secretário-geral
garante que há uma exceção: “Não haverá coligações pré-eleitorais com o Chega”,
diz ao Expresso José Silvano. Porém, a regra só vale para antes das autárquicas
de 2021. O depois é assunto que se verá adiante: “Falta um ano. Se houver uma
política de coligações pós-autárquicas, ela também dependerá do que acontecer
até lá.”
José Silvano até acha que a questão não se colocará (“não vejo
nenhum sítio onde possam ser decisivos”), mas no aparelho do próprio PSD há
quem discorde. E até quem veja vantagens em procurar alianças prévias com o
partido de André Ventura: “Depende do concelho, à partida não vejo
inconveniente, não excluo”, assume o líder da distrital de Lisboa, Ângelo
Pereira. Contexto: a área da Grande Lisboa foi onde André Ventura teve mais
votos nas legislativas de 2019, e Loures foi onde há quatro anos se lançou,
ainda pela mão do PSD. Agora, Ventura tem outro palco e outro partido.
Crescerá? “Acho que em Sintra, Loures e Amadora poderá fazer alguma mossa”,
acrescenta o homem que vai escolher os candidatos (e coligações) locais do PSD
na região.
Falta um ano para as autárquicas, mas há mais quem, no PSD,
pressinta o partido de Ventura a crescer. No distrito de Beja, Beja e Moura são
dois desses concelhos, admite o líder distrital Gonçalo Henrique. Em Évora, a
líder Sónia Ramos receia o mesmo: “O Chega pode tirar algumas centenas de votos
ao centro-direita. Pode não parecer muito, mas no Alentejo às vezes é
suficiente para ganhar ou não uma Junta.” Um pouco por toda a região, as
descrições feitas ao Expresso são idênticas: militantes a fugir (“alguns pouco
recomendáveis”, diz uma das fontes), e até dificuldade em ter nomes suficientes
para preencher algumas as listas de candidatos.
Na última reunião com as distritais antes de férias, diz o
secretário-geral de Rio, responsável pela operação autárquicas, “curiosamente
foram os dirigentes do Alentejo que mostraram maior preocupação” com a subida
do Chega. “Mas no resto do país o partido não encontrou grandes estruturas”,
acredita Silvano. Certo é que, no PSD, já ninguém desvaloriza Ventura. E todos,
até na direção, assumem esperar para ver o que vai acontecer já em janeiro,
todos com a mesma expectativa: “Nas presidenciais pode atingir o seu máximo”,
admite Silvano, acreditando que nas autárquicas, sem outras caras conhecidas, o
Chega perca força.
NÃO EXCLUIR NÃO É APROXIMAR
Em Beja, porém, Gonçalo Henrique não se mostra tão certo:
também acha que o Chega pode ganhar força nas presidenciais (“há muita gente à
direita descontente com Marcelo”), mas, acrescenta, “as autárquicas podem mudar
muita coisa”. Até pela crise económica, “2021 pode ser um ano com alterações
muito drásticas”, acrescenta. Em Lisboa, Ângelo Pereira põe-se a meio caminho:
“Ouço muitas pessoas a dizer isso: ‘vou votar no Chega’. Mas não acredito, só o
logótipo não chega. Antes das legislativas, muitos diziam que não iam votar
nele e depois votaram”.
Certo, portanto, é que o PSD está de olho em Ventura, medindo
o crescimento e profundamente dividido sobre se deve ou não abrir a porta a um
diálogo. “Rui Rio não excluiu totalmente, mas não foi por estar em aproximação”,
garante Silvano, mesmo depois de dirigentes como Miguel Albuquerque, na
Madeira, terem defendido essa união total à direita — e de já ter permitido
reuniões entre as estruturas dos dois partidos, segundo a “Sábado” desta
semana. Neste caminho, o aparelho divide-se: “Tenho lido atentamente o programa
do Chega. Quer abolir o SNS, não percebe que assim as pessoas ficam à margem.
Não podemos criar um motim social”, diz ao Expresso Sónia Ramos.
Para já, na São Caetano, a ordem é para esperar, ver os resultados
das presidenciais e medir Ventura. Em setembro, depois das férias, Silvano fará
nova reunião com as distritais, para começar a avaliar nomes de candidatos às
autárquicas. Pelo meio, será assinado um acordo com o CDS (que o PSD vê muito
frágil). E até março serão feitas as escolhas dos candidatos. Se chega, em
outubro de 2021 se verá.
David Dinis, Expresso, 15 de agosto de 2020

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