André Rito é jornalista e escreve
regularmente no Expresso. Aqui relata a forma como viveu por dentro o acidente
ferroviário desta sexta-feira, no Alfa Pendular, na zona de Soure. "O meu
lugar era o 27 da carruagem número quatro". A história do acidente desta
sexta-feira contada na primeira pessoa.
Há pessoas admiráveis, capazes de manter a
calma nas situações mais caóticas. Ontem, seguia na carruagem quatro do Alfa
Pendular quando me apercebi desta mulher, talvez com menos de 30 anos, sentada
dois lugares à minha frente. Minutos antes tínhamos passado num túnel e eu, que
estava meio a dormitar, abri os olhos e reparei que seguíamos a 20km/h. Outro
comboio cruzou-se no sentido inverso e o nosso recomeçou a ganhar velocidade.
Confesso que tive um pressentimento – na
minha ignorância ferroviária perguntei-me como é que um comboio de alta
velocidade tem de parar para outro passar. Recostei-me no banco sem tempo para
reagir: sentiu-se uma travagem seguida de um enorme estrondo que abanou a
carruagem. Todos os passageiros devem ter percebido que estávamos a ter um
acidente, tal a poeira e os detritos que voavam do lado exterior das janelas. “Protejam
a cabeça, tudo para o chão”, gritou então a mulher, sobrepondo-se ao pânico
geral e ao choro das crianças assustadas.
Foi exatamente o que eu e o rapaz que seguia
ao meu lado fizemos. Durante aqueles segundos, o ruído da composição
desgovernada, as bagagens a cair e os gritos das pessoas fizeram-me temer o
pior. E por mais lugar comum que isto possa parecer, aqueles segundos até o
comboio se imobilizar foram eternos. “Está tudo bem, está tudo, já parou,
salvámo-nos”, disse-me o rapaz que seguia ao meu lado. Na extremidade norte da
nossa carruagem – que era a terceira, embora tivesse o número quatro – não
havia comboio. Tinha desaparecido e o sol entrava.
O som do alarme, um bip bip constante,
funcionou na minha cabeça como uma ordem de saída. Corri para essa ponta norte
da carruagem, na esperança de encontrar uma saída, e encontrei um senhor perto
dos 70 que tentava abrir a porta, sem sucesso. Disse-lhe para me acompanhar,
que havia gente a tentar a outra saída. A mulher que nos mandara proteger a aconselhava
“calma, calma”. Nesses breves instantes, atónitas, incrédulas, sem saber o que
fazer, as pessoas tentavam pegar nos seus pertences.
Gritei que tínhamos de abandonar o comboio,
arranquei o martelo para partir o vidro e procurei a janela por onde poderíamos
sair, até que alguém descobriu uma escapatória na extremidade sul. Não sei
quanto tempo passou, sei que foi preciso saltar dois metros para conseguir
chegar à berma, numa zona de mato. Saí disparado para o lado norte, onde
estavam a tentar tirar uma senhora que ficara encarcerada. Na confusão, vi
peças de metal espalhadas, senti o cheiro a queimado e a gasóleo, e vi a parte
de baixo do comboio, o ferro retorcido, líquidos a verterem para a linha.
Alguém gritou para seguirmos na direcção
oposta. Corri até conseguir encontrar uma vedação que dava acesso à estrada.
Uma senhora e o filho, moradores das primeiras casas, já desciam a rua com
garrafas de água. “O senhor quer uma?”, perguntou-me o adolescente. Bebi de um
gole, percebi que tinha sobrevivido, e voltei para trás. Uma mulher com a cara ensanguentada
tentava equilibrar-se carregada com uma geleira nos dois braços, ao longo da
berma. Disse-me que tinha apenas escoriações e pediu-me para ter cuidado: a
geleira estava cheia de água, com peixes vivos.
Fomos até à primeira ambulância – o socorro
foi praticamente imediato – onde reconheci outro passageiro que tinha visto
dentro do comboio. Perguntei-lhe se estava bem e ele retirou o pano com que
cobria a boca: o lábio descaiu devido a um profundo corte que lhe rasgara
metade da cara. Ainda consegui consertar a pega da geleira e fechar a tampa.
Era tudo o que aquela mulher queria, salvar os seus peixes. Voltei para trás
para ajudar quem estava na enorme fila, gente carregada de malas, um idoso em
cadeira de rodas a ser transportado por vários passageiros, pessoas feridas,
roupas com sangue.
Ninguém se prepara para um acidente de
comboio, de avião ou para um naufrágio de um barco. A verdade é que a
assistência – bombeiros, ambulâncias, populares da região – chegou rapidamente.
Não foi preciso sequer meia hora para que a Câmara Municipal de Soure chegasse
ao local, com paletes de garrafas de água, e, pouco depois, os autocarros que
transportaram os feridos ligeiros para o pavilhão multiusos, transformado em
hospital de campanha. Aí encontrei o rapaz que seguia ao meu lado – que estava
bem – a família de estrangeiros com uma criança, uma adolescente que estava na
minha fila.
Não voltei a encontrar a mulher que nos dera
o melhor conselho que alguém poderia dar naqueles momentos de pânico. Gostava
de lhe ter agradecido a coragem e calma que conseguiu transmitir à nossa
carruagem, que estava praticamente cheia. Sei que ficou bem porque há pessoas
que sobrevivem nem que seja para salvar os outros. Hoje, 24 horas depois, ainda
oiço aquelas palavras. Nem sei se algum dia as esquecerei.
Médicos, bombeiros, protecção civil foram
abordando cada um dos passageiros. Senti o olhar perdido de quase todos, sem
saber muito bem o que fazer, às mãos de médicos, psicólogos e técnicos
inexcedíveis. Não fiquei ferido, tive apenas algumas mazelas nas costas devido
ao impacto, e fiquei por ali à espera que o meu pai chegasse de Braga, o meu
destino final. Era a primeira vez que ia a casa desde a pandemia. Algumas horas
depois, à porta do pavilhão, de máscara na cara, lá encontrei o meu pai que não
via desde janeiro. Tirou a máscara e correu para mim: “vou ter de te dar um
abraço”. Nunca o vejo chorar. Ontem vi.

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