Os chineses têm uma teoria a que chamam de
ciclos dinásticos. Simplificadamente, reza assim: o imperador que estabelece a
dinastia é capaz e virtuoso e melhora a vida dos súbditos. Geralmente é um
imperador guerreiro (esmaga militarmente a dinastia cessante), sucedido por um
filho erudito, mais preocupado com as artes e a burocracia governativa,
igualmente virtuoso e, nos termos confucianos, um homem nobre (de carácter).
Porém, com o passar das gerações, os imperadores vão amolecendo, ganhando gosto
pela boa vida do palácio e das concubinas, secundarizando o governo do império.
Até que se tornam tão viciados que as catástrofes começam a acontecer. As obras
de irrigação degradam-se por falta de manutenção, resultando em cheias ou
secas, ambas destruindo colheitas e gerando fome. Terramotos também marcam
presença, sinalizando que a dinastia perdeu o Mandato do Céu. Os súbditos podem
sentir-se legitimados em substituí-la por outra dinastia.
Mas há dinastias mais pragmáticas. Chegam ao
estado de decadência moral mais rapidamente. No caso espanhol, num só reinado.
O rei Juan Carlos passou de garante da
transição espanhola do franquismo para a democracia, e uma das
figuras que fez abortar o golpe fascista de 23 de fevereiro, para um
agente investigado por corrupção. Estabelecendo a fortuna familiar
(até aí inexistente), suspeita-se, através de tráficos de influências pelos
quais foi magnificamente pago. De personalidade incontestada e venerada em
Espanha – muitos diziam-se não monárquicos mas juancarlistas –,
ganhou reputação de vulgar vendilhão e corrupto. Esta semana
exilou-se para não perigar a monarquia espanhola deixando-se
avistar por Espanha.
Em boa verdade, nada do que Juan Carlos fez
foi novidade nos círculos reais. Podemos dizer que seguiu uma tradição bem
estabelecida das famílias reais de se enriquecerem, e aos seus, fazendo uso do
poder político que detinham. O azar de Juan Carlos foi viver numa era em que o
método de amealhar dos seus antecessores é malvisto.
Em todo o caso, a família real espanhola é um
ótimo exemplo de como a suposta probidade moral da monarquia – que a justifica,
em oposição à necessidade de compromissos políticos e, tantas vezes, éticos de
quem precisa de ganhar eleições – é ilusória. A filha mais nova de Juan Carlos
escapou a acusações e julgamentos (provavelmente por benevolência e respeito
pela sua posição), no entanto o marido
cumpre pena de prisão.
Não espanta. Olha-se para a História e uma
das realidades mais salientes é a quantidade de patifórios, cobardes, incapazes
(não raro em estádios de idiotia clínica) que as monarquias produziram. As
questões do vil metal, de resto, são sempre determinantes para estas almas
supostamente desligadas da materialidade e somente preocupadas com conceitos
etéreos como o dever e a dignidade do país. Vejamos um episódio que envolveu
Portugal. Eduardo VIII, em fuga dos nazis que ocuparam Paris e temporariamente
em Cascais, enquanto pesava deixar-se raptar pelos alemães (com quem
simpatizava e que lhe guardaram com enlevo a casa parisiense) para servir de
marionete aos inimigos dos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial ou
chantagear a sua família para o receberem de volta em Inglaterra, decidiu
manter-se afastado do seu país pela razão mais prosaica: um enviado de
Churchill a Lisboa informou-o da quantidade de impostos que teria de pagar se
regressasse.
O Rei Alberto II da Bélgica possuía tal
retidão moral que se recusou aceitar a paternidade e a sustentar uma sua filha
de uma ligação não conjugal. Foi obrigado ao reconhecimento por um
teste de ADN, qual playboy sem escrúpulos. O príncipe André do Reino
Unido participou no esquema de
exploração sexual de adolescentes de Jeffrey Epstein. No lado
oposto, é difícil apontar um caso de génio ou talento excecional nas casas
reais. Nos exemplos mais virtuosos, que também existem, são personagens
sensaboronas sensíveis ao sentido de dever.
Esta falta de têmpera é resultado da
endogamia das casas reais que torna o sangue fraco, mas também da sensação de
casta intocável, de distância incontestada dos mortais comuns que é promovida
nas famílias reais. Na carta que Juan Carlos escreveu ao filho, atual rei,
informando-o de que iria residir fora de Espanha, refere investigações sobre a
sua vida privada. Fazendo lembrar as desculpas dos corruptos mais escancarados,
que igualmente se escudam nos dinheiros da sua vida privada para se esquivarem
de dar explicações da forma como abusam da sua posição.
Juan Carlos e a família real espanhola –
incluindo Filipe VI, conhecido por ser bem-parecido mas particularmente pouco
brilhante – tornaram-se num exemplo da falibilidade da monarquia. Num país onde
rei ou rainha poderiam trazer um efetivo benefício – sendo o tal símbolo
unificador e de perenidade e estabilidade que se lhe aponta como razão de
existência, o substituto de espírito nacional num país com várias línguas e
regiões que em tempos passados se viam como inimigas e separadas –, Juan Carlos
e a sua família falharam e expuseram a sua inutilidade.
O poder simbólico da monarquia já não é
suficiente para manter em união aparentemente amistosa zonas que se querem
separar. (A Catalunha acena-nos.) Questões como a integração económica das
diferentes regiões ou a pertença à União Europeia e ao euro provavelmente pesam
mais que partilharem o mesmo chefe de Estado hereditário. Vê-se o mesmo efeito
na Escócia, com o “Brexit” incendiando os ímpetos independentistas,
malgrado a rainha Isabel II.
Há tentativas das monarquias se modernizarem
e humanizarem. Os casamentos
românticos dos herdeiros dos tronos europeus com plebeias (e, no caso
sueco, plebeu) atraentes, substituindo casamentos de conveniência
por vidas familiares mais recompensadoras. Uma (pouco) maior parcimónia no uso
do dinheiro dos impostos. Porém, permanece o paradoxo: se são uma família
normal, não merecem privilégio hereditário; se são diferentes, então têm de ser
incansavelmente perfeitos – e ninguém é.
Por muito que alguns membros das famílias
reais se constituam interessantes espécimes da natureza humana, são falíveis,
entediantes, egoístas, com defeitos de carácter – tal como os demais. Ora para
termos chefes de Estado corruptos e imorais não é necessária a manutenção de
riquezas e honrarias hereditárias. Com eleições e numa república, o consulado
destas personagens é sempre temporário. É uma vantagem.
Maria João Marques, Público, 5 de agosto de 2020
Sem comentários:
Enviar um comentário