segunda-feira, 9 de maio de 2022

Futebol, a mão de Deus

 

Um presidente de uma equipa que ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um clube campeão.

“A Mão de Deus” de Paolo Sorrentino é uma boa representação do poder do futebol. Uma história autobiográfica e uma homenagem aos pais do realizador, que morreram num acidente doméstico numa noite em que decidiu assistir ao Napoli a jogar em casa. Os dramas atravessam o filme mas, em nenhum momento, a paixão pelo futebol, e o amor ao Maradona, são ultrapassados pelos sentimentos causados por algum desses dramas. A possibilidade de contratação de Maradona pelo Napoli leva cada uma das personagens ao delírio. Nada é mais importante. Seria uma boa ideia para enredo. Mas terá mesmo acontecido.

Marx disse que a religião era o ópio do povo. Se estivesse ainda entre nós, provavelmente substituiria religião por futebol. A modernidade quase aniquilou os consolos da religião e as pessoas continuam a precisar de encontrar formas de alienação extática. Importa encontrar uma forma de concretizar o instinto, profundamente humano, da entrega à satisfação desses anseios psíquicos. Se a entrega for em grupo, melhor.

Não se está aqui a falar de vida intelectual. Trata-se de uma coisa diferente, que toca a irracionalidade. Observar adeptos, durante um jogo de futebol, é esclarecedor. A alegria vem das vísceras, os desgostos são devastadores. Adultos, cujas vidas não sofrerão qualquer alteração a partir do resultado de um jogo, choram como fariam a propósito de poucas coisas.

Albert Camus, um apaixonado até o fim da vida por futebol, disse que foi com ele que aprendeu tudo o que sabia sobre a moral e as obrigações do homem. A entrevista que aceitou dar, após ter ganhado o Nobel da literatura, teve lugar num estádio de futebol e durante um jogo. E foi uma opção do escritor. Jogou futebol na infância como muitos amantes de futebol fizeram e, como esses, considerava essa alegria de jogar futebol uma das melhores partes da sua vida.

Um bilhete para o infinito. A importância do futebol é desmesurada.

Sendo tão importante, o nível de exigência com tudo o que tem a ver com ele deveria ser grande, mas sucede o contrário; abrem-se exceções ao que se costuma exigir com tudo o resto.

Quando falam de futebol as pessoas perdem objetividade e o sentido de justiça. Tendem a acreditar que a sua equipa é que foi roubada pelo árbitro, que foi a que jogou melhor e aquela cujos jogadores não cometeram faltas. Já o VAR, que supostamente vinha tirar as dúvidas às jogadas menos nítidas, veio eternizar as discussões à volta delas.

Os presidentes dos clubes de futebol têm a tradição de estar envolvidos em situações menos claras. Não são todos, mas são alguns. São demasiados. Contudo, a grande contestação que se nota, relativamente a esses presidentes, não é a que resulta de indícios de estarem envolvidos em práticas ilícitas mas sim a das equipas a que presidem perderem jogos, quando sucede.

Um presidente de uma equipa que ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um clube campeão.

Os clubes costumavam pertencer exclusivamente às massas associativas mas atualmente os principais constituíram sociedades anónimas emitentes de valores mobiliários transacionáveis; em Portugal no Euronext Lisboa. O capitalismo é bom a misturar-se com quase tudo. Aqui também não falhou.

Grandes clubes europeus pertencem a milionários ou a grupos económicos. A combinação, a este ponto, entre desporto e negócio não agrada a todos. Muitos falam em devolver os clubes aos adeptos. Mas, outra vez, são as derrotas que arrancam as verdadeiras indignações.

Quando um clube é propriedade de um milionário, o que é que ainda o liga às origens e à sua identidade inicial? Eventualmente pouco. É como procurar Portugal numa loja de souvenirs da Baixa. Mas isso parece pouco interessar a quem continua a sentir ali o seu clube, aquele por quem vão torcer e gritar no próximo domingo.

Este fim de semana o FCP ganhou o campeonato no estádio do SLB. Uma felicidade para muitos, uma tristeza para mais. As emoções binárias são o combustível da indústria do futebol. No dia em que secarem, secará também o negócio e haverá lucidez para se falar melhor sobre isto.

Deus nos livre. Não está para breve.

Sem comentários:

Enviar um comentário