Um presidente de uma equipa que
ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter
um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um
clube campeão.
“A Mão de
Deus” de Paolo
Sorrentino é uma boa representação do poder do futebol. Uma história
autobiográfica e uma homenagem aos pais do realizador, que morreram num
acidente doméstico numa noite em que decidiu assistir ao Napoli a jogar em
casa. Os dramas atravessam o filme mas, em nenhum momento, a paixão pelo
futebol, e o amor ao Maradona,
são ultrapassados pelos sentimentos causados por algum desses dramas. A
possibilidade de contratação de Maradona pelo Napoli leva cada uma das
personagens ao delírio. Nada é mais importante. Seria uma boa ideia para
enredo. Mas terá mesmo acontecido.
Marx disse que a religião era o
ópio do povo. Se estivesse ainda entre nós, provavelmente substituiria religião
por futebol. A modernidade quase aniquilou os consolos da religião e as pessoas
continuam a precisar de encontrar formas de alienação extática. Importa
encontrar uma forma de concretizar o instinto, profundamente humano, da entrega
à satisfação desses anseios psíquicos. Se a entrega for em grupo, melhor.
Não se está aqui a falar de vida
intelectual. Trata-se de uma coisa diferente, que toca a irracionalidade.
Observar adeptos, durante um jogo de futebol, é esclarecedor. A alegria vem das
vísceras, os desgostos são devastadores. Adultos, cujas vidas não sofrerão
qualquer alteração a partir do resultado de um jogo, choram como fariam a
propósito de poucas coisas.
Albert Camus, um apaixonado
até o fim da vida por futebol, disse que foi com ele que aprendeu
tudo o que sabia sobre a moral e as obrigações do homem. A entrevista que
aceitou dar, após ter ganhado o Nobel da literatura, teve lugar num estádio de
futebol e durante um jogo. E foi uma opção do escritor. Jogou futebol na infância
como muitos amantes de futebol fizeram e, como esses, considerava essa alegria
de jogar futebol uma das melhores partes da sua vida.
Um bilhete para o infinito. A
importância do futebol é desmesurada.
Sendo tão importante, o nível de
exigência com tudo o que tem a ver com ele deveria ser grande, mas sucede o
contrário; abrem-se exceções ao que se costuma exigir com tudo o resto.
Quando falam de futebol as
pessoas perdem objetividade e o sentido de justiça. Tendem a acreditar que a
sua equipa é que foi roubada pelo árbitro, que foi a que jogou melhor e aquela
cujos jogadores não cometeram faltas. Já o VAR, que supostamente vinha tirar as
dúvidas às jogadas menos nítidas, veio eternizar as discussões à volta delas.
Os presidentes dos clubes de
futebol têm a tradição de estar envolvidos em situações menos claras. Não são
todos, mas são alguns. São demasiados. Contudo, a grande contestação que se
nota, relativamente a esses presidentes, não é a que resulta de indícios de
estarem envolvidos em práticas ilícitas mas sim a das equipas a que presidem
perderem jogos, quando sucede.
Um presidente de uma equipa que
ganha jogos goza de uma quase impunidade junto dos adeptos. O sonho não é ter
um clube exemplar do ponto de vista da licitude e da deontologia mas sim ter um
clube campeão.
Os clubes costumavam pertencer
exclusivamente às massas associativas mas atualmente os principais constituíram
sociedades anónimas emitentes de valores mobiliários transacionáveis; em
Portugal no Euronext Lisboa. O capitalismo é bom a misturar-se com quase tudo.
Aqui também não falhou.
Grandes clubes europeus pertencem
a milionários ou a grupos económicos. A combinação, a este ponto, entre
desporto e negócio não agrada a todos. Muitos falam em devolver os clubes aos
adeptos. Mas, outra vez, são as derrotas que arrancam as verdadeiras
indignações.
Quando um clube é propriedade de
um milionário, o que é que ainda o liga às origens e à sua identidade inicial?
Eventualmente pouco. É como procurar Portugal numa loja de souvenirs da Baixa.
Mas isso parece pouco interessar a quem continua a sentir ali o seu clube,
aquele por quem vão torcer e gritar no próximo domingo.
Este fim de semana o FCP ganhou
o campeonato no estádio do SLB. Uma felicidade para muitos, uma
tristeza para mais. As emoções binárias são o combustível da indústria do
futebol. No dia em que secarem, secará também o negócio e haverá lucidez para
se falar melhor sobre isto.
Deus nos livre. Não está para
breve.
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