Desde a
Antiguidade que sabemos das quatro virtudes cardeais. Prudência, justiça,
fortitude e temperança. Sem estas virtudes a vida perde o eixo, cardo em latim,
da virtude. E degenera.
Andamos
todos drogados com a guerra, comemos guerra, falamos guerra, dormimos e
sonhamos guerra. Todas as guerras são tóxicas, têm a virtude de fazerem
esquecer a monotonia agreste e melancólica da vida real e dos problemas frouxos
da existência, a irrelevância burocrática que nos consome, e levantam valores
mais alto, empurram-nos para uma ordem de grandeza onde o heroísmo e o
sacrifício, a adrenalina da sobrevivência, fazem esquecer o quotidiano.
Vamos ter
de cortar com isto. A injeção de adrenalina. E voltar para a vida. E deixar a
guerra em paz.
A paz
nunca é feita pelos heróis, é feita pelos homens e mulheres cinzentos e
anónimos, com pastas e documentos, gráficos e mapas, números e relatórios, com
os infindáveis argumentos da temperança, da prudência, da fortitude e da
justiça. Sobretudo, a temperança e a prudência, que não contêm hormonas que
fazem voar o cérebro. Na frente das negociações de paz estão os líderes, os
heróis, pensem na Conferência de Ialta que deu forma ao mundo do pós-guerra,
uma fotografia com a massa humana indistinta e os três chefes sentados na
frente, Churchill, Roosevelt e Estaline. Nenhum deles era conhecido por
apresentar todas as virtudes, Churchill abandonou a prudência contra Hitler,
demonstrou considerável fortitude, Roosevelt tinha a justiça como virtude, e
Estaline, bem, não tinha nenhuma das virtudes, a não ser que consideremos a
fortitude sanguinária que demonstrou, ainda, uma virtude. Quando chega o
momento de assinar e definir a paz, a temperança e a prudência reinam. Os que
as carregam chamam-se diplomatas.
Quanto
mais tempo duram as guerras mais se afastam as virtudes. Volodymyr Zelensky
entrou nesta guerra outro homem. Nas fotografias parece um tipo afável, bem
escanhoado, com um sorriso que afirma, imaginem, passei de fazer de presidente
numa comédia a Presidente verdadeiro. E vou mudar a Ucrânia. Brevemente, a
Ucrânia reparou que nada estava a mudar, e que Zelensky se revelava ingénuo,
bem-intencionado e incapaz de controlar o país e os corruptos interesses do
país, uma marioneta nas mãos dos oligarcas, muitos deles alinhados com o poder
do Kremlin. A grande discussão da Ucrânia era por onde passariam os oleodutos e
gasodutos que traziam o gás e o petróleo russos para a Europa, luz verde para a
extorsão e a corrupção.
Vindo do
teatro e da televisão, da encenação e do espetáculo, é provável que sobre isto
Zelensky soubesse nada. No famoso diálogo com Trump, em que o Presidente
americano chantageia o ucraniano para rebentar com Biden, por causa da posição
do filho de Joe Biden numa administração de uma empresa ucraniana de energia (e
este convite a Biden Jr., diz tudo sobre a Ucrânia desse período), Zelensky
aparece titubeante. A Ucrânia precisa de armas, outra indústria da corrupção
que os americanos alimentaram, e Donald precisa de um favor dos “amigos
ucranianos”. Os amigos ucranianos de Donald eram, claro, pró-russos e alinhados
com Putin, o mandachuva da região. Em Davos, os amigos de Putin e o dinheiro
russo, as festas russas, eram os reis do pedaço. Este ano, os russos foram
postos de lado pelas mesmas mãos que afagam os verdes dólares e que se fartaram
de aplaudir o Presidente ucraniano no seu verde militar. Plus ça Change...
A guerra
e a brutalidade de uma agressão difícil de prever fizeram de Zelensky um herói,
nacional e internacional. O que começou por ser uma resoluta negativa para
abandonar o país, com uma boa frase, preciso de armas não preciso de boleia,
foi transformando o Presidente ucraniano num “novo Churchill”, com a ajuda de
uma bem montada estratégia mediática que fez ajoelhar de admiração os media. O
tempo fez o resto. Zelensky, bom comediante, foi vestindo o fato por medida do
herói sem mácula. A cara foi mudando também, desapareceu o sorriso, as rugas
desceram com o cansaço sobre as linhas da boca e dos olhos, o desgosto
instalou-se na pele com o desespero ao lado. A agressão da Rússia, na qual
Zelensky não acreditava, tentando moderar o discurso belicista da NATO e dos
Estados Unidos, tornou-se um monopólio de emoções. Hoje, envelhecido e
enervado, Zelensky vê morrer o seu país e afasta-se a passos largos da paz. A
enxurrada de armas e a humilhação de Moscovo nos campos de batalha devida ao
erro colossal de Putin, a mentalidade do bunker, a corte que o acompanha,
protege e indica os discursos, cada vez mais beligerantes, e sobretudo a
idolatria e a adulação do mundo, a atenção do mundo, estão a transformar
Zelensky noutro homem. Que homem? Não sabemos.
Parece
cada vez menos um homem que conheça as virtudes cardeais. O Ocidente convenceu
a Ucrânia de que poderia ganhar a guerra, de que poderia destruir Putin e
humilhar a Rússia, de que poderia aderir à União Europeia em fast-track, de que
poderia vir a ser da NATO. E de que algo ou alguém, um fantasmagórico Plano
Marshall, o dinheiro russo congelado, mas não confiscado, os milhares de
milhões da Europa e da América dedicadas inteiramente a reconstruir a Ucrânia e
a destruir os respetivos países, poderiam reconstruir um país europeu,
democrático e com um Estado de direito. Em meses. Conhecemos esta fantasia,
sabemos como acaba.
A Ucrânia
entrou em dependência da guerra. A propaganda mediática, desvairada, ignorante
do peso e do valor da realidade, contribuiu para a toxicidade. E aí temos
Zelensky nos Óscares, Zelensky em Cannes, Zelensky na Eurovisão, Zelensky em
Davos, Zelensky nos parlamentos nacionais e internacionais, nas Nações Unidas,
em tudo quanto é organização internacional e lugar de prestígio. Zelensky na
“Vogue” e na “Foreign Affairs”, Zelensky em todos os lados. Zelensky com o
mundo a seus pés. O magnífico Zelensky é o homem mais famoso do século. O herói
total, a consciência moral do mundo. O David que quer matar Golias. O tom
mudou. A celebridade muda as pessoas para sempre. As livrarias estão cheias de
livros com a sua cara, biografias escritas à pressa em todas as línguas, e as
redes buscam-no a grande velocidade. Uma omnipresença divina. E, sim,
orwelliana. O dedo acusatório apontado. Façam isto, exijo aquilo, quero
aqueloutro.
E não, a
Rússia não se prepara para invadir a Europa ocidental. Este discurso a pedir a
entrada da NATO na guerra é mentiroso e perigoso.
O tom é
um imperativo categórico. Nem cessar-fogo nem conversações. Retirada dos
exércitos russos, nenhuma concessão, recuperação da integridade territorial da
Ucrânia, o que quer que isto signifique. Nenhuma prudência ou temperança. O
mundo ajoelha e obedece. Ninguém quer a paz. Muito menos Zelensky, intoxicado
de guerra.
Já vi isto,
em menor escala. Um líder intoxicado com a atenção do mundo, Yasser Arafat. Uma
causa “santificada”, a palestiniana. Uma consciência moral, sobretudo depois de
Sabra e Chatila. Quando chegou o momento da paz, Arafat continuava intoxicado e
nunca soube governar o seu povo, abandonado para sempre. Na paz, Arafat e a
corte heroica eram inúteis, corruptos, incompetentes, injustos, fracos,
destemperados e imprudentes. A vitimização constante e as doações, um povo a
viver de esmolas, foi o que sobrou. Israel tomou conta do assunto.
Na paz, e
a paz terá de vir a seguir à overdose, será Zelensky o homem que a Ucrânia
precisa que seja? Churchill sentiu essa depressão do fim da ação e do regresso
à normalidade, passada a finest hour. Mas Churchill era um grande intelectual e
um político experiente. Zelensky não é Churchill. Os formidáveis interesses
ocultos da Ucrânia num pós-guerra, com as injeções de armas e dinheiro,
afastá-lo-ão com pinças para o lugar da estátua. Ou, pior, corrompê-lo-ão.
Espero
estar enganada.
Clara Ferreira
Alves, Expresso, 27 de maio de 2022
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