sexta-feira, 27 de maio de 2022

ZELENSKY, O MUNDO A SEUS PÉS

Desde a Antiguidade que sabemos das quatro virtudes cardeais. Prudência, justiça, fortitude e temperança. Sem estas virtudes a vida perde o eixo, cardo em latim, da virtude. E degenera.

Andamos todos drogados com a guerra, comemos guerra, falamos guerra, dormimos e sonhamos guerra. Todas as guerras são tóxicas, têm a virtude de fazerem esquecer a monotonia agreste e melancólica da vida real e dos problemas frouxos da existência, a irrelevância burocrática que nos consome, e levantam valores mais alto, empurram-nos para uma ordem de grandeza onde o heroísmo e o sacrifício, a adrenalina da sobrevivência, fazem esquecer o quotidiano.

Vamos ter de cortar com isto. A injeção de adrenalina. E voltar para a vida. E deixar a guerra em paz.

A paz nunca é feita pelos heróis, é feita pelos homens e mulheres cinzentos e anónimos, com pastas e documentos, gráficos e mapas, números e relatórios, com os infindáveis argumentos da temperança, da prudência, da fortitude e da justiça. Sobretudo, a temperança e a prudência, que não contêm hormonas que fazem voar o cérebro. Na frente das negociações de paz estão os líderes, os heróis, pensem na Conferência de Ialta que deu forma ao mundo do pós-guerra, uma fotografia com a massa humana indistinta e os três chefes sentados na frente, Churchill, Roosevelt e Estaline. Nenhum deles era conhecido por apresentar todas as virtudes, Churchill abandonou a prudência contra Hitler, demonstrou considerável fortitude, Roosevelt tinha a justiça como virtude, e Estaline, bem, não tinha nenhuma das virtudes, a não ser que consideremos a fortitude sanguinária que demonstrou, ainda, uma virtude. Quando chega o momento de assinar e definir a paz, a temperança e a prudência reinam. Os que as carregam chamam-se diplomatas.

Quanto mais tempo duram as guerras mais se afastam as virtudes. Volodymyr Zelensky entrou nesta guerra outro homem. Nas fotografias parece um tipo afável, bem escanhoado, com um sorriso que afirma, imaginem, passei de fazer de presidente numa comédia a Presidente verdadeiro. E vou mudar a Ucrânia. Brevemente, a Ucrânia reparou que nada estava a mudar, e que Zelensky se revelava ingénuo, bem-intencionado e incapaz de controlar o país e os corruptos interesses do país, uma marioneta nas mãos dos oligarcas, muitos deles alinhados com o poder do Kremlin. A grande discussão da Ucrânia era por onde passariam os oleodutos e gasodutos que traziam o gás e o petróleo russos para a Europa, luz verde para a extorsão e a corrupção.

Vindo do teatro e da televisão, da encenação e do espetáculo, é provável que sobre isto Zelensky soubesse nada. No famoso diálogo com Trump, em que o Presidente americano chantageia o ucraniano para rebentar com Biden, por causa da posição do filho de Joe Biden numa administração de uma empresa ucraniana de energia (e este convite a Biden Jr., diz tudo sobre a Ucrânia desse período), Zelensky aparece titubeante. A Ucrânia precisa de armas, outra indústria da corrupção que os americanos alimentaram, e Donald precisa de um favor dos “amigos ucranianos”. Os amigos ucranianos de Donald eram, claro, pró-russos e alinhados com Putin, o mandachuva da região. Em Davos, os amigos de Putin e o dinheiro russo, as festas russas, eram os reis do pedaço. Este ano, os russos foram postos de lado pelas mesmas mãos que afagam os verdes dólares e que se fartaram de aplaudir o Presidente ucraniano no seu verde militar. Plus ça Change...

A guerra e a brutalidade de uma agressão difícil de prever fizeram de Zelensky um herói, nacional e internacional. O que começou por ser uma resoluta negativa para abandonar o país, com uma boa frase, preciso de armas não preciso de boleia, foi transformando o Presidente ucraniano num “novo Churchill”, com a ajuda de uma bem montada estratégia mediática que fez ajoelhar de admiração os media. O tempo fez o resto. Zelensky, bom comediante, foi vestindo o fato por medida do herói sem mácula. A cara foi mudando também, desapareceu o sorriso, as rugas desceram com o cansaço sobre as linhas da boca e dos olhos, o desgosto instalou-se na pele com o desespero ao lado. A agressão da Rússia, na qual Zelensky não acreditava, tentando moderar o discurso belicista da NATO e dos Estados Unidos, tornou-se um monopólio de emoções. Hoje, envelhecido e enervado, Zelensky vê morrer o seu país e afasta-se a passos largos da paz. A enxurrada de armas e a humilhação de Moscovo nos campos de batalha devida ao erro colossal de Putin, a mentalidade do bunker, a corte que o acompanha, protege e indica os discursos, cada vez mais beligerantes, e sobretudo a idolatria e a adulação do mundo, a atenção do mundo, estão a transformar Zelensky noutro homem. Que homem? Não sabemos.

Parece cada vez menos um homem que conheça as virtudes cardeais. O Ocidente convenceu a Ucrânia de que poderia ganhar a guerra, de que poderia destruir Putin e humilhar a Rússia, de que poderia aderir à União Europeia em fast-track, de que poderia vir a ser da NATO. E de que algo ou alguém, um fantasmagórico Plano Marshall, o dinheiro russo congelado, mas não confiscado, os milhares de milhões da Europa e da América dedicadas inteiramente a reconstruir a Ucrânia e a destruir os respetivos países, poderiam reconstruir um país europeu, democrático e com um Estado de direito. Em meses. Conhecemos esta fantasia, sabemos como acaba.

A Ucrânia entrou em dependência da guerra. A propaganda mediática, desvairada, ignorante do peso e do valor da realidade, contribuiu para a toxicidade. E aí temos Zelensky nos Óscares, Zelensky em Cannes, Zelensky na Eurovisão, Zelensky em Davos, Zelensky nos parlamentos nacionais e internacionais, nas Nações Unidas, em tudo quanto é organização internacional e lugar de prestígio. Zelensky na “Vogue” e na “Foreign Affairs”, Zelensky em todos os lados. Zelensky com o mundo a seus pés. O magnífico Zelensky é o homem mais famoso do século. O herói total, a consciência moral do mundo. O David que quer matar Golias. O tom mudou. A celebridade muda as pessoas para sempre. As livrarias estão cheias de livros com a sua cara, biografias escritas à pressa em todas as línguas, e as redes buscam-no a grande velocidade. Uma omnipresença divina. E, sim, orwelliana. O dedo acusatório apontado. Façam isto, exijo aquilo, quero aqueloutro.

E não, a Rússia não se prepara para invadir a Europa ocidental. Este discurso a pedir a entrada da NATO na guerra é mentiroso e perigoso.

O tom é um imperativo categórico. Nem cessar-fogo nem conversações. Retirada dos exércitos russos, nenhuma concessão, recuperação da integridade territorial da Ucrânia, o que quer que isto signifique. Nenhuma prudência ou temperança. O mundo ajoelha e obedece. Ninguém quer a paz. Muito menos Zelensky, intoxicado de guerra.

Já vi isto, em menor escala. Um líder intoxicado com a atenção do mundo, Yasser Arafat. Uma causa “santificada”, a palestiniana. Uma consciência moral, sobretudo depois de Sabra e Chatila. Quando chegou o momento da paz, Arafat continuava intoxicado e nunca soube governar o seu povo, abandonado para sempre. Na paz, Arafat e a corte heroica eram inúteis, corruptos, incompetentes, injustos, fracos, destemperados e imprudentes. A vitimização constante e as doações, um povo a viver de esmolas, foi o que sobrou. Israel tomou conta do assunto.

Na paz, e a paz terá de vir a seguir à overdose, será Zelensky o homem que a Ucrânia precisa que seja? Churchill sentiu essa depressão do fim da ação e do regresso à normalidade, passada a finest hour. Mas Churchill era um grande intelectual e um político experiente. Zelensky não é Churchill. Os formidáveis interesses ocultos da Ucrânia num pós-guerra, com as injeções de armas e dinheiro, afastá-lo-ão com pinças para o lugar da estátua. Ou, pior, corrompê-lo-ão.

Espero estar enganada.

Clara Ferreira Alves, Expresso, 27 de maio de 2022


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