O financiamento de um novo centro
do ISCTE e a nomeação do ex-ministro das Finanças como vice-reitor desta
universidade levantaram dúvidas e provocaram polémica. Dentro de um mês, Maria
de Lurdes Rodrigues e João Leão apresentam-se no Parlamento para responderem a
uma Comissão de Inquérito.
Primeiro, Maria de Lurdes
Rodrigues mostra os estatutos do Centro de Valorização de Transferência de
Tecnologias (CVTT), de 2020, para demonstrar que nunca se
pensou em João Leão para tutelar aquele organismo que está em
construção e cujo financiamento em parte veio do Ministério das Finanças (MF),
cinco milhões de euros, quando este ainda era tutelado por Leão, escolhido pela
ex-ministra da Educação para ser vice-reitor do ISCTE — Instituto Universitário
de Lisboa.
Depois, a reitora mostra ainda as
várias cartas enviadas ao então ministro Manuel Heitor, que tinha a pasta do
Ensino Superior, com as suas queixas e propostas para solucionar o
subfinanciamento crónico da instituição que, durante anos, não teve assento no
Conselho de Reitores das Universidades Públicas (CRUP). Mostra a carta enviada
recentemente aos reitores e aos presidentes dos politécnicos para esclarecer as
notícias do PÚBLICO sobre o alegado favorecimento que o então ministro das
Finanças, João Leão, terá dado ao ISCTE. Para a reitora, não houve qualquer
ajuda. Não foi o
ex-ministro que assinou o despacho de Julho passado, mas sim os
então ministro do Planeamento, Nélson de Souza, e a secretária de Estado do
Orçamento, Cláudia Joaquim.
O novo vice-reitor, que foi
professor no ISCTE desde 2008, será responsável pela área do Desenvolvimento
Estratégico, numa altura em que a instituição tem vários projectos em curso, a
começar pela escola que abrirá em Sintra e em que vai oferecer 11 licenciaturas
em Tecnologias Digitais. Mas não só, o plano é chegar a outras cidades da coroa
norte de Lisboa, como Mafra, Amadora, Odivelas, Loures, Vila Franca de Xira,
onde há 1,2 milhões de habitantes sem ensino superior.
Como é que surgiu o convite ao
professor João Leão para ser seu vice-reitor?
O convite surgiu no dia em que ele pediu uma reunião comigo para me informar
que regressava ao ISCTE. Eu tinha acabado de ser eleita e estava a constituir a
equipa. E, quando ele se apresentou, fiquei muito contente, porque era a nossa
oportunidade de ter uma pessoa altamente qualificada. Ele foi o melhor aluno no
MIT no seu ano de doutoramento. Uma pessoa absolutamente excepcional no seu
domínio na Economia e depois adquiriu uma grande experiência, uma visão das
políticas em todos os sectores, que é muito interessante para uma escola como a
nossa, que forma cientistas políticos, que forma na área das políticas
públicas.
Mas João Leão não é professor
catedrático, nem fez toda a sua carreira na academia.
Mas isso não significa que não seja académico. Faz um percurso na política e regressa,
e nunca deixou de se interessar. O professor João Leão tem no seu currículo um
dos artigos mais importantes na sua área, ou seja, ao mesmo tempo que fazia o
seu trabalho político, continuou a interessar-se pela sua área de estudo.
Já trabalhara com João Leão?
Sim, ele ensinou em cursos que eu coordenava, conheci-o antes de ele ir para o
Ministério [da Economia]. Não tem um percurso clássico, mas tem um percurso de
elevadíssima qualidade.
Depois da acção política, os
ex-governantes não deveriam fazer um período de nojo?
Porquê? Nem consigo entender essa pergunta. Eu regressei ao ISCTE, quando saí
do Ministério da Educação e desenvolvi nesse período toda a área das políticas
públicas, o que foi absolutamente decisivo. Uma pessoa sem experiência de governação
não conseguia fazer aquilo que o ISCTE conseguiu nessa área. Hoje, várias
universidades tentam ter programas nessa área e o ISCTE continua a ser líder,
porque a minha experiência política, para alguns desses domínios de ensino, foi
muito importante.
Porque passou pelo Governo?
Não é uma questão ideológica nem partidária — é mesmo a experiência da
governação, do saber fazer políticas; de saber desenhar programas de
intervenção pública. Quando houve a polémica com a ida do
ex-primeiro-ministro Passos Coelho para o ISCSP, escrevi um artigo a
defender [a decisão]. Da mesma maneira que para as universidades é muito importante
a experiência na actividade empresarial, na administração pública ou na
engenharia — e nós temos inúmeros professores convidados, justamente porque
isso é importante para a academia —, também na área da administração pública,
das políticas públicas, de ciência política é importante ter pessoas com
experiência na política, porque enriquecem, complementam aquilo que é o
trabalho académico.
Por vezes, diz-se que as
universidades vivem isoladas do mundo e uma das formas de se abrirem à
sociedade, à economia, à administração pública é justamente terem essas
oportunidades de interacção e de fazer participar nos processos de ensino e nos
de desenvolvimento da actividade científica pessoas com experiência. Portanto,
não consigo entender essas reservas. Era o mesmo que dizer que o professor
Manuel Heitor [ex-ministro do Ensino Superior] não podia regressar ao Instituto
Superior Técnico.
Mas porquê regressar como
vice-reitor?
As funções de vice-reitor são exercidas por professores, de qualquer nível ou
de qualquer categoria da carreira docente. Não há nenhuma exigência. A
exigência que existe é terem competências no pelouro que vão ocupar. Eu não
consigo entender a questão da incompatibilidade ou da ilegitimidade. E fiquei
muito surpreendida com a polémica que suscitou, porque ela é inteiramente nova,
quando há inúmeros casos de professores que estão na vida política ou na
administração e depois regressam à academia.
A polémica tem que ver com o
financiamento de cinco milhões de euros para o ISCTE.
Esse financiamento não foi
decidido por João Leão.
Mas foi decidido pelo ministério
que ele tutelava.
Então o ministro Manuel Heitor que teve a tutela de todo o Ensino Superior não
pôde regressar à sua universidade? Como ministro financiou todas as
universidades. Vou explicar-lhe o processo e tudo começa pelo financiamento
público anual por aluno. Este quadro [ver infografia abaixo] é relativo ao ano
de 2022 — quanto é que cada instituição de ensino superior recebe por aluno
ponderado.
Que é?
O conceito de aluno ponderado vem da própria fórmula de financiamento e
estabelece que, por exemplo, um aluno de Engenharia custe mais do que um aluno
de Ciências Sociais e Humanas. Não são os alunos reais, mas os alunos com o
valor associado ao custo da sua formação. E, quando olhamos para este quadro,
vemos que o ISCTE é o que recebe menos.
Porquê?
Pelo historial, desde 2009 que a fórmula de financiamento não é aplicada. No
fundo, as instituições recebem a mesma proporção que nos anos anteriores e, à
medida que os anos vão passando, as instituições que aumentam o número de
alunos ficam prejudicadas, porque recebem o mesmo. Esta é a situação em 2022 e
se formos para trás nunca saímos do mesmo. E isto revela o quanto o ISCTE foi
beneficiado quer por governos do PS, quer do PSD — ou seja, nada, rigorosamente
nada.
Porque não se cumpre a Lei do Financiamento do Ensino Superior?
Porque os governos sucessivos, desde 2009, estão em incumprimento.
Então esta deve ser aplicada?
Esse é um problema grave e que vai agravar-se, porque revela estas injustiças.
O Instituto Politécnico de Tomar recebe mais de quatro mil euros por aluno
ponderado e o ISCTE recebe 1500. Isto cria um grande desequilíbrio, uma grande
injustiça. Os professores do ISCTE trabalham mais horas, têm mais alunos, não
têm tempo para fazer investigação e os nossos alunos não têm Acção Social.
Mas todos os alunos têm direito a
Acção Social. Porque é que os do ISCTE não têm?
Porque no financiamento não está previsto. O facto de, desde 2009, todos os
governos estarem em incumprimento da lei teve justificação durante a crise,
porque era uma situação difícil de gerir. Mas, passada a crise, manteve-se
estável o financiamento; também se percebe que não tenha havido nenhum esforço,
porque significaria tirar orçamento a umas instituições para dar a outras —
percebe-se que isso era um problema complicado para as próprias instituições
que têm as suas estruturas montadas. O que sempre se esperou era que, no
momento em que houvesse um aumento das dotações, isso permitisse corrigir
alguma coisa — o que não se faz de um dia para o outro.
E não aconteceu?
É um problema difícil de resolver. Quanto mais tempo passar, pior. O Tribunal
de Contas veio em 2019 chamar a atenção e recomendou ao Governo que aplicasse a
lei e que, se não estivesse de acordo, a alterasse. Não aconteceu nada e, na
minha opinião, não aconteceu por falta de coragem política, de não querer
enfrentar os problemas, por medo, mas os problemas têm de ser resolvidos.
E as propinas? Se o ISCTE tem
mais alunos, recebe mais.
Temos mais alunos, mas nenhuma compensação pela perda de receitas das propinas.
A situação do ISCTE piorou muito a partir do momento em que, além de não se
aplicar a lei, se congelou primeiro a subida das propinas e depois baixaram. O
compromisso do Governo era que o Orçamento do Estado (OE) compensaria a perda
de receitas das propinas, mas não compensou. Eu escrevi uma carta ao ministro
Manuel Heitor, dizendo que a nossa perda é da ordem dos 800 mil euros e a
compensação é na ordem dos 700 mil.
Porquê?
Porque se aplicou outra vez o historial. Portanto, este assunto que está a
querer tratar [a polémica do financiamento aprovado pelo MF] decorre disto. Eu
escrevo uma carta ao professor Manuel Heitor, em 12 de Agosto, a dizer que não
estou de acordo, porque não só não houve transparência — em 1200 milhões do
orçamento resolve distribuir de maneira diferenciada seis milhões —, e aplica
uma fórmula que beneficia universidades que já estavam sobrefinanciadas.
Digo-lhe que, de novo, as universidades da Beira Interior e do Minho estavam na
mesma situação que o ISCTE.
Qual é a consequência dessa
carta?
É o próprio ministro, nesta minha pressão para que isto se resolvesse, que a
páginas tantas diz que podemos resolver com um contrato-programa. É ele que me
aconselha a escrever uma carta em que sugiro várias possibilidades de
financiamento — eu nem sabia que possibilidades havia. Eu escrevo-lhe a carta e
no mesmo mês o ministro despacha.
Ao PÚBLICO o ex-ministro disse
que o contrato-programa “nunca chegou a existir”.
Mas isso eu não sei dizer porquê. A partir do momento em que ele assina e
aquilo [o contrato-programa] desce aos serviços... Eu tive uma única reunião
com os serviços do ministério para combinar o que era o pedido para fazer às
Finanças, depois disso nunca mais ouvi falar sobre o assunto. Para mim, aquilo
é o contrato-programa. Ponto número um: eu nem sabia que havia aquela dotação
no MF para esse efeito. A minha interacção é sempre e só com o ministro Manuel
Heitor — é ele que me diz para fazer o pedido, porque o MF tem uma verba para
projectos financiados por fundos europeus, para que não deixem de ser
executados por falta de contrapartida nacional. É o momento da minha vida e do
meu mandato em que eu percebo que aquilo existe no OE.
Então porque diz o ministro que não existe
contrato-programa?
Aquilo para mim é o contrato-programa. Se agora o ministro vem dizer que não
é... Para mim é, porque o dinheiro entra no orçamento do ISCTE consignado
àquelas despesas [do CVTT], eu não posso usar para outra coisa. Para mim,
aquilo é um contrato-programa, tem a assinatura do ministro.
Este financiamento é para a construção
do CVTT. Vai estar pronto para o ano?
Eu espero inaugurar aquele edifício no próximo ano. Portanto, isto para dizer
que o ISCTE não foi favorecido por nenhum governo.
Aparentemente foi favorecido pelo
Ministério das Finanças.
Eu não sei como é possível deduzir isso desta situação.
Se não tivesse convidado o
professor João Leão para vice-reitor, o financiamento do CVTT passava
despercebido?
Isto é decidido em 2021, foi pedido em 2020. Isto é um processo em que o
ministro não teve qualquer interferência, como já provou. Eu nunca falei com
ele sobre isto. Para mim, o João Leão é um ex-ministro das Finanças, tivesse
ele beneficiado ou prejudicado o ISCTE, é um docente desta casa, que eu estimo
e a quem reconheço inúmeras competências para nos vir ajudar a fazer o trabalho
que temos para fazer. Pergunta-me se ele não tivesse vindo, alguém dava por
este financiamento? A minha perplexidade é tão grande, faz-me lembrar aquele
título de Shakespeare, Muito Barulho por Nada. Gerou-se uma confusão, a partir
de vários equívocos.
É só isso?
Eu acho que também há alguma maldade ou uma tentativa de condicionamento da
resolução deste problema. São vozes a tentar condicionar o actual Governo para
que este problema não seja resolvido.
De quem são essas vozes?
O PÚBLICO fala de universidades e politécnicos que estão com
muito medo. Eu percebo que alguns não queiram, mas não são só essas
instituições.
Quem mais tem medo?
Quem teve a responsabilidade por manter essa situação, vários governos desde
2009. Há muita falta de coragem política e uma tentativa para continuar a
condicionar para que as coisas não mudem.
"O Tribunal de Contas veio
em 2019 chamar a atenção e recomendou ao Governo que aplicasse a lei [do
Financiamento do Ensino Superior] e que, se não estivesse de acordo, a
alterasse. Não aconteceu nada"
A solução passa por cumprir a Lei
do Financiamento?
Nenhuma instituição de ensino superior com responsabilidade pode defender que
se aplique a lei de um ano para o outro. Isso colocaria em risco a vida de
muitas instituições. Aquilo que ouvi sempre falar no CRUP e que eu própria
defendi foi, havendo um aumento da dotação, deve permitir começar a corrigir
esta situação. Nos últimos três anos, houve um aumento e não se corrigiu, a
situação só piorou.
O OE prevê um aumento para este
ano?
O benefício do ISCTE é de 2,1%.
As principais beneficiadas são as
instituições do interior?
Não gostaria de falar de nenhuma em particular. Gostaria que os critérios
tivessem sido claros e transparentes. Os dados têm de ser públicos. Não posso
dizer que há instituições beneficiadas; o que há é um défice grande de
financiamento. O que posso dizer é que há instituições que estão gravemente
prejudicadas. Apesar disso, nós somos uma instituição forte e inovadora.
Fazemos este ano 50 anos, temos projectos para o futuro e vamos continuar a ser
uma instituição pública de referência nas nossas áreas. Mas vivemos uma
situação de grande injustiça e isso é intolerável.
Então, de nada serve ser um “viveiro” de
ministros socialistas, como o ISCTE já foi apelidado?
Não somos. Temos orgulho de formar gente não para o PS, mas para o país. Temos
orgulho em formar para a liderança — para a liderança no mundo empresarial, das
elites para o sectorial social (de que ninguém fala). Nós orgulhamo-nos do
trabalho que fazemos sem nenhuma orientação político-partidária. Fazemo-lo
naturalmente, eu própria tenho tido alunos que foram assessores deste ou
daquele e não são só do PS. A melhor imagem do que é o ISCTE é o Fórum das
Políticas Públicas — por exemplo, Manuela Ferreira Leite é uma assídua, o
professor Vítor Gaspar... Mais pluralismo do que isto... É o espelho do ISCTE.
As universidades devem ter esta
ligação ao poder?
As universidades devem ter uma ligação à sociedade civil e empresarial, ao seu
contexto, não devem estar fechadas em muros, devem ser abertas. A influência
deve ser plural e resultante da abertura que obrigatoriamente temos de fazer
para podermos enriquecer o nosso trabalho e dar-lhe relevância. Não é o facto
de eu ter sido ministra de um governo socialista que faz do ISCTE [um viveiro
do PS]; acho que é ofensivo para os meus colegas que sentem aqui um espaço de
grande abertura.
Publicámos uma carta aberta
de professores do ISCTE que pedem independência do poder político.
Nos primeiros parágrafos, reconhecem que há pluralismo e diversidade interna.
Os pontos mais importantes da carta dos meus colegas, que fazem parte da lista
da oposição (isso também é pluralismo interno), é reconhecerem que o ISCTE não
é homogéneo e que o problema é o financiamento. No ISCTE as pessoas têm voz e
falam, não têm medo.
Voltando ao financiamento do
CVTT, este foi o único projecto aprovado pelo
MF, em cinco anos.
Foram apoiados vários sectores; nas universidades só houve apoio ao ISCTE,
porque não foi apresentado mais nenhum projecto — o que se compreende, porque
as universidades localizadas em Lisboa e Vale do Tejo têm uma exigência de
contrapartida nacional muito superior às das outras regiões.
E os projectos dos politécnicos
que Manuel Heitor diz que foram também apresentados?
O que eu entendo do que li e daquilo que são as declarações do professor João
Leão, é que não reuniam as condições para serem financiados por esta verba, mas
beneficiaram de 16 milhões euros nos últimos anos. Portanto, tiveram muito mais
financiamento do OE proveniente de outra rubrica que não esta, porque esta
destinava-se exclusivamente a projectos de Fundo Social Europeu que
necessitassem de contrapartida nacional.
No site do ISCTE apareceu que
João Leão iria liderar o CVTT, mas agora está sob a alçada do vice-reitor Jorge
Costa. Porquê?
Os estatutos do CVTT foram feitos em Fevereiro de 2020, logo a seguir à
aprovação do projecto comunitário e este sempre foi um projecto da área da
investigação. Nos estatutos está o vice-reitor para a Investigação. Portanto,
nunca esteve previsto ser João Leão a dirigir o projecto. Quando o João Leão
aceita [ser vice-reitor], digo-lhe: “Tenho aqui absoluta necessidade de si na
reitoria para nos ajudar no desenvolvimento de projectos, que são muitos e
variados.”
O que vai fazer João Leão?
Eu fiz um plano de acção e é para esse que precisamos de João Leão. Quando se
está no governo, temos uma visão do país que é muito diferente — não é só do
sector — e é essa a minha aposta em João Leão, como noutros que podem trazer à
academia essa visão, o refrescamento, e darem contributos para melhorarmos no
imediato o trabalho que estamos a fazer.
Há aquela frase de “À mulher de
César não basta ser séria” ...
E “Quem não deve não teme”, não é? Para cada provérbio, há sempre o seu
contrário. Eu estava longe de imaginar [a polémica].
E, se imaginasse, convidaria à
mesma João Leão?
Sim, porque a coragem é um dos elementos essenciais da protecção da democracia
e da liberdade.
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