A saúde
não tem preço, mas tem custo. O custo é limitado, embora, teoricamente, o preço
de salvar uma vida possa ser igual ao infinito. O SNS, que é o esteio do nosso
Estado Social, bastantes furos acima das políticas de educação, habitação,
emprego e outras, está a morrer mesmo defronte de nós. Infelizmente, não há
quem o assuma e tome medidas para salvar um moribundo. Continua-se com
aspirinas, ou, vá lá, ben-u-ron
Antes da
ideologia assaltar o conceito de Serviço Nacional de Saúde – defendendo-o como
apenas público e repleto de funcionários, e não como um sistema integrado e
aberto, capaz de atender todos os portugueses - tudo funcionava melhor. De
qualquer modo, já se sentiam as ameaças. Bastam estas duas, pelas quais não se
pode responsabilizar ninguém: envelhecimento da população e custo crescente dos
exames auxiliares de diagnóstico. No geral, e com o pequeno intermezzo de Paulo
Macedo (que com um governo sem dinheiro, intervencionado pela troika, e
com greves por tudo e por nada, fez mais pelo SNS do que a maioria), no geral o
SNS era visto como algo que se resolvia atirando-lhe dinheiro para cima. Faltou
a esses ministros e gestores aquela ideia de que a Saúde não tem preço; isto é,
por muito dinheiro que lhe atiremos, jamais resolveremos os seus problemas.
Quando o
dinheiro começou, de facto, a escassear, porque a realidade (o custo da Saúde)
se fez sentir, a fuga foi total. E para a frente. No fundo, dizia-se, gastava-se
muito porque se trabalhava pouco; ou porque os privados levavam milhões do SNS
(como se 40% dos portugueses não tivessem acordos privados de Saúde que poupam
o Serviço Nacional de Saúde). Houve também doutrinas intermédias, umas mais
verdadeiras do que outras, como acorrer sem necessidade às urgências.
Combateu-se tudo com meios e dinheiro (Centros de Saúde e USF modernos e bons),
mas os males não deixaram de atormentar os serviços.
De falta
de atendimento, ao atendimento sem nível (e claro que há de tudo) até ao
ridículo de se convocar mulheres com mais de 60 anos para consultas de
planeamento familiar, tudo se rendeu à ideia peregrina de que todos são iguais,
como se as palavras dos velhos mestres fossem próprias de quem está
ultrapassado – não há doenças, há doentes.
A
pandemia pôs a nu o que era esperado: faltam médicos, enfermeiros, auxiliares,
enfim qualquer pessoa que tenha a ver com Saúde. Muitos emigraram, muitos
saltaram para o privado, onde as regras, mais do que os salários, parecem claras
e iguais para todos.
Fizeram-se
hospitais, fecharam-se outros que eram manifestamente obsoletos e pensámos que
teríamos o problema resolvido. Era verdade, não fosse o caso de as profissões
médicas e paramédicas deixarem de ser atrativas – e não apenas pelo salário,
mas também pela confusão em que se tornaram. O fim das carreiras médicas;
papéis, mais papéis, as consultas a conta-relógio (com tempos, conforme a
especialidade), que não deixam um médico ter dúvidas, nem mais do que uns
escassos minutos com um paciente. Tal como acontecera com os professores e
outras profissões, os médicos foram sendo desautorizados pelo poder político e
por si próprios, ao se assumirem, tantas vezes, como meros funcionários –
precisamente o que o sistema queria.
Entretanto
vão estourando, aqui e ali, os problemas. Prometem-se, como segunda-feira fez a
ministra, planos integrados e por integrar, mas além de ninguém acreditar, a
realidade desmente imediatamente qualquer plano. No dia seguinte, lá estavam
urgências fechadas, as filas de espera a aumentar, e o SNS a parecer daqueles
edifícios que se desmoronam.
Não me
perguntem o que fazer. Eu continuo a confiar nos médicos e no SNS. No que não
confio é na sua gestão caótica. Talvez possam arranjar um ministro, uns
administradores regionais de Saúde, uns diretores de hospitais que pretendam
resolver os problemas, sabendo que a ideologia e este modelo de gestão não
fazem parte dos ingredientes. Talvez se todos os recursos, públicos, privados,
sociais, funcionassem em rede, e não cada qual para o seu lado, se conseguisse
começar a consertar alguma coisa. Talvez se permitissem que um médico fosse
soberano nas suas consultas e especialidades, e as inspeções se fizessem quando
há suspeitas e não impondo regras à partida que sufocam os clínicos. Talvez se
todos tivessem a ideia de que o dinheiro é escasso e houvesse recompensas e
punições para o modo como se utiliza.
Não sei
resolver o problema. Mas sei de muito bons médicos, técnicos e gestores de
saúde que, tenho a certeza, o começariam a resolver.
Henrique
Monteiro, Expresso, 15 de maio de 2022
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