A cultura
do individualismo, alimentada por um mito salvífico que estabelece uma
hierarquia em que somos todos marcados como desiguais, legitima Donald Trump
como a sua voz
Deve-se
levar a sério o bufão? O senso comum pode sugerir que não, afinal a pose do
sujeito estriba-se na sua desqualificação para desempenhar funções de
autoridade. No entanto, a história adivinha precisamente o contrário, que a
perigosidade de tal tipo de figura também decorre dessa sua incongruência e que
não são raros os exemplos de triunfo. Este ensaio procura dissecar a raiz de um
desses casos de sucesso, apontando a continuidade entre a vaga yuppie dos anos
80 e alguma da contemporânea efervescência autoritária no país mais poderoso do
mundo. Para tanto, anoto o percurso de quem se tornou a referência da primeira
geração yuppie, nem menos do que Donald Trump, que décadas depois da sua
afirmação como “rei do brilho” chegou a Presidente dos Estados Unidos da
América e que dentro de dois anos pode voltar a ser o mais forte candidato para
ocupar o cargo ou ser substituído por alguém que o imite competentemente. No
mundo que se arrisca a estar dividido em duas esferas de influência depois da
tragédia da invasão da Ucrânia, uma Casa Branca ‘retrumpizada’ não é uma ameaça
desprezível, a acrescentar à imprevisibilidade dos atuais tambores de guerra.
A
surpresa da vitória inicial de Trump e, malgrado o seu desempenho frívolo, da
possibilidade do seu regresso, terá uma explicação, além da torrente emocional
que a política populista pode eventualmente desencadear. Nas linhas seguintes,
sugiro que o fundamento essencial dessa permanência surpreendente é uma cultura
que o legitima como a sua voz. Essa cultura é o individualismo, alimentado por
um mito salvífico que estabelece uma hierarquia em que somos todos marcados
como desiguais, por ferrete de um desígnio natural. A base de tal cultura é a
história de Noé e constitui uma forma de autoritarismo, cuja extraordinária
persistência deve ser discutida.
O MITO
FUNDADOR DO INDIVIDUALISMO
De onde
vimos? As respostas simples, nas origens da nossa civilização, são lendas
referenciais que sugerem um passado mágico povoado por gigantes e por deuses.
Apesar desse curioso escapismo, o encantamento com estas narrativas tem
desempenhado uma função construtiva, dado que as mitologias balizam uma cultura
e dão-lhe nomes e figuras, contando desse modo uma história do presente. Essa é
a sua força organizadora, se bem que a diversidade dos seus usos polvilhe uma
ambiguidade enevoada. Entre todos, o mais impressionante uso desses mitos é a
presunção de que algumas pessoas carregam em si um toque divinal, o que faria de
cada uma delas o centro do universo. Essa cultura individualista, que tem
resistido a ciclos de perda de credibilidade, é de facto uma arrogância, pois
contradiz a nossa experiência pessoal de vida numa sociedade ampla, mas cria
ainda assim um discurso poderoso, sobretudo por apresentar uma noção de ordem,
mesmo que sob a forma bizarra de uma hierarquia em que um chefe conduz a
família e o seu séquito enquanto tudo o resto é engolido pela morte. Tal
paradoxo existencial foi descrito pelo mito da Arca de Noé, que anunciou que a
salvação da comunidade depende do mérito individual que alcance o favor
celestial.
Explorando
esse mito, argumentarei que o fulgurante renascimento da ideia redentora de Noé
é o discurso cultural dominante dos nossos dias, apresentando o progresso da
sociedade como a competição pelo acesso ao topo da grande epopeia da seleção,
pela força própria ou pela imposição de uma vontade transcendente. Trata-se do
regresso de uma velha relíquia, agora polida pela necessidade de dar um sentido
à hegemonia presente, mesmo que repetindo o passado: a cultura individualista
de hoje é um remake da dos yuppies da década de 80, quando foram a cara feliz
da globalização, embora lhe acrescente o tremendismo de um destino e de um
guia. À medida do nosso cantinho à beira-mar plantado, foram quem deu corpo ao
avanço dos jovens da Aliança Democrática de Cavaco Silva, mobilizando os que,
depois da austeridade negociada com o FMI em 1977 e 1983, sonhavam com o maná
das privatizações e com a riqueza ao virar da esquina. A sua vitória impôs um
novo ciclo político de dez anos. O tropel que agora se ouve, de empreendedores,
de consultores, de corretores, de golden boys, de diligentes funcionários das
agências financeiras, dos topa-tudo no imobiliário, dos influencers nas redes
sociais, de jogadores vários, toda essa movida individualista é a recapitulação
entre nós do cavaquismo e, não por acaso, partilha algo do seu mandonismo, se
bem que hoje tenha vários protagonistas concorrendo entre si.
TODA A
MALDADE DO MUNDO
Conta-nos
o Génesis que, incomodado com a irremediável perfídia dos humanos (“O Senhor
viu que a maldade dos homens crescia cada vez mais no mundo e que as suas
intenções e planos eram sempre maus”, Gn 6,5), Deus decidiu “fazê-los
desaparecer da face da terra”, castigando a corrupção dos “caminhos errados” e
a violência, mas poupou Noé, um venerável ancião com 600 anos, e a sua família
(os três filhos já tinham 100 anos, das noras nada se sabe), a quem garantiu um
“pacto de aliança” (Gn 6,17 e GN 9,9). A exceção não é justificada em detalhe,
embora o Antigo Testamento nos diga que ele era “a única pessoa justa e
honesta” e que, obediente, “cumpria sempre a vontade de Deus”.
Noé
construiu uma arca com 150 metros de comprimento, 25 de largura e 15 de altura,
com três pisos e espaço para sete pares de todos os animais puros (alguns
sacrificados quando desembarcaram) e um par de cada espécie impura. Com ela
navegou quase um ano e, terminado o dilúvio, aportou ao monte Ararat. A partir
daqui, a história, que se inspira em lendas da Mesopotâmia que a antecedem em
1000 anos, é ainda mais surpreendente: Noé teria sido o primeiro agricultor a
cultivar uma vinha, embebedou-se, despiu-se na sua tenda e, quando foi acudido
pelos filhos, que dele tiveram vergonha, ter-se-ia zangado e condenado à
escravidão um dos seus netos, Canaã. Não era um grande começo para “todos os
povos do mundo” (Gn 10,12) e Noé, tendo vivido ainda outros 350 anos, não
aproveitou o tempo para corrigir a sentença. Apesar disso, cá estamos,
herdeiros desta fábula aventurosa, embora não constando que libertados da
corrupção, da guerra ou das maldades do mundo. A salvação não nos poupou a
esses vícios, mas Deus teria prometido não voltar a destruir a Humanidade,
apesar da permanência congénita das nossas más disposições (“Não voltarei mais
a amaldiçoar a terra, por causa dos seres humanos. É certo que eles têm más
inclinações desde a infância. Mas não voltarei mais a castigar todos os seres
vivos como fiz desta vez”, Gn 8,21).
Ora, como
terá sido fabricado o milagre que nos albergou do dilúvio? A questão é a de
sempre, reconhecer o que teria determinado o resgate: Noé ergueu-se à exceção
por ser excecional, pelo seu mérito próprio, ou foi escolhido por Deus, que lhe
ofereceu uma aliança, para ser o seu instrumento no comando da comunidade, como
poderia ter sido outro? Em qualquer caso, foi assim que Noé pastoreou a família
e a levou ao seu destino, a humanidade futura. Se foi o resultado de um êxito
pessoal, o prémio pela pureza original do homem, que aliás se viria a comportar
estranhamente depois desse seu triunfo, ao que nos conta o livro, ou, em
contrapartida, se foi o efeito do imperativo da sobrevivência perante a ameaça
apocalíptica, será de menos. Esta história é simplesmente uma lei de domínio na
tribo. Noé, o salvador salvado, designou-se ou foi designado para receber o
toque divino e foi quem escolheu os sobreviventes. Uma família entre todas e
depois da destruição das outras.
OS ANOS
YUPPIE
John
Lennon foi assassinado em 1980, à porta de sua casa, e a sua morte marcou
simbolicamente o fim de uma era de rebeldias utópicas. Ele tinha 40 anos e
cantara o ‘Imagine’, “Podes dizer que sou um sonhador/ Mas não sou o único/
Espero que algum dia te juntes a nós/ E o mundo será como um só”, e, celebrado,
foi entretanto esquecido. Naquela nova década era o individualismo, prometendo
o contrário, que parecia ter a sintonia do mundo.
Pouco
tempo passou e a revista “Newsweek” decretou que 1984 era “o ano do yuppie”. O
“The New York Times” seguiu-lhe os passos. “Chegaram os jovens profissionais
urbanos, que fazem imenso dinheiro, o esbanjam à vontade e mudam de candidatos
como quem testa cozinhas”, escrevia-se na revista. Yuppie era uma corruptela de
yippie, acrescentando a designação de “urbano” ao nome autoatribuído da geração
anterior de rebeldes contra a guerra do Vietname e contra a modorra da vida dos
seus pais. A passagem de um termo para outro não era uma fabricação da
imprensa, era um movimento que anunciava o arquétipo do novo rico. Jerry Rubin
deu o exemplo. Ele fora um dos ícones desse anterior movimento yippie, arauto
da contracultura e organizador dos protestos em frente à Convenção Democrata em
Chicago (1968) e da marcha sobre Washington (1969), o homem que tinha deposto no
seu julgamento (os “sete de Chicago”) mascarado de polícia ou perante uma
comissão da Câmara de Representantes vestido uma vez de vietcongue e outra de
Pai Natal. Nos anos seguintes, comprou ações da Apple, tornou-se
multimilionário, aderiu sem remorso ao inimigo da véspera e, convertido,
entregou-se ao circuito de conferências sobre como enriquecer. Seguindo o
exemplo de Rubin, os yuppies festejaram o hedonismo, o consumismo era a sua
linguagem, vestiam Ralph Lauren, viviam em penthouses, bebiam água Perrier,
conduziam automóveis alemães, as horas eram Rollex.
Foi um
período glorioso na política internacional, os conflitos eram longe das
fronteiras norte-americanas, eram no Afeganistão com a ocupação soviética em
1979, na América Latina com o fim das ditaduras, no Líbano em 1982 e, o mais
cruel de todos, a longa guerra entre o Irão de Khomeini (a que a Administração
dos EUA vendeu clandestinamente armas para financiar a guerrilha
antissandinista na Nicarágua, como o mundo era pequeno) e o Iraque de Saddam Hussein
(então um amigo de Washington). A vertigem culminou na monumental queda do Muro
de Berlim em 1989. As forças ocidentais tinham vencido. Mas conquistaram mais
do que posições, créditos militares e vantagens estratégicas: ganharam a
batalha pela enunciação de uma nova imaginação. Escrevia o “The Wall Street
Journal”, com alegria, que Ronald Reagan, que foi eleito Presidente em novembro
de 1980 e dominaria esta década com a primeira evocação do ‘Make America Great
Again’, era o mais sénior dos yuppies. Alguma verdade haveria na nomeação,
mesmo que o ator de Hollywood, que vinha do governo da Califórnia e se
instalara no edifício do partido republicano, fosse um inesperado embaixador
deste movimento da nova cultura. E, no entanto, foi mesmo a promessa de enriquecimento
rápido que empolgou a geração yuppie, deu a vitória a Reagan e liderou os
gloriosos anos 1980. Não havia nisso qualquer retraimento, antes um orgulho
exibido: o economista Milton Friedman, um dos influentes intelectuais desta
saga, tinha dedicado no mesmo ano um dos seus programas televisivos na PBS ao
tema do individualismo, usando as palavras todas, “a ganância é boa”. Poucos
anos mais tarde, em 1987, esse era o mote de Gordon Gekko, o vilão do filme de
Oliver Stone sobre as razias financeiras, “Wall Street”.
O glamour
desta nova aristocracia e os seus excessos foram telenovelizados em “Dallas”
(1978-1991) e em “Dynasty” (1981-1989), projetando a ascensão e queda do
“Grande Gatsby” em complexos e prolongados enredos de fortunas fáceis e intrigas
familiares, um modelo que ainda hoje se reproduz. O mundo assistiu deste modo à
subida dos yuppies ao prime time da televisão, que então era quase tudo. No
cinema, foi “Ghostbusters” (“Os Caça-Fantasmas”, 1984) que melhor simbolizou
esta visão. Realizado por Ivan Reitman, um “conservador-libertário”
recentemente falecido, o filme conta o choque entre um grupo de empresários
(atores que marcariam a sua época, Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver,
entre outros) que percebem o perigo e criam um novo mercado, o serviço de caça
aos fantasmas, e um regulador, funcionário da Agência da Proteção Ambiental,
que por razões administrativas os tenta impedir de agir, até ser esmagado pela
realidade do Armagedão monstruoso. Os efeitos especiais, que estavam então a
começar a ser explorados, ilustraram o filme, a banda sonora tornou-o
inesquecível, mas este igualmente se destaca por ser uma explicação pedagógica
de ‘reaganomics’. Neste caso, temos a economia de Noé, o triunfo do grupo
empresarial que consegue resistir aos impedimentos burocráticos do Estado
incompetente. A sobrevivência e o aplauso eram os prémios do vencedor. O que o
filme nos conta é, portanto, que o empreendedorismo salvou a cidade.
O símbolo
desta geração seria alguém mais prosaico do que os atores caça-fantasmas,
trata-se de uma personagem conhecida de quem está a ler estas linhas. Foi
Donald Trump, que nunca passou despercebido. Escrevia à época a “Newsweek” que
ele era “o presunçoso emblema nacional da riqueza dos anos 80”, ou que “tem um
bilião de dólares e um ego do mesmo tamanho”. Era um herdeiro nova-iorquino,
mimado mas atrevido, que deixava a sua marca em empreendimentos imobiliários
cintilantes (o Ringue Wollman, no Central Park, ou a Trump Tower, inaugurada em
1983) e que encarnava a política yuppie, na operacionalização de redes de
contactos, nos jogos com impostos e favorecimentos, como igualmente na sua
prosápia. Ofereceu-se como padrão, multiplicando os livros sobre como
prosseguir uma carreira de sucesso e, depois das vendas maciças de “A Arte da
Negociação”, de 1987, vieram “Como Enriquecer e Subir na Vida”, os seus
contributos para a cultura new age, dissertando sobre a seleção natural dos
empresários e a aventura da prosperidade instantânea. Trump era o king of
glitz, o rei do brilho, só que, se “vives pelo brilho, morres pelo brilho”,
como diria em 1990 à “Newsweek” um banqueiro e amigo que tinha aprovado algumas
das suas dívidas, quando ele, atormentado por um divórcio litigioso, por
dívidas e turbulência financeira, desabou e passou a ser o protótipo do
fracasso. A capa da “Newsweek”, nesse momento, foi “Trump: A Queda”. Nunca mais
se levantará, garantia o mesmo banqueiro. Enganou-se. Uma dúzia de anos depois,
Trump renasceria com “The Apprentice” (2004), o programa televisivo que
encenava aspirantes a executivos em luta feroz pelo lugar na empresa do
produtor e apresentador, com o público a regozijar-se por serem despedidos a
pontapé.
Portugal
vivia alinhado com este mundo nos costumes e na ordem política mas a
contraciclo na cultura. Os yuppies tinham desembarcado no Frágil e nos
entusiasmos da AD, o hedonismo batia à porta, o consumismo fazia maravilhas, o
individualismo era o seu nome. Mas ao mesmo tempo, na literatura, o país
analisava-se no espelho da guerra colonial, com “Os Cus de Judas” (1979), de
António Lobo Antunes, e buscava identidades com José Saramago, seja na luta
social (“Levantado do Chão”, 1980), na história (“O Ano da Morte de Ricardo
Reis”, 1984, e “História do Cerco de Lisboa”, 1989) ou na dúvida europeia (“Jangada
de Pedra”, 1986). Em contrapartida, nos Estados Unidos, a vaga já tinha
desaguado, precipitando o tempo da desilusão. Um dos ícones da literatura desse
tempo foi Tom Wolfe, que se estreou com “A Fogueira das Vaidades” em 1987, uma
sátira ao desastre social, em que um yuppie se pavoneia pela sociedade para
esconder um crime e se vai confrontando com os poderes fáticos, as suspeitas,
as peripécias da justiça e os subterfúgios dos financeiros, para tudo acabar em
tragédia. Afinal, a salvação era uma miragem.
A geração
yuppie parecia ter triunfado, mas transformara-se a si própria ao longo desse
processo e a sua imaginação estava esgotada. Mesmo quando Fukuyama, um
divulgador, publicou com grande impacto um artigo com um título-programa, “O
Fim da História” (1989), depois passado a livro, já o individualismo e o
liberalismo recorriam ao expediente do dogma para se apresentarem como o farol
da nossa era.
IR COM A
CORRENTE
Vinte e
muitos anos depois do seu primeiro naufrágio, Trump, o rei do brilho, foi
eleito Presidente do Estado mais poderoso do mundo. Não foi o único sinal da
consagração dos yuppies. Logo no ano seguinte à sua vitória, foi a vez de
Emmanuel Macron, que percorrera uma breve carreira na banca de investimento e
depois fora conselheiro e ministro de um governo do Partido Socialista francês,
que rasteiraria para se impor como o candidato presidencial do centro-direita
(sobre as suas traições escreveu Daniel Ribeiro aqui na Revista E). Havia algo
de gaullista na pose do candidato, que tinha explicado, em campanha, que a
França não precisava de um “Presidente normal”, mas sim de um presidente
“jupiteriano”, como o deus dos deuses romanos, para governar o Eliseu e os seus
súbditos em tempos excecionais. Esta filosofia é também ‘noéfica’ em todos os tons,
mesmo que o seu protagonista venha de um polo político obviamente distinto do
de Trump. Em qualquer caso, além da submissão jupiteriana, essa filosofia
enunciava um mapa social: como Macron explicou nesse ano da eleição, a
sociedade será uma corrente puxada pelos melhores, razão para que sejam
protegidos, caso contrário a inveja fá-la-ia desagregar e arrastaria toda a
gente. O chefe é ungido, a sua palavra é lei e protege os do topo, que seguram
os elos da cadeia.
Os
fundamentos desta teoria estão nos dois principais teóricos liberais do século
XX, que já tinham sido os conselheiros favoritos dos governantes da viragem dos
anos 80, Friedman com Reagan e Friedrich Hayek com Margaret Thatcher. Para
ambos, o indivíduo é a base da ordem social, fundada no mercado que o
reconhece. O mercado, por sua vez, é o palco da feitiçaria onde se definem os
preços, que nada mais fariam a não ser confirmar a justa retribuição do mérito
individual, fixando assim a harmonia espontânea das vantagens mútuas. O ciclo
fecha-se, assegurando que o sujeito do progresso histórico é o empresário
vencedor. Como já aqui escrevi, houve nesta glória alguns desvios não menos
assumidos, como quando os dois, Friedman e Hayek, se empenharam em apoiar um
regime ditatorial. O segundo nem sequer terá sentido vergonha ao garantir, numa
entrevista de 12 de abril de 1981 ao diário dos generais chilenos, “El
Mercúrio”, que, “pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um Governo
democrático ausente de liberalismo”, elogiando o jugo militar que determinou as
privatizações da segurança social e outros setores públicos, pese embora a sua
pilhagem pelos governantes. Tiranos que fossem, o que importa é o mercado. Não
havia nessa escolha nenhuma incongruência, os promotores deste modelo podem,
“pessoalmente”, dispensar a liberdade política, e o seu fundamento, o
individualismo, convive bem com a opressão dos outros. Noé não cuida das outras
famílias.
Nesta
história, os yuppies bem podiam incensar os mestres que lhes asseguravam que “a
ganância é boa” e até ignorar os pergaminhos democráticos. Aliás, Trump, a
figura dominante deste movimento, viria a ostentar o seu fascínio por
governantes com os quais manteve relações de cumplicidade, como Kim Jong-un ou,
sobretudo, Putin, cujas milícias de hackers o terão ajudado a vencer em 2016.
Trump é por tudo isto o espécime mais relevante do nosso tempo, porque foi o
publicista que divulgou as ideias e vestiu as lantejoulas da era yuppie, ou o
conquistador que se vangloria do poder e da veneração que suscita, mas
sobretudo por ser a voz do individualismo. Tinha para isso um projeto, que era
ele próprio, o condutor do seu povo, o homem que recuperaria a saudosa
magnificência americana, repetindo o mote reaganiano, ‘Make America Great
Again’ — o “de novo” é aqui a expressão-chave para invocar o destino que se
voltaria a impor para os que “fazem a América”, os americanos “de bem”. É o que
as novas direitas replicam em toda a Europa.
Considerando-se
destinado ou predestinado como Noé, Trump encarna o narcisismo frenético, que é
a expressão maior do individualismo, eu sou único e sou tudo. Não se pode
desvalorizar este recurso, que ressurge “de novo” com uma poderosa motivação e
com o discurso grandioso que envolve. Não é só um estilo. É uma energia, por
ser uma construção identitária poderosa. Mas de onde vem essa energia? O que
torna o individualismo tão agressivo? É o seu programa, a busca de um elixir
para atenuar os traumas que o narcisismo sofreu. O individualismo quer
salvar-se do triplo desastre que o atormenta.
AS TRÊS
FERIDAS NARCÍSICAS E A SUA CURA
O
individualismo é a imaginação yuppie em flor, é por esse processo que distribui
expectativas. No entanto, sendo uma identidade, tem desde sempre um problema
consigo próprio: é implausível, por contrariar a nossa experiência pessoal e
social. Não funciona, promete o que não pode criar.
E não
chega para reparar as sucessivas feridas narcísicas que a modernidade nos tem
imposto. Quem notou essas mágoas foi Sigmund Freud, que, em 1917, no artigo
“Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, escrito para uma revista húngara
de grande circulação, historiou “três golpes” contra o nosso narcisismo: a
revolução coperniciana (que apeou o nosso planeta do trono do universo), a
revolução darwinista (que aboliu a conceção essencialista da nossa espécie no
processo evolutivo) e a revolução psicanalítica (que desmentiu a conceção de
mente humana como uma construção da consciência). O primeiro desafio ao
narcisismo foi cosmológico e provou-nos que a Terra não é o centro do universo,
mas apenas uma partícula de um sistema, ao passo que o segundo atingiu o
antropocentrismo, não somos destinados. A terceira ferida narcísica, segundo
Freud, atacou os limites do ego no seu próprio campo, mostrando que a consciência
é só uma parte da nossa vida psíquica e que muita dela não cabe nesse
território limitado. Nem o nosso globo, nem a nossa espécie, nem o nosso ego
são o centro do mundo. Então, estamos desamparados, mesmo se fosse sou só eu
não saberia tudo sobre mim. Noé não vai a lado nenhum.
O culto
do individualismo procura aliviar esta aflição. Propôs-se fazê-lo pela
reconstrução dos formatos do autocentramento. Freud, ele próprio um
individualista, esperava consegui-lo através do modelo terapêutico da psicoterapia,
orientado para a introspeção. Esse modelo procura remendar o ego. Mas, como ele
sabia, é um fundamento ténue para um individualismo redentor, dado que somos o
resultado de uma prática comunitária, de que eu não me posso separar: a
identidade é um processo vivido em sociedade desde que a criança se reconhece.
“A identificação é a forma mais precoce e original de um laço emocional”,
escreveu Freud em 1921. Esse laço emocional é estabelecido desde os convívios
iniciais da criança com os familiares e, portanto, ao longo da vida, vou
sabendo quem sou porque constituí a minha identidade com os outros. Assim
sendo, o processo de identificação forma laços e pertenças que determinam uma
identidade que é socialmente definida e não é unicamente individual. Freud notou-o,
sobretudo em escritos do final da sua carreira, quando se interessou pela
“psicologia de grupo”, ou de massas, as formas de identificação de um indivíduo
“como parte de uma multidão de gente que está organizada num grupo num dado
momento do tempo para um objetivo definido”, ou, repetido com os preconceitos
da sua época, defino-me “como membro de uma raça, de uma nação, de uma casta,
de uma profissão, de uma instituição”. Não somos uma ilha. Não existimos sem os
outros. Além disso, os irreparáveis abalos narcísicos só vislumbram parte da
vida coletiva, há um campo mais vasto em que se delimita a cartografia das
classes, dos interesses, dos movimentos e conflitos. Somos muito mais do que um
ego naufragado ou uma Arca a navegar entre escolhos.
Em
consequência desse fracasso, os esforços para erguer um individualismo
respeitável, que corrija o défice narcísico, desviaram-se ou abdicaram da
introspeção individual. Foi esse o sentido da vaga yuppie, que preferia a
exibição porque, nisso fiel à divindade, Narciso só existe se for visto e
admirado. O consumismo, a promessa do enriquecimento, a concorrência como o
absoluto social, o carinho pela desigualdade, cada qual por si, essa chama
yuppie foi a ressurreição do individualismo. Trata-se, deste modo, de uma
imposição social, que conduz a uma particular estrutura de poder. No nosso
tempo, atingiu o seu auge: quer-se visível e é visto, é o capitalismo de
vigilância, em que o narcisismo é alimentado pela transmissão de uma avalancha
de sinais e sentimentos, que tudo absorve e tudo gere sob o poder algorítmico.
Essa torrente baseia-se no modelo da identidade em rede social, que usa a
heroicização dos perfis pessoais que se fazem representar no espaço público e
no engano da comunicabilidade instantânea, sendo uma ostentação que presume
chegar a toda a gente a todo o momento com a imagem mais impressionante. Todos
acreditaríamos no nosso caminho pessoal para os céus, eu sou tudo, e, no
entanto, uma hierarquia sólida é engendrada por este dilúvio de imagens e
mensagens.
Há aqui
um deslumbramento maquinal que propulsiona este narcisismo líquido: a tecnologia,
que foi entendida como uma prótese exterior ao corpo, passou a ser adotada como
uma nossa extensão, como se fossemos seres biónicos movidos por microchips
incorporados e cuja ativação passou a ser a nossa condição natural. Assim,
trata-se de um individualismo instrumental, que nos absorve nesse tempo e
espaço de relação social fictícia, codificada em redes proprietárias que
configuram uma sociedade virtual, a que se vai chamando “metaverso”. O apogeu
do individualismo passou a ser o canibalismo da comunicação nas redes sociais,
descobrindo a precipitação emocional ou a intoxicação como modo de expressão.
Nessa cosmologia alienada, toda a fantasia é permitida. Portanto, não há
qualquer surpresa em verificar que o ascenso das extremas-direitas está associado
à contaminação nessas redes, ou que Trump e os que o seguem mobilizam este
mecanismo como uma linguagem universal. Naturalmente, a sua primeira
preocupação na montagem da recandidatura à Casa Branca foi forjar uma rede
própria e, se bem que fracassando nesse objetivo imediato, dispõe ainda de
tesouros de devoção e de mundos conspirativos que o reproduzem. Sob a sua
batuta, o individualismo ressurge exaltado, reclamando obediência.
A cultura
desta terceira década do século no país que ainda é o centro do mundo é marcada
pela forma como este individualismo, couraçado de autoritarismo, reconstrói as
regras do poder. Tem acumulado fracassos, como nas eleições de 2020, o que se
repetiu recentemente no Chile, provavelmente também sucederá no Brasil, mas projeta
um trunfo essencial: estreou um novo ciclo e, por isso, corre em frente. Não
tem destino, não sabe para onde vai, mas vai, imbuído de uma missão, salvar
pela destruição, castigar sem remédio, impor a desigualdade das vidas e
convocar o poder ‘noéfico’.
Francisco Louçã, Expresso, 10 de junho de 2022
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