sexta-feira, 10 de junho de 2022

Salve-se quem puder, ou a solução arca de Noé

 

A cultura do individualismo, alimentada por um mito salvífico que estabelece uma hierarquia em que somos todos marcados como desiguais, legitima Donald Trump como a sua voz

Deve-se levar a sério o bufão? O senso comum pode sugerir que não, afinal a pose do sujeito estriba-se na sua desqualificação para desempenhar funções de autoridade. No entanto, a história adivinha precisamente o contrário, que a perigosidade de tal tipo de figura também decorre dessa sua incongruência e que não são raros os exemplos de triunfo. Este ensaio procura dissecar a raiz de um desses casos de sucesso, apontando a continuidade entre a vaga yuppie dos anos 80 e alguma da contemporânea efervescência autoritária no país mais poderoso do mundo. Para tanto, anoto o percurso de quem se tornou a referência da primeira geração yuppie, nem menos do que Donald Trump, que décadas depois da sua afirmação como “rei do brilho” chegou a Presidente dos Estados Unidos da América e que dentro de dois anos pode voltar a ser o mais forte candidato para ocupar o cargo ou ser substituído por alguém que o imite competentemente. No mundo que se arrisca a estar dividido em duas esferas de influência depois da tragédia da invasão da Ucrânia, uma Casa Branca ‘retrumpizada’ não é uma ameaça desprezível, a acrescentar à imprevisibilidade dos atuais tambores de guerra.

A surpresa da vitória inicial de Trump e, malgrado o seu desempenho frívolo, da possibilidade do seu regresso, terá uma explicação, além da torrente emocional que a política populista pode eventualmente desencadear. Nas linhas seguintes, sugiro que o fundamento essencial dessa permanência surpreendente é uma cultura que o legitima como a sua voz. Essa cultura é o individualismo, alimentado por um mito salvífico que estabelece uma hierarquia em que somos todos marcados como desiguais, por ferrete de um desígnio natural. A base de tal cultura é a história de Noé e constitui uma forma de autoritarismo, cuja extraordinária persistência deve ser discutida.

O MITO FUNDADOR DO INDIVIDUALISMO

De onde vimos? As respostas simples, nas origens da nossa civilização, são lendas referenciais que sugerem um passado mágico povoado por gigantes e por deuses. Apesar desse curioso escapismo, o encantamento com estas narrativas tem desempenhado uma função construtiva, dado que as mitologias balizam uma cultura e dão-lhe nomes e figuras, contando desse modo uma história do presente. Essa é a sua força organizadora, se bem que a diversidade dos seus usos polvilhe uma ambiguidade enevoada. Entre todos, o mais impressionante uso desses mitos é a presunção de que algumas pessoas carregam em si um toque divinal, o que faria de cada uma delas o centro do universo. Essa cultura individualista, que tem resistido a ciclos de perda de credibilidade, é de facto uma arrogância, pois contradiz a nossa experiência pessoal de vida numa sociedade ampla, mas cria ainda assim um discurso poderoso, sobretudo por apresentar uma noção de ordem, mesmo que sob a forma bizarra de uma hierarquia em que um chefe conduz a família e o seu séquito enquanto tudo o resto é engolido pela morte. Tal paradoxo existencial foi descrito pelo mito da Arca de Noé, que anunciou que a salvação da comunidade depende do mérito individual que alcance o favor celestial.

Explorando esse mito, argumentarei que o fulgurante renascimento da ideia redentora de Noé é o discurso cultural dominante dos nossos dias, apresentando o progresso da sociedade como a competição pelo acesso ao topo da grande epopeia da seleção, pela força própria ou pela imposição de uma vontade transcendente. Trata-se do regresso de uma velha relíquia, agora polida pela necessidade de dar um sentido à hegemonia presente, mesmo que repetindo o passado: a cultura individualista de hoje é um remake da dos yuppies da década de 80, quando foram a cara feliz da globalização, embora lhe acrescente o tremendismo de um destino e de um guia. À medida do nosso cantinho à beira-mar plantado, foram quem deu corpo ao avanço dos jovens da Aliança Democrática de Cavaco Silva, mobilizando os que, depois da austeridade negociada com o FMI em 1977 e 1983, sonhavam com o maná das privatizações e com a riqueza ao virar da esquina. A sua vitória impôs um novo ciclo político de dez anos. O tropel que agora se ouve, de empreendedores, de consultores, de corretores, de golden boys, de diligentes funcionários das agências financeiras, dos topa-tudo no imobiliário, dos influencers nas redes sociais, de jogadores vários, toda essa movida individualista é a recapitulação entre nós do cavaquismo e, não por acaso, partilha algo do seu mandonismo, se bem que hoje tenha vários protagonistas concorrendo entre si.

TODA A MALDADE DO MUNDO

Conta-nos o Génesis que, incomodado com a irremediável perfídia dos humanos (“O Senhor viu que a maldade dos homens crescia cada vez mais no mundo e que as suas intenções e planos eram sempre maus”, Gn 6,5), Deus decidiu “fazê-los desaparecer da face da terra”, castigando a corrupção dos “caminhos errados” e a violência, mas poupou Noé, um venerável ancião com 600 anos, e a sua família (os três filhos já tinham 100 anos, das noras nada se sabe), a quem garantiu um “pacto de aliança” (Gn 6,17 e GN 9,9). A exceção não é justificada em detalhe, embora o Antigo Testamento nos diga que ele era “a única pessoa justa e honesta” e que, obediente, “cumpria sempre a vontade de Deus”.

Noé construiu uma arca com 150 metros de comprimento, 25 de largura e 15 de altura, com três pisos e espaço para sete pares de todos os animais puros (alguns sacrificados quando desembarcaram) e um par de cada espécie impura. Com ela navegou quase um ano e, terminado o dilúvio, aportou ao monte Ararat. A partir daqui, a história, que se inspira em lendas da Mesopotâmia que a antecedem em 1000 anos, é ainda mais surpreendente: Noé teria sido o primeiro agricultor a cultivar uma vinha, embebedou-se, despiu-se na sua tenda e, quando foi acudido pelos filhos, que dele tiveram vergonha, ter-se-ia zangado e condenado à escravidão um dos seus netos, Canaã. Não era um grande começo para “todos os povos do mundo” (Gn 10,12) e Noé, tendo vivido ainda outros 350 anos, não aproveitou o tempo para corrigir a sentença. Apesar disso, cá estamos, herdeiros desta fábula aventurosa, embora não constando que libertados da corrupção, da guerra ou das maldades do mundo. A salvação não nos poupou a esses vícios, mas Deus teria prometido não voltar a destruir a Humanidade, apesar da permanência congénita das nossas más disposições (“Não voltarei mais a amaldiçoar a terra, por causa dos seres humanos. É certo que eles têm más inclinações desde a infância. Mas não voltarei mais a castigar todos os seres vivos como fiz desta vez”, Gn 8,21).

Ora, como terá sido fabricado o milagre que nos albergou do dilúvio? A questão é a de sempre, reconhecer o que teria determinado o resgate: Noé ergueu-se à exceção por ser excecional, pelo seu mérito próprio, ou foi escolhido por Deus, que lhe ofereceu uma aliança, para ser o seu instrumento no comando da comunidade, como poderia ter sido outro? Em qualquer caso, foi assim que Noé pastoreou a família e a levou ao seu destino, a humanidade futura. Se foi o resultado de um êxito pessoal, o prémio pela pureza original do homem, que aliás se viria a comportar estranhamente depois desse seu triunfo, ao que nos conta o livro, ou, em contrapartida, se foi o efeito do imperativo da sobrevivência perante a ameaça apocalíptica, será de menos. Esta história é simplesmente uma lei de domínio na tribo. Noé, o salvador salvado, designou-se ou foi designado para receber o toque divino e foi quem escolheu os sobreviventes. Uma família entre todas e depois da destruição das outras.

OS ANOS YUPPIE

John Lennon foi assassinado em 1980, à porta de sua casa, e a sua morte marcou simbolicamente o fim de uma era de rebeldias utópicas. Ele tinha 40 anos e cantara o ‘Imagine’, “Podes dizer que sou um sonhador/ Mas não sou o único/ Espero que algum dia te juntes a nós/ E o mundo será como um só”, e, celebrado, foi entretanto esquecido. Naquela nova década era o individualismo, prometendo o contrário, que parecia ter a sintonia do mundo.

Pouco tempo passou e a revista “Newsweek” decretou que 1984 era “o ano do yuppie”. O “The New York Times” seguiu-lhe os passos. “Chegaram os jovens profissionais urbanos, que fazem imenso dinheiro, o esbanjam à vontade e mudam de candidatos como quem testa cozinhas”, escrevia-se na revista. Yuppie era uma corruptela de yippie, acrescentando a designação de “urbano” ao nome autoatribuído da geração anterior de rebeldes contra a guerra do Vietname e contra a modorra da vida dos seus pais. A passagem de um termo para outro não era uma fabricação da imprensa, era um movimento que anunciava o arquétipo do novo rico. Jerry Rubin deu o exemplo. Ele fora um dos ícones desse anterior movimento yippie, arauto da contracultura e organizador dos protestos em frente à Convenção Democrata em Chicago (1968) e da marcha sobre Washington (1969), o homem que tinha deposto no seu julgamento (os “sete de Chicago”) mascarado de polícia ou perante uma comissão da Câmara de Representantes vestido uma vez de vietcongue e outra de Pai Natal. Nos anos seguintes, comprou ações da Apple, tornou-se multimilionário, aderiu sem remorso ao inimigo da véspera e, convertido, entregou-se ao circuito de conferências sobre como enriquecer. Seguindo o exemplo de Rubin, os yuppies festejaram o hedonismo, o consumismo era a sua linguagem, vestiam Ralph Lauren, viviam em penthouses, bebiam água Perrier, conduziam automóveis alemães, as horas eram Rollex.

Foi um período glorioso na política internacional, os conflitos eram longe das fronteiras norte-americanas, eram no Afeganistão com a ocupação soviética em 1979, na América Latina com o fim das ditaduras, no Líbano em 1982 e, o mais cruel de todos, a longa guerra entre o Irão de Khomeini (a que a Administração dos EUA vendeu clandestinamente armas para financiar a guerrilha antissandinista na Nicarágua, como o mundo era pequeno) e o Iraque de Saddam Hussein (então um amigo de Washington). A vertigem culminou na monumental queda do Muro de Berlim em 1989. As forças ocidentais tinham vencido. Mas conquistaram mais do que posições, créditos militares e vantagens estratégicas: ganharam a batalha pela enunciação de uma nova imaginação. Escrevia o “The Wall Street Journal”, com alegria, que Ronald Reagan, que foi eleito Presidente em novembro de 1980 e dominaria esta década com a primeira evocação do ‘Make America Great Again’, era o mais sénior dos yuppies. Alguma verdade haveria na nomeação, mesmo que o ator de Hollywood, que vinha do governo da Califórnia e se instalara no edifício do partido republicano, fosse um inesperado embaixador deste movimento da nova cultura. E, no entanto, foi mesmo a promessa de enriquecimento rápido que empolgou a geração yuppie, deu a vitória a Reagan e liderou os gloriosos anos 1980. Não havia nisso qualquer retraimento, antes um orgulho exibido: o economista Milton Friedman, um dos influentes intelectuais desta saga, tinha dedicado no mesmo ano um dos seus programas televisivos na PBS ao tema do individualismo, usando as palavras todas, “a ganância é boa”. Poucos anos mais tarde, em 1987, esse era o mote de Gordon Gekko, o vilão do filme de Oliver Stone sobre as razias financeiras, “Wall Street”.

O glamour desta nova aristocracia e os seus excessos foram telenovelizados em “Dallas” (1978-1991) e em “Dynasty” (1981-1989), projetando a ascensão e queda do “Grande Gatsby” em complexos e prolongados enredos de fortunas fáceis e intrigas familiares, um modelo que ainda hoje se reproduz. O mundo assistiu deste modo à subida dos yuppies ao prime time da televisão, que então era quase tudo. No cinema, foi “Ghostbusters” (“Os Caça-Fantasmas”, 1984) que melhor simbolizou esta visão. Realizado por Ivan Reitman, um “conservador-libertário” recentemente falecido, o filme conta o choque entre um grupo de empresários (atores que marcariam a sua época, Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, entre outros) que percebem o perigo e criam um novo mercado, o serviço de caça aos fantasmas, e um regulador, funcionário da Agência da Proteção Ambiental, que por razões administrativas os tenta impedir de agir, até ser esmagado pela realidade do Armagedão monstruoso. Os efeitos especiais, que estavam então a começar a ser explorados, ilustraram o filme, a banda sonora tornou-o inesquecível, mas este igualmente se destaca por ser uma explicação pedagógica de ‘reaganomics’. Neste caso, temos a economia de Noé, o triunfo do grupo empresarial que consegue resistir aos impedimentos burocráticos do Estado incompetente. A sobrevivência e o aplauso eram os prémios do vencedor. O que o filme nos conta é, portanto, que o empreendedorismo salvou a cidade.

O símbolo desta geração seria alguém mais prosaico do que os atores caça-fantasmas, trata-se de uma personagem conhecida de quem está a ler estas linhas. Foi Donald Trump, que nunca passou despercebido. Escrevia à época a “Newsweek” que ele era “o presunçoso emblema nacional da riqueza dos anos 80”, ou que “tem um bilião de dólares e um ego do mesmo tamanho”. Era um herdeiro nova-iorquino, mimado mas atrevido, que deixava a sua marca em empreendimentos imobiliários cintilantes (o Ringue Wollman, no Central Park, ou a Trump Tower, inaugurada em 1983) e que encarnava a política yuppie, na operacionalização de redes de contactos, nos jogos com impostos e favorecimentos, como igualmente na sua prosápia. Ofereceu-se como padrão, multiplicando os livros sobre como prosseguir uma carreira de sucesso e, depois das vendas maciças de “A Arte da Negociação”, de 1987, vieram “Como Enriquecer e Subir na Vida”, os seus contributos para a cultura new age, dissertando sobre a seleção natural dos empresários e a aventura da prosperidade instantânea. Trump era o king of glitz, o rei do brilho, só que, se “vives pelo brilho, morres pelo brilho”, como diria em 1990 à “Newsweek” um banqueiro e amigo que tinha aprovado algumas das suas dívidas, quando ele, atormentado por um divórcio litigioso, por dívidas e turbulência financeira, desabou e passou a ser o protótipo do fracasso. A capa da “Newsweek”, nesse momento, foi “Trump: A Queda”. Nunca mais se levantará, garantia o mesmo banqueiro. Enganou-se. Uma dúzia de anos depois, Trump renasceria com “The Apprentice” (2004), o programa televisivo que encenava aspirantes a executivos em luta feroz pelo lugar na empresa do produtor e apresentador, com o público a regozijar-se por serem despedidos a pontapé.

Portugal vivia alinhado com este mundo nos costumes e na ordem política mas a contraciclo na cultura. Os yuppies tinham desembarcado no Frágil e nos entusiasmos da AD, o hedonismo batia à porta, o consumismo fazia maravilhas, o individualismo era o seu nome. Mas ao mesmo tempo, na literatura, o país analisava-se no espelho da guerra colonial, com “Os Cus de Judas” (1979), de António Lobo Antunes, e buscava identidades com José Saramago, seja na luta social (“Levantado do Chão”, 1980), na história (“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, 1984, e “História do Cerco de Lisboa”, 1989) ou na dúvida europeia (“Jangada de Pedra”, 1986). Em contrapartida, nos Estados Unidos, a vaga já tinha desaguado, precipitando o tempo da desilusão. Um dos ícones da literatura desse tempo foi Tom Wolfe, que se estreou com “A Fogueira das Vaidades” em 1987, uma sátira ao desastre social, em que um yuppie se pavoneia pela sociedade para esconder um crime e se vai confrontando com os poderes fáticos, as suspeitas, as peripécias da justiça e os subterfúgios dos financeiros, para tudo acabar em tragédia. Afinal, a salvação era uma miragem.

A geração yuppie parecia ter triunfado, mas transformara-se a si própria ao longo desse processo e a sua imaginação estava esgotada. Mesmo quando Fukuyama, um divulgador, publicou com grande impacto um artigo com um título-programa, “O Fim da História” (1989), depois passado a livro, já o individualismo e o liberalismo recorriam ao expediente do dogma para se apresentarem como o farol da nossa era.

IR COM A CORRENTE

Vinte e muitos anos depois do seu primeiro naufrágio, Trump, o rei do brilho, foi eleito Presidente do Estado mais poderoso do mundo. Não foi o único sinal da consagração dos yuppies. Logo no ano seguinte à sua vitória, foi a vez de Emmanuel Macron, que percorrera uma breve carreira na banca de investimento e depois fora conselheiro e ministro de um governo do Partido Socialista francês, que rasteiraria para se impor como o candidato presidencial do centro-direita (sobre as suas traições escreveu Daniel Ribeiro aqui na Revista E). Havia algo de gaullista na pose do candidato, que tinha explicado, em campanha, que a França não precisava de um “Presidente normal”, mas sim de um presidente “jupiteriano”, como o deus dos deuses romanos, para governar o Eliseu e os seus súbditos em tempos excecionais. Esta filosofia é também ‘noéfica’ em todos os tons, mesmo que o seu protagonista venha de um polo político obviamente distinto do de Trump. Em qualquer caso, além da submissão jupiteriana, essa filosofia enunciava um mapa social: como Macron explicou nesse ano da eleição, a sociedade será uma corrente puxada pelos melhores, razão para que sejam protegidos, caso contrário a inveja fá-la-ia desagregar e arrastaria toda a gente. O chefe é ungido, a sua palavra é lei e protege os do topo, que seguram os elos da cadeia.

Os fundamentos desta teoria estão nos dois principais teóricos liberais do século XX, que já tinham sido os conselheiros favoritos dos governantes da viragem dos anos 80, Friedman com Reagan e Friedrich Hayek com Margaret Thatcher. Para ambos, o indivíduo é a base da ordem social, fundada no mercado que o reconhece. O mercado, por sua vez, é o palco da feitiçaria onde se definem os preços, que nada mais fariam a não ser confirmar a justa retribuição do mérito individual, fixando assim a harmonia espontânea das vantagens mútuas. O ciclo fecha-se, assegurando que o sujeito do progresso histórico é o empresário vencedor. Como já aqui escrevi, houve nesta glória alguns desvios não menos assumidos, como quando os dois, Friedman e Hayek, se empenharam em apoiar um regime ditatorial. O segundo nem sequer terá sentido vergonha ao garantir, numa entrevista de 12 de abril de 1981 ao diário dos generais chilenos, “El Mercúrio”, que, “pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um Governo democrático ausente de liberalismo”, elogiando o jugo militar que determinou as privatizações da segurança social e outros setores públicos, pese embora a sua pilhagem pelos governantes. Tiranos que fossem, o que importa é o mercado. Não havia nessa escolha nenhuma incongruência, os promotores deste modelo podem, “pessoalmente”, dispensar a liberdade política, e o seu fundamento, o individualismo, convive bem com a opressão dos outros. Noé não cuida das outras famílias.

Nesta história, os yuppies bem podiam incensar os mestres que lhes asseguravam que “a ganância é boa” e até ignorar os pergaminhos democráticos. Aliás, Trump, a figura dominante deste movimento, viria a ostentar o seu fascínio por governantes com os quais manteve relações de cumplicidade, como Kim Jong-un ou, sobretudo, Putin, cujas milícias de hackers o terão ajudado a vencer em 2016. Trump é por tudo isto o espécime mais relevante do nosso tempo, porque foi o publicista que divulgou as ideias e vestiu as lantejoulas da era yuppie, ou o conquistador que se vangloria do poder e da veneração que suscita, mas sobretudo por ser a voz do individualismo. Tinha para isso um projeto, que era ele próprio, o condutor do seu povo, o homem que recuperaria a saudosa magnificência americana, repetindo o mote reaganiano, ‘Make America Great Again’ — o “de novo” é aqui a expressão-chave para invocar o destino que se voltaria a impor para os que “fazem a América”, os americanos “de bem”. É o que as novas direitas replicam em toda a Europa.

Considerando-se destinado ou predestinado como Noé, Trump encarna o narcisismo frenético, que é a expressão maior do individualismo, eu sou único e sou tudo. Não se pode desvalorizar este recurso, que ressurge “de novo” com uma poderosa motivação e com o discurso grandioso que envolve. Não é só um estilo. É uma energia, por ser uma construção identitária poderosa. Mas de onde vem essa energia? O que torna o individualismo tão agressivo? É o seu programa, a busca de um elixir para atenuar os traumas que o narcisismo sofreu. O individualismo quer salvar-se do triplo desastre que o atormenta.

AS TRÊS FERIDAS NARCÍSICAS E A SUA CURA

O individualismo é a imaginação yuppie em flor, é por esse processo que distribui expectativas. No entanto, sendo uma identidade, tem desde sempre um problema consigo próprio: é implausível, por contrariar a nossa experiência pessoal e social. Não funciona, promete o que não pode criar.

E não chega para reparar as sucessivas feridas narcísicas que a modernidade nos tem imposto. Quem notou essas mágoas foi Sigmund Freud, que, em 1917, no artigo “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, escrito para uma revista húngara de grande circulação, historiou “três golpes” contra o nosso narcisismo: a revolução coperniciana (que apeou o nosso planeta do trono do universo), a revolução darwinista (que aboliu a conceção essencialista da nossa espécie no processo evolutivo) e a revolução psicanalítica (que desmentiu a conceção de mente humana como uma construção da consciência). O primeiro desafio ao narcisismo foi cosmológico e provou-nos que a Terra não é o centro do universo, mas apenas uma partícula de um sistema, ao passo que o segundo atingiu o antropocentrismo, não somos destinados. A terceira ferida narcísica, segundo Freud, atacou os limites do ego no seu próprio campo, mostrando que a consciência é só uma parte da nossa vida psíquica e que muita dela não cabe nesse território limitado. Nem o nosso globo, nem a nossa espécie, nem o nosso ego são o centro do mundo. Então, estamos desamparados, mesmo se fosse sou só eu não saberia tudo sobre mim. Noé não vai a lado nenhum.

O culto do individualismo procura aliviar esta aflição. Propôs-se fazê-lo pela reconstrução dos formatos do autocentramento. Freud, ele próprio um individualista, esperava consegui-lo através do modelo terapêutico da psicoterapia, orientado para a introspeção. Esse modelo procura remendar o ego. Mas, como ele sabia, é um fundamento ténue para um individualismo redentor, dado que somos o resultado de uma prática comunitária, de que eu não me posso separar: a identidade é um processo vivido em sociedade desde que a criança se reconhece. “A identificação é a forma mais precoce e original de um laço emocional”, escreveu Freud em 1921. Esse laço emocional é estabelecido desde os convívios iniciais da criança com os familiares e, portanto, ao longo da vida, vou sabendo quem sou porque constituí a minha identidade com os outros. Assim sendo, o processo de identificação forma laços e pertenças que determinam uma identidade que é socialmente definida e não é unicamente individual. Freud notou-o, sobretudo em escritos do final da sua carreira, quando se interessou pela “psicologia de grupo”, ou de massas, as formas de identificação de um indivíduo “como parte de uma multidão de gente que está organizada num grupo num dado momento do tempo para um objetivo definido”, ou, repetido com os preconceitos da sua época, defino-me “como membro de uma raça, de uma nação, de uma casta, de uma profissão, de uma instituição”. Não somos uma ilha. Não existimos sem os outros. Além disso, os irreparáveis abalos narcísicos só vislumbram parte da vida coletiva, há um campo mais vasto em que se delimita a cartografia das classes, dos interesses, dos movimentos e conflitos. Somos muito mais do que um ego naufragado ou uma Arca a navegar entre escolhos.

Em consequência desse fracasso, os esforços para erguer um individualismo respeitável, que corrija o défice narcísico, desviaram-se ou abdicaram da introspeção individual. Foi esse o sentido da vaga yuppie, que preferia a exibição porque, nisso fiel à divindade, Narciso só existe se for visto e admirado. O consumismo, a promessa do enriquecimento, a concorrência como o absoluto social, o carinho pela desigualdade, cada qual por si, essa chama yuppie foi a ressurreição do individualismo. Trata-se, deste modo, de uma imposição social, que conduz a uma particular estrutura de poder. No nosso tempo, atingiu o seu auge: quer-se visível e é visto, é o capitalismo de vigilância, em que o narcisismo é alimentado pela transmissão de uma avalancha de sinais e sentimentos, que tudo absorve e tudo gere sob o poder algorítmico. Essa torrente baseia-se no modelo da identidade em rede social, que usa a heroicização dos perfis pessoais que se fazem representar no espaço público e no engano da comunicabilidade instantânea, sendo uma ostentação que presume chegar a toda a gente a todo o momento com a imagem mais impressionante. Todos acreditaríamos no nosso caminho pessoal para os céus, eu sou tudo, e, no entanto, uma hierarquia sólida é engendrada por este dilúvio de imagens e mensagens.

Há aqui um deslumbramento maquinal que propulsiona este narcisismo líquido: a tecnologia, que foi entendida como uma prótese exterior ao corpo, passou a ser adotada como uma nossa extensão, como se fossemos seres biónicos movidos por microchips incorporados e cuja ativação passou a ser a nossa condição natural. Assim, trata-se de um individualismo instrumental, que nos absorve nesse tempo e espaço de relação social fictícia, codificada em redes proprietárias que configuram uma sociedade virtual, a que se vai chamando “metaverso”. O apogeu do individualismo passou a ser o canibalismo da comunicação nas redes sociais, descobrindo a precipitação emocional ou a intoxicação como modo de expressão. Nessa cosmologia alienada, toda a fantasia é permitida. Portanto, não há qualquer surpresa em verificar que o ascenso das extremas-direitas está associado à contaminação nessas redes, ou que Trump e os que o seguem mobilizam este mecanismo como uma linguagem universal. Naturalmente, a sua primeira preocupação na montagem da recandidatura à Casa Branca foi forjar uma rede própria e, se bem que fracassando nesse objetivo imediato, dispõe ainda de tesouros de devoção e de mundos conspirativos que o reproduzem. Sob a sua batuta, o individualismo ressurge exaltado, reclamando obediência.

A cultura desta terceira década do século no país que ainda é o centro do mundo é marcada pela forma como este individualismo, couraçado de autoritarismo, reconstrói as regras do poder. Tem acumulado fracassos, como nas eleições de 2020, o que se repetiu recentemente no Chile, provavelmente também sucederá no Brasil, mas projeta um trunfo essencial: estreou um novo ciclo e, por isso, corre em frente. Não tem destino, não sabe para onde vai, mas vai, imbuído de uma missão, salvar pela destruição, castigar sem remédio, impor a desigualdade das vidas e convocar o poder ‘noéfico’.

Francisco Louçã, Expresso, 10 de junho de 2022

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