Nunca o
Estado teve tantos funcionários como agora. Nunca teve tantas receitas fiscais
como agora. Nunca o peso dos impostos no PIB foi tão alto como agora. Nunca
teve tantos médicos e tão poucos doentes no SNS, pois cada vez há mais utentes
a fugirem para o privado. Nunca teve tão poucos alunos para os professores que
tem. Nunca teve tantos licenciados e tantos investigadores. Nunca teve tanto
dinheiro europeu à disposição — tanto que nem consegue aplicá-lo. Nunca teve o
privilégio de estar tão endividado e pagar juros tão baixos graças ao programa
de compra de dívida do BCE. Nunca teve tantos turistas que nem consegue
recebê-los. Nunca teve tantos abacates, olivais e amendoais superintensivos, ao
ponto de estar na iminência de já não conseguir regá-los. Nunca atraiu tanto
investimento estrangeiro para o imobiliário, graças aos golden visa e ao regime
fiscal dos estrangeiros residentes — tanto que já não há trabalhadores para a
construção civil.
Quem é
que se importaria de governar um país assim?
Porém,
embalado por esta história de sucesso para enganar tolinhos, o Governo de
António Costa habituou-se à ideia de não ter que governar. Durante seis anos
foi distribuindo esmolas aos pobres e fatias do Orçamento aos parceiros de
esquerda com o único objectivo de se manter no poder mantendo tudo como estava.
Foi atirando dinheiro para cima das crises e sacudindo o pó dos problemas para
debaixo dos tapetes, com os olhos unicamente focados no próximo horizonte
eleitoral. Nada do que era grave e importante o fez estremecer ou, menos ainda,
mover: o Inverno demográfico, a desertificação, a seca climática mais alarmante
de ano para ano, a ruptura iminente dos serviços de saúde, a bandalheira na
educação, o laxismo e despesismo na Administração Pública, a ineficiência da justiça,
a brutalidade fiscal, a emigração dos melhores e mais jovens quadros do país.
Entreteve-se antes a fazer flores com as “causas fracturantes” tão caras ao BE,
os animaizinhos do PAN ou os “avanços” do PCP. Estranhamente, porém, o
resultado desses seis anos de governação à esquerda foi haver mais pobres, mais
doentes sem médico e sem assistência de saúde digna, mais alunos sem
professores, mais portugueses sem possibilidades de habitar nas cidades e uma
classe média chulada até ao osso. Mas, como ele diz, e com razão, os
portugueses gostaram ou não viram alternativa melhor: deram-lhe uma maioria
absoluta, o que teve pelo menos a vantagem, julgámos nós, de o livrar das
âncoras de arrasto.
O
problema é que o método se entranhou no homem ao ponto de se ter tornado a sua
forma de vida. António Costa é uma espécie de primeiro-ministro à hora ou ao
dia: trabalha numa hora para sobreviver até à hora seguinte, trabalha durante o
dia para enfrentar o “Jornal das 8”, hoje em Lisboa, amanhã em Bruxelas, em
toda a parte e em lado nenhum, falando de tudo e tudo deixando pendente,
saltando de assunto em assunto tão depressa e tão convictamente que cria a
impressão de que tudo o que ficou para trás já ficou resolvido. Mas depois,
subitamente, rebentam as crises e estoiram de podres os problemas, e Costa, o
génio da conjuntura, fica aos papéis. Ele e a sua gente.
O caso da
saúde é exemplar. Durante dois anos encheram-nos os ouvidos com elogios ao SNS,
que tão boa conta tinha dado do recado durante a pandemia. Mas para debaixo do
tapete empurraram-se coisas como os números chocantes do absentismo médico
durante a pandemia, o facto de practicamente terem cessado todos os outros
cuidados médicos no SNS não relacionados com covid ou de ter sido necessário
chamar um homem das Forças Armadas para pôr de pé um plano nacional de
vacinação eficaz. E, sabendo-se que uma vez terminada a emergência covid o SNS
teria de retomar tudo o que tinha ficado por fazer, despejou-se dinheiro a
rodos e pessoal sobre o sistema, mas sem planeamento, sem organização, sem
força política para enfrentar os lobbies do sector, as suas manhas e batotas
instaladas e de todos por demais sabidas. O que se passou nos feriados de
Junho, com os médicos obstretas todos de férias e as grávidas sem assistência
nos hospitais do SNS, foi uma vergonha inimaginável, a que a incompetência
larvar da ministra respondeu segundo o método Costa: um “plano de contingência”
para a conjuntura de ruptura e uma comissão para estudar como é que ela deve
gerir a pasta que supostamente anda a gerir há vários anos. E a mesma receita
foi aplicada à crise nos aeroportos, que também ninguém podia prever, e
aplicada à conjuntura de seca no país — essa prevista de ano para ano, mas
soberbamente ignorada pela ministra da pasta.
E é assim
que vamos indo. Temos um Governo com maioria absoluta e um PRR que tudo há-de
resolver, mais a ajuda compreensiva do BCE. E temos, do outro lado, uma
pacífica oposição, que veio para “acabar com o socialismo” mas sem pressa
nenhuma de começar a fazê-lo ou, ao menos, de ter uma ideia que seja antes dos
idos de Julho, onde o recém-eleito líder espera que o congresso do partido lhe
forneça algumas pistas sobre o que fazer. As férias estão à porta e, embora os
portugueses andem zangados, a pandemia e a Ucrânia ainda funcionam como
desculpas. Portanto, é deixar andar e, se as crises rebentam, planos de
contingência para cima delas; se tudo parece sem solução e se percebe que os
problemas são mais fundos, comissão com eles. O círculo vicioso repete-se,
sempre igual: problema-comissão-esquecimento-explosão. É assim com tudo: novo
aeroporto de Lisboa, preparação para os incêndios, SIRESP, situação dos
imigrantes asiáticos nas estufas do litoral alentejano, caminhada para o abismo
da TAP, caos no sector ferroviário, venda da Efacec, injecções de dinheiros
públicos no Novo Banco. Nada se resolve, nada se fecha, nada avança. Tudo está
em estudo, entregue a uma comissão, a aguardar um parecer, um decreto
regulamentar, uma decisão de um tribunal arbitral ou a transposição de uma
directiva comunitária. A única coisa que parece perturbar a sério António Costa
é a adesão à UE dos três candidatos apadrinhados pela NATO: a Ucrânia, a
Geórgia e a Moldávia. Mas não pelo facto de eles serem conhecidos por
albergarem algumas das piores máfias do crime organizado (a que piedosamente
agora se chamam “oligarcas”), mas sim porque eles podem rapar no “bolo” dos
dinheiros europeus, e isso mexe directamente com os nossos interesses
estratégicos.
De facto,
aquilo a que pomposamente poderíamos chamar o “desígnio nacional” resume-se a
duas coisas: continuar a receber eternamente ajudas da Europa e continuar a
receber cada vez mais turistas estrangeiros, mesmo que depois demorem horas a
conseguir sair dos aeroportos. Tudo o resto não existe, dá muito trabalho a
resolver e é uma canseira só de pensar nisso. É que para isso seria preciso
abandonar os estudos, os pareceres, as comissões, e começar a decidir. Mas
decidir é, em si mesmo, um problema: gera contestação e resistências, cria
inimigos, acarreta riscos, pode fazer perder votos — veja-se o caso de Macron
em França: perdeu a maioria absoluta porque se atreveu a defender uma ténue
subida da idade da reforma, que é a mais baixa do mundo, enquanto Le Pen e o
demagogo sem freio Mélenchon ganharam milhões de votos a prometer descê-la
ainda mais, para os 60 anos. No ponto em que as coisas estão, eu votaria num
partido ou num candidato que me dissesse: “Portugal tem cinco ou seis problemas
urgentes para resolver. Nos próximos quatro anos eu prometo resolver apenas
dois. Mas esses vou resolver.” Depois viria alguém que resolveria mais dois e
outro que resolveria outros dois: em 12 anos, teríamos resolvido os principais
problemas do país. É muito tempo? É, mas pensem bem: só o problema do novo
aeroporto de Lisboa está há 40 anos para ser resolvido.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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