sexta-feira, 10 de junho de 2022

Lá vamos, condecorando e rindo


No seu infatigável esforço de ter em cada esquina um amigo, como cantava o Zeca Afonso, Marcelo resolveu começar a comemorar por antecipação os 50 anos de Abril condecorando todos os militares envolvidos no golpe que derrubou a ditadura. Uma tarefa que, como seria de supor, em lugar de unir todos os portugueses nesse mítico lugar onde todos se encontrariam numa celebração a todos comum, antes serve e servirá para semear a discórdia e reavivar controvérsias hoje apenas interessantes para os historiadores. Cinquenta anos depois, temos tendência a esquecer que o 25 de Abril de 1974 diz muito pouco ou nada à maior parte dos portugueses e, para aqueles a quem ainda diz alguma coisa ou muito, o que ficou foi a memória de três dias de bebedeira de felicidade, logo seguidos de ano e meio de profundas divisões e iminente guerra civil. Porque houve vários 25 de Abril, para vários gostos, vários projectos, várias oportunidades e oportunismos. O “25 de Abril sempre!” é assim apenas a reminiscência de um dia absurdamente feliz e irrepetível, daqueles que acontecem uma vez em cada século na vida de um povo, como a passagem do cometa Halley pelos céus do planeta Terra.

Assim, já correm abaixo-assinados contra a atribuição da Ordem da Liberdade a personagens como Spínola, Otelo, Vasco Gonçalves ou Rosa Coutinho, os casos mais evidentes de rejeição epidérmica, à esquerda ou à direita. O problema é que com o amplo critério definido por Marcelo, é difícil excluir algum não excluindo todos. Se Otelo, por exemplo, foi o estratego militar do golpe, tudo arriscando nele, Spínola foi o seu inspirador moral com o lançamento prévio do seu livro “Portugal e o Futuro” e a posterior recusa em comparecer no beija-mão do cobarde corpo de generais ao cobarde presidente do Conselho Marcello Caetano. Depois, Spínola fracassou no golpe de 11 de Março, caindo numa armadilha montada à medida da sua inteligência, e foi fundar no exílio o MDLP, que foi mais folclore do que verdadeira ameaça. Mas Otelo, derrotado em eleições presidenciais livres, virou-se para o terrorismo, criando as FP-25, responsáveis por assassínios decididos a sangue-frio: preso com todas as provas incriminatórias em mãos, foi julgado e condenado e depois perdoado, sem nunca ter tido a dignidade de assumir o que fizera e de pedir perdão às vítimas. Mais difícil ainda é encontrar o contributo decisivo de Vasco Gonçalves ou Rosa Coutinho para o 25 de Abril. É verdade que o primeiro tinha estado antes implicado no fracassado ‘golpe da Sé’, mas retirou-se a tempo e misteriosamente para reaparecer após o 25 de Abril, tomando-se por um Lenine reencarnado e apostado em lançar o país na guerra civil. O segundo distinguiu-se apenas pela sua tarefa, cumprida com zelo, de ir entregar rapidamente Angola ao MPLA e à URSS. Otelo e Spínola são casos controversos; Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho e outros mais não o são. Condecorá-los com a Ordem da Liberdade é uma ofensa que Marcelo faz a muitos portugueses, eu incluído.

Mas as dúvidas legítimas vão ainda mais além do que a análise dos casos individuais. Porquê condecorar apenas os oficiais de carreira? Porque não também os milicianos, que foram quem abriu os olhos para a política aos oficiais do MFA, evitando que o 25 de Abril fosse apenas um golpe motivado por reivindicações corporativas e profissionais? E porque não também os soldados envolvidos no golpe — os que vieram de Santarém com Salgueiro Maia, por exemplo? E os civis envolvidos? E os militares presos em função do golpe falhado de 16 de Março anterior? Dir-se-á que assim, em lugar de centenas, a lista chegaria aos milhares de condecorados. É verdade que sim, mas a culpa é do critério larguíssimo que o Presidente resolveu adoptar. Se na sua lista de vivos e mortos a quem quer dar a Ordem da Liberdade cabem pessoas que logo a seguir ao 25 de Abril se dedicaram a tentar destruir a liberdade que os portugueses tinham acabado de conquistar, então não pode deixar de condecorar os que contribuíram apenas para esse dia libertador mas que não faziam parte do MFA.

Com esta sua decisão de meter no mesmo saco heróis da liberdade com inimigos dela, Marcelo começa mal as comemorações do 25 de Abril

Eu sei que é assim que se banaliza uma coisa que deveria ser rara e importante por natureza, como a Ordem da Liberdade. Mas quando o critério é feito por atacado o mal já está consumado. É um sinal dos tempos, em que se produzem heróis por decreto e por condecoração, próprios de um país onde se estima muito pouco a liberdade. Na verdade, o mal já vem de muito antes: começou com Mário Soares, continuou com Cavaco, seguiu com Jorge Sampaio e, quando se imaginaria que já não houvesse ninguém mais para condecorar, não abrandou com Marcelo. Começaram por se condecorar todos os ‘antifascistas’ existentes e antes que morressem, depois os exilados, os irmãos da maçonaria, as forças vivas da província, os financiadores dos partidos e das campanhas presidenciais, todos os desportistas que ganhassem lá fora qualquer coisa de um terceiro lugar para cima, ministros cessantes, dinossauros autárquicos, magistrados jubilados, militares passados à reserva, diplomatas reformados, artistas vários e também de variedades, todos os cientistas disponíveis, os emigrantes ilustres, os banqueiros e os empresários antes que caídos em desgraça, e mais todos aqueles e aquelas que entraram pela quota das inevitáveis ‘cunhas’ a que nem os Presidentes escapam. Enfim, em 50 anos de liberdade, Portugal construiu um notável escol de alguns milhares de comendadores representando o que de melhor temos como povo — se bem que, é triste dizê-lo, grande parte deles, tenha acabado a contas com a justiça, fazendo de nós talvez o país com mais bandidos condecorados per capita ou por quilómetro quadrado. Como aqui escrevi anteriormente, o mal está em os Presidentes entenderem que a faculdade de escolher quem deve ser condecorado é um direito discricionário que lhes assiste por inteiro. Não é: quando condecora alguém, o Presidente fá-lo em nome de todos os outros portugueses e a sua escolha não pode, pois, depender apenas do seu critério e dos seus impulsos, mas reflectir aquilo que o comum das pessoas julgaria justo e justificável. Consciente disso e dos abusos já então existentes, Mário Soares instituiu no segundo mandato Comissões Independentes para avaliarem as propostas de condecoração, mas, tendo sido ele próprio o primeiro a subvertê-las e a desautorizá-las, elas acabaram por desaparecer.

Porém, dessa hemorragia ‘comendadoral’ sempre tinha escapado com algum decoro a Ordem da Liberdade, reservada com mais critério a quem, de uma forma consensual, o país reconhecia uma contribuição efectiva para a conquista ou promoção da liberdade em que vivemos. Agora, com esta sua decisão de meter no mesmo saco heróis da liberdade com inimigos dela, Marcelo acabou com isso. Começam mal as comemorações do 25 de Abril.

2A linha da Beira Baixa vai para obras de beneficiação (findas as quais não se ganhará nem um minuto a menos nas viagens) e, em consequência disso, fecha durante nove meses — mais os inevitáveis atrasos. Diversas linhas regionais, entre as quais a pré-histórica Linha do Algarve, estão com quatro anos e meio de atraso nas obras de electrificação — findas as quais, também não se ganhará um minuto que seja nas viagens. O Ferrovia 20 vai acabar em Ferrovia 30, com dez anos de atraso. O concurso internacional para aquisição de 119 comboios novos vai-se atrasar indefinidamente porque todos os concorrentes preteridos vão para tribunal, pois não sabemos fazer regras de concurso nem cadernos de encargos que evitem a litigância permanente e a nebulosidade das regras que fazem as delícias dos escritórios de advogados. Eis a grande aposta na ferrovia.

3A TAP diz que o seu prejuízo recorde €1600 milhões em 2021 se deveu à liquidação do funesto negócio de manutenção no Brasil. Mas não diz quanto é que isso custou nos prejuízos e, ao que parece, o dossiê ainda não está encerrado, podendo vir a aparecer mais “encargos contingentes”. Ao mesmo tempo contrata 250 tripulantes que já havia despedido porque a sua presidente diz que não se previa há um ano que a retoma pudesse ser tão forte — mas prever é exactamente o que se pede a um gestor. Também não prevêem que o Porto, o Funchal e Faro possam ser negócio e por isso concentram tudo em Lisboa, deixando o negócio para as low cost. Como diz Rui Moreira, e com razão, a “nossa” TAP está a caminho de ser uma companhia regional de Lisboa para efeitos de exploração e uma companhia nacional para efeitos de pagamento dos prejuízos. E depois dizem que isto só vai lá com a regionalização...

4No Expresso leio que no primeiro trimestre deste ano houve mais trabalhadores de baixa do que em todo o ano de 2021, custando aos contribuintes €400 milhões. Num café do Algarve, uma senhora, com um ar saudável e bem-disposto, conta que vive ali e dá aulas de inglês numa escola secundária de uma aldeia próxima. Ou melhor, dava: está há um ano de “baixa psicológica”. Não sei se ela terá consciência de que os danos, actuais e futuros, que pode causar a crianças privadas um ano de uma disciplina hoje tão essencial como o inglês, são provavelmente irrecuperáveis. Mas sei que o caso dela é multiplicável por milhares e seria facílimo de resolver com um mínimo de coragem política: bastaria que uma componente importante do salário de um professor estivesse ligada à assiduidade. E então podiam-se subir os salários dos que não faltam.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 

Sem comentários:

Enviar um comentário