Ainda
não tinha completado 3 anos, já a menina Isabelinha andava ao graveto. Ia para
a campo, onde apanhava os raminhos que os seus bracitos frágeis permitiam, a
fim de vendê-los aos que queriam aquecer a casa ou cozinhar. Porém, uma vez que
estávamos em África, ela — que segundo uma amiga era bonita, inteligente,
esperta, vivaça — cedo percebeu que não dava lucro vender lenha para lareiras
em climas tropicais. Foi assim que, ainda não tinha 4 anos, decidiu mudar de
ramo, de tronco e de galho.
Como sempre acontecia quando se deparava
com um problema, aconselhava-se com o pai. O pai da menina, que a aconselhara a
andar ao graveto, explicou-lhe que o graveto era outro: o que está nas
carteiras dos pobres, nas contas bancárias dos remediados e nos fundos de
investimento dos milionários. Esse era graveto que valia a pena em qualquer
clima. Nomeadamente, naquele país, sacar o graveto das carteiras, das contas e
dos fundos era algo que não aquecia nem arrefecia.
Com
menos de 7 anos, Isabelinha tinha criado a primeira conta offshore e uma esplanada de praia. Com isso,
embora a esplanada não desse assim tanto graveto, começou a pôr dinheiro na
conta, dizendo que vinha da esplanada, e fez constar, com obras esplendorosas
contratadas a grandes empreiteiros de um pequeno país europeu, que o negócio
corria de feição. Aos 9 anos já tinha uma operadora de telemóveis e uma
operadora de caixa na esplanada, além de muitos mais sabores nos gelados do que
o número de ricos que não eram da sua família. Isabelinha ficou contente por
constatar que a sua esperteza, vivacidade, inteligência e jeito para os
negócios era uma coisa que lhe estava no sangue, porque, em matéria de graveto,
não havia melhor do que o pai, os irmãos e aqueles tios todos de nome estranho
que eram generais e coisas assim importantes.
Reconfortada com tais pensamentos, com 10
anos e picos comprou um banco e aumentou a esplanada de praia com mais duas
mesas. Fez uma festa enorme, onde apareceram imensos banqueiros, consultores,
advogados e jornalistas, todos prontos a admirar a sua vivacidade e capacidade
de prever onde estava o próximo negócio rentável. Mas ela era tímida e não
gostava de aparecer. Porque o pai também lhe tinha explicado que quem anda ao
graveto não deve expor-se, pois caso o faça outras pessoas podem reparar como é
fácil ganhar uns cobres e antecipam-se, podendo até tornar-se violentas nas
disputas territoriais pelos locais com mais graveto.
Por isso, Isabelinha não era de aparecer
muito, embora fosse muito bondosa, porque fazia bem sem olhar a quem. Por
exemplo, os consultores eram vários e concorrentes entre si, assim como os
escritórios de advogados, e nunca houve qualquer confusão. “Chega para todos,
se formos devidamente organizados”, dizia Isabelinha ainda na verdura dos seus
14 anos. Foi, pois, sem surpresa que ela, aos 18, quando atingiu a maioridade,
se revelou multimilionária. O pai deu-lhe um pequeno presente para ela brincar,
acho que uma petrolífera, e ela comprou um pequeno iate de 95 metros e um avião
particular de 200 lugares, com sauna e piscina aquecida, além de 27 palácios
espalhados pelo mundo. A esplanada de praia, que entretanto se transformara num
bairro chique que tivera como dano colateral inevitável o despejo de uns pobres
— que não eram vivazes, nem espertos, nem inteligentes, nem da família e que só
serviam para dar o graveto a quem sabia tratar dele —, continuava a ser, no
entanto, o seu negócio preferido.
E tudo parecia correr bem, para um final
feliz. Porém, os finais felizes só existem nos contos infantis e para aqueles
que acreditam na ressurreição dos mortos. Por isso, começaram-se a juntar
contra Isabelinha vozes de inveja, de maledicência. Os bancos, dominados pelos
brancos (caso contrário, seriam petos), numa demonstração de racismo, quiseram
saber de onde vinha a fortuna, sobretudo depois de terem lucrado bué com ela. E
não acreditaram que vinha do graveto que, com esforço e uns tiros, o pai ganhara
e ela ajudara a apanhar e da esplanada de praia. Hoje em dia, Isabelinha é uma
rapariga triste e incompreendida. De tal modo que recorreu à agência para que
os incompreendidos, como Trump, se voltam. Os amigos das festas desapareceram!
Tem um mandado de busca! É revoltante! A culpa é do capitalismo, do Soros, dos
corruptos e dos invejosos. E aqui estou eu a defendê-la a troco de nada, ou
quase. Bastou uma mera esplanada de praia que a boa Isabelinha me ofereceu.
Comendador Marques de Correia, Revista E, Expresso, 01 de fevereiro
de 2020
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