Depois
de se ter lido e relido opiniões sobre o «caso Marega», artigos jornalísticos,
comentários televisivos e redes sociais – por especialistas ou tudólogos
- resta acrescentar uma visão do comportamento humano face ao ocorrido e não se
ficar apenas com as opiniões em defesa ou ataque, tenham elas ou não cores
clubísticas, sejam elas em consonância ou não com a opinião dominante, com o
politicamente correcto.
Segundo
Malcolm Gladwell, no seu livro «Blink, somos na maioria das situações
cognitivamente racistas. Racismo inculcado por decisões espontâneas ao conviver
com este tipo de casos de maneira inconsciente. E as decisões que são tomadas
rapidamente, como foi o caso, podem ser tão «certas» como as decisões tomadas
com cautela e deliberação. O curioso é que podemos aprender a pensar desta
última forma, como também podemos fazer melhores avaliações instantâneas.
As avaliações instantâneas do comportamento do Marega – se foi ele foi primeiramente insultado ou se foi ele o provocador ao festejar o golo e correr para a bancada vimaranense, apontando com o dedo a cor da sua pele – ocorreu por trás de uma «porta trancada». Porta esta que é guardada no nosso inconsciente e que se solta logo quando activada. Por isso, neste caso, as decisões podem ser aleatórias ou incoerentes.
O inconsciente age, segundo Gladwell, como um «mordomo intelectual». Este, toma conta de todos os aspectos mentais menores da nossa vida. Coloca etiquetas em tudo o que acontece à nossa volta e certifica-se de que agimos como deve ser, deixando-nos livres para nos concentrarmo-nos no principal problema que precisa de ser resolvido. Isto é, o que motivou o comportamento do Marega ao abandonar o relvado tem posições contrárias: as que a defendem, as que a acusam ou as que a desculpabilizam.
Serão todos os que insultaram ou os que os defendem – mesmo com argumentos similares de outros jogadores ou de outras situações - totalmente racistas? Claro que o são. É a explicação mais radical para o que aconteceu.
Alguns
«analistas» mantêm a opinião primeira e, mesmo contra todas as evidências,
chegaram a uma conclusão em que, na realidade, deixaram de pensar. Tudo serve
para justificar aquilo que estava no seu inconsciente, na sua porta fechada.
A discriminação inconsciente é um pouco difícil de alterar. Se uma coisa ocorre fora da nossa consciência, como é que a vamos mudar? E o racismo não se confina apenas à cor da pele, pode-o ser por tribalismo étnico ou político. As emoções negativas têm a ver com o desprezo ou aversão, pela rejeição total de uma pessoa da «sua» comunidade. Quantas pessoas que afirmam (e acreditam) categoricamente que não são racistas, chamam, em publico ou em privado, de «monhé» ao nosso Primeiro Ministro?
Será necessário mais do que um simples compromisso com a igualdade. Que, quando quisermos colocar etiquetas, não sejamos traídos pela nossa hesitação ou por aquilo que é «estranho». E se nos apercebermos disso, só não mudamos porque não queremos mesmo. Aceitar a situação – por convicção, com mais ou menos desculpas ou explicações mirabolantes – é ser racista.
A
sociologia indica como estigma a situação do indivíduo que está inabilitado
para a aceitação social plena,
como é exemplo a mentalidade racista. Na identidade social, o individuo
estigmatizado frusta as expectativas da «normalidade» da sociedade em que se
insere.
E
muitos estigmatizados, sabemos bem, desenvolvem estratégias de encobrimento, de
maneira a garantir ao máximo uma vida normal. Moussa Marega, no Afonso
Henriques, não!

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