Manoel de Povos
A Nova Desordem Liberal e Mental Internacional
Está tudo
do avesso. Olhemos lá para fora. Olhemos para o que passa fora do nosso
quintal, pois no nosso não há respostas que nos sosseguem. E o que
vemos? Um vácuo num horizonte sem fim. Um vácuo semelhante ao nosso, com as
respectivas proporcionalidades, é claro. Avistamos, como cá, um desejo de um
passado. Uma nostalgia que é sempre irreal e enganadora.
A Oeste, um
Trump tuitado dos miolos a prometer o «Make America Great Again», esquecendo-se - ou a querer fazer esquecer - que a grande indústria
americana já não volta e que os mercados são ultravoláteis, que o perigo já não
só mora em determinado sítio e que, como tudo o resto, está globalizado. A
Leste, Putin, com os seus oligarcas de ocasião e de estimação, a querer recuperar
o grandioso império czarista. A Oriente, a elite chinesa redescobriu a sua
herança imperial e confuciana como substituta, mais na economia, da duvidosa
herança marxista importada do Ocidente.
Na Índia, na
Turquia, na Polónia, entre outros, a nostalgia chocalha entre o apego
nacionalista e as tradições religiosas. Os fundamentalistas «brexistas» sonham
em retornar a uma Grã-Bretanha potencialmente independente, como se vivessem
ainda no tempo da Rainha Vitória. Orgulhosamente sós (onde já se ouviu isto?!),
uma bolha, como se não estivéssemos no tempo da internet, do mercado e do
aquecimento global.
Mas tudo isto nada
parecido com as fantasias nostálgicas e extremas do Médio Oriente. Com os
islamitas a quererem copiar o sistema estabelecido há mais de mil e
quatrocentos anos pelo profeta Maomé. E, por outro lado, os judeus
fundamentalistas de Israel ainda vão mais longe no tempo. Sonham com o regresso
de dois mil e quinhentos anos, até aos tempos bíblicos e expandir as suas
fronteiras para as de Israel Bíblica. E ambos não olham a meios.
Perante tudo isto,
nós, comuns mortais, andamos à beira de uma apoplexia social. E não entendemos bem
o que se passa. Tudo foge ao nosso controlo e à nossa percepção. E não temos boias
e muito menos âncoras para nos agarrarmos. Andamos à bolina ou, ainda pior, à
deriva num mar encapelado.
Somos tratados como supérfluos,
não contamos, verdadeiramente, para «eles», reis da manipulação de passagem,
numa desordem, democrática (tem dias), assente numa teia de corrupção nunca
vista, ou não antes escrutinada, num ambiente tentadoramente apocalíptico
que nós, os vivos, nunca assistimos.
Perde-se a fé em
doutrinas que davam certezas. Nostálgicos regressamos também, consoantes as
idades e as ideologias de cada um, às «certezas», salazarentas, aos sóis adaptados
que nunca brilharam ou aos jogos do «mata», do berlinde ou do pião. Estamos
pessimistas, até porque o pessimista tem mais prestígio intelectual do que o
optimista. Aliás, um diagnóstico é tão mais acreditado quanto mais negativo o
seja.
O populismo ou a desestatização neoliberal querem
agora, mais do que nunca, vingar. E vincar épocas douradas da nossa História.
Seja pelo regresso aos bons velhos tempos, com roupagem contrafeita, seja pela individualização
purista, pelo empreendedorismo, pela meritocracia.
Surgem, perante o
caos mental, os «fazedores de felicidade». Os gurus que nos ensinam que o
problema está dentro de nós. O Eu torna-se determinante. Tudo pode estar mal à nossa volta,
mas se nós, por dentro, qual ilha mental, podemos e devemos conseguir atingir
a nossa própria felicidade. A incerteza, a tristeza, a «moral em baixo» podem
ser resolvidas. Apesar das desigualdades sociais ou por elas
existirem, todos podemos chegar ao topo. Disciplina mental, acreditar, resiliência,
torna tudo possível.
A psicologia
tradicional, moribunda, renasceu com os «positivos». A
felicidade está ao virar da esquina. Se os psicólogos positivos explicam «cientificamente»,
como chegar à felicidade, o que dizer dos milhões de livros de auto-ajuda que se vendem como mel mundo
afora. E o best-seller, «O Segredo» vendeu 19 milhões de cópias em todo o mundo, e também
foi traduzido para outros 44 idiomas. Aproveitando esta onda dos milhões, vieram também
a terreno psiquiatras, psicanalistas, psicoterapeutas. Tudo «psi».
É verdade que o
fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e que a fortuna mundial está
apenas nos «cofres» de uns poucos. Mas isso, para o caso, não interessa.
Paciência, resiliência e outras «ências» podem-nos fazer felizes. E, milagre:
podemos até ser pobres. É só querer. Se a cenoura da felicidade se afastar,
aceleremos o passo, corremos atrás dela, e os mais esforçados conseguirão
apanhá-la. Mas rapidamente ela se esvai porque se transmuda num ápice. Não
buscámos a verdadeira, a real, a genuína, a imortal. Por isso, bora lá outra
vez. Um, dois, três … partida.
Povos, 15 de Fevereiro de 2020

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