domingo, 9 de fevereiro de 2020


Relato da ambição mais inútil e masoquista jamais concedida na história das ilhas

Todos podemos concordar que vamos ficar um pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer, se vale a pena fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Eis os dias do ‘Brexit’


TEXTO IAN MCEWAN ESCRITOR, VENCEDOR DO BOOKER PRIZE E AUTOR, ENTRE OUTROS, DO ROMANCE “A BARATA”, SOBRE O ‘BREXIT’

Está feito. Triunfo da negociação persistente por May e a seguir, brevemente, por Johnson cumpriu a ambição mais inútil e masoquista jamais concebida na história destas ilhas. O resto do mundo, à exceção dos Presidentes Putin e Trump, olhou com espanto e consternação. Em dezembro, uma maioria votou em partidos que apoiavam um segundo referendo. Mas esses partidos, lamentavelmente, não conseguiram unir-se numa causa única. Devemos arrumar as nossas tendas, talvez ao som dos sinos da igreja, e esperar pelo começo de uma caminhada difícil de regresso até algo semelhante aonde estávamos ontem, com os nossos múltiplos acordos comerciais, a cooperação científica, na saúde e na segurança e mil outros arranjos úteis.

A única certeza é de que vamos continuar a fazer-nos perguntas durante muito tempo. Esqueçamos de momento as mentiras do “Vote Leave”, o financiamento suspeito, o envolvimento russo ou a Comissão Eleitoral permissiva. Em vez disso, consideremos o pó mágico. Como é que um assunto de consequências tão importantes a nível constitucional, económico e cultural foi decidido por um voto de maioria simples e não por uma supermaioria? Um documento parlamentar (v. Briefing 07212) por alturas da lei de 2015 sobre o referendo dá uma pista: o referendo era meramente consultivo. “Permite ao eleitorado exprimir uma opinião.” Como é que ‘consultivo’ se transformou em ‘vinculativo’? Através desse pó que populistas à direita e à esquerda nos atiraram para os olhos, impedindo-nos de ver.

Sofremos uma cumplicidade entorpecedora entre Governo e oposição. A porta de saída da Europa foi mantida aberta por Corbyn, e Johnson atravessou-a. Neste caso, indo suficientemente para a esquerda, encontrava-se e abraçava-se a direita que vinha na direção oposta.

O que aprendemos na nossa cegueira? Que quem não florescia dentro do statu quo não tinha uma boa razão para votar nele; que o nosso prolongado caos parlamentar derivou de uma pergunta sim-não mal formulada, para a qual havia uma data de respostas; que a ecologia longamente desenvolvida da UE moldou profundamente a flora da paisagem da nossa nação, e arrancar essas plantas vai ser brutal; que aquilo que em tempos se chamava um ‘Brexit’ duro tornou-se suave em contraste com o não-acordo que mesmo agora persiste; que qualquer forma de saída, segundo a própria estimativa do Governo, encolherá a economia; que temos um dom para divisões múltiplas e azedas — jovens contra velhos, cidades contra o campo, licenciados contra os que deixam cedo a escola, Escócia e Irlanda do Norte contra Inglaterra e Gales; que todos os tratados ou acordos comerciais internacionais passados, presentes e futuros são um compromisso da soberania, tal como o é a nossa assinatura nos Acordos de Paris ou a nossa participação na NATO, e, portanto, o “Take Back Control” (retome o controlo) foi a promessa mais vazia e triste desta lamentável temporada.

Surpreendemo-nos a nós mesmos. Há uns anos, se nos pedissem para enumerar os males da nação — desigualdades de riqueza, SNS doente, desequilíbrio norte-sul, crime, terrorismo, austeridade, crise da habitação, etc. — não teria ocorrido à maioria de nós incluir o facto de sermos membros da UE. Nessa altura não pensávamos em Bruxelas. O que nos fez começar foi, na famosa expressão de Guy Verhofstadt, uma “luta de gatos” dentro do Partido Conservador. Esses gatos andavam à bulha uns com os outros desde há décadas. Quando nos arrastaram para dentro dessa luta e nos obrigaram a escolher um lado, tivemos um colapso nervoso coletivo; e depois um número suficiente de pessoas queria que a angústia desaparecesse e “fazer o ‘Brexit’”. Repetido ad nauseam pelo primeiro-ministro, parecia quase indelicado perguntar porquê.

Nos dias iniciais da campanha do referendo, percebemos que “à porta” tinha que ver com migração; mas também percebemos que foi decisão do Reino Unido, não da UE, permitir migração ilimitada dos nossos Estados-membros antes de os sete anos de transição chegarem ao fim; foi por opção do Reino Unido que se permitiu aos migrantes da UE permanecerem mais de seis meses sem um emprego; foi o Reino Unido que fez campanha com sucesso para alargar a UE a leste; é o Reino Unido, não a UE, que deixa a migração de fora da UE continuar (e porque não?) enquanto a migração da UE diminui. Também ficámos a saber que foi o Reino Unido, não a UE, que preferiu passaportes castanhos em lugar do patriótico azul. Embora, quando olho, os meus velhos passaportes parecem quase pretos.

Vão de carro desde a Grécia até à Suécia, desde Portugal à Hungria. Cada Estado-nação profundo é orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum sinal de estar sujeito à bota de Bruxelas

Há bastante injustiça histórica no Estado britânico, mas muito pouco dessa injustiça deriva da UE. Bruxelas não insistiu para negligenciarmos as cidades pós-industriais das Midlands e do Norte; ou exigiu que deixássemos os ordenados estagnar, ou permitiu pagamentos multimilionários aos CEO de companhias falidas, ou privilegiou o valor para os acionistas em detrimento do bem social, ou arrasou os nossos serviços de saúde, a nossa assistência social e o nosso Sure Start, ou fechou 600 esquadras e deixou o tecido das nossas escolas públicas degradar-se.

Coube à campanha do ‘Brexit’ persuadir o eleitorado de que fora assim. Tiveram êxito no referendo com 37%, o suficiente para transformar o nosso destino coletivo durante pelo menos uma geração. Convencer um número suficiente de pessoas de que a fonte de todas as suas queixas reside nalgum elemento exterior hostil é o truque mais antigo do manual populista. Tal como Trotsky para Estaline, os EUA para os mullahs do Irão e Gulen para Erdogan, Bruxelas serviu na sua vez.

Donos de fundos de risco, plutocratas doadores para a causa, etonianos e proprietários de jornais assumiram-se como inimigos da elite. Mais pó mágico. A afirmação de que a questão da Irlanda do Norte foi resolvida é um fingimento perigoso. Assistimos ao desprestigiar da argumentação razoável. O impulso do ‘Brexit’ tinha fortes elementos de terra e solo, com traços de nostalgia do Império. Essas saudades inquietantes flutuaram bem acima dos meros factos.

Adquirimos um calão. “Artigo 50”, “comércio sem fricção”, “mesmo a tempo”, “o backstop” — como eles escorregavam pela língua. Aprendemos a respeitar uma “fronteira invisível”. Antes de tudo começar, só uns poucos conheciam a diferença entre a União Alfandegária e o Mercado Único. Três anos depois, as coisas não mudaram assim tanto. O ano passado, uma sondagem mostrou que muitos de nós pensavam que “cair para fora” era o mesmo que ficar. Antes fosse.

A liderança do ‘Brexit’ e o líder da oposição estavam sempre com pressa de começar a contagem decrescente de dois anos do artigo 50. Receavam que os votantes do ‘Leave’ mudassem de ideias, que os que não tinham votado da última vez fossem 2:1 a favor de ficar, e que os jovens que iam votar pela primeira vez fossem largamente pró-UE. Os generais do ‘Brexit’ temiam, com razão, um segundo referendo.

No mínimo, todos podemos concordar que vamos ficar um pouco mais pobres. Como um dos meus professores costumava dizer, se vale a pena fazer uma coisa, vale a pena fazê-la mal. Theresa May nunca foi capaz de dizer que o ‘Brexit’ nos deixaria melhores. Nem sequer disse que, num segundo referendo, votaria para sair. Devemos reconhecer a sua honestidade. Por contraste, Boris Johnson, ao apresentar a sua visão ‘pós-Brexit’ no Parlamento, prometeu diminuir o fosso de riqueza e oportunidade entre o norte e o sul, e torná-lo o centro da tecnologia de baterias avançadas. Esqueceu-se de referir que a UE jamais se opôs a nenhum desses projetos.

Redefinir as nossas novas relações comerciais com a UE vai-nos preocupar durante anos. Quanto à posição dos EUA, dê um longo passeio no Midwest americano e passará um mês num deserto de monoculturas, sem uma flor selvagem à vista. Para concorrer, a nossa própria agricultura terá de acolher a hormona hipodérmica. Os nossos agricultores terão de se livrar de sebes ineficientes, árvores demarcadoras de fronteiras e margens de campo com três metros — tudo peças de museu. Em negociações comerciais com a UE, os EUA jamais contemplaram padrões mais elevados de cultivo ou criação de animais, padrões alimentares e proteção ambiental, embora isso lhes tivesse dado acesso a 500 milhões de consumidores. As corporações agropecuárias americanas não vão mudar os seus hábitos por causa de uma nação de apenas 65 milhões. Se queremos um acordo, nós é que vamos ter de baixar a fasquia.

Pressentimos danos e diminuição à nossa frente. Num mundo perigoso cheio de ‘homens fortes’ a falar alto, a UE era a nossa melhor esperança de uma comunidade de nações aberta, tolerante, livre e pacífica. Com movimentos populistas a assolar a Europa, essas expectativas já estão ameaçadas. A nossa saída enfraquecerá a resistência à tendência xenófoba. A lição da história do nosso país neste último século é clara: tumultos na Europa continental arrastam-nos para conflitos sangrentos. O nacionalismo raramente é um projeto de paz. Nem se preocupa em conter as alterações climáticas. Prefere deixar as florestas tropicais e o mato australiano arderem.

Vão de carro desde a Grécia até à Suécia, desde Portugal à Hungria. Não levem o passaporte. Que rico e vibrante molho de civilizações — na comida, nas maneiras, na arquitetura, na linguagem. Cada estado-nação profundo é orgulhosamente diferente dos seus vizinhos. Nenhum sinal de estar sujeito à bota de Bruxelas. Nada daquela sensação de uniformidade comercial sombria que há nos EUA continentais. Pensem em tudo o que aprenderam sobre o estado ruinoso e desesperado da Europa em 1945, e contemplem um estupendo feito económico, político e cultural: paz, fronteiras abertas, relativa prosperidade, e o encorajamento dos direitos individuais, da tolerância e da liberdade de expressão. Até ontem, isto era onde os nossos filhos adultos iam à vontade para viver e trabalhar.

Acabou, e para já a Força está com o nacionalismo inglês. O seu paladino é o Governo ‘Vote Leave’ de Johnson, cujo monumento será para sempre um tipo especial de expressão cínica, apurada nos dias da velha União Soviética. Estou a mentir, vocês sabem que estou a mentir e eu sei que vocês sabem e estou-me nas tintas. Como em “A prorrogação do Parlamento durante cinco semanas nada tem a ver com o ‘Brexit’”. Michael Gove e Jacob Rees-Mogg foram mestres do sorriso trocista. O juízo inconveniente do Supremo Tribunal de que essa prorrogação era ilegal ainda irrita. Recentemente, o ex-ministro do Interior, Michael Howard, foi mandado murmurar contra os juízes. Exercer controlo político contra um judiciário independente seria coerente com o projeto Johnson-Cummings. Viktor Orbán da Hungria ilumina o caminho.

Os remainers esperavam um mundo mais simpático, mas fomos sempre os herbívoros neste debate, com as nossas marchas enormes, bem-dispostas e muito criticadas — “uma multidão cheia de ódio”, disse “The Sun”; “uma elite”, segundo o “Daily Telegraph”. Se 16 milhões de remainers são uma elite, então devemos alegrar-nos por o Reino Unido ser um modelo de meritocracia.

Na verdade, fomos os deixados para trás. Pela graça de Corbyn e dos seus sombrios lugares-tenentes, não tivemos voz efetiva no Parlamento. No seu primeiro dia como primeira-ministra, Theresa May prometeu à porta do Nº 10 que governaria para todos nós. Em vez disso, atirou metade do país aos cães para apaziguar a ala direita do seu partido. À partida, a elevação de Boris Johnson foi decidida por um eleitorado minúsculo de constituintes idosos, cuja maioria disse nas sondagens que gostava que Donald Trump governasse a Grã-Bretanha e que ansiavam pelo regresso do enforcamento. Num espírito similar, Johnson descobriu frescas profundidades de vulgaridade populista quando falou de usar forquilhas para retirar das costas da nação o demónio da UE. Agora rea­lizou o seu sonho.

Quanto aos extremos marginais, nós jamais esfaqueámos e matámos um deputado brexiteer na rua; só raramente tendemos a enviar ameaças anónimas de morte e violação como as que chegaram tão abundantemente a Gina Miller, Anna Soubry e muitas deputadas. Porém, os e-mails antissemitas de dentro do Partido Trabalhista foram uma desgraça. Como o foram as turbas a gozar à porta de Jacob Rees-Mogg. Mas nós não exortámos maliciosamente os nossos compatriotas a amotinarem-se no caso de um segundo referendo dar um resultado contra nós. Quase dois terços do eleitorado não votaram para sair; a maioria dos empresários e dos sindicatos, da agricultura, da ciência, da finança e das artes era contra o projeto do ‘Brexit’; três quartos dos deputados votaram para ficar. Mas os nossos representantes ignoraram o interesse público evidente e esconderam-se atrás de cabalas partidárias e de “o povo falou” — essa deprimente locução soviética — seguido pelo “façam o Brexit’”, esse pó mágico que enevoou a mente, cegando a razão e diminuindo as perspetivas para os nossos filhos.

Tradução Luís M. Faria, Revista E, Expresso, 08 de Fevereiro de 2020. 

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