quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


Um vírus contra a bazófia

Anos a fio discutimos o poder dos seres humanos sobre a natureza, o modo como modificam o clima e as condições de vida, ou devastam a natureza e as florestas, ou extinguem espécies inteiras. Até que num local remoto surge um minúsculo ser, apenas detetado por microscópios, e ameaça-nos a vida, a economia, enfim tudo aquilo que nos fez construir e destruir “coisas belas”, como cantou Caetano Veloso. Esse ser minúsculo cresce, multiplica-se, divide-se, viaja de avião e de barco, graças ao ser humano. Distanciemo-nos um pouco, para poder ver toda a cena, e reparemos que não deixa de ser irónica.

Desde que, em meados do séc. XIX, Louis Pasteur (notável cientista francês cujo nome ficou imortalizado nos alimentos pasteurizados) propôs a teoria microbiana das doenças, afirmando que as nossas maleitas se deviam a “algum tipo de vida diminuta” que se multiplica no organismo doente e, por vezes, se transmite e contamina outro, que sabemos da nossa vulnerabilidade. Uma espécie de kryptonite do Super-Homem. Sim, conseguimos tudo, damos cabo de tudo, como o herói da banda desenhada, mas somos afetados por um pequeno ser agora batizado por COVID-19 (de Corona Vírus 2019) com uma sequência genética constituído por várias moléculas. Algo que deveria ser simples destruirmos, mas não conseguimos, como mostram as nossas vastas e comprovadas capacidades para a destruição.
Os especialistas dizem que conseguirão uma vacina, mas mesmo assim demorarão meses ou mais de um ano a encontrá-la. Há esperanças em que o fenómeno viral esteja na sua curva descendente, mas não há certezas. Se queremos aprender como se trabalha em rede, poderemos aprender com os vírus; se queremos aprender como se resiste e se adaptam organismos a novas condições, os vírus ensinam-nos; assim como se pode fugir a uma arma letal (recordemos o vírus HIV, de cuja vacina andamos à procura há quase 40 anos e apesar de progressos notáveis na contenção da doença e na sua minoração e aumento brutal de esperança de vida dos pacientes, não conseguimos a cura). Sim, o pequeno vírus é uma arma também contra a bazófia de um ser humano que a cada momento pensa que sabe tudo e que o passado, mais do que um país estrangeiro, é algo que jamais nos revisitará.
Vejam as notícias: quarentena, cidades isoladas de onde ninguém entra e sai, ameaças de crise económica, mais de um milhar de mortos, por enquanto, e casos diagnosticados em 27 países diferentes, tudo isto provocado por algo que terá uns milionésimos de milímetro de tamanho (ou nanomícrons, ou 0,000 000 001 de milímetro). Uma coisa assim é uma peste medieval combatida com meios modernos, mas cuja eficácia advém sobretudo de meios muito antigos, e repito-os: quarentena, cidades isoladas, impossibilidade de comércio.
Todos os especialistas concordam numa coisa: um dia teremos um surto epidémico que cobrará centenas de milhares ou mesmo milhões de vida. Se é o COVID-19 ou não, ninguém pode saber. Mas que a ameaça é real, ninguém duvida.
Se não servir para mais nada, que daqui retiremos conclusões contra a arrogância, a pesporrência, a bazófia dos Homens. Sim, somos bem-sucedidos como espécie, mas não estamos sós no planeta nem somos invulneráveis. Bem pelo contrário: em certos casos, podemos não passar de agentes de outros seres que têm a mesma estratégia de todos os seres: sobreviver e aumentar em número. No fim, aquilo que sabemos dos livros sagrados: crescer e multiplicar-se.
Henrique Monteiro, «Chamem-me o que quiserem», Expresso, 12 de fevereiro de 2020

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