Um vírus contra a bazófia
Anos
a fio discutimos o poder dos seres humanos sobre a natureza, o modo como
modificam o clima e as condições de vida, ou devastam a natureza e as
florestas, ou extinguem espécies inteiras. Até que num local remoto surge um
minúsculo ser, apenas detetado por microscópios, e ameaça-nos a vida, a
economia, enfim tudo aquilo que nos fez construir e destruir “coisas belas”,
como cantou Caetano Veloso. Esse ser minúsculo cresce, multiplica-se, divide-se,
viaja de avião e de barco, graças ao ser humano. Distanciemo-nos um pouco, para
poder ver toda a cena, e reparemos que não deixa de ser irónica.
Desde
que, em meados do séc. XIX, Louis Pasteur (notável cientista francês cujo nome
ficou imortalizado nos alimentos pasteurizados) propôs a teoria microbiana das
doenças, afirmando que as nossas maleitas se deviam a “algum tipo de vida
diminuta” que se multiplica no organismo doente e, por vezes, se transmite e
contamina outro, que sabemos da nossa vulnerabilidade. Uma espécie de
kryptonite do Super-Homem. Sim, conseguimos tudo, damos cabo de tudo, como o
herói da banda desenhada, mas somos afetados por um pequeno ser agora batizado
por COVID-19 (de Corona Vírus 2019) com uma sequência genética constituído por
várias moléculas. Algo que deveria ser simples destruirmos, mas não
conseguimos, como mostram as nossas vastas e comprovadas capacidades para a
destruição.
Os
especialistas dizem que conseguirão uma vacina, mas mesmo assim demorarão meses
ou mais de um ano a encontrá-la. Há esperanças em que o fenómeno viral esteja
na sua curva descendente, mas não há certezas. Se queremos aprender como se
trabalha em rede, poderemos aprender com os vírus; se queremos aprender como se
resiste e se adaptam organismos a novas condições, os vírus ensinam-nos; assim
como se pode fugir a uma arma letal (recordemos o vírus HIV, de cuja vacina
andamos à procura há quase 40 anos e apesar de progressos notáveis na contenção
da doença e na sua minoração e aumento brutal de esperança de vida dos
pacientes, não conseguimos a cura). Sim, o pequeno vírus é uma arma também
contra a bazófia de um ser humano que a cada momento pensa que sabe tudo e que
o passado, mais do que um país estrangeiro, é algo que jamais nos revisitará.
Vejam
as notícias: quarentena, cidades isoladas de onde ninguém entra e sai, ameaças
de crise económica, mais de um milhar de mortos, por enquanto, e casos
diagnosticados em 27 países diferentes, tudo isto provocado por algo que terá
uns milionésimos de milímetro de tamanho (ou nanomícrons, ou 0,000 000 001 de
milímetro). Uma coisa assim é uma peste medieval combatida com meios modernos,
mas cuja eficácia advém sobretudo de meios muito antigos, e repito-os:
quarentena, cidades isoladas, impossibilidade de comércio.
Todos
os especialistas concordam numa coisa: um dia teremos um surto epidémico que
cobrará centenas de milhares ou mesmo milhões de vida. Se é o COVID-19 ou não,
ninguém pode saber. Mas que a ameaça é real, ninguém duvida.
Se
não servir para mais nada, que daqui retiremos conclusões contra a arrogância,
a pesporrência, a bazófia dos Homens. Sim, somos bem-sucedidos como espécie,
mas não estamos sós no planeta nem somos invulneráveis. Bem pelo contrário: em
certos casos, podemos não passar de agentes de outros seres que têm a mesma
estratégia de todos os seres: sobreviver e aumentar em número. No fim, aquilo
que sabemos dos livros sagrados: crescer e multiplicar-se.
Henrique Monteiro, «Chamem-me o que
quiserem», Expresso, 12 de fevereiro de 2020
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