sexta-feira, 24 de abril de 2020

Frases abriladas (3)

30º dia
«Quando parece esquecida a tragédia a que conduziram os nacionalismos e os monstros que lhe deram origem é bom recordar os afloramentos fascistas que, um pouco por todo o Mundo renascem. No caso português, urge lembrar que Salazar decretou três dias de luto nacional com bandeiras a meia haste, o único governante a fazê–lo na Europa.» Carlos Esperança

«Uma pessoa pensa que sabe tudo, que tem resposta para tudo, mas não sabe nada. Aparece a vida e baralha tudo, a resposta agora é pergunta, a pergunta é resposta. É por isso que ninguém consegue explicar como é que aqui chegámos, menos ainda para onde vamos. De nada vale dizer que “queremos a nossa vida de volta”. Todos nós já nos daríamos por satisfeito se soubéssemos que vida temos pela frente.» Jorge Araújo

 «Comparou-se mesmo esta (agora) pandemia à Peste Negra e à “gripe espanhola”, ou à cólera. Para outros, tratava-se de um castigo, não de Deus, mas da deusa Natureza, a mãe Gaia, já farta de ser agredida e que resolveu, como o Deus de Noé, farto dos pecados do Homem, castigar os seus filhos com um “dilúvio”, agora invisível.» Pedro Gomes Barbosa
  
«Também, a História demonstra-nos que, na maioria das vezes, os seus atores não têm consciência da transcendência do momento que estão a viver. Em 1453, ninguém relacionou a queda de Constantinopla como o fim da idade média (aliás, o conceito só fez sentido à posteriori, quando a consciência de um novo tempo permitiu qualificar a idade anterior de “média”). Igualmente, a multidão que tomou a Bastilha em julho de 1789 não tinha noção que estava a dar início à revolução política e social que lançou os alicerces da idade contemporânea.» Lourenço Pereira Coutinho

«José Tolentino de Mendonça expressou-o muito melhor do que eu há dias aqui no Expresso: “não se envelhece para morrer. Envelhecemos para nos saciarmos de vida”. A valorização dos mais velhos é algo que lhes é devido a eles, mas, igualmente importante, é algo que devemos a todos. Somos todos nós que nos perdemos quando consideramos, implícita ou explicitamente, que alguns de nós são sacrificáveis.» Alexandre Abreu


«Contudo, depois da crise, os países poderão abandonar o Keynesianismo e os mais periféricos ao sistema financeiro global vão enfrentar o “déficit da epidemia”, com o regresso de políticas de austeridade fiscal e de venda do património público. Nesse momento, irão multiplicar-se as revoltas sociais e a mudança de governos que ainda prezavam a prática de eleições periódicas e regulares, na década de 2020. Trajetória que poderá reforçar os movimentos nacionalistas que se notabilizam em vários países, desde o início do século XXI. A história não se repete. Mas o papel da alimentação nesses contextos continua assustadoramente atual.» Francisco Bendrau Sarmento

29º dia
«Se alguém nos dissesse há meio ano que fosse, ou nem tanto, que agora estaríamos todos (literalmente todos! sim, todos no mundo inteiro!) fechados em casa, numa espécie de penitência … só nos poderíamos rir. Sim, rir e a gargalhadas profundas, dado o irreal absurdo da cena.» António João Maia

«Na verdade, estes professores vão mais longe: é mesmo a atividade humana, como se sabe responsável por todas as alterações climáticas que, ao não respeitar a natureza, stressa as relações entre seres humanos e animais e propicia a transmissão de vírus animais para homens (…) os homens são responsáveis por tudo. Para certas correntes do pensamento, o melhor seria não termos descoberto a agricultura, não termos domesticado animais (a gripe vem das aves), não termos revolucionado a indústria, não termos, enfim, saído das cavernas. Morrer-se-ia antes dos 30 anos e não se tinha tempo para fazer teses destas – eis o aborrecimento!» Henrique Monteiro


«A litania do “menos Estado”, a começar pela sua presença no sector da Saúde, tem os seus custos, como agora se vê sem apelo nem agravo, para desencanto dos liberais mais empedernidos. Nem todas as clínicas e serviços privados se mantiveram em funções e alguns deles decidiram fechar a tempo e horas, sem problemas de consciência de com isso contribuírem para sobrecarregar os limites do Serviço Nacional de Saúde.» Amílcar Correia

28º dia
«Tem que ser o governo e os próprios agentes e decidirem o que pode ou não abrir, quando e como. Mas não existe alternativa a não abrir. (…) Temos que aceitar que haverá perdas de vidas e passos à frente e atrás, porque é assim que a humanidade combate epidemias.» Ricardo Costa

«A austeridade/pandemia não é mote para chicana, é uma condição que nos vai, ou não, mas provavelmente vai, mudar o nosso quotidiano, os costumes e as esperanças. Olhem, viajar de avião em voos baratos, cotovelo com cotovelo de dois companheiros desconhecidos, de cada lado, não vos assusta? E querem continuar com polémicas sobre se o PM já disse "austeridade" ou não?» Ferreira Fernandes

«Também mudei de opinião sobre Trump. Ainda é mais estúpido e vaidoso do que eu pensava. Mas eu já pensava que ele era extremamente estúpido e extremamente vaidoso. Só não sabia que era humanamente possível combinar os dois defeitos em tais quantidades.» Miguel Esteves Cardoso

«Entretanto, a Europa foi adiada até 6 de maio, quando a Comissão Europeia apresentar uma proposta para combater a crise. Depois, ficaremos à espera da reação do Conselho Europeu. A procrastinação segue dentro de momentos.» Paulo Vila Maior

27º dia
«Já nem vou pela temática da austeridade ou da óbvia necessidade de ter contas certas. Ela faz parte da nossa vida, seja qual for o nome com a quiserem mascarar, como Barack Obama uma vez disse “Podem colocar batom num porco, continua a ser um porco”. (…) 25 anos depois do estudo de [Michael] Porter, percebemos que é tempo de revisitar o mesmo, estudar, sem palas, a realidade existente e projectar os próximos 10 anos, isto é, se queremos ter crescimento sustentado, do tipo que nos permita mudar de vida. (…) Projectar os próximos dez anos é fundamental, para começarmos já a preparar um futuro melhor. Isso sim seria patriótico. E já vamos tarde, o futuro não espera, particularmente por quem está preso ao modelo do passado.» Diogo Agostinho

«… o presidente da Câmara colocou um ‘gosto’ numa publicação no Facebook que apelava à transformação da Assembleia da República numa câmara de gás, precisamente por causa da celebração do 25 de abril numa altura em que as pessoas estão obrigadas a ficar em casa. O coordenador da equipa de assistentes operacionais da Câmara da Trofa escreveu o seguinte "Se houver quem ponha aquele espaço a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás". O presidente da câmara ‘gostou’ do que leu. E, pelos vistos, para o PSD, partido ao qual o autarca pertence, não há drama.» Pedro Lima

«Que a doença que hoje nos tem suspensos e agarrados aos jornais, pela dureza de atingir o mundo inteiro de uma assentada e de levar em poucos dias vidas que estavam para durar, nos ajude a ver a outra, que lhe serve de pano de fundo e da qual inevitavelmente resulta – já que a nossa relação com a vida selvagem e a destruição massiva de habitats é, como se sabe, a explicação dada pela comunidade científica para a migração de um vírus que, até aqui, só habitava em animais.» Rita Castel´ Branco

«Com um toque politicamente irónico, Sérgio Moro até atirou uma pedrada à narrativa que ele próprio construiu, elogiando o governo de Dilma Rousseff por ter respeitado a autonomia da Polícia Federal. Estes momentos são especialmente interessantes, porque permitem que os seus atores, na reconstrução dos seus argumentos, denunciem as suas próprias mentiras. (…) Entretanto, a divisão na base de apoio do Presidente abre brechas e a direita brasileira prepara-se para a sua guerra fratricida. Ganhem ou percam os que agora abandonam o Presidente, eles não são nem arrependidos nem desiludidos. São o que sempre foram: oportunistas.» Daniel Oliveira

26º dia

«O pior é quando me enviam esse estudo pelo messenger, com um preâmbulo que parece postular a dívida eterna de gratidão em que eu me constituo, pelo facto de o autor da mensagem me proporcionar informação tão relevante, capaz, na maioria dos casos, de me salvar a vida. Na verdade, eu fico apenas seguro que o mensageiro é estúpido. É por isso que nunca lhe peço para deixar de enviar as mensagens. Não adianta. Ele é estúpido.» António Conceição


«Quando os doentes são os outros, o grupo que não faz parte de nós, estão criadas as condições para um reforço da estigmatização social, o que é tudo menos profiláctico, e que pode ser apenas mais uma antecâmara do racismo e da xenofobia.» Amílcar Correia


«Há uma certa graça, dizia eu. Corrijo: há cada vez mais razões de irritação e de desconfiança em relação a um partido [CDS] que, na origem, recuperou muitas das hostes salazaristas e que agora resvala cada vez mais para um radicalismo extremista de que, receio, estejamos a ver apenas as primeiras manifestações…» J-m Nobre-Correia


«Mais uma vez, vivemos dentro daqueles círculos de fogo onde não se consegue pensar de modo diferente do dos fanáticos, meditar com inteligência fora das labaredas assassinas, nem tentar compreender longe das hordas dos pensadores oficiosos. E, tal como antigamente, só há dois campos, o da democracia ou o do fascismo. O da revolução ou o da reacção.» António Barreto


25º dia
«O curso preparou-nos para ver doentes mas não para uma pandemia. Não há uma cadeira de pandemia. A preparação foi feita uma semana antes do primeiro caso ser diagnosticado em Portugal (…) Temos de nos ajudar uns aos outros, ver se a bata está bem fechada, se há cabelos à vista, fazemos o check uns aos outros e só depois entramos. São quatro horas de turno e não é confortável. Os óculos magoam, as máscaras magoam, não podemos ir à casa de banho, mas o tempo passa a correr.» Mariana Dias da Costa

«Não estava preparada, ninguém estava. Esperava um ano calmo, com menos responsabilidades, mas temos de nos adaptar (…) Ofereci-me como voluntária. Trabalho sempre em equipa com um colega. Vejo os sinais vitais do doente, faço auscultação cardíaca e pulmonar. Se tem queixas, fazemos um teste, uma picada na artéria para fazer uma leitura do oxigénio e do dióxido de carbono. Saímos da área suja, vamos para a sala de reuniões e discutimos os doentes. Não decido nada, mas os outros médicos ouvem-me. Dou a minha opinião.» Sara Carvalho

«Não entramos nos quartos das crianças infetadas. São os colegas mais experientes que fazem essa parte e é normal que assim seja (…) É sempre mais difícil ver o impacto de uma doença como esta nas crianças (…) Nós fazemos o contacto com a família, e o mais complicado é fazer a gestão dos dias. Porque fica sempre um cuidador com a criança doente e quando há irmãos a rotina familiar altera-se profundamente e há sofrimento porque os irmãos, quando são novos, não percebem.» Sofia Bragança

«O meu trabalho é consultar e testar profissionais de saúde que tenham sido infetados. Já houve dois médicos internados mas já tiveram alta. São doentes difíceis porque arranjam sempre explicações para os sintomas e resistem aos testes. Dizem que é uma gripe normal. Os outros — auxiliares e funcionários — são mais preocupados.» Alice Vasconcelos

«Não sabemos o que vai acontecer aos estágios, o que é que vai acontecer, nada (…) No final do primeiro dia estava morta, desgastada, não tanto pela quantidade de trabalho, mas pela questão psicológica, a tensão permanente, saber que não posso tocar em nada, que não posso ser contaminada.» Carolina Santos

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