Têm-nos dito e repetido, de Sua Excelência o Presidente da República ao não
menos nosso excelêncio o senhor primeiro-ministro, passando pelas
excelentíssimas e doutíssimas ministra da Saúde e diretora-geral da Saúde, que
— e cito para que não restem mal-entendidos — “não podemos baixar a Guarda!”.
Quero dizer que nada me deixaria mais de acordo do que este propósito
politicogeográfico, partilhado por tanta e diversa gente de todos os quadrantes
da sociedade e da política, incluindo as forças vivas, civis, militares e
religiosas.
A minha total oposição a que se baixe a Guarda fundamenta-se em duas razões
e numa terceira que me emprestou o dr. Luís Marques Mendes (que também é a
favor de não baixar a Guarda):
1) A Guarda, como cidade mais alta do país, não pode ser rebaixada. Não
faria sentido que a cidade mais alta fosse uma sem frio, sem neve, sem
montanha;
2) Ao rebaixar a Guarda, corremos o risco de soterrar, já não digo a
Covilhã, mas por exemplo Valhelhas, onde um afilhado meu tem uma casa de trás
da orelha, onde se passam serões muito agradáveis, além de a localidade contar
com dois restaurantes muito atrativos e simpáticos. Seria, pois, uma dupla
perda baixar a Guarda e esmagar Valhelhas, ou mesmo que fosse Manteigas,
Gouveia ou Seia, coisa que não desejamos;
3) A terceira razão é a que o dr. Luís Marques Mendes me fornece para ter sempre
três razões para as coisas. É certo que ando a treinar para ter cinco razões,
como o professor Marcelo, mas ainda não consigo. Será talvez mais fácil ter,
como o dr. António Costa, “dversas razões”, sem as enumerar, mas parece menos
científico... Adiante!
Os mesmos e outros próceres do regime salientam, com ênfase, a necessidade
de achatar ou aplanar o Pico. Sou também favorável a essa demanda, por “dversas
razões”. Em primeiro lugar, a medida beneficia claramente os habitantes da
cidade da Horta, na ilha do Faial, que veem as suas casas e ruas ensombradas
pela majestade do Pico; em segundo lugar, o Pico fica longe, muito mais longe
do que a Torre, na serra da Estrela, que passaria a ser, com o achatamento do
Pico, o lugar mais alto de Portugal; em terceiro lugar, no Pico não se podem
praticar desportos de inverno, coisa que na Torre é possível, o que viria
melhorar bastante o afluxo turístico à região. (Olha, afinal, são três razões,
como faz o dr. Marques Mendes, e não “dversas”, à António Costa.)
Seja como for — e, no geral, as coisas acabam sempre por ser como são —, a
estratégia política dos nossos líderes é, neste caso, muito coerente. Se não
baixarmos a Guarda e se aplanarmos o Pico, acabamos por ter estes resultados
fantásticos que aqui descrevo. Penso que é mesmo razão para nos congratularmos
todos pelo esforço coletivo.
Ocorre-me que há muitas outras coisas que se podem fazer pelo nosso país.
Por exemplo, não assorear o Porto; não perder as Chaves; não derreter
Manteigas; não mudar o tempo verbal de Leiria (para Leirá ou Leirou); não
enxertar a Figueira da Foz (nem qualquer outra Figueira, penso, como a de
Castelo Rodrigo); não alcatroar as Lajes (sejam as do Pico, sejam as das
Flores); não aguçar Ponta Delgada; não orientar o Nordeste; não secularizar o
Porto Santo; não republicanizar Vila Real; não desolfatar Faro; não passar a
chamar Giestes a Silves, nem Morenes a Loures, nem Isaltinândia a Oeiras
(embora talvez merecesse), ou Caslevantas a Cascais.
Ou seja, há muito a fazer para clarificar o nosso país, combater a
desigualdade, as alterações climáticas e a gentrificação. Não sei se será este
o melhor momento, mas entendo que devemos colocar este ponto na agenda quanto
antes, de modo a que jamais nos esqueçamos dele.
Com o esforço de todos está-se a achatar o Pico, e todos nos congratulamos.
Salvo uns tantos, de que a polícia se encarrega, mais pedagogicamente ou mais à
bastonada, de impedir que se baixe a Guarda. Estamos com a Guarda na altitude
ideal. Valhelhas não está salva, mas é hoje um local muito mais seguro do que
antes desta campanha. E, além disso, passa lá o rio Zêzere ainda antes de
chegar à Barragem do Cabril, que nunca deve ser considerada do Redil, tal como
a outra grande barragem do mesmo rio, a do Castelo de Bode, não pode ser do
Palácio do Carneiro. Não podemos, de modo nenhum, manter indecisões num tempo
de guerra em que não se limpam armas, porque não se pode. Elas são a nossa
guarda e nunca devemos baixá-la.
Comendador Marques Correia, Revista E, Expresso, 11 de abril de 2020
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