domingo, 12 de abril de 2020

NUNCA BAIXAREMOS A GUARDA. ACHATAREMOS O PICO E FAREMOS OBRAS DE GRANDE ALCANCE


Têm-nos dito e repetido, de Sua Excelência o Presidente da República ao não menos nosso excelêncio o senhor primeiro-ministro, passando pelas excelentíssimas e doutíssimas ministra da Saúde e diretora-geral da Saúde, que — e cito para que não restem mal-entendidos — “não podemos baixar a Guarda!”. Quero dizer que nada me deixaria mais de acordo do que este propósito politicogeográfico, partilhado por tanta e diversa gente de todos os quadrantes da sociedade e da política, incluindo as forças vivas, civis, militares e religiosas.

A minha total oposição a que se baixe a Guarda fundamenta-se em duas razões e numa terceira que me emprestou o dr. Luís Marques Mendes (que também é a favor de não baixar a Guarda):

1) A Guarda, como cidade mais alta do país, não pode ser rebaixada. Não faria sentido que a cidade mais alta fosse uma sem frio, sem neve, sem montanha;

2) Ao rebaixar a Guarda, corremos o risco de soterrar, já não digo a Covilhã, mas por exemplo Valhelhas, onde um afilhado meu tem uma casa de trás da orelha, onde se passam serões muito agradáveis, além de a localidade contar com dois restaurantes muito atrativos e simpáticos. Seria, pois, uma dupla perda baixar a Guarda e esmagar Valhelhas, ou mesmo que fosse Manteigas, Gouveia ou Seia, coisa que não desejamos;

3) A terceira razão é a que o dr. Luís Marques Mendes me fornece para ter sempre três razões para as coisas. É certo que ando a treinar para ter cinco razões, como o professor Marcelo, mas ainda não consigo. Será talvez mais fácil ter, como o dr. António Costa, “dversas razões”, sem as enumerar, mas parece menos científico... Adiante!

Os mesmos e outros próceres do regime salientam, com ênfase, a necessidade de achatar ou aplanar o Pico. Sou também favorável a essa demanda, por “dversas razões”. Em primeiro lugar, a medida beneficia claramente os habitantes da cidade da Horta, na ilha do Faial, que veem as suas casas e ruas ensombradas pela majestade do Pico; em segundo lugar, o Pico fica longe, muito mais longe do que a Torre, na serra da Estrela, que passaria a ser, com o achatamento do Pico, o lugar mais alto de Portugal; em terceiro lugar, no Pico não se podem praticar desportos de inverno, coisa que na Torre é possível, o que viria melhorar bastante o afluxo turístico à região. (Olha, afinal, são três razões, como faz o dr. Marques Mendes, e não “dversas”, à António Costa.)

Seja como for — e, no geral, as coisas acabam sempre por ser como são —, a estratégia política dos nossos líderes é, neste caso, muito coerente. Se não baixarmos a Guarda e se aplanarmos o Pico, acabamos por ter estes resultados fantásticos que aqui descrevo. Penso que é mesmo razão para nos congratularmos todos pelo esforço coletivo.

Ocorre-me que há muitas outras coisas que se podem fazer pelo nosso país. Por exemplo, não assorear o Porto; não perder as Chaves; não derreter Manteigas; não mudar o tempo verbal de Leiria (para Leirá ou Leirou); não enxertar a Figueira da Foz (nem qualquer outra Figueira, penso, como a de Castelo Rodrigo); não alcatroar as Lajes (sejam as do Pico, sejam as das Flores); não aguçar Ponta Delgada; não orientar o Nordeste; não secularizar o Porto Santo; não republicanizar Vila Real; não desolfatar Faro; não passar a chamar Giestes a Silves, nem Morenes a Loures, nem Isaltinândia a Oeiras (embora talvez merecesse), ou Caslevantas a Cascais.

Ou seja, há muito a fazer para clarificar o nosso país, combater a desigualdade, as alterações climáticas e a gentrificação. Não sei se será este o melhor momento, mas entendo que devemos colocar este ponto na agenda quanto antes, de modo a que jamais nos esqueçamos dele.

Com o esforço de todos está-se a achatar o Pico, e todos nos congratulamos. Salvo uns tantos, de que a polícia se encarrega, mais pedagogicamente ou mais à bastonada, de impedir que se baixe a Guarda. Estamos com a Guarda na altitude ideal. Valhelhas não está salva, mas é hoje um local muito mais seguro do que antes desta campanha. E, além disso, passa lá o rio Zêzere ainda antes de chegar à Barragem do Cabril, que nunca deve ser considerada do Redil, tal como a outra grande barragem do mesmo rio, a do Castelo de Bode, não pode ser do Palácio do Carneiro. Não podemos, de modo nenhum, manter indecisões num tempo de guerra em que não se limpam armas, porque não se pode. Elas são a nossa guarda e nunca devemos baixá-la.

Comendador Marques Correia, Revista E, Expresso, 11 de abril de 2020

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