Tudo
irritantemente previsível
Agora Isabel dos
Santos desdobra-se em entrevistas, declarações, comunicados, explicações. Mas
antes de o escândalo rebentar — ou melhor, antes de o controlo lhe escapar das
mãos, porque o escândalo sempre esteve lá, à vista de todos — ela
resguardava-se ao extremo, como pessoa politicamente exposta, que sabia ser, e
como pessoa esperta, que era. Por isso, são poucas as imagens disponíveis dela,
nas raras ocasiões em que se deixou filmar ou fotografar em Portugal. Nessas
raras imagens, vemos sempre a “princesa de África” muito longe de um clima de
racismo, de que agora também se reclama vítima. Antes pelo contrário: aparece
rodeada de homens e mulheres de raça branca que lhe sorriem, abrem alas,
bajulam quase lhe fazem vénias e só não rastejam a seus pés porque é tudo gente
muito composta. Ó Isabel de África e do mundo, o dinheiro não tem raça!
E também não carece nem de razões, nem de explicações,
nem de ética. Muito dinheiro, rios de dinheiro afogam quaisquer dúvidas. Veja,
Isabel, como entre toda essa gente — os seus parceiros de negócios, os seus
banqueiros, os seus advogados, os seus conselheiros, os traficantes de
influências a seu soldo ou os políticos a seus pés — ninguém ousou fazer-lhe as
duas perguntas que se impunham: como é que tinha conseguido o seu primeiro
milhão; e como é que se justificava que, sendo Angola um país riquíssimo, o seu
povo fosse miserável, enquanto o Presidente e a família do Presidente eram
todos multimilionários e a filha do Presidente a mulher mais rica de África?
Alguma vez sentiu, entre todos esses racistas que a rodeavam, a mais leve
sombra de crítica, de desprezo, de desdém, pelos seus milhões? Sentiu alguma
leve sombra de mal-estar pela sua presença nos conselhos de administração onde,
como diz, se fazia sentir o seu “talento e inteligência”, ou nas lojas de luxo
ou nos restaurantes com nome francês da Avenida da Liberdade, onde se fazia
sentir a leveza do seu dinheiro?
Claro que a “princesa de África” agora tem razões para
se sentir traída e abandonada. Julgou que o dinheiro também comprava lealdades
e solidariedades, sempre e entre pares, e está a descobrir por si que não
existe tal coisa como ser-se alguém sem escrúpulos na prosperidade e ser-se
também um cavalheiro na adversidade. Uma vez sem princípios, sempre sem
princípios. Concordo que ver o seu auditor de todos estes anos, o cavalheiro da
PwC, declarar-se “desiludido” consigo deve meter nojo a uma ratazana. Ver Davos
desconvidá-la, depois de se ter feito pagar bem pelo convite que lhe havia
feito para intervir na qualidade de grande empresária internacional, mostra bem
o estofo moral da elite do mundo. Ver o seu próprio banco, cúmplice nos seus
desvios de fundos de dinheiro de Angola para o seu bolso, vir agora “cortar
relações comerciais” com as suas empresas, continuando todos sentadinhos nos
seus lugares lá no banco, prova que há gente que nem de si própria tem
vergonha. Mas é a gente dela, é o mundo dela, são os valores dela. São os
guardiões do mais desprezível dos bezerros de ouro: o dinheiro sujo que todos
eles sempre souberem ser o dela. Dinheiro roubado a angolanos que morreram por
falta de medicamentos nos hospitais, que morreram de fome num país com
condições para alimentar de sobra toda a sua gente, que viveram miseráveis
todos estes anos, sugados por um regime afogado em lençóis de petróleo e
diamantes, cujas receitas, durante anos a fio, nem sequer entravam no Orçamento
do Estado. Iam directamente para os bolsos da “grande família”, dos generais e
da clique que em Luanda os apoiava, sobrando abundantes restos para os que, em
Portugal e não só, lhes forneceram o indispensável know how financeiro,
bancário, jurídico e organizativo para se transformarem de salteadores de
estrada em respeitáveis empresários internacionais com entrada garantida em
Davos.
Pelo caminho, e no que nos toca, foram décadas de sucessivos “irritantes” e
outras tantas humilhações de Estado a que Angola nos submeteu e a que nós nos
submetemos. Eles, a “grande família” de Luanda, pela sua atitude de novos-ricos
reivindicando o direito de mandar até na nossa Justiça e na nossa imprensa; e
nós, submetendo-nos tantas vezes pelo “interesse nacional” de não perder a mina
de ouro dos negócios com Angola — refúgio, por vezes certo, outras vezes
incerto, em tempos de crise. Por força das regras de jogo ditadas pela cleptocracia
angolana, de que Isabel dos Santos era expoente e embaixadora, nunca tivemos
com Angola uma relação limpa e transparente, entre iguais e amigos. E esta
obscura e hipócrita relação foi sustentada como imperativo nacional por todos
ou quase todos os quadrantes políticos portugueses, com a notável excepção do
BE e, durante muito tempo, até se arrepender, do CDS. De resto, o PS e o PSD,
sobretudo este, porque tinham as mãos na massa, e o PCP, por razões de
psicanálise (pois continua a querer acreditar que Angola, tal como a China, a
Rússia, a Venezuela ou a Coreia do Norte são países “socialistas”) fizeram
sempre do dossiê Angola uma questão indiscutível. E até vimos alguma gente de
extrema-direita, nacionalista e ex-colonialista a fazer negócios em Luanda, de
mãos dadas com a elite dos generais corruptos do MPLA.
Vimos de tudo, e toda a gente soube sempre de tudo. Espero que ninguém se
atreva a vir dizer que não sabia. Não é preciso que se suicidem, nem sequer
esperamos que se demitam, mas ao menos que fiquem envergonhadamente calados.
Até porque, ou muito me engano, ou nós ainda só vimos a ponta do icebergue.
Como é evidente, Isabel dos Santos não acumulou 3 mil milhões de dólares
sozinha, sem ter tido por trás de si um mar de conivências, cumplicidades e fechar
de olhos de quem devia ter visto, ter falado e ter impedido. Lá, como cá.
Aliás, muito gostaria de saber o que veio cá fazer ao certo o PGR de Angola, ao
querer reunir-se com a sua homóloga portuguesa logo no dia seguinte a ter
constituído Isabel dos Santos arguida por desvio de fundos da Sonangol.
Gostaria de acreditar que não veio cá para combinar entre ambas as partes o quê
e quem é que cada um dos lados deve investigar e quando é que deve parar. O que
estará naqueles 700 mil documentos que ainda não sabemos e que mais pistas é
que eles podem dar para outras investigações? Quando se segue a pista de
dinheiro sujo — e rios de dinheiro é quase infalivelmente dinheiro sujo — nunca
se chega só aos suspeitos do costume.
Tudo isto é bem mais do que irritante, é profundamente triste. Nós
estivemos em Angola e em África 500 anos. Fizemos por lá aquilo que outros
povos brancos e outros colonizadores fizeram em circunstâncias idênticas:
explorámos a colónia, conforme era direito adquirido à época. Nem inventámos o
colonialismo nem inventámos a escravatura em África, mas tirámos abundante
partido de ambas as coisas e fizemos o Brasil à conta de Angola. E prolongámos
ambas as coisas, o colonialismo e a escravatura quando, mesmo entre os brancos,
tal se tinha tornado moral e juridicamente insustentável. E, por isso, para
garantir o negócio de uma dúzia de famílias da metrópole, mantivemos uma guerra
fora de tempo e fora da justiça durante 13 anos, que só terminou com a queda do
regime. E porque foi tão mal conduzido o final da colonização e tão errada a
guerra, a descolonização foi um desastre cujo preço foi pago, não pelos donos
da colónia, mas pelos colonos pobres, impreparados para uma saída apressada. E
para trás, depois de 500 anos, não deixámos, conforme era nosso estrito dever,
uma elite local capaz de tomar em mãos o destino de uma nova nação. Deixámos,
sim, o que ficou à vista: um país dividido entre etnias e facções, que se
dilaceraram numa interminável guerra civil que destruiu Angola, finda a qual,
os vencedores se instalaram a banquetear-se com o saque do país. E nós a colher
as migalhas.
Dito assim, parece que nada de recomendável ficou da nossa passagem de 500
anos por Angola. Mas não é verdade. Muitos portugueses fizeram e deixaram lá
obra notável e que nos orgulhou, muitos amaram como sua Angola e deram toda a
sua vida por ela, muitos mereceram ficar para a História de Angola, por mais
que se reescreva a História. Eles não merecem é a pequena história destes
últimos 44 anos das nossas relações com Angola, em que o principal foi sempre a
cobiça e a hipocrisia. Isabel dos Santos é o exemplo eloquente disso. Ela
manchou o nome de Angola. E, com a nossa cumplicidade, manchou o nosso também.
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 25 de Janeiro de 2020
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