O Caroço no peito
O
Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF) promove neste espaço
semanal uma reflexão sobre as temáticas da fraude, da corrupção, da economia
não-registada, da ética, da integridade e da transparência, contribuindo deste
modo para a formação de uma opinião pública mais esclarecida e mais
participativa
Estou à rasca.
Há uns dias, ao terminar de fazer exercício, senti um caroço no peito, na zona
inferior do esterno. Dei a palpar a outras pessoas, para ter a certeza que não
estava errado na sensação, e todas sentiram algo que se assemelha a uma pequena
massa com alguma mobilidade. Senti cair-me a vida aos pés, e uma miríade de
prognósticos encheu-me a mente, cada um mais catastrófico que o outro. Acho
difícil não ficar hipocondríaco numa situação destas.
Procurei de imediato as pessoas que conheço trabalharem em saúde a
perguntar o que fazer, e unanimemente me encaminharam para a marcação de uma
consulta de cirurgia geral num hospital privado. Poderia ter ido de imediato a
uma urgência num hospital público, mas sinceramente pareceu-me descabido, pois
não me estava a sentir mal, e tendo em conta o estado do SNS optei pela saúde
privada.
Felizmente consegui agendar a consulta rapidamente, com um médico
referenciado como excelente. Resta-me aguardar, e sujeitar-me ao que quer que
seja.
E é neste aguardar que me encontro, cheio de incertezas, a tentar manter a
calma, oscilando entre o tentar ‘pensar que está tudo bem’ e o ‘não interessa o
que for, tens de aceitar e viver o melhor que conseguires’.
Pode-vos parecer exagerado, mas emocionalmente parece que estou às portas
da morte. E para além do (ou devido ao) natural exaspero existencial, o que
sinto e penso subitamente ganhou contornos estranhamento claros e concretos.
Por exemplo, sinto que todas as ansiedades e expectativas relacionadas com
sucesso, bem-estar material, reconhecimento social, opinião dos ‘outros’,
legado e posteridade não importam um chavo. A este nível, neste momento, só
consigo ter no meu coração e espírito aqueles que amo e amei, só esses
realmente interessam. De alguma forma eu já sentia isto, mas em escala
residual. A agudização deste sentir neste meu contexto atual é quase
inebriante, é algo que em meio a este terror da espera me enche de vontade de
sorrir. Parece que antes de ter palpado esta massa no peito me preocupava mais
e dava mais de mim a quem não importa que a quem realmente enche a minha vida
de vida.
Não sinto ódio nem desprezo por ninguém que não seja este meu círculo
interior, note-se. O meu humanismo e universalismo mantém-se intactos: todos
são importantes, a aventura humana neste planeta e universo deve ser acarinhada
e construída não deixando ninguém nem nada para trás. O que também se me
agudizou foi a compaixão real por toda esta mole de gente, onde naturalmente me
incluo, por ter a noção que na maior parte do tempo vivemos todos alheados
daquilo que devem ser as nossas reais prioridades, entretidos com aversões e
desejos que não são realmente os nossos, conduzidos em rebanho por não sei que
mãos em direção não a uma qualquer glória mais ou menos eterna, mas ao
inexorável pó.
Tenho a noção deste ridículo, mas em meio ao estado de nervosismo
aterrorizado em que me encontro, e às tentativas emocionais e racionais de
lidar com isto, de alguma forma sinto-me mais vivo, com uma sensação mais clara
de significado para a minha vida. E penso na estupidez quotidiana que enquanto
indivíduos vivemos ao corporizarmos diariamente o provérbio de que ‘só se dá
valor ao que se tem quando se perde.’
A consulta é amanhã. Penso, pior caso possível, em quantos meses terei de
vida. E penso também no que irá acontecer se isto não for nada.
DEPOIS DE AMANHÃ
A consulta (no privado) atrasou duas horas, entrei no gabinete do médico,
mostrei o peito, expliquei o que havia palpado, o caroço, a mobilidade, os
antecedentes oncológicos familiares, etc.
O médico levantou-se da cadeira, palpou o caroço, uma, duas, três vezes, e
disse que não era nada, que podia estar descansado. O caroço mortífero que
havia sentido era a base do osso esterno, que apresenta alguma mobilidade, nada
mais. Sorri de alívio, enfraldei a camisa, apertei a mão ao médico, desejei-lhe
boa sorte para uma noite que estava complicada de pacientes, e três minutos
após haver entrado no consultório estava de saída, com a dupla sensação de
alívio e de ridículo.
Ridículo não por ter ido ao médico devido a um caroço que senti no peito,
achando que o meu fim estava traçado antes da hora prevista, mas sim por ter a
clara sensação que a tal relação de prioridades pessoais que se haviam alterado
quando eu ‘estava para morrer’ provavelmente voltarão para muito perto de onde
estavam.
Ou seja, o esquecimento daquilo que parece sagrado, óbvio e indubitável
quando estamos aflitos é rápido a atuar.
Em textos bem mais antigos já escrevi sobre o que denomino a ‘Auto-fraude’
(não relacionado com automóvel), o apossamento indevido de algo importante que
é nosso por nós mesmos, para utilizações menos interessante. Isto acontece
porque não temos as prioridades no lugar certo.
Seria talvez bom que nos lembrássemos mais vezes que estamos todos a
morrer, mais cedo ou mais tarde. É o que irei tentar fazer, para tentar
defraudar-me menos a mim mesmo.
Pedro
Moura, “A poética da Ética”, Expresso, 09 de janeiro de 2020
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