O Banquete do
Estado
Se o leitor
faz parte da metade dos portugueses que efectivamente paga IRS, é provável que
sinta o mesmo que eu já começo a sentir com este espectáculo que dura há meses,
antes mesmo das eleições de Outubro passado: as discussões infindas sobre a
aprovação do Orçamento do Estado entre o Governo socialista e os partidos à sua
esquerda, onde hoje se incluem o PAN e o Livre. E o que eu sinto é que partidos
e partidecos que não ganharam as eleições — e em alguns casos até, claramente,
as perderam e recuaram eleitoralmente — chantageiam o partido que as ganhou,
tirando vantagem da ausência de maioria absoluta deste para governar apenas com
o seu programa, e actuam como se eles também tivessem recebido um mandato dos
portugueses para nos co-governarem nos próximos quatro anos. E com que
chantageiam eles? Com o meu dinheiro. Com o dinheiro que me custa muito a
ganhar, fruto do meu trabalho e da enormidade do que dele dou ao Estado em
troca do nada que lhe peço. Eu e os demais contribuintes líquidos deste
espectáculo estamos, pois, sentados silenciosamente na plateia a assistir há
meses a um bacanal de exigências sem fim, a serem financiadas com o dinheiro
dos nossos impostos e a favor dos interesses e vaidades próprias de quem perdeu
as eleições. Dir-me-ão que isto é normal e resulta do natural jogo de
concertação democrática destinado a viabilizar a governação numa situação em
que um governo minoritário não consegue, ou não quer, estabelecer coligações
com outros partidos para garantir uma maioria de legislatura. Pois, será
natural para os analistas políticos e para os próprios actores deste jogo de
máscaras em que hoje se abraçam e amanhã se anavalham. Mas para os cidadãos
comuns — que trabalham ou que investem, que criam riqueza e pagam impostos,
que vão às urnas e não se desinteressam pelos assuntos do país nem apostam na
degenerescência da política como alternativa — isto não é normal nem aceitável.
É ilegítimo e, a partir de certo ponto, pornográfico.
Comecemos pela
ilegitimidade. Escrevia aqui a semana passada o Daniel Oliveira que o PCP e o
BE, com a sua abstenção na votação global do Orçamento, tinham perdido uma
oportunidade única de “definir as regras desta legislatura”. Como se, digo eu,
tivessem ganho as eleições, juntamente com o PS. Mas acontece que não ganharam,
perderam-nas — e o PCP perdeu-as estrondosamente. Com que legitimidade é que
eles se poderiam arrogar o direito de “definir as regras da legislatura”? O
Daniel Oliveira poderá dizer que, ao não darem a maioria absoluta ao PS, os
eleitores quiseram mandar-lhe um recado para que repetisse a fórmula do acordo
com a extrema-esquerda da anterior legislatura. E eu posso dizer o contrário:
que o PS não teve a maioria absoluta exactamente porque a franja central de
eleitores tradicionais socialistas não quis a repetição dessa fórmula. Tivesse
António Costa tido a coragem de dizer previamente que não faria acordos à sua
esquerda e talvez tivesse obtido a maioria absoluta que tanto desejava.
A meu ver, laboramos
num erro de fundo, que contribui para o tal divórcio de que tanto se fala,
entre eleitos e eleitores. Os entendimentos do nosso PS com a extrema-esquerda
hão-de sempre esbarrar, mais tarde ou mais cedo, numa impossível conciliação: a
liberdade individual contra a estatização, a iniciativa privada contra a luta
de classes. O BE é hoje uma força profundamente institucionalizada do ponto de
vista político. A sua facção folclórica foi metida ao bolso por uma outra
facção muito mais organizada, inteligente e eficiente, que está presente em
todos os níveis de poder da sociedade portuguesa: no Parlamento, nos
sindicatos, na academia, nos media, nos reguladores. É um partido marxista para
o século XXI, em contraste com o museu marxista-leninista do PCP. Ao contrário
dos nostálgicos comunistas, o BE e os seus primos europeus perceberam que o
objectivo final já não se faz bombardeando os Palácios de Inverno, mas é
perfeitamente possível de se fazer num quadro democrático — até porque ele é
necessário para combater o populismo de extrema-direita. E que, em vez dos
sovietes e dos canhões do couraçado “Aurora”, há agora, misturando alhos com
bugalhos, uma arma muito mais eficaz e tornada facilmente popular graças aos
abusos e desmandos da banca e das grandes empresas multinacionais: a via
fiscal. Dentro de um quadro democrático, e por via fiscal, o objectivo final
dos neomarxistas mantém-se o mesmo: a sociedade sem classes e o consequente
sufoco do indivíduo face ao Estado. Os neomarxistas sabem que nunca houve uma
revolução que tenha trazido a felicidade aos povos nem o progresso económico;
apenas as reformas o conseguiram. E quem faz as reformas é a classe média. É a
classe média, e não a luta de classes, que faz avançar a Humanidade. É a classe
média que produz os cientistas, os economistas, os arquitectos, os músicos, os
escritores, os filósofos, os empresários visionários, os matemáticos, que
acrescentam valor, inovação, riqueza às nações. Numa palavra, aquilo a que
chamamos elites. Mas sucede que toda esta gente só existe e só funciona num
quadro de absoluta liberdade individual e económica — sem depender do Estado e,
se necessário, contra o Estado. E é isso justamente o que os marxistas e o seu
delírio colectivista não compreendem, não podem aceitar e não toleram. E por
isso, em lugar da liberdade individual, da iniciativa individual e do elevador
social como motor da história, eles dedicam-se ao oposto: a nivelar todos por
baixo, destruindo de cima para baixo, até atingirem uma sociedade em que todos
estão dependentes do Estado e do favor do Estado. Já sabemos isto há mais de
100 anos, desde que os bolcheviques derrotaram os mencheviques, e querer
experimentar outra vez uma impossível união só pode acabar em tragédia.
Voltando então ao
nosso banquete do Estado e à parte da pornografia, ela consiste simplesmente no
infindável e despudorado rol de exigências de mais e mais despesas públicas,
mais e mais impostos sobre tudo o que mexe (a par de isenções fiscais tão
adequadas como medicamentos e consultas para animais, propostas pelo PAN),
apresentadas, tipo concurso de ideias, por todos os partidos à esquerda do PS.
Que, uma vez garantidas, eles irão afixar em cartazes de rua como conquistas
suas — com o dinheiro nosso. E assim, abstendo-se na generalidade, estes
partidos dedicam-se depois, na especialidade, a acrescentar, grão a grão, mais
umas centenas de milhares ou milhões de despesa pública, para cujo pagamento só
prevêem, quando prevêem, dois tipos de cobertura: ou mais défice ou mais
impostos. E chamam a isto uma discussão do Orçamento.
Miguel Sousa Tavares
escreve de acordo com a antiga ortografia
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