Este homem não
vai sair de lá sem duas guerras: uma civil e outra (espera-se) regional
Deviam olhar para Churchill na Segunda Guerra e não para Chamberlain,
porque é a falta de uma reacção forte e decidida das democracias que permite a
Trump fazer o que quer.
Enquanto
a gente por cá se entretém a fazer interpretações mais ou menos escolásticas de
frases simplistas, dúplices, sibilinas, em dupla língua orwelliana, sem sentido
ou com sentido, cínicas, lugares-comuns, disparatadas, ambíguas, explícitas,
mas de um modo geral muito pouco importantes, proferidas pelo Presidente da
República e pelo primeiro-ministro, o mundo está perigoso como nunca esteve
desde a crise dos mísseis. Esta nossa capacidade para a irrelevância é ela
própria assustadora e, embora isso pouco sirva de justificação, é também do
conjunto da Europa “civilizada” da Europa do “meio” até ao Atlântico, passando
ao lado do “Brexit”.
Este é
um dos casos em que os actuais riscos mundiais têm uma interpretação pouco
marxista, porque se devem à acção de um indivíduo: Donald
Trump e a sua trupe e ao partido de serviçais em que se tornou
o Partido Republicano. Claro que tudo em que ele mexe tem razões,
racionalidades, explicações estruturais e conjunturais e pode ser interpretado,
ou seja, tem um sentido implícito. Mas ele mesmo é irracional, criativo e
carismático, no sentido genuíno da palavra cujo uso está muito abastardado, e,
por isso, não explicável na sua irredutível singularidade.
Claro
que homens racionais, frios, cerebrais, determinados podem ser também muito
perigosos, como também o são homens de fé cega, que não conhecem limitações à
sua crença, e às suas epifanias, e quase sempre à relação privilegiada que
acham que têm com o Divino ou o Destino. Mas podem ser percebidos,
interpretados e limitados pelo mundo exterior que os compreende. Trump não; é
um caso em que um conjunto de idiossincrasias pessoais, a começar pelo seu
narcisismo patológico e pela crença em virtudes próprias quase mágicas, assim
como uma ignorância abissal, um simplismo grosseiro e uma agressividade sem
limites, todos os defeitos de carácter, um comportamento errático e caótico, se
associam a esta pequena coisa — ele é o homem mais poderoso do mundo.
A
resposta a Trump é débil para o grau da sua perigosidade. É débil nos
democratas nos EUA, é débil nos fracos que o compreendem, mas são cobardes para
o defrontar, e é débil nos que o acham que o podem conter mantendo-o à
distância. Mas, acima de tudo, é débil em todos os que ainda não perceberam
duas coisas básicas: Trump não sai de lá com eleições e, numa esquina qualquer
dos dias, na sua política errática, deita mais gasolina para a fogueira para se
vingar, ou mostrar poder, ou gabar-se, e a fogueira pode não ser contida a
tempo. Na verdade, Trump nem sequer esconde a sua vontade de ser Presidente vitalício,
com uma série de tweets em que os anos passam e ele permanece
vestido de Capitão América. E também já disse mais do que uma vez que os seus
apoiantes não permitiriam o seu afastamento, mesmo em eleições, que teriam de
ser necessariamente fraudulentas, e isso provocaria uma guerra civil. E já
disse mais: que com ele estão a polícia, as forças armadas e os cidadãos com
armas. O que é que é preciso dizer mais?
Mas
antes da “guerra civil”, Trump — que não tem uma política externa coerente, com
excepção de ser um fantoche de Netanyahu e da extrema-direita israelita, e de
M.B.S., o príncipe herdeiro saudita, e, num plano mais global, de Putin —
envolve os EUA numa série de actos arriscados que servem os seus sinistros
aliados, sem a prudência que eles, apesar de tudo, revelam. O assassinato de importantes generais iranianos,
no solo de um país estrangeiro que é seu aliado, e com a violação de todas as
regras internacionais, não vem na sequência do assalto à embaixada em Bagdad —
vem na sequência da morte de um “contratado” americano, esta figura eufemística
do mercenário, seguida de ataques da aviação às milícias pró-iranianas no
Iraque e, por fim, à invasão da embaixada, que foi devolvida pelos ocupantes
sem vítimas.
Vejamos
as verdades, o mundo não-Trump. Que o Irão é um país que patrocina milícias em
todo o Médio Oriente desde o Líbano ao Iémen é verdade. Que a sua capacidade de
construir armas nucleares existe e é inaceitável por Israel também é verdade.
Mas que o conflito com a Arábia Saudita, um dos países patrocinadores do
terrorismo mundial, põe frente a frente dois adversários parecidos um com o
outro, e com um fundamento religioso muito antigo pela hegemonia no islão, é
verdade. Que os sauditas fazem o mesmo que o Irão, patrocinando milícias e
combatentes clandestinos em todo Médio Oriente, mais uma vez é verdade. Que o
Irão é uma teocracia, sem liberdades e democracia, é verdade. Mas na comparação
consegue, imaginem, ganhar à Arábia Saudita, onde ainda há menos liberdades e
muito menos diversidade do que no Irão. Por fim, quanto à questão nuclear, o
acordo com o Irão obtido pela comunidade internacional com enormes dificuldades
estava a ser cumprido, e os EUA acabaram com ele, numa das suas reviravoltas
políticas que só tem uma explicação: dar cabo de tudo o que Obama tinha
conseguido.
Face a
este homem perigoso, deviam olhar para Churchill na Segunda Guerra e não para
Chamberlain, porque é a falta de uma reacção forte e decidida das democracias
que permite a Trump fazer o que quer. Um dia acordam com o fogo à porta e vão
ler sobre o “estado do mundo” num tweet matinal com erros de
ortografia.
Pacheco Pereira, Público, 4 de janeiro de 2020
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