Três tipos de reacionarismo
Mais do
que nunca, é essencial que os outros partidos se distingam e recusem o
populismo e a polarização destrutiva, venham de onde vierem.
Não sou conservador. Nunca o fui, no sentido político. O conservadorismo
não faz parte do meu património ideológico. E, no entanto, julgo que consigo
entender a importância intrínseca do pensamento conservador — pelo menos o
suficiente para perceber que aquilo que mais se apresenta como conservador hoje
não é mais do que uma traição ao conservadorismo.
Se não é preciso ser conservador para se entender como se pode ser
conservador, também não é preciso ser reacionário para se entender o
reacionarismo, e como este é diferente daquele. Posto simplesmente, o
conservadorismo parte de uma valorização de elementos de estabilidade na
realidade social e económica (incluindo aqueles que progressistas como eu vêem
como injustos) e de uma rejeição em relação a ruturas e revoluções. O
reacionarismo é anti-revolucionário como o conservadorismo é anti-progressista,
mas ao passo que a ética política do conservadorismo se exprime pela vontade de
estabilidade, em não deitar fora o que do passado chegou ao presente, o
reacionário é sobretudo um revolucionário de sinal contrário, empenhado já não
só em manter uma determinada ordem mas mesmo em deitar fora o presente para
impor um passado idealizado. É essa a diferença no século XIX entre um Benjamin
Disraeli, conservador, e um Joseph de Maistre, reacionário. E é essa a
diferença neste início do século XXI entre um conservadorismo exangue e um
reacionarismo pujante.
A partir deste fim de semana Portugal tem três opções diferentes de
reacionarismo. Num ensaio célebre chamado A Retórica da Reação, o
economista Albert Hirschman descrevia os argumentos da futilidade, da
perversidade e do risco como sendo os argumentos centrais do reacionarismo, e
dava exemplos de como eles foram usados no passado contra a abolição da pena de
morte, a introdução de políticas sociais ou o alargamento do direito de voto,
todos eles sofrendo a oposição de reacionários (mas nem sempre de
conservadores) na história.
Ao atualizar o resumo de Hirschman, poderíamos dizer que em Portugal os
três reacionarismos à nossa escolha se declinam da seguinte forma: contra o
Estado social, contra a modernidade e contra os outros. O reacionarismo contra
o Estado social é o da Iniciativa Liberal, e baseia-se principalmente no
argumento da “futilidade” (não vale a pena fazer políticas pela igualdade
porque elas exacerbam o problema, o que é preciso é confiar no mercado); o reacionarismo
contra o “outro” é o do Chega, e baseia-se num argumento exacerbado do risco.
E o reacionarismo contra a modernidade é o do novo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que
opta claramente por uma atitude de guerra cultural contra o que ele chama “a
esquerda” (não é só a esquerda, já veremos), propala teorias da conspiração
como as do “marxismo cultural” e da “ideologia de género” e quer não só conter
o avanço de direitos sociais e culturais como revertê-los.
É muito difícil, para quem está de fora, entender a mentalidade do
reacionarismo contemporâneo porque nos falta um elemento essencial que
justifique o reacionarismo: a existência de uma revolução. Não vivemos nos
tempos da Revolução Francesa, pensamos nós, e, portanto, não entendemos a
urgência que algumas pessoas possam sentir numa contra-revolução. Nesse
sentido, os reacionários de hoje podem parecer-nos animais estranhos,
contra-revolucionários sem revolução.
Mas essa ingenuidade nossa procede de um erro de análise. Aquilo que grande
parte da esquerda, e do centro, e até da direita não-reacionária, vê como meros
avanços civilizacionais da modernidade e reposições da justiça e das liberdades
individuais (o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária
da gravidez sob certas condições, a alteração nas relações e nos papéis de
homens e mulheres), os reacionários vêem como uma ameaça ao seu modo de vida.
Por isso, na sua moção estratégica aprovada (com menos de metade
dos votos do partido), Francisco Rodrigues dos Santos afirma “os valores
judaico-cristãos” (mas não os greco-romanos nem os do iluminismo), a “Europa
das Nações” (mas não refere a dos cidadãos), e vai buscar à extrema-direita
estudantil a defesa de um conceito de “Portugalidade” cultural que não é o do
republicanismo ou do patriotismo cívico.
Além disso, não se enganem: esta direita não é liberal, pelo menos no
sentido político. Reparem na referência de Francisco Rodrigues dos Santos à
“quadrilha das esquerdas unidas” que “tomou de assalto o sistema parlamentar”.
Aquilo de que ele está a falar não é uma quadrilha e não é uma tomada de
assalto: é o resultado legítimo do último ato eleitoral. Não andámos anos a
fazer a pedagogia à esquerda da legitimidade da existência de uma direita para
agora termos uma direita que acha que quando a esquerda ganha eleições (com
mais de 60% dos votos) o resultado é ilegítimo. Por esse caminho chegamos
rapidamente à “democracia iliberal” de Orbán, aquela que só é legítima
quando a direita ganha.
No que poderá dar esta abundância de reacionarismos em Portugal? Numa
disputa exígua por votos exíguos, ou no crescimento de votos para uma disputa
intensa? Não o sabemos. Só sei uma coisa: que mais do que nunca é essencial que
os outros partidos se distingam e recusem o populismo e a polarização
destrutiva, venham de onde vierem.
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