segunda-feira, 27 de janeiro de 2020



Três tipos de reacionarismo
Mais do que nunca, é essencial que os outros partidos se distingam e recusem o populismo e a polarização destrutiva, venham de onde vierem.

Não sou conservador. Nunca o fui, no sentido político. O conservadorismo não faz parte do meu património ideológico. E, no entanto, julgo que consigo entender a importância intrínseca do pensamento conservador — pelo menos o suficiente para perceber que aquilo que mais se apresenta como conservador hoje não é mais do que uma traição ao conservadorismo.

Se não é preciso ser conservador para se entender como se pode ser conservador, também não é preciso ser reacionário para se entender o reacionarismo, e como este é diferente daquele. Posto simplesmente, o conservadorismo parte de uma valorização de elementos de estabilidade na realidade social e económica (incluindo aqueles que progressistas como eu vêem como injustos) e de uma rejeição em relação a ruturas e revoluções. O reacionarismo é anti-revolucionário como o conservadorismo é anti-progressista, mas ao passo que a ética política do conservadorismo se exprime pela vontade de estabilidade, em não deitar fora o que do passado chegou ao presente, o reacionário é sobretudo um revolucionário de sinal contrário, empenhado já não só em manter uma determinada ordem mas mesmo em deitar fora o presente para impor um passado idealizado. É essa a diferença no século XIX entre um Benjamin Disraeli, conservador, e um Joseph de Maistre, reacionário. E é essa a diferença neste início do século XXI entre um conservadorismo exangue e um reacionarismo pujante.

A partir deste fim de semana Portugal tem três opções diferentes de reacionarismo. Num ensaio célebre chamado A Retórica da Reação, o economista Albert Hirschman descrevia os argumentos da futilidade, da perversidade e do risco como sendo os argumentos centrais do reacionarismo, e dava exemplos de como eles foram usados no passado contra a abolição da pena de morte, a introdução de políticas sociais ou o alargamento do direito de voto, todos eles sofrendo a oposição de reacionários (mas nem sempre de conservadores) na história.

Ao atualizar o resumo de Hirschman, poderíamos dizer que em Portugal os três reacionarismos à nossa escolha se declinam da seguinte forma: contra o Estado social, contra a modernidade e contra os outros. O reacionarismo contra o Estado social é o da Iniciativa Liberal, e baseia-se principalmente no argumento da “futilidade” (não vale a pena fazer políticas pela igualdade porque elas exacerbam o problema, o que é preciso é confiar no mercado); o reacionarismo contra o “outro” é o do Chega, e baseia-se num argumento exacerbado do risco.

E o reacionarismo contra a modernidade é o do novo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que opta claramente por uma atitude de guerra cultural contra o que ele chama “a esquerda” (não é só a esquerda, já veremos), propala teorias da conspiração como as do “marxismo cultural” e da “ideologia de género” e quer não só conter o avanço de direitos sociais e culturais como revertê-los.

É muito difícil, para quem está de fora, entender a mentalidade do reacionarismo contemporâneo porque nos falta um elemento essencial que justifique o reacionarismo: a existência de uma revolução. Não vivemos nos tempos da Revolução Francesa, pensamos nós, e, portanto, não entendemos a urgência que algumas pessoas possam sentir numa contra-revolução. Nesse sentido, os reacionários de hoje podem parecer-nos animais estranhos, contra-revolucionários sem revolução.

Mas essa ingenuidade nossa procede de um erro de análise. Aquilo que grande parte da esquerda, e do centro, e até da direita não-reacionária, vê como meros avanços civilizacionais da modernidade e reposições da justiça e das liberdades individuais (o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária da gravidez sob certas condições, a alteração nas relações e nos papéis de homens e mulheres), os reacionários vêem como uma ameaça ao seu modo de vida. Por isso, na sua moção estratégica aprovada (com menos de metade dos votos do partido), Francisco Rodrigues dos Santos afirma “os valores judaico-cristãos” (mas não os greco-romanos nem os do iluminismo), a “Europa das Nações” (mas não refere a dos cidadãos), e vai buscar à extrema-direita estudantil a defesa de um conceito de “Portugalidade” cultural que não é o do republicanismo ou do patriotismo cívico.

Além disso, não se enganem: esta direita não é liberal, pelo menos no sentido político. Reparem na referência de Francisco Rodrigues dos Santos à “quadrilha das esquerdas unidas” que “tomou de assalto o sistema parlamentar”. Aquilo de que ele está a falar não é uma quadrilha e não é uma tomada de assalto: é o resultado legítimo do último ato eleitoral. Não andámos anos a fazer a pedagogia à esquerda da legitimidade da existência de uma direita para agora termos uma direita que acha que quando a esquerda ganha eleições (com mais de 60% dos votos) o resultado é ilegítimo. Por esse caminho chegamos rapidamente à “democracia iliberal” de Orbán, aquela que só é legítima quando a direita ganha.

No que poderá dar esta abundância de reacionarismos em Portugal? Numa disputa exígua por votos exíguos, ou no crescimento de votos para uma disputa intensa? Não o sabemos. Só sei uma coisa: que mais do que nunca é essencial que os outros partidos se distingam e recusem o populismo e a polarização destrutiva, venham de onde vierem.

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