domingo, 1 de março de 2020

A «pós-verdade», nacionalismos e extremismos


Manoel de Povos

A «pós-verdade», nacionalismos e extremismos

Estamos numa era da «pós-verdade». E a esta associadas, as famosas «fakes news». Elas proliferam, quais vírus, provocando verdadeiras pandemias sociais. E existem para todos os gostos desde o social à política, passando até pelo futebol.

Vivemos numa época assustadoramente de «pós-verdade» em que estamos rodeados de mentiras e ficções. Tomemos exemplos esclarecedores, ocorridos poucos anos atrás.

Donald Trump afirmou, repetidamente, milhares de vezes que Hillary Clinton era criminosa e, apesar de muitos não terem acreditado, a afirmação implementou-se e o conceito foi absorvido. Donald Trump ganhou as eleições, em 2016, graças em muito a este expediente, aliado ao slogan Make America Great Again.

Em Fevereiro de 2014, unidades especiais russas, sem qualquer insígnia militar, invadiram a Ucrânia e ocuparam instalações-chaves na Crimeia. O governo russo e o próprio Putin negaram, repetidamente, que não se tratava de tropas russas e descreveram-nas como «grupos de auto-defesa» que poderiam ter obtido equipamento de aspecto russo em lojas locais. Putin e os seus adjuntos sabiam que estavam a mentir. Os nacionalistas russos podem desculpar esta mentira, argumentando que foi dita em prol de uma verdade maior. E qual era a causa? A preservação da sagrada nação russa.
É que segundo os mitos nacionais russos, a Rússia é uma entidade sagrada que tem perdurado ao longo de milhares de anos, apesar de terem sido tentadas invasões de terríveis inimigos que a têm pretendido desmembrar, criando falsos países. Mas a Ucrânia não é um deles. É um Estado-nação desde 1991.

Em 2015, Jarosław Kaczyński, líder polaco do Lei e Justiça (PiS, na sigla original), então na oposição, repetia publicamente que os migrantes «espalham parasitas e protozoários». O partido foi vencedor em 2015 e em 2019. Em 2017, Viktor Orbán, na Hungria, afirmou que a imigração era «o veneno da Europa» e sublinhou o «valor da pátria», preservando a homogeneidade étnica e que «demasiada mistura traz problemas».

Seja qual for a visão que preferirmos, parece que vivemos numa assustadora era de falsidades e apelos extremados aos nacionalismos onde impera a xenofobia. Mas será que é só nestes últimos tempos que estamos perante tamanhas evidências?

Esclarecendo isto, basta um olhar rápido para o curso da História em que a propaganda e a desinformação não são uma novidade. Aqui os exemplos também podem ser vários no modo e no tempo. Em 1931, o exército japonês simulou ataques a si próprio para justificar a invasão da China. Esta mesma China que nega que o Tibete alguma vez tenha existido como país independente. A colonização britânica da Austrália usou como justificação a doutrina da «terra de ninguém», dando cabo de 50 mil anos de cultura aborígene.

«Uma mentira dita uma vez continua a ser mentira, mas uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade». Quem disse isto foi o maestro da propaganda nazi, e talvez o maior manipulador dos meios de comunicação da era moderna, Joseph Goebbels.

Também, no século passado, um dos slogans sionistas mais usados aludia ao regresso de um «povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [a Palestina]». Em 1969, a 1ª ministra Golda Meir disse que não havia povo palestiniano e que nunca tinha havido. Portanto décadas de conflitos sangrentos contra algo que não existe!

Na realidade, os seres humanos sempre viveram na era da «pós-verdade». Deste modo se culparmos, entre outros, o Facebook, o Twitter, Trump, Putin, israelitas, nazis por terem aberto a porta a uma nova assustadora realidade, será bom recordar que há muitos séculos os cristãos fecharam-se a si próprios numa bolha mitológica de auto-fortalecimento, sem nunca se atreverem a questionar a veracidade factual da Bíblia, ao passo que milhões de muçulmanos depositaram a sua fé inquestionável no Alcorão.

Alguém poderá ficar incomodado por se estar a misturar religião com notícias falsas. Mas é mesmo aí que quero chegar. Caso seja um cristão fundamentalista, é mais provável que acredite que todas as palavras da Bíblia são literalmente verdadeiras. Se acredita mesmo e que tem razão e que a Bíblia é a palavra infalível do único Deus que existe, então o que dizer do Alcorão, do Talmude ou do Livro de Mórmon?

E nada contra a benignidade da religião seja ela qual seja. Antes pelo contrário. Grande parte da Bíblia, por exemplo, poderá ser ficção, mas ela pode levar alegria a milhares de milhões de pessoas e continua a encorajar seres humanos a serem fortes, compassivos, na busca incessante de distribuir ajuda e cuidar dos mais necessitados. Mas até as pessoas mais religiosas terão de concordar que todas as religiões, excepto uma (a sua), são ficções.

As actuais «fakes» sejam elas em vídeos virais, partilhados pelas redes sociais sejam de outro modo, servem principalmente os «religiosos» do futebol ou os «religiosos» da política que acreditam no que querem e desejam acreditar. Se no futebol é inócuo - apesar deste ser o espelho sublimado do que somos -, na política em que existem cada vez mais «crentes», actuais ou reciclados, tal é preocupante para a nossa democracia. Relembrar o passado é, mais neste caso, pedagógico.

Há um padrão, um guião, para os partidos de extrema-direita: a provocação e, concomitantemente, uma linguagem sem sentido, onde se fala muito sem se dizer nada. Uma epidemia que o filólogo Igor Sibaldi chamou de «rumorese». Um discurso em rumorese é composto de palavras vazias, por termos ambíguos que são contraditórios entre si, e que não interessa que sejam falsos ou pouco racionais. Ditos em catadupa, melhor.

As notícias falsas e os discursos distópicos da actualidade são um problema. Mas como combatê-los? É melhor não esperarmos a perfeição. A maior ficção é negar a complexidade do mundo e pensarmos em termos absolutos de pureza cristalina entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado.

Povos, 01 de Março de 2020.   

1 comentário:

  1. Boa análise, com recurso a exemplos históricos corretos. Como combater o fenómeno da "pós-verdade" e os extremismos associados? Não basta atacar os vendedores de mentiras e manipuladores de opinião. Só uma auto-defesa de cada indivíduo pode ser eficaz. Há muito que considero que o indivíduo é, fundamentalmente, aquilo que quer ser. A informação (verdadeira e rigorosa) está hoje à distância de um clique. Mas é preciso que a queiramos procurar e que cada um se muna dos instrumentos suficientes para desmontar as pós-verdades e para destruir os mitos que elas semeiam.

    ResponderEliminar