sábado, 21 de dezembro de 2019


CONTO DE NATAL COM CEAUSESCU

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Faz três décadas que foi fuzilado. Meses depois surgiam rumores sobre orfanatos. Hoje é tema tabu

Faz 30 anos este Natal que mataram o ditador da Roménia, Ceausescu, e a sua querida mulher. Sobre isso não há grandes dúvidas porque a sua execução a tiro ditada por tribunal militar foi atabalhoadamente filmada e os tempos não eram de teorias de conspiração. Morreu e está morto. As cenas são brutais — se bem me lembro. E hão de estar obviamente disponíveis na net. Com o fuzilamento do casal Ceausescu, a revolução de 1989 teve o seu epílogo e deu-se início a um processo de revelação dos podres do regime. Sendo que um dos que marcaram esse momento foi a descoberta de dezenas de orfanatos atafulhados de crianças macilentas, esquálidas, moribundas atiradas exatamente para morrer. E, coisa incrível, nessa altura o mundo chocava-se com estas cenas. Mas aquilo era confuso. O que eram aquelas crianças esqueléticas, deficientes muitas, em condições sub-humanas deixadas assim deliberadamente à morte?

Hoje, três décadas passadas já se tem uma ideia mais precisa. Florin Soare, uma investigadora do Instituto dos Crimes do Comunismo passou vários anos a reunir testemunhos e calcula que entre 1966 e 1989 houve qualquer coisa como 15 mil a 20 mil mortes desnecessárias de crianças enviadas para estes “orfanatos”. A investigadora ficou espantada com a grandeza dos números, que está determinada em trazer os autores destes crimes à Justiça. O que parece ser algo pouco provável quando até o círculo mais restrito de Ceausescu não chegou a tribunal. Ainda mais num país que considera a questão dos orfanatos uma mancha na reputação nacional e que tem a noção de que as imagens que foram então difundidas globalmente tiveram um impacto negativo brutal. O melhor é esquecer.
Esses orfanatos não eram propriamente para órfãos que tinham perdido os pais numa catástrofe. Começaram a ser criados dado que o Estado tinha decidido controlar a crise demográfica dos anos 60 ao proibir o aborto e contracetivos, mas tinha-se originado um problema porque muitos casais não tinham meios financeiros para criar várias crianças.
Mas depois havia os outros... Os orfanatos para os irrecuperáveis. De categoria 3. Estes locais eram o que mais próximo havia de uma campanha de extermínio organizada pelo Estado. As crianças estavam ali para morrer. De fome ou por doenças induzidas pelo ambiente. E não das deficiências de que sofriam. Hoje há dados mais precisos. Cerca de 70 por cento morriam de pneumonia, depois de terem sido roídos por ratos e queimados pelo frio. Ou de uma qualquer epidemia que alastrava e dizimava a população de um dos orfanatos.
O jornal “Observer” contactou alguns sobreviventes destes locais que beneficiaram das campanhas de adoção maciça que tiveram ligar na altura ou simplesmente se ergueram e conseguiram construir uma vida. Um desses “irrecuperáveis” por ter contraído pólio e que agora vive em Denver, Colorado (EUA) lembra-se que existiam verdadeiros sádicos entre os funcionários e de ser vítima de espancamentos e de ver outros espancamentos até à morte de crianças. Levá-los agora a julgamento quando têm mais de 80 anos? Agora é tempo de deixar estar. “Só Deus os pode julgar.” Diz que muitos dos funcionários estavam eles mesmos quebrados pelo sistema. Já voltou à Roménia para os confrontar. Alguns negam terem feito algo de mal. Outros estão verdadeiramente arrependidos.
Estive lá nesse momento de choque. E se fechar os olhos a primeira coisa de que me lembro, dos dois orfanatos em que irrompemos, é que cada quarto tinha um cheiro distinto que fazia estalar o cérebro. O Alfredo Cunha por vezes dizia-me que tinha de vomitar antes de entrar e fotografar. E estive lá porque a portuguesa AMI foi provavelmente a primeira ONG do mundo a enviar equipas médicas para acudir a esta catástrofe humanitária.
Cada quarto tinha várias camas e cada cama tinha umas três crianças que defecavam e urinavam por dias. Um dos “nossos” médicos (releio num texto meu) arrancava-o daquela mistela e dizia: “Este nasceu normal. Mas nunca o tiraram da cama. Ficou com as pernas viradas para dentro. Agora só vai lá com cirurgia ortopédica.” O miúdo, por não saber outra coisa, repetia os movimentos de autista do outro companheiro de cama. E noutro quarto, novo embate com o cheiro que parecia ter uma cor, e outra junção aparente de casos: miúdos a deambularem despidos e a baterem com a cabeça nas paredes. Tudo isto me visita esporadicamente.
De dezenas de reportagens “duras” que fiz ao longo da vida esta foi uma das que nunca me largaram. Por ter sido a primeira. E por ter deixado um sentimento de impotência. Ao fim de uns dias aqueles miúdos gritavam por nós e pela nossa atenção. E houve pormenores que não vale a pena trazer para aqui. Cada um reage a um impacto destes de forma diferente. Embora fale disto em abstrato raramente escrevo porque implica outro envolvimento. E muito menos investigo sobre o que aconteceu. E vou dizer porquê. Não que ache que a vingança seja necessária para curar feridas. Mas a não existência de castigo perante tais crimes é carta branca para que se repita mais facilmente. Querem ouvir?
O “The Guardian” cita um antigo elemento que dirigia uma destas instalações que fez declarações recentemente a um jornal romeno: “Para que é que se ia gastar tempo e especialistas com pessoas incuráveis? Para que vamos estar a fazer o trabalho de Sísifo a mudar lençóis e roupa? É deixá-los nus como macacos.”
Luís Pedro Nunes, Revista E, Expresso.

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