Lítio: a verdadeira
história
O Observatório de Economia e Gestão de
Fraude (OBEGEF) promove neste espaço semanal uma reflexão sobre as temáticas da
fraude, da corrupção, da economia não-registada, da ética, da integridade e da
transparência, contribuindo deste modo para a formação de uma opinião pública
mais esclarecida e mais participativa.
A crónica de hoje visa continuar a refletir
sobre a entrega de uma licença com direitos exclusivos de mineração de lítio,
na zona de Montalegre, a uma empresa constituída três dias antes da decisão e
que não tem nenhum histórico de atividade ou know-how na mineração e produção
de lítio. Qualquer pessoa entende que o recurso é importante, mas o que
realmente importa em termos económicos é a capacidade para produzir um produto
que possa ser vendido.
Como é possível que um negócio tão sensível esteja então centrado numa
empresa que ainda não tem atividade e já está envolvida em processos nos
tribunais por litígios entre os sócios! Apresenta como "consultor"
financeiro um ex-governante socialista! Nasceu com a morada de uma junta de
freguesia controlada pelo PS! No projeto que submeteu ao governo se comprometeu
a apresentar um capital social de um milhão de euros, mas que afinal são só 50
mil euros! A este propósito, o banco de investimento FinnCap fala em “défice de
credibilidade” quando se refere ao diminuto valor de mercado das empresas que
tencionam levar a cabo explorações de lítio na Europa comparado com o custo de
estabelecer minas e refinarias.
É dado como certo que o lítio é uma matéria prima fundamental para diversas
tecnologias futuras, particularmente para armazenamento de energia. Em abono da
verdade, trata-se de um ponto muito discutível, pois há quem considere que
dentro de uma década ou menos, será uma tecnologia obsoleta, uma vez que já há outras
alternativas em estudo e testes. Por exemplo, o grafeno para os telemóveis, o
hidrogénio e combustíveis sintéticos para os automóveis elétricos.
Que fique claro, a “corrida” ao lítio – a ter motivações defensáveis
bondosas – só pode dever-se à previsão de aumento de produção de baterias para
os carros elétricos. Em termos de comparação, um smartphone Samsung Galaxy J5
gasta cerca de um grama de lítio, enquanto uma bateria de um Tesla 70 kWh
necessita de 12 Kg de lítio. Ou seja, as ordens de grandeza não são
comparáveis. Por outro lado, a construção atual de baterias, por exemplo, dos
smartphones utiliza outros metais (ex. o cobalto), conhecido pela extração em
África à custa de trabalho infantil em condições desumanas.
Seja onde for, a exploração de metais nunca teve nada de “verde”, e a
exploração de lítio para construção de baterias em Portugal não terá também
nada de “verde”. Mas isso são as contradições dos socialistas que defendem o
ambiente para as televisões, mas também as minas, e a substituição, já agora,
dos paralelos nas ruas de localidades por alcatrão, como é o caso de
Matosinhos, onde resido! Ficará apenas o “cinzento” e o “preto” no pobre
interior – a destruição da paisagem e do património arquitetónico, as
limitações de acesso a água potável, a dificuldade de acesso a solos aráveis
não contaminados, o agravamento do estado de saúde das populações, os
impedimentos no acesso a propriedades confinantes com as explorações, a mudança
nas dinâmicas sociais da comunidade, a perda de atratividade turística, a
desvalorização de imóveis, e claro um ainda maior abandono do já abandonado
Trás-os-Montes –, e fica desde já o “cinzento” e o “preto” que envolvem o
interesse tão voraz pelo negócio.
Aparentemente, foi no contexto atual de crescente dinamismo da procura de
lítio que o governo português desejou patrocinar a constituição do grupo de
trabalho, sob despacho do secretário de Estado da energia nº 15040/2016,
publicado no Diário da República, série 2, de 13 de dezembro de 2016, de modo a
identificar e caracterizar o lítio em Portugal, bem como as respetivas
atividades económicas e a possibilidade de produção de lítio metálico em
unidades específicas de processamento e beneficiamento. Neste processo
estranho, duas perguntas simples emergem, desde logo, na cabeça de qualquer
português: (i) Que critérios foram usados pelo Governo para a constituição do
grupo de trabalho? (ii) Qual será o verdadeiro interesse do negócio?
Para além do já exposto, as duas perguntas decorrem também do seguinte
facto. Ao que consta, nove dos onze locais identificados como áreas de lítio
são áreas classificadas com grande valor comunitário – creio que oito são áreas
da Rede Natura 2000 e uma é uma área protegida, um parque natural. Creio ainda
poder afirmar que, no caso de Montalegre, por exemplo, a exploração mineira com
contrato celebrado vai afetar áreas que são património agrícola mundial,
reserva da biosfera, e que a maior parte do concelho integra a Rede Natura
2000! É importante destacar que o relatório sobre o lítio, produzido pelo grupo
de trabalho, dá – naturalmente – pouca atenção a essa grande restrição e não
considera, em termos de análise financeira, a importância de preservar os
valores naturais, o que, no mínimo, sugere uma depreciação da importância desse
recurso. Confirma-se que para o PS só é crucial preservar os valores naturais
quando há interesse político!
Os custos de exploração do lítio das nossas serras, extração e separação da
rocha encaixante onde existe são cerca de 5 vezes superiores ao do lítio que
existe nas salmouras da América do Sul ou na Austrália ocidental. Tudo isto
contribui, pois, para que este negócio “cheire a esturro”
É também de salientar, para compreender a estranheza disto tudo, que os
recursos de lítio existentes em Portugal são irrelevantes na esfera mundial,
pois correspondem a menos de 1% (total mundial: 54,175 milhões de ton; Total
Portugal: 130.000 ton, dados USGS de 2019), havendo, quando muito, uma enorme
especulação de preço à volta do lítio. Na verdade, não há escassez atual de
lítio. Aliás, o preço tem vindo a descer no último ano, ainda mais com a
notícia anunciada pela China que pode produzir lítio a 1/9 do custo atual. Os
custos de exploração do lítio das nossas serras, extração e separação da rocha
encaixante onde existe são cerca de 5 vezes superiores ao do lítio que existe
nas salmouras da América do Sul ou na Austrália ocidental.
Tudo isto contribui, pois, para que este negócio “cheire a esturro” e para
a pertinência da pergunta: quais serão então efetivamente as verdadeiras
motivações do negócio? O que se lê da reação dos investidores é apenas que há
uma “janela de oportunidade” que se abrirá daqui por meia dúzia de anos e que
pouco durará, pelo que os riscos para o nosso país são imensos.
Assim, não há dúvida que o Governo está a jogar com a roleta russa de um
mercado instável, imprevisível e onde outros têm muito mais poder de controlar
o jogo. A Savannah Resources tem uma abordagem “prudente” e sustenta que irá
enviar concentrado de lítio para a China para refinar nos primeiros anos e só
irá construir a refinaria em Portugal quando se assegurar uma parceria. Diz
também que, para maximizar produção e recuperar os custos, pensa trazer
concentrado de lítio da África e do Brasil pelo porto de Leixões para o
refinar. Neste contexto, torna-se pois natural pensar que a motivação do
investimento é esbanjar recursos – fundos comunitários – com alguns (os mesmos
de sempre)!
O relatório do grupo de trabalho também faz referência à necessidade de garantir
uma economia social e a exploração ambientalmente sustentável dos recursos
geológicos. Mas depois, enfim, todas as recomendações e propostas focam apenas
a sustentabilidade económica direta do projeto. Esperava-se uma análise
financeira verdadeiramente independente dos custos associados à minimização dos
impactos, não apenas em termos de restauração ecológica em superfície, mas
fundamentalmente no que diz respeito às águas e lamas contaminadas, bem como
subprodutos sem potencial de reutilização. Também se esperava encontrar uma
análise da pegada ecológica, incluindo as emissões de gases de efeito estufa
associadas ao processo de transformação, cujo custo pode representar 1/5 dos
custos operacionais da produção de concentrados de lítio.
Devido aos custos de exploração, o relatório faz referência à importância
da reciclagem de produtos em fim de vida, nomeadamente baterias de iões de
lítio, implementando um sistema de economia circular. Mas esse processo de
reciclagem é complexo e caro, o que significa que a recuperação de baterias em
fim de vida útil é economicamente inviável por si mesmo.
Atualmente apenas uma pequena percentagem de baterias pode ser reciclada e
apenas um país executa a reciclagem: a China e fazendo-o com meios incomparavelmente
superiores aos nossos, mas reciclando somente cerca de 10% das baterias em fim
de vida. Só para ter uma ideia das dificuldades associadas à reciclagem, a
Tesla, por exemplo, está ainda a estudar a reciclagem das suas baterias. Será
que se deseja que a reciclagem venha a ser mais um novo “negócio” estranho a
somar à estranheza do anterior?! A reciclagem das baterias em fim de vida
permitirá certamente o recurso a mais fundos comunitários que, assim, serão
também “apropriados” pelas pessoas certas.
O relatório do grupo de trabalho sugere ainda o estabelecimento de um
recurso geológico destinado a apoiar ações de conhecimento, conservação,
proteção e avaliação de bens geológicos. Finalmente, o relatório também
considera que seria uma vantagem extrair valor para a população (pobre) local e
nacional, sem cometer o mesmo erro dos contratos de hidrocarbonetos, nos quais
a compensação financeira ao Estado Português representa apenas 10% dos lucros,
considerando que seria também importante estabelecer o mecanismo de
responsabilidade social corporativa mais como um incentivo para agir do que
como uma obrigação.
Se o interesse pelo pobre interior é assim tão relevante e não é apenas
“discurso” para a TV, espanta-me que, no cenário catastrófico de avanço do processo,
não se admita que tão esperada significativa compensação financeira não seja
atribuída na totalidade ao município, ou seja, não seja concedida às
marginalizadas populações locais que carregam os custos. O Estado já
beneficiaria da intensa receita fiscal esperada e chegaria, ou não?!
Em suma, o grupo de trabalho, cuja independência coloco em causa, concluiu
que o mineral de lítio de Portugal é económica e tecnologicamente recuperável.
Porém, esqueceu (como sempre acontece com o interior) a região e os que lá
vivem e deu pouca atenção às restrições ambientais, algo que não deve acontecer
se se quiser criar uma estratégia de longo prazo, capaz de contabilizar todos
os custos associados.
Cada estágio do ciclo de vida de um mineral acarreta riscos ao meio
ambiente e à população. A contabilização dessas externalidades pode dobrar ou
triplicar o preço da exploração, potencializando a reciclagem e os segundos
usos. Além disso, os verdadeiros impactos negativos são muito maiores do que os
números sugerem, não apenas porque alguns impactos não foram levados em
consideração, mas também porque alguns deles, apesar de identificados, dependem
do clima instável ou ainda não estão quantificados. Contabilizar esses impactos
tornaria certamente as fontes de energia renováveis, juntamente com
investimentos em métodos de eficiência e armazenamento, economicamente
competitivas em relação aos combustíveis fósseis. Em particular, é importante
de uma vez por todas entender como os impactos da extração e processamento
afetarão o ambiente e saúde humana na região, uma vez que é aí que tudo terá
lugar.
O crescente uso e preferência por veículos elétricos terá, sem dúvida,
fortes impactos económicos imediatos, especialmente no caso de lítio e outros
metais necessários para a construção de baterias. No entanto, essa tendência
aparentemente altruísta e genuína tem muitos efeitos perversos, colocando muita
pressão nesse recurso escasso e na sua capacidade de responder à procura.
O futuro da extração e processamento de lítio teria de garantir boas
empresas, responsabilidade social e ambiental, incluindo recuperação e regeneração
ambiental da área explorada para ser usufruída pela sociedade, em conformidade
com a legislação em vigor. Em Portugal, no entanto, tal desiderato lança muitas
dúvidas e incertezas se tivermos em conta o passivo ambiental que resultou da
atividade extrativa anterior, revelando-se o Estado sempre incapaz de o evitar
– a extração nunca foi de todo verde! E não foi (apenas) a legislação que
falhou...! Acresce que as reservas existentes em Portugal deixam muitas dúvidas
sobre a viabilidade do investimento.
Há ainda quem diga que seria importante não concentrar a grande quantidade
de impactos negativos de extração e processamento em apenas alguns locais. Se
Portugal fosse um país que possuísse desertos como o de Atacama (Chile) ou o
deserto de Vitória (Austrália) poderíamos, aí sim, escolher. Ainda assim,
embora o Chile possua 52% das reservas mundiais, a sua extração tem causando
danos irreversíveis no deserto de Atacama, no seu ecossistema, e nas
comunidades vizinhas. Quem o diz é Sergio Cubillos, presidente do Conselho dos
Povos Atacameños. De igual modo, Bárbara Jerez Henríquez, professora e
investigadora da Escola de Serviço Social da Universidade de Valparaíso,
acredita que a exploração do lítio no deserto de Atacama transformou o local
numa “zona de sacrifício”. Matilde López Muñoz, professora de biologia que
atualmente trabalha como académica na Universidade do Chile, com doutoramento
em ciências sociais, ecológicas e económicas, estranha que “existam três países
essencialmente ricos em lítio. … a Bolívia ... Argentina ... (mas) o mineral é
simplesmente extraído aqui (Chile)”.
Por tudo o já referido, mas também porque se trata de um país pequeno, com
um território bastante humanizado e um povoamento na maior parte dos casos
disperso, não é ambiental e socialmente, na minha opinião, defensável (e
sustentável) a exploração mineira “a céu aberto” em Portugal. A única opção
certa é, naturalmente, não haver! No caso português, a pouca fé no Governo
reforça essa opção.
Neste negócio estranho, certamente motivados por desejo de acesso a fundos
europeus, que servem uma elite, há ainda razões de sobra para acreditarmos que
a legislação tem vindo a ser “preparada/ cozinhada” por forma a favorecer o
processo. Se assim não fosse, a legislação deveria, no mínimo, ser alvo de uma
análise muito séria e independente. Não é, pois, aceitável que alguns desejem
enriquecer ainda mais à custa dos direitos sociais, ambientais e económicos das
comunidades locais.
19.12.2019
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