Personalidade nacional
da década:
António Costa
Foi a recuperação económica da Europa que determinou a
recuperação nacional, a partir de 2014, ainda no governo de Pedro Passos Coelho.
Isso e o abrandamento da austeridade para fins eleitorais, que permitiu que
houvesse mais dinheiro na economia - sim, o Estado é um agente económico, não é
apenas um cobrador de impostos. E é este início de recuperação que explica que,
mesmo tendo um dos piores resultados da sua História, a direita coligada tenha
conseguido mais votos do que o Partido Socialista depois de doses cavalares de
austeridade.
Não foi por causa das direções partidárias que a esquerda se conseguiu
entender para construir uma maioria pela primeira vez na história portuguesa. A
geringonça foi decidida pelos eleitores. António Costa, Catarina Martins e
Jerónimo de Sousa passaram a campanha eleitoral de 2015 a ouvir uma palavra:
“entendam-se.” Os eleitores do PS, do BE e do PCP não perdoariam aos líderes
dos seus partidos se, por incapacidade de diálogo, Passos Coelho continuasse no
poder. A grande novidade foi que António Costa teve a coragem de dar um passo
que António José Seguro nunca daria. Até porque não tinha força interna e
externa para tanto. E a geringonça sobreviveu porque os três partidos sabiam
que seriam duramente punidos se a fizessem cair.
Estes quatro anos tiveram um forte impacto na vida concreta das pessoas. A
recuperação económica era inevitável, como disse. Mas ela seria distribuída de
forma bem diferente. Não é preciso tentar adivinhar. Passos Coelho queria
cortar 400 milhões nas pensões, para conseguir uma poupança de 600 milhões. Sem
cortes, o governo de António Costa reforçou, como nunca, a almofada da
Segurança Social. Não houve uma política expansionista, mas houve opções
diferentes que não se resumiram a um ritmo mais acelerado das reposições. E
houve escolhas com um enorme impacto para os trabalhadores mais pobres, como o
aumento em quase 20% do Salário Mínimo Nacional e a redução drástica do preço
dos passes sociais. O debate político faz-se hoje a partir de um ponto
diferente. O discurso desta quarta-feira, feito numa Unidade de Saúde Familiar,
foi sobre o reforço do SNS, não sobre a necessidade de o privatizar mais um
bocadinho.
Mais o feito mais estrutural é mesmo político. Acabou um tabu à esquerda
que mudou a forma como se pensa a política em Portugal. Basta pensar que, mesmo
depois da geringonça acabar, a esquerda conta na discussão do Orçamento de
Estado. Mesmo que BE e PCP voltem a ser, como voltarão já nesta legislatura,
uma clara oposição ao PS, foi derrubado um muro que será muito difícil
reerguer. Com a descoberta de que o que interessam são as maiorias
parlamentares, e não supostas candidaturas a primeiro-ministro, a realidade
política aproximou-se do espírito constitucional. O Parlamento ganhou uma nova
centralidade. E as maiorias absolutas serão mais difíceis de conquistar. O
nosso sistema político modernizou-se.
António Costa não tem um olhar estratégico sobre o futuro do país, vai
escolhendo à peça conforme as suas dificuldades políticas - Rui Rio também não,
Luís Montenegro ainda menos. Nem sequer tem a proposta séria de criar um bloco
alternativo à esquerda, como cheguei a pensar que teria – e seria a melhor
forma de escapar ao destino dos seus congéneres europeus. Ele é um político do
século XX. Mas é um dos responsáveis (com Catarina Martins e Jerónimo) por uma mudança
estrutural no sistema político-partidário português. E ficará na História por
isso.Daniel Oliveira. “Antes pelo Contrário”, Expresso, 26 de Dezembro de 2019
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