É Natal… e falta-me a paciência
Falta-me
a paciência. Não será esta a melhor forma de iniciar uma crónica (e muito menos
uma crónica em época de Natal). Mas o facto é que não consigo iniciar este
texto de outro modo que não seja: “falta-me a paciência”.
Aqui
chegados, perguntarão alguns: “E falta-te a paciência para quê?” Direi, então,
que estou saturada de ouvir, todos os anos, a mesma conversa fiada de “O
Natal já não tem o mesmo significado para mim”, “O Natal tornou-se nada mais,
nada menos, do que uma época de puro consumismo” e, a mais proferida de todas,
“Já nada é como era!” … Não querendo ferir susceptibilidades, a verdade é que
todos os anos ouvimos estas frases até à exaustão.
É claro
que o Natal já não tem o mesmo significado para nós. O Natal que vivíamos na
nossa infância não é, nem pode ser, o Natal que vivemos hoje. Por mais que nos
custe, a criança de outrora deu lugar a um adulto que não tem a capacidade de
se maravilhar com as decorações, as luzes, as lendas e, por que não admiti-lo,
as prendas. Se nós próprios mudámos tanto, como não iria mudar a nossa forma de
encarar o Natal? É claro que muitas vezes dizemos essas palavras porque as
famílias perderam alguns dos seus membros, porque existe uma ausência difícil
de suportar nalgum lugar da mesa. E não quero, de modo algum, menosprezar esse
sentimento. Muito pelo contrário, também o sinto. Mas procuro pensar que, quer
queiramos quer não, isto é a vida a ser vida. Existem ausências, sim, mas não
existem também muitos lugares à mesa ocupados por caras novas, crianças que
nasceram entretanto, que fazem parte da família e estão, também elas, a criar
memórias de Natal? O que irão eles dizer dos seus Natais daqui a alguns anos?
Provavelmente dirão exactamente o mesmo que nós: “O Natal de
antigamente é que era!”
O
problema, quanto a mim, não está no Natal de hoje — e muito menos no de
antigamente. O problema (se é que é de um problema que se trata) está no ser
humano. Temos uma tendência (e eu estou claramente incluída neste grupo) para
olhar para o passado como a época de ouro, a época em que éramos mesmo felizes
e a época em que o Natal era festejado a sério. A que devemos isto? Ao facto de
o ser humano olhar para o passado sob um véu de nostalgia que o faz acreditar
que os tempos passados foram os melhores. De um modo geral, olhamos para o que
vivenciamos no presente como uma passagem: do que foi muito bom, no passado,
para o que será muito bom, no futuro. de 2019.”
Isso
também é resultado de uma qualidade que existe em muitos de nós: guardar o que
é bom de guardar e, de algum modo, esquecer o que foi mau, acreditando que o
amanhã será sempre bem melhor. Portanto, isto de o Natal já não ser o
mesmo de antigamente mais não é do que um saudosismo. Quero acreditar que, se
chegarmos a velhinhos, diremos, nessa altura, que o Natal vivido a sério era o
de 2019.
Por fim, analisando a questão do consumismo: cabe-nos a nós fazer com que assim não seja. Eu assumo, sem pejo nem vergonha, que ofereço prendas no Natal. Todos os anos faço uma lista de quem quero presentear e estipulo um valor de quanto quero gastar com cada uma. Chama-se a isso consumismo? Não acho. Para mim chama-se mimar aqueles de quem gosto, sem entrar em desvarios monetários.
Não
sendo uma fã incondicional do Natal, assumo que não me faria sentido passar
essa data sem poder estar reunida com aqueles a quem chamo família e com quem
convivo o ano inteiro. Gosto, assumo, de poder trocar umas prendinhas com as
pessoas que me são especiais. Faço-o na mesma lógica que os gatos usam quando
nos trazem um infeliz pássaro morto até à porta, como quem nos oferece uma
dádiva. Uma forma de dizer “gosto de ti”.
Posto
isto, peço que se deixem de frases feitas e vivam, da melhor forma, a quadra
que se avizinha, acreditando que estes são os melhores tempos da nossa vida.
Feliz Natal.
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