sábado, 14 de dezembro de 2019



CHEGA!
Da direita armada a ideólogo de Ventura

Diogo Pacheco de Amorim

Estava afastado há anos da vida política e já não tencionava regressar. Para trás ficavam mais de três décadas ligadas à direita: depois da revolução, esteve exilado em Madrid e pertenceu ao gabinete político da rede armada de extrema-direita liderada pelo general António de Spínola, o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), onde um tio era uma figura proeminente. Quarenta anos depois, ouviu André Ventura na televisão e ficou impressionado com a sua “coragem política” em dizer “tantas coisas que muitas pessoas pensavam”, mas que tinham receio em verbalizar.

Diogo Pacheco de Amorim chegou a comentar com um amigo que gostava de conhecer o comentador da CMTV e acabou por ser convidado pela equipa de Ventura para se juntar ao projeto — ainda antes de estarem reunidas as 7500 assinaturas necessárias para a formalização do partido no Tribunal Constitucional. Ao Expresso, o agora vice-presidente do Chega! admite que não teve dúvidas em aceitar o desafio, face à “ascensão da esquerda”, e, a partir daí, ficou com a tarefa de escrever o programa do partido.
As ideias de acabar com o Estado Social, de privatizar escolas e hospitais e de refazer a República são dele: André Ventura diz que vai apenas “clarificar” o programa e que o “rumo não vai mudar”. “Não me surpreende que o programa eleitoral do Chega! proponha o fim do Estado Social. Isso é uma total coerência com o que pensa o Diogo. Ele é um liberal puro, liberal total no plano económico e conservador nos costumes. É católico e transporta isso para a política. Mas é mais liberal do que o Iniciativa Liberal”, diz Manuel Monteiro, ex-líder do CDS e amigo do vice-presidente do Chega! Também foi ele a redigir o programa da Nova Democracia, o extinto partido criado por Monteiro.
Já o advogado José Miguel Júdice, que conheceu Diogo Pacheco de Amorim na Universidade de Coimbra nos anos 60, admite ter sido apanhado de surpresa com a sua adesão ao Chega! Reconhecia-o como uma pessoa com uma “densidade filosófica e cultural muito acima da média naquele tempo, com uma componente anarquista muito forte”. Por isso, alguns pontos que constam do programa do Chega!, como a castração química para pedófilos, a sobrevalorização do papel da polícia e a colocação dos refugiados no centro da luta política são para Júdice discordantes do perfil de Diogo. “Admito que as pessoas mudem, desde os últimos 50 anos encontrei-o um par de vezes”, observa.
Quem também o conheceu em Coimbra foi José Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS, que acabou depois por convidá-lo para adjunto quando foi secretário de Estado do vice-primeiro-ministro Diogo Freitas do Amaral, durante o Governo da Aliança Democrática. “Era uma pessoa de grande formação intelectual e enquadrava-se no perfil. Ele vinha do Partido do Progresso, era mais à direita do que eu, mas nunca houve nenhum conflito, havia respeito mútuo pelas diferenças”, realça.
ENTRE KAÚLZA E SPÍNOLA
Nascido no Porto há 70 anos, Dio­go Pacheco de Amorim acumula um percurso político sempre ligado à direita que uns dizem ser mais pura, outros mais radical. O dirigente do Chega! foi (e ainda é) um acérrimo defensor do Portugal colonial, tendo pertencido ao Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN), de Kaúlza de Arriaga, um partido de extrema-direita, e ao MDLP, uma organização criada em maio de 1975, apresentando-se com o intuito de combater a extrema-esquerda e a quem se atribui a responsabilidade do ataque à bomba que matou o padre Max e a estudante Maria de Lurdes Pereira. Ao Expresso, o vice-presidente do Chega! rejeita qualquer responsabilidade nesse tipo de ações. “Era uma altura conturbada, e o país esteve à beira de uma guerra civil. É natural que tenha havido excessos dos dois lados, também da extrema-esquerda, mas julgo que foram atos isolados e feitos à revelia do gabinete político do MDLP, em Madrid, onde eu colaborava na altura. O comandante Alpoim Galvão é que era o chefe operacional da secção militar.”
Diogo Pacheco de Amorim, que nasceu numa família abastada e de direita com tradição política, procurou nas suas várias militâncias refundar a direita, que considera deve ser nacionalista e liberal. Foi sempre à procura desse abanão que refundasse a direita que saiu do CDS — onde foi chefe de gabinete do grupo parlamentar —, até à fundação do partido Nova Democracia, criado por Manuel Monteiro nos anos 90.
PRÓXIMO DO VOX
Um dissidente do Chega! que não quer ser identificado conta que é Diogo Pacheco de Amorim “o maestro que manipula a marioneta de André Ventura”. A tese é rejeitada tanto por Dio­go Pacheco de Amorim como por André Ventura. “O André é o líder indiscutível, tem a inteligência suficiente para liderar o partido. Eu ajudo no que posso, tendo em conta os vários anos de experiência política”, garante o vice-presidente.
Reconhecendo Pacheco de Amorim como um “conselheiro político muito astuto” e “mais equilibrado”, André Ventura assegura que a lógica interna é de debate, cabendo-lhe enquanto líder ouvir quer os militantes quer o vice-presidente.
Sobre as críticas relativas ao facto de o programa do Chega! conter partes comuns ao programa da Nova Democracia, o vice-presidente do partido desvaloriza, explicando que “continua a pensar da mesma forma” e que o PND foi extinto. Rejeita também o rótulo de extrema-direita, mas admite que o Chega! pode ser considerado um partido radical, “porque procura resolver os problemas pela raiz”, aproximando-se mais de partidos como o Vox, em Espanha, ou a Frente Nacional, em França — mas antes da liderança de Marine le Pen, ressalva.
Em relação ao futuro, Pacheco de Amorim manifesta-se convencido de que o Chega! “veio para ficar” e “crescer” e avança que os jantares de Natal regionais estão a ficar lotados.
Liliana Coelho com Carolina Reis, Expresso, 14.12.2019

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